Propriedades anticancerígenas do alho

OS COMPOSTOS SULFURADOS DO ALHO E DA CEBOLA

Podemos sorrir, ao imaginar a surpresa dos primeiros humanos que mastigaram pela pri­meira vez um bulbo de alho ou de cebola: como poderiam eles suspeitar que alimentos aparentemente tão inodoros fossem capazes de desenvolver tanto aroma e sabor?

Essa grande diferença se explica pelas mo­dificações químicas que ocorrem nos bulbos dos membros da família Allium (Alho, Cebola, Alho-poró, Chalota e Cebolinha) depois de uma quebra mecânica, de modo um tanto análogo ao que descrevemos para os legumes crucíferos. O aroma e o gosto tão característicos das diferentes espécies de Allium se devem ao seu conteúdo elevado de vários compostos fitoquímicos sulfurados, isto é, moléculas que con­têm um átomo de enxofre em sua estrutura química. Vamos tomar o exemplo do alho para ilustrar as reações que acontecem no pe­queno dente que o cozinheiro vai amassar, para acrescentar ao prato em preparação. Ao longo do armazenamento dos bulbos de alho em temperatura fresca, estes gradualmente acumularam a aliína, o constituinte principal do alho. Quando amassamos o dente, as células do bulbo são quebradas, o que provoca a li­beração de uma enzima chamada aliinase, que entra então em contato com a aliína e a transforma rapidamente em alicina, uma mo­lécula muito odorífera, diretamente responsá­vel pelo forte odor emanado pelo bulbo que acabamos de esmagar. A alicina é uma molé­cula muito abundante (sua quantidade pode atingir até 5mg/g), mas muito instável e é qua­se instantaneamente transformada em produ­tos sulfurados mais ou menos complexos (Fi­gura 23). A maioria das pessoas ouviram falar dessa famosa alicina, pois todos os fabricantes de suplementos de alho elogiam os benefícios de seus produtos, baseando-se em grande parte no seu conteúdo em alicina. Sem ser for­çosamente enganosa, essa publicidade não deixa de ser inexata, pois esses suplementos não contêm alicina, mas aliína, e seria preciso falar, antes, do potencial desses suplementos de provocar a liberação da alicina, potencial que está diretamente ligado a uma boa preser­vação da atividade da aliinase presente nesses suplementos. Aliás, testes realizados por um laboratório norte-americano independente mostra­ram que a quantidade de alicina liberada por esses suplementos pode variar de 0,4mg a 6,5mg, segundo o fabricante. O meio mais simples de saber exatamente a quantidade de alicina ingerida é pois consumir o alho fresco.

Reações muito similares se produzem na ce­bola fatiada; nesse caso, a diferença de odor se deve essencialmente à natureza ligeiramente diferente das moléculas presentes na cebola, que, ao invés de gerar alicina e seus derivados, provo­ca, antes, a produção de um fator muito irritante para os olhos.

PROPRIEDADES ANTICANCERÍGENAS DO ALHO

Os dados atualmente disponíveis sobre o po­tencial anticancerígeno dos legumes da família do alho sugerem que estes teriam um papel importante na prevenção do câncer do sistema digestivo, especialmente os cânceres de esôfago, de estômago e de cólon.

Os primeiros indícios quanto a um papel de prevenção do câncer de estômago provêm de estudos epidemiológicos feitos na província de Yangzhong, no nordeste da China, onde se observou uma alta proporção desse tipo de câncer. A análise dos hábitos alimentares dos habitantes dessa região permitiu demonstrar que certas pessoas consumiam relativamente pouco alho e cebola e que esse baixo consumo estava associado com um risco três vezes maior de desenvolver um câncer de estômago. Obtiveram-se resultados similares na Itália, comprando o regime alimentar dos habitantes do norte, onde o alho é pouco utilizado, e os do sul, grandes consumidores de alho: um consumo abundante e frequente de legumes da fa­lia Allium reduz consideravelmente a frequência de câncer de estômago.

Aliás, pensa-se que os legumes da família do alho poderiam prevenir outros tipos de câncer, notadamente o de próstata. Quando de um estudo feito com habitantes da cidade de Xangai, descobriu-se que as pessoas que consumiam mais de 10g de legumes da família Allium por dia apresentavam 50% menos de câncer de próstata do que aqueles que consumiam menos de 2g/dia. Esse efeito protetor parece ser muito mais pronunciado para o alho do que para os outros legumes da mesma família. Em contrapartida, para o câncer de mama, os dados atuais ainda não permitem estabelecer com precisão um papel protetor do alho. Um estudo holandês indica que se o consumo de cebolas está ligado a uma alta redução do câncer de estômago, isso não tinha impacto nos riscos de desenvolver um câncer de mama. Entretanto, como a alimentação básica da população holandesa inclui grandes quantidades de matéria graxa (um dos maio­res consumos do mundo), um fator do qual se suspeita fortemente de causar o câncer de mama, deve-se perguntar se esse regime ali­mentar pode ser o responsável por esse resul­tado. Nesse aspecto, é interessante notar que pesquisadores franceses conseguiram eviden­ciar que o consumo de alho e cebola por mu­lheres do nordeste da França (Lorena) estava associado a uma queda do câncer de mama.

Os dados atualmente disponíveis mostram que as quantidades de legumes da família Allium consumidas por vários povos ocidentais são muito mais baixas do que aquelas que estão associadas com uma diminuição do risco de câncer de próstata e de mama. Por exemplo, apenas 15% dos homens britânicos conso­mem 6g de alho (cerca de dois dentes) por se­mana e apenas 20% das mulheres norte-americanas ingerem mais de 2g de alho por semana. Con­siderando-se o alto risco que essas populações têm de desenvolver um câncer de próstata e de mama, respectivamente, é provável que o consumo de alho tenha um papel-chave nas diferenças de cânceres existente entre o Oci­dente e o Oriente. Essas disparidades ilustram a importância de considerar o conjunto dos fatores nutricionais, quando se tenta estabelecer o impacto da alimentação no desenvolvimen­to do câncer e evitar escolher um alimento como herói absoluto, sem levar em conta o aporte de outros alimentos.

Embora vários pesquisadores tenham pos­tulado que a alicina é responsável por proprie­dades medicinais do alho, sua grande instabi­lidade química levanta várias dúvidas quanto à eficácia da sua absorção pelo organismo e da sua ação sobre as células. Efetivamente, como mencionamos acima, sabemos agora que a ali­cina é rapidamente transformada em uma mul­tidão de compostos tais como o ajoeno, o dialil sulfido (DAS), o dialil dissulfido (DADS) e várias outras moléculas, e que esses derivados possu­em atividades biológicas muito interessantes que lhes são próprias. No total, pelo menos 20 compostos derivados do alho foram estudados e mostraram atividades anticâncer. Entretanto, o DAS e o DADS, ambos substâncias solúveis em óleo, são geralmente considerados como as principais moléculas do alho capazes de ter um papel na prevenção do câncer.

Em laboratório, as propriedades anticancerígenas dos compostos do alho foram estu­dadas principalmente por meio de modelos animais, em que o aparecimento de um cân­cer é provocado por compostos químicos can­cerígenos. Em regra geral, os resultados obti­dos com os animais concordam com as obser­vações realizadas na população, isto é, os compostos fitoquímicos do alho e da cebola têm a propriedade de prevenir o aparecimento ou ainda a progressão de certos tipos de cân­cer, em particular os de estômago e de esôfago, embora também tenham sido relatados efeitos nos cânceres de pulmão, de mama e de cólon. O alho parece ser especialmente efi­caz para proteger o desenvolvimento dos cânceres causados pelas nitrosaminas, uma clas­se de compostos químicos que detêm um alto potencial cancerígeno. Esses compostos quí­micos são formados pela flora intestinal a par­tir dos nitritos, uma classe de agentes alimen­tares muito usados como conservantes, parti­cularmente em marinadas e nos produtos à base de carne, como salsicha, bacon e presun­to. Logo, impedindo a formação de nitrosami­nas, carcinógenos poderosos que se ligam ao DNA, os compostos fitoquímicos do alho redu­zem o risco de que esses compostos provo­quem mutações no DNA e, com isso, o risco de câncer. Esse efeito protetor do alho diante das nitrosaminas parece muito poderoso, pois, nos ratos de laboratório, o DAS é até capaz de neutralizar o desenvolvimento do câncer de pulmão provocado pela NNK, uma nitrosamina extremamente tóxica, formada pela trans­formação da nicotina, quando da combustão do tabaco. O alho parece ter um melhor efeito protetor do que a cebola, embora, neste últi­mo caso, tenha sido sugerido que o consumo de cebola também estava associado a um ris­co menor de desenvolver câncer de estômago.

Outra maneira pela qual os compostos do alho e da cebola poderiam interferir no desen­volvimento dos cânceres é o seu efeito sobre os sistemas responsáveis pela ativação e pela des-toxificação das substâncias estranhas com po­tencial cancerígeno (capítulo 6). Na verdade, vários compostos, como o DAS, inibem as enzi­mas responsáveis pela ativação dos carcinóge­nos, aumentando ao mesmo tempo aquelas que estão implicadas na eliminação desses compostos. A consequência imediata dessas duas pro­priedades é que as células são menos expostas aos agentes cancerígenos e, logo, menos suscetíveis de sofrer danos no nível do seu DNA, acarretando o desenvolvimento do câncer. Os compostos do alho, assim como aqueles pre­sentes nos legumes da família da couve, po­dem ser considerados como agentes de preven­ção de primeira linha, impedindo o desenvolvi­mento do câncer desde o início.

Além das suas atividades diretas sobre as substâncias cancerígenas, os compostos do alho poderiam também atacar diretamente as células de tumores e provocar a sua destruição pelo processo de apoptose (capítulo 2). Efetivamente, o tratamento de células isoladas de cânceres de cólon, mama, pulmão, próstata ou ainda de leucemias com diferentes com­postos de alho provoca mudanças extrema­mente importantes no crescimento das células tumorais e ativa o processo que leva à morte destas. A molécula mais apta a provocar a morte dessas células parece ser o DAS, embo­ra efeitos similares também tenham sido ob­servados com outros derivados, como o ajoeno. Também observamos que o DAS poderia contribuir para a morte das células cancerosas, modificando a sua aptidão para exprimir certas proteínas que conferem às células a ca­pacidade de resistir a certos medicamentos da quimioterapia.

Em resumo, as propriedades anticancerígenas dos legumes da família do alho pare­cem principalmente ligadas ao seu conteúdo em compostos sulfurados. Todavia, no caso da cebola notadamente, não se deve despre­zar o aporte importante de certos polifenóis, como a quercetina, uma molécula que pode impedir o crescimento de um grande número de células cancerosas cultivadas em laborató­rio e que interfere no desenvolvimento do cân­cer em animais. De qualquer forma, no estado atual dos conhecimentos, é cada vez mais cer­to que os compostos de alho e de cebola po­dem agir como poderosos inibidores do desen­volvimento do câncer, atacando ao menos dois processos implicados no desenvolvimento dos tumores. Por um lado, esses compostos poderiam prevenir a ativação das substâncias canceríge­nas, diminuindo a sua reatividade e acelerando a sua eliminação, contribuindo esses dois efei­tos para reduzir os danos causados por essas substâncias ao DNA, principal alvo visado por esses cancerígenos. Por outro lado, essas molé­culas também são capazes de reduzir a propa­gação dos tumores, interferindo com o proces­so de crescimento das células cancerosas, o que provoca a morte dessas células por apopto­se. Mesmo que outros estudos sejam necessá­rios para identificar com ainda maior precisão os meios pêlos quais as moléculas derivadas do alho e da cebola conseguem exercer essas diferentes ações, não há nenhuma dúvida de que o alho e os outros vegetais dessa família mereçam um lugar importante numa estratégia de prevenção do câncer pela alimentação. O alho pode espantar muito mais do que os espí­ritos malignos e os vampiros!

Os alimentos contra o câncer, Richard Béliveau, Denis Gingras, Editora Vozes, Petrópolis-RJ, 2007, pp. 92-98.

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