Por que o espinafre faz mal à saúde

O consumo do espinafre aumenta a cada dia que passa. O famoso marinheiro Popeye, faz propaganda do alimento, dando a entender que quem come espinafre está sempre forte e pronto para superar qualquer obstáculo. O que poucos sabem, é que no mesmo país de origem do desenho (Estados Unidos), nos anos 50, houve a prática de adicionar espinafre no leite de crianças recém-nascidas (batia-se no liquidificador), com o objetivo de enriquecer o alimento com ferro (o leite é uma fonte muito pobre neste mineral). Naquela época, algumas crianças vieram a óbito, devido ao excesso de substâncias tóxicas e antinutricionais ingeridas diariamente por conta deste hábito.

A doença ficou conhecida como doença do branco do olho azul, pois o branco dos olhos ficava dessa cor. Hoje sabemos que o consumo desta hortaliça não deve ser excessivo e também que o ferro presente na planta está na forma não heme, difícil de ser absorvido, diferente daquele presente nas carnes vermelhas (ferro heme).

Por que devemos tomar cuidado com o espinafre

O espinafre é um dos alimentos vegetais que mais contém cálcio e ferro. Entretanto, esses dois minerais são pouquíssimo aproveitados pelo nosso corpo, já que o alto teor de ácido oxálico no vegetal inibe a absorção e a boa utilização desses minerais pelo nosso organismo. Os estudos mostram também que o ácido oxálico do espinafre pode interferir com a absorção do cálcio presente em leites e seus derivados.

Esse fato sugere que o espinafre em uma refeição pode reduzir a biodisponibilidade de cálcio de outras fontes que são consumidas ao mesmo tempo. Por isso, se no seu almoço você comeu uma torta de queijo com espinafre, tenha certeza que grande parte do cálcio do queijo não foi utilizada pelo seu organismo.

Outra grande preocupação é o possível efeito tóxico que a ingestão de grandes quantidades dos fatores antinutricionais presentes na planta pode causar nas pessoas. Com o objetivo de avaliar todos esses problemas, uma pesquisa, que resultou em uma tese de mestrado, foi desenvolvida na ESALQ/USP sob minha orientação. O estudo intitulado “Avaliação química, protéica e biodisponibilidade de cálcio nas folhas de couve-manteiga, couve-flor e espinafre” teve como objetivos verificar se determinadas plantas podiam ser utilizadas na dieta humana, sem causarem prejuízos à saúde e o bem-estar do indivíduo.

A pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP)

As folhas estudadas foram adquiridas no comércio local e a folha de espinafre foi também adquirida de outros dois locais: da Fazendinha da UNIMEP e da horta do Departamento de Horticultura da ESALQ/USP. Essas folhas foram lavadas, secas em estufa e moídas. A seguir, foram acrescentadas nas dietas que foram avaliadas durante o ensaio experimental com duração de 30 dias.

Resultados

Os resultados começaram a impressionar quando verificamos os teores dos dois fatores antinutricionais investigados: ácido fítico e oxálico. A folha de espinafre apresentou valores muito altos em relação às demais. Como conseqüência desse fato, os animais alimentados com a folha de espinafre morreram na primeira semana, e portanto, não puderam ser avaliados até o final do estudo. Várias tentativas foram feitas, utilizando dietas com folhas de espinafre cozidas (acreditávamos que o calor pudesse destruir os fatores tóxicos presentes) ou folhas de espinafre provenientes de outros locais (livres de agrotóxicos que pudessem ter influência).

Contudo os mesmos resultados repetiram-se, ou seja, houve a morte dos animais com hemorragia, tremores e perda de peso. Os rins dos animais mortos foram retirados e analisados pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba/UNICAMP. De acordo com o laudo apresentado pelo Departamento de Patologia, foi comprovado inchaço renal, indicando uma nefrotoxidade, edema celular e depósito de substâncias aparentemente cristalizadas nos túbulos renais, o que provoca disfunção renal.

De acordo com vários pesquisadores, a explicação provável estaria na presença do ácido oxálico no alimento, que além de causar um balanço negativo de cálcio e ferro, em doses superiores a 2g/Kg de peso, pode causar toxicidade nos rins. Já o ácido fítico, quando na proporção de 1% na dieta, seria o responsável pela redução do crescimento dos animais jovens. Na década de 80, estudos já atribuíam ao ácido oxálico sintomas como lesões corrosivas na boca e trato-intestinal, hemorragias e cólica renal, causados pela ingestão de plantas ricas nesta substância. De acordo com esses mesmos estudos, o espinafre que possui a relação de ácido oxálico/cálcio superior a 3, deve ser evitado. Na nossa pesquisa isso foi observado.

Com relação às demais folhas, couve-manteiga e couve-flor, não foi observado nenhum efeito tóxico, verificando-se que a melhor biodisponibilidade e retenção de cálcio nos ossos (73%) ocorreu nos animais que ingeriram a dieta contendo couve-manteiga.

Os resultados desse estudo nos levam a acreditar que o consumo de espinafre deve ser substituído por outros vegetais folhosos, já que os efeitos proporcionados pela ingestão das substâncias antinutricionais presentes na folha, podem ser prejudiciais à absorção de nutrientes importantes para nossa saúde, e essas mesmas substâncias podem causar sérios problemas tóxicos.

Os resultados também sugerem que além da grande presença de ácido oxálico e fítico, provavelmente a folha do espinafre contenha outras substâncias tóxicas, que supostamente levaram à óbito os animais do estudo, bem como causaram o incidente com os recém-nascidos nos Estados Unidos. Essas substâncias, ainda não identificadas, exerceriam ações tóxicas em pessoas mais sensíveis e levariam a chamada “doença do branco do olho azul”. Fica claro, portanto, a necessidade de mais estudos elucidativos a respeito do assunto.

Finalizando, a minha dica é que todos procurem dar preferência a outros vegetais folhosos em substituição ao espinafre: a couve, brócolis, folha de mostarda, agrião, as folhas de cenoura, beterraba e couve flor e leguminosas como os feijões, ervilhas, lentilhas e soja são as melhores opções para quem quer consumir fontes alternativas de cálcio e ferro.

Jocelem Salgado

Profª. Titular de Vida Saudável da ESALQ/USP/Campus Piracicaba. Autora dos livros: “Previna Doenças. Faça do Alimento o seu Medicamento” e “Pharmácia de Alimentos. Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças”, editora Madras.

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/espinafre.htm

Por que o espinafre faz mal à saúde
Por Jocelem Mastrodi Salgado

O consumo do espinafre aumenta a cada dia que passa. O

famoso marinheiro Popeye, faz propaganda do alimento,

dando a entender que quem come espinafre está sempre forte

e pronto para superar qualquer obstáculo. O que poucos

sabem, é que no mesmo país de origem do desenho (Estados

Unidos), nos anos 50, houve a prática de adicionar

espinafre no leite de crianças recém-nascidas (batia-se no

liquidificador), com o objetivo de enriquecer o alimento

com ferro (o leite é uma fonte muito pobre neste mineral).

Naquela época, algumas crianças vieram a óbito, devido ao

excesso de substâncias tóxicas e antinutricionais

ingeridas diariamente por conta deste hábito.
A doença ficou conhecida como doença do branco do olho

azul, pois o branco dos olhos ficava dessa cor. Hoje

sabemos que o consumo desta hortaliça não deve ser

excessivo e também que o ferro presente na planta está na

forma não heme, difícil de ser absorvido, diferente

daquele presente nas carnes vermelhas (ferro heme).

Por que devemos tomar cuidado com o espinafre

O espinafre é um dos alimentos vegetais que mais contém

cálcio e ferro. Entretanto, esses dois minerais são

pouquíssimo aproveitados pelo nosso corpo, já que o alto

teor de ácido oxálico no vegetal inibe a absorção e a boa

utilização desses minerais pelo nosso organismo. Os

estudos mostram também que o ácido oxálico do espinafre

pode interferir com a absorção do cálcio presente em

leites e seus derivados.

Esse fato sugere que o espinafre em uma refeição pode

reduzir a biodisponibilidade de cálcio de outras fontes

que são consumidas ao mesmo tempo. Por isso, se no seu

almoço você comeu uma torta de queijo com espinafre, tenha

certeza que grande parte do cálcio do queijo não foi

utilizada pelo seu organismo.

Outra grande preocupação é o possível efeito tóxico que a

ingestão de grandes quantidades dos fatores

antinutricionais presentes na planta pode causar nas

pessoas. Com o objetivo de avaliar todos esses problemas,

uma pesquisa, que resultou em uma tese de mestrado, foi

desenvolvida na ESALQ/USP sob minha orientação. O estudo

intitulado “Avaliação química, protéica e

biodisponibilidade de cálcio nas folhas de couve-manteiga,

couve-flor e espinafre” teve como objetivos verificar se

determinadas plantas podiam ser utilizadas na dieta

humana, sem causarem prejuízos à saúde e o bem-estar do

indivíduo.

A pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de

Queiroz (ESALQ/USP)

As folhas estudadas foram adquiridas no comércio local e a

folha de espinafre foi também adquirida de outros dois

locais: da Fazendinha da UNIMEP e da horta do Departamento

de Horticultura da ESALQ/USP. Essas folhas foram lavadas,

secas em estufa e moídas. A seguir, foram acrescentadas

nas dietas que foram avaliadas durante o ensaio

experimental com duração de 30 dias.

Resultados

Os resultados começaram a impressionar quando verificamos

os teores dos dois fatores antinutricionais investigados:

ácido fítico e oxálico. A folha de espinafre apresentou

valores muito altos em relação às demais. Como

conseqüência desse fato, os animais alimentados com a

folha de espinafre morreram na primeira semana, e

portanto, não puderam ser avaliados até o final do estudo.

Várias tentativas foram feitas, utilizando dietas com

folhas de espinafre cozidas (acreditávamos que o calor

pudesse destruir os fatores tóxicos presentes) ou folhas

de espinafre provenientes de outros locais (livres de

agrotóxicos que pudessem ter influência).

Contudo os mesmos resultados repetiram-se, ou seja, houve

a morte dos animais com hemorragia, tremores e perda de

peso. Os rins dos animais mortos foram retirados e

analisados pela Faculdade de Odontologia de

Piracicaba/UNICAMP. De acordo com o laudo apresentado pelo

Departamento de Patologia, foi comprovado inchaço renal,

indicando uma nefrotoxidade, edema celular e depósito de

substâncias aparentemente cristalizadas nos túbulos

renais, o que provoca disfunção renal.

De acordo com vários pesquisadores, a explicação provável

estaria na presença do ácido oxálico no alimento, que além

de causar um balanço negativo de cálcio e ferro, em doses

superiores a 2g/Kg de peso, pode causar toxicidade nos

rins. Já o ácido fítico, quando na proporção de 1% na

dieta, seria o responsável pela redução do crescimento dos

animais jovens. Na década de 80, estudos já atribuíam ao

ácido oxálico sintomas como lesões corrosivas na boca e

trato-intestinal, hemorragias e cólica renal, causados

pela ingestão de plantas ricas nesta substância. De acordo

com esses mesmos estudos, o espinafre que possui a relação

de ácido oxálico/cálcio superior a 3, deve ser evitado. Na

nossa pesquisa isso foi observado.

Com relação às demais folhas, couve-manteiga e couve-flor,

não foi observado nenhum efeito tóxico, verificando-se que

a melhor biodisponibilidade e retenção de cálcio nos ossos

(73%) ocorreu nos animais que ingeriram a dieta contendo

couve-manteiga.

Os resultados desse estudo nos levam a acreditar que o

consumo de espinafre deve ser substituído por outros

vegetais folhosos, já que os efeitos proporcionados pela

ingestão das substâncias antinutricionais presentes na

folha, podem ser prejudiciais à absorção de nutrientes

importantes para nossa saúde, e essas mesmas substâncias

podem causar sérios problemas tóxicos.

Os resultados também sugerem que além da grande presença

de ácido oxálico e fítico, provavelmente a folha do

espinafre contenha outras substâncias tóxicas, que

supostamente levaram à óbito os animais do estudo, bem

como causaram o incidente com os recém-nascidos nos

Estados Unidos. Essas substâncias, ainda não

identificadas, exerceriam ações tóxicas em pessoas mais

sensíveis e levariam a chamada “doença do branco do olho

azul”. Fica claro, portanto, a necessidade de mais estudos

elucidativos a respeito do assunto.

Finalizando, a minha dica é que todos procurem dar

preferência a outros vegetais folhosos em substituição ao

espinafre: a couve, brócolis, folha de mostarda, agrião,

as folhas de cenoura, beterraba e couve flor e leguminosas

como os feijões, ervilhas, lentilhas e soja são as

melhores opções para quem quer consumir fontes

alternativas de cálcio e ferro.

Profª. Titular de Vida Saudável da ESALQ/USP/Campus

Piracicaba. Autora dos livros: “Previna Doenças. Faça do

Alimento o seu Medicamento” e “Pharmácia de Alimentos.

Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças”, editora

Madras.

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/espinafre.htm

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