Homeopatia na Agricultura: prós e contras atuais

Ao ler a matéria “Homeopatia na Agropecuária”, publicada recentemente no INFORMATIVO-APH (março-abril 2000) pelo colega Fernando Bignardi, tive vontade de expressar minhas opiniões relacionadas a este tema. Tomo esta iniciativa por ser Engenheiro Agrônomo, formado pela ESALQ-USP em 1981, tendo desenvolvido durante 4 anos (1982-1985) atividades com Agricultura Orgânica-Biodinâmica, e por fazer parte da Comissão da AMHB que tem procurado solucionar o problema da “homeopatia popular”, movimento defendido e propagado, entre outros, por engenheiros agrônomos do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Primeiramente, gostaria de frisar a importância de separarmos a Homeopatia (especialidade médica, com racionalidade científica própria, que utiliza o princípio da similitude no tratamento das doenças) dos movimentos ditos “alternativos”, sob o risco de perdermos a nossa identidade, arduamente conquistada ao longo dos últimos anos. Um dos grandes problemas na divulgação da Homeopatia é a falta de esclarecimento da população e do próprio meio acadêmico e científico quanto ao que ela realmente seja, sendo confundida, na grande maioria das vezes, com as mais diversas práticas “alternativas” ou “naturalistas”.

Com o termo Agricultura Orgânica, englobamos uma série de práticas agrícolas com as quais se busca, principalmente, preservar e/ou restaurar a matéria orgânica do solo, fator imprescindível para que se mantenha a estrutura fisico-química do solo em condições satisfatórias para o desenvolvimento saudável das plantas. Se bem aplicada, esta matéria orgânica representa uma rica fonte de nutrientes para as plantas (macro e microelementos; estes últimos funcionando como catalisadores das reações metabólicas), propiciando a síntese das proteínas necessárias ao equilíbrio do meio interno das mesmas, além de contribuir à estruturação correta do solo (aeração, drenagem, retenção de umidade, manutenção da temperatura ideal, etc.), permitindo um bom desenvolvimento das raízes e demais estruturas das plantas. Dentro destas práticas agrícolas, temos a utilização do composto orgânico, da adubação verde, da rotação de culturas, do plantio direto, da cobertura morta, etc., técnicas bastante difundidas, dentre outros, pela engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi em seu livro “Manejo Ecológico do Solo”1.

Com estas medidas conservacionistas, o binômio formado entre a parte material do vegetal e sua força vital (vis medicatrix) encontra condições propícias para o desenvolvimento satisfatório, adquirindo imunidade ao ataque de doenças e pragas, incorporando maior resistência às condições climáticas adversas e produzindo nutrientes de alto valor biológico.

Frente à Medicina, poderíamos comparar o manejo ecológico do solo às “medidas higiênicas e dietéticas” propagadas pelos precursores da Medicina Hipocrática, que buscavam na prática de hábitos saudáveis (alimentação equilibrada; atividades físicas e mentais restauradoras do vigor físico; contato com a Natureza; etc.) não prejudicarem a vis medicatrix, que mantinha as funções do organismo em equilíbrio apenas quando este se encontrava no estado de saúde. Estas medidas de manutenção da vitalidade, propagadas ao longo dos tempos pelas “correntes naturalistas”, encontram na ingesta de alimentos isentos de adubos químicos e defensivos agrícolas uma premissa básica.

Lembremos que Hahnemann, nos parágrafos 259 a 263 do Organon, cita uma lista extremamente rigorosa de substâncias e condições que devem ser suprimidas da dieta e do regime de vida durante o tratamento homeopático, por suas “ações medicamentosas” poderem atuar como “obstáculos à cura” nos doentes crônicos. Além da remoção de tais impedimentos ao restabelecimento, impossíveis de serem seguidos nos dias atuais, orienta como medidas auxiliadoras a “distração inofensiva à mente e ao psiquismo, exercício ativo ao ar livre sob quase todas as condições climáticas (passeios diários, pequenas atividades manuais), alimentos e bebidas adequados, nutritivos e desprovidos de ação medicamentosa, etc.”. Nas doenças agudas, orienta a que seja dado ao doente tudo o que ele deseje, “não colocando obstáculos ao impulso instintivo da conservação da vida”, que se manifesta através dos desejos alimentares.

Por representarem medidas facilitadoras e não “curativas”, sua observância deixa de ser imprescindível ao cumprimento das leis de cura despertadas pelo tratamento homeopático, como todos podemos observar em nossa experiência clínica.

E quanto à citada utilização da Homeopatia na Agricultura como prática de tratamento das pragas e doenças das plantas? Acredito que seja possível, desde que desenvolvamos uma metodologia experimental específica de utilização do princípio terapêutico pela similitude para o reino vegetal.

A partir de 17/05/99, a Homeopatia foi considerada “insumo agrícola”, reconhecida pelo Ministério da Agricultura para utilização na Agropecuária Orgânica (Diário Oficial da União nº 94, seção 1, p. 11-4).

Será que eles sabem o que é Homeopatia e o que fazer com ela na Agricultura? Duvido. De onde surgiu esta proposta? Qual o interesse político na mesma? O tempo dirá.

Há tempos atrás, fui convidado por um veterinário homeopata a montar um Curso de Homeopatia para Engenheiros Agrônomos, e me posicionei contrariamente à idéia, em vista da ausência de estudos específicos nesta área, podendo-se incentivar com esta iniciativa a prática médica homeopática exercida por leigos, a exemplo do que vem ocorrendo sob os auspícios do grupo inicialmente citado.

E qual seria este modelo experimental específico para a utilização da Homeopatia na Agricultura?

A experimentação dos medicamentos homeopáticos em plantas sadias, dos diversos gêneros (principalmente) e espécies cultivadas, observando-se todos os efeitos manifestos nas diversas partes das mesmas (raiz, caule, folhas e frutos). Os ciclos de vida relativamente curtos das espécies vegetais anuais, assim como as fases cíclicas e anuais (crescimento, florescimento e frutificação) das espécies perenes, facilitariam sobremaneira estes experimentos, propiciando após alguns anos de experimentação a confecção de uma “Matéria Médica” para as plantas, que conteria as alterações fitopatológicas manifestas devido ao efeito primário das substâncias experimentadas. Não acredito que possamos fazer analogias entre os sintomas humanos e os sintomas vegetais, como acontece na Veterinária Homeopática, que, a meu ver, também se beneficiaria com o desenvolvimento de experimentações mais específicas.

Nestas experimentações com plantas, começaríamos com canteiros dos principais cultivares agrícolas (Gramíneas, Leguminosas, Hortaliças, Frutíferas, etc.), que receberiam os principais policrestos homeopáticos (na água de irrigação, por exemplo), comparando as manifestações observadas com o grupo controle, anotando-se todos os sinais e sintomas surgidos, procurando relacioná-los, a posteriori, com as enfermidades mais comuns daquelas espécies.

A Isopatia e a Tautopatia também poderiam ser utilizadas na Agricultura, seja no controle de pragas de determinada cultura (emprego do princípio da identidade, per idem, dinamizando-se a própria praga e pulverizando as plantas com este preparado), seja na correção de determinadas deficiências nutricionais, com o emprego do elemento carente dinamizado (Nitrogênio, Fósforo, Potássio, microelementos, etc.), facilitando a captação do mesmo pelas plantas.

Estas são algumas das muitas experimentações que poderíamos realizar, montando, ao longo dos anos, um modelo científico e racional de emprego da Homeopatia na Agricultura. Infelizmente, a pesquisa científica desenvolvida nas Faculdades de Agronomia é financiada pelas indústrias de fertilizantes químicos e defensivos agrícolas, assim como na área médica são os grandes laboratórios que direcionam a pesquisa desenvolvida nas Faculdades de Medicina. Este “conflito de interesses”, entre o poder econômico e a verdadeira ciência, debatido freqüentemente nos periódicos médicos2, impede que a Homeopatia assuma uma posição de destaque na pesquisa acadêmica moderna.

Temos buscado, junto a antigos professores da ESALQ, estimular a pesquisa com Homeopatia, dentro dos parâmetros acima descritos, mas devemos ter em mente que a montagem de um modelo homeopático experimental agrícola será uma atividade lenta e demorada, mesmo que conseguíssemos verbas e apoio dos meios acadêmicos.

No momento, me preocupa o distanciamento da medicina homeopática dos centros médicos universitários, e vejo que devemos divulgá-la dentro dos preceitos científicos modernos, para que possamos dirimir os dogmas e os preconceitos existentes, fruto do desconhecimento dos verdadeiros fundamentos homeopáticos.

Fonte: http://www.homeozulian.med.br

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2 Respostas

  1. A vontade de ter sido o primeiro impede o autor de ver que a homeopatia divulgada pela UFV está dando resultados no campo. Ou seja estão sendo produzidos alimentos sem agrotóxico! isto vale?

    Quem quiser consultoria para resolver problemas no campo entre em contato, joaonabuco@gmail.com

    Deixe os teóricos para depois.
    “Infeliz daquele que chega sempre por ultimo.”

    • 1) Nada se sustentaria mais de 200 anos se não fosse eficaz. Acha que a Monsanto, Bayer e outras queridas multinacionais não colocaram um milhão e meio de processos em quem divulga e defende a Homeopatia Rural??? Se o seu uso aumenta com o tempo não é a toa….

      2) Se você não usou a homeopatia NA PRÁTICA, em campo mesmo, sendo numa hortinha de casa NÃO TEM COMPETÊNCIA para dizer nada… Dizer que vai fazer experimentos… , amigo já foram feitos e continuam sendo feitos… as substâncias que são aplicadas hoje tem muita eficácia prática, basta fazer o teste.

      3) Existem outras técnicas que JUNTAMENTE com a homeopatia dão ÓTIMOS RESULTADOS, conheço pessoas que tratam de MORANGO e TOMATE com o uso de técnicas orgânicas (compostagem, adubação verde, alelopatia…) e controlam as “pragas” apenas com a homeopatia.

      Comecei meus estudos PRÁTICOS, acompanhem os resultados:

      http://www.facebook.com/media/set/?set=a.2870045808827.94714.1790312262&type=3&l=f052f1150b

      Um abraço e longa vida a homeopatia.

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