Aposentado cria jardim em Congonhas

Sr. Nakao no jardim de sua casa (Foto: Daniel Teixeira/AE)

Tiago Dantas

Faz 32 anos que o aposentado Eifuku Nakao, de 80 anos, teve a ideia de plantar um abacateiro no terreno que fica em frente à sua casa, ao lado de uma das pistas do Aeroporto de Congonhas, na zona sul. Os anos passaram, e a árvore ganhou a companhia de um pinheiro, várias mangueiras, cerejeiras, rosas, lírios, cactos, uma centena de outras plantas e até de pássaros. Tudo graças ao esforço solitário de Nakao.

A dedicação do aposentado em transformar a paisagem da Rua Almirante Souza Braga, montando um enorme jardim onde antes funcionava um ponto de depósito de entulho, pode ser recompensada em breve.

A Associação dos Moradores do Entorno do Aeroporto de Congonhas (Amea) planeja que a área verde de quase 23 mil metros quadrados vire um parque. Enquanto isso não acontece, Nakao mantém suas atividades diárias.

“Isso (trabalhar no jardim) é para eu conservar a saúde”, diz o aposentado, conhecido pelos vizinhos como ‘seu Ernesto’. “Tem gente que não acredita, mas acabei com três enxadas e uma cavadeira mexendo aí dentro”, conta.

Além de plantar várias espécies, Nakao fez intervenções de engenharia. Utilizou o entulho que estava amontoado no terreno para deixar a área plana e limpa. Depois, cavou valas para a água da chuva correr sem estragar as plantas. Por fim, fez escadas de madeira em um barranco.

Nakao cuida há quase trinta anos do terreno ao lado de sua casa plantando árvores e limpando a área (Foto: Daniel Teixeira/AE)

Técnica própria

Mas o grande trunfo do aposentado está na técnica que desenvolveu para espalhar as plantas pelo terreno. “O pessoal sempre pergunta: ‘De onde vem tanta muda?’ Eu falo que não é muda, nem semente, não. É tudo galho espetado. Sou o maior espetador de galho”, explica Nakao.

O aposentado diz que a maior parte da sua plantação foi feita simplesmente “espetando”, no solo, pedaços de galhos retirados de outras espécies ou do quintal da sua casa.

“Agora é bom de espetar. Vem a chuva, e planta pega”, afirma. “Nome mesmo (das plantas), não sei quase nada. Eu só espeto”, brinca seu Ernesto, enquanto caminha pelo terreno apontando para hortênsias, lírios e árvores frutíferas. “Ali tem papaia. É bom pra passarinho comer”, diz. Para evitar que a criançada do bairro tire as frutas do pé, o aposentado plantou espécies espinhosas em volta.

Seu Ernesto nasceu em Lins, no interior de São Paulo. Filho de pais japoneses, passou a adolescência na província de Okinawa, onde serviu no exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial.

“Tinha 16 anos. Fazia buraco para os soldados. Ainda tenho machucados por causa de estilhaços”, lembra. De volta ao Brasil, Nakao trabalhou na lavoura da família do sogro em Lins.

Na capital, Nakao trabalhou no Ceasa e em uma loja de material de construção antes de se aposentar em 2003. Teve seis filhos – “todos formados”, como frisa o aposentado – e nove netos.

Projeto

O desenho do parque da Rua Almirante Souza Braga deve sair de um trabalho em conjunto entre a Associação de Moradores do Entorno do Aeroporto de Congonhas (Amea) e a Empresa de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

A ideia é preservar as árvores plantadas por Nakao e instalar equipamentos como pista de cooper, parquinho e quadra poliesportiva.

“Podemos buscar apoio da iniciativa privada, principalmente das empresas que têm a ver com a região, como as companhias aéreas”, afirma o vice-presidente da Amea, Edwaldo Sarmento.

Nascido e criado na região do aeroporto, o comerciante Luiz Carlos Moreira, de 48 anos, aprova a ideia. “Há algum tempo, tinha até cachoeira aqui. O parque vai ficar muito bom. As árvores ajudam a abafar os ruídos dos aviões.” Uma das preocupações dos vizinhos é cercar a área para evitar que sem-teto ocupem a praça, o que ocorre atualmente.

A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente informou que não recebeu a proposta da associação de criação do parque, mas garantiu, por nota, que “está sempre disponível ao diálogo com a população, que pode sugerir novos projetos”.

http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/aposentado-cria-jardim-em-congonhas

 

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