O impacto da exposição de crianças e adolescentes a cenas de sexo e violência na TV

Mídia e Infância – O impacto da exposição de crianças e adolescentes a cenas de sexo e violência na TV

Realização:
ANDI – Comunicação e Direitos
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Este documento apresenta informações extraídas dos principais estudos elaborados em diversos países sobre os impactos que a exposição a cenas televisivas de sexo e violência podem causar a crianças e adolescentes.

Pesquisas com esse perfil vêm sendo desenvolvidas há várias décadas1 e concluem, majoritariamente, que o contato regular de garotos e garotas com conteúdos inadequados pode levar a sérias consequências, como comportamentos de imitação, agressão, medo, ansiedade, concepções errôneas sobre a violência real e sexualização precoce.

1. A MÍDIA COMO FONTE DE SOCIALIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

A mídia, como qualquer outra instituição de socialização, não pode ser analisada de maneira isolada. Suas consequências para o desenvolvimento de crianças e adolescentes são resultado da ação estabelecida em conjunto com todo o amplo contexto social no qual está inserida.

Entretanto, na atual era da informação, pais, professores e outros agentes de socialização vêm perdendo para a mídia sua posição de modelos prioritários para os mais jovens. Família, igreja e escola não são mais as principais fontes de conhecimento acerca da sociedade.

Algumas razões para esta situação são destacadas pelos especialistas:

. A socialização pela imagem é muito mais convidativa e simples;

. A mídia consegue estar mais próxima da realidade imediata e dos interesses prioritários da criança e do adolescente, quando comparada a outras instituições de socialização;

. O acesso aos meios de comunicação abertos acontece no interior das residências, sem a necessidade de deslocamentos, matrículas e compromissos. Logo, se dá a um custo muito baixo;

. O perfil laboral e a própria estrutura das famílias contemporâneas vem se alterando: pais e mães permanecem fora do lar boa parte do tempo e há maior número de casais divorciados e de famílias chefiadas exclusivamente pela mãe. Assim, diminui o tempo dedicado pelos responsáveis às tarefas de socialização e a atuação dos veículos de comunicação nessa área acaba amplificada;

. Em diversas localidades – e nos mais variados recortes populacionais – os crescentes índices de violência urbana estimulam que crianças e adolescentes permaneçam mais tempo no interior das residências, abrindo espaço para um maior contato com a televisão, em detrimento de outros espaços de socialização;

. A mídia colabora direta e indiretamente na socialização de meninos e meninas. Isso porque suas mensagens são transmitidas não apenas para crianças, mas também para outros atores com funções de socialização (pais e professores, por exemplo).

2. O CONSUMO DE TELEVISÃO NO BRASIL

A avaliação destes dados deve levar em consideração também o alcance praticamente universal da televisão de sinal aberto junto às famílias brasileiras. De acordo com pesquisa recente do Ibope2, divulgada em 2011, a TV alcança 97% de nossa população, superando largamente todos os outros tipos de mídia (veja tabela na próxima página).

Alcance da Mídia no Brasil
===================
Meio de comunicação
% da população
===================
TV Aberta
97%

Internet
56%

Rádios (AM/FM)
52%

Revistas
38%

Jornais
34%

TV por Assinatura
28%
===================

Soma-se a este fato outro dado de extrema relevância, que atesta a enorme influência da mídia na vida dos mais jovens:

. De acordo com o Painel Nacional de Televisores do Ibope 2007, as crianças brasileiras que estão entre quatro e 11 anos de idade passam, em média, 4 horas, 50 minutos e 11 segundos por dia em frente à TV3.

3. POSICIONAMENTOS DO COMITÊ PARA OS DIREITOS DA CRIANÇA DA ONU E DA UNESCO

Diante deste tipo de cenário, que se replica nas mais diversas regiões do globo, diversas entidades vinculadas à Organização das Nações Unidas vêm enfatizando a necessidade dos governos nacionais assumirem atitudes concretas de proteção aos direitos da criança e do adolescente no campo da comunicação de massa.

Segundo o Comitê para os Direitos da Criança, criado para monitorar a implementação da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), ratificada pelo Brasil, o problema da mídia tende a se agravar porque cada vez mais crianças dedicam períodos crescentes de seu dia à televisão, não raro superando o tempo que passam na escola ou que estão com os pais. Além disso, muitas crianças não têm um adulto presente, enquanto assistem TV, para lhes explicar as imagens violentas da programação e colocá-las em um contexto compreensível.

Nesse sentido, o Comitê recomenda que:

. Os governos precisam tomar medidas corretivas para evitar os efeitos das forças de mercado que violam os “maiores interesses da criança”;

. Não existe contradição entre o acesso da criança à informação e medidas para protegê-la de influências negativas da mídia: “A liberdade de expressão não é incompatível com a firme proibição de material nocivo ao bem-estar da criança”, afirma o documento.

Após a promulgação da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, a Unesco criou, em associação com a Universidade de Göteborg, na Suécia, a International Clearinghouse on Children, Youth and Media, instituição dedicada exclusivamente ao estudo das relações entre os meios de comunicação e o público infanto-juvenil.

Em uma das publicações da entidade4, artigo assinado pelo pesquisador Thomas Hammarberg aponta ser comum aos países regular o horário dos conteúdos televisivos para proteger as crianças. Os programas que possam ser prejudiciais devem ter transmissão apenas tarde da noite – o que pode ser estipulado por lei, instruções especiais ou acordos voluntários envolvendo a própria mídia.

4. POSICIONAMENTOS DAS INSTITUIÇÕES ESPECIALIZADAS NORTE-AMERICANAS

Baseadas em um vasto contingente de estudos (ver mais adiante), instituições norte-americanas renomadas tem se manifestado de forma contundente a respeito da relação entre exposição de crianças a conteúdos violentos veiculadas na televisão e comportamento agressivo.

Obteve grande repercussão, por exemplo, a declaração conjunta Joint Statement on the Impact of Entertainment Violence on Children5, apresentada pela Academia Norte-Americana de Pediatria, Academia Norte-Americana de Psiquiatria para Crianças e Adolescentes, Associação Norte-Americana de Psicologia, Associação Médica Americana e Associação Norte-Americana de Psiquiatria, durante a Cúpula do Congresso dos Estados Unidos sobre Saúde Pública, em 26 de julho de 2000. Ressalta o texto:

(…) Mais de 1.000 estudos – incluindo relatórios do primeiro escalão da área de saúde do governo federal, do Instituto Nacional de Saúde Mental e inúmeros estudos conduzidos por reconhecidas lideranças no campo médico e da saúde pública – nossos próprios membros – apontam incontestavelmente para uma conexão causal entre violência na mídia e comportamento agressivo em algumas crianças. A conclusão da comunidade da saúde pública, baseada em 30 anos de pesquisas, é que consumir violência através dos programas de entretenimento pode levar a um aumento em atitudes, valores e comportamentos agressivos, particularmente nas crianças.

Merece destaque também a declaração Media Violence6, da Comissão de Educação Pública da Academia Americana de Pediatria. Segundo o documento:

A força da correlação entre violência na mídia e comportamento agressivo encontrada nos estudos de meta-análise é maior do que a relação entre o consumo de cálcio e a massa óssea, a ingestão de chumbo e o baixo QI, o não uso de preservativos e a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, ou o tabagismo passivo e o câncer de pulmão – associações aceitas pela comunidade médica e nas quais a medicina preventiva se fundamenta sem questionamentos.

5. VIOLÊNCIA E SEXUALIDADE PRECOCE NA MÍDIA E NA SOCIEDADE NORTE-AMERICANAS

Nos últimos 40 anos, mais de 3.500 pesquisas sobre os efeitos da violência na televisão sobre os espectadores foram conduzidas nos EUA. Segundo os especialistas no tema, vários fatores contribuem para a violência na sociedade norte-americana, sendo significativa a participação da violência transmitida pela televisão, já que ela aparece em muitos tipos de programas: de videoclips a shows de entretenimento, de documentários a noticiários. Ao terminar o primeiro grau, uma criança norte-americana comum terá visto mais de 8 mil assassinatos e mais de 100 mil outros atos de violência nos conteúdos televisivos.

Dentre os muitos estudos sobre a questão, alguns merecem especial destaque:

5.1 Estudo longitudinal comprova: crianças expostas a programação violenta em 1977 haviam se tornado adultos agressivos 14 anos depois

Pesquisadores da Universidade de Michigan7 realizaram o estudo Longitudinal relations between children’s exposure to TV violence and their aggressive and violent behavior in young adulthood: 1977–1992 que relaciona a exposição de crianças à violência na TV e seus comportamentos agressivos e violentos no início da fase adulta. A pesquisa foi dividida em duas etapas, realizadas em 1977 e em 1991 e desenvolvida da seguinte forma:

. Para a primeira fase, em 1977, os investigadores ouviram 557 crianças da zona metropolitana de Chicago, a fim de medir hábitos em relação aos meios de comunicação, especialmente o consumo de programação televisiva violenta;

. Após 14 anos, buscaram localizar os mesmos indivíduos – então com idades entre 20 e 22 anos – a fim de verificar se a interação com conteúdos violentos na infância poderia, ou não, predizer comportamentos agressivos na vida adulta. Foram localizadas nessa segunda fase 329 indivíduos – o que corresponde a 60% da amostra inicial;

. Os resultados da comparação foram pujantes. Tanto para homens quanto para mulheres, uma maior exposição a conteúdos violentos transmitidos pela tevê durante a infância foi capaz de predizer um maior nível de agressão na vida adulta, independentemente do quão agressivos os participantes eram quando crianças;

. O constatado pela equipe de pesquisa de Michigan é que mesmo crianças que não eram agressivas na infância – e de todos os estratos sociais – ao terem sido expostas a um volume expressivo de conteúdos televisivos violentos durante esse período acabaram por apresentar maior probabilidade de se tornarem adultos agressivos.

5.2. Efeitos da exposição das crianças à violência na mídia: medo, perda de sensibilidade e aumento de comportamentos violentos

Durante a década de 1990, foram realizadas nos EUA diversas análises que sustentam a conclusão de que os conteúdos violentos veiculados pela mídia de massa contribuem para o desenvolvimento de comportamentos e atitudes agressivas, assim como conduzem a efeitos de dessensibilização e medo. Entre as principais pesquisas deste grupo, incluem-se:

. O relatório dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), que declarou que a violência na televisão é um mal para a saúde pública (1991);

. O estudo da violência na vida norte-americana, elaborado pela National Academy of Sciences (NAS), que relacionou a mídia, juntamente com outros fatores sociais e psicológicos, como um elemento que contribui para a violência (1993);

. O estudo da American Psychological Association (APA), que apontou graves comprometimentos à saúde emocional das crianças em função do contato frequente com conteúdos audiovisuais violentos (1992).

Para as três análises, há clara evidência de que a exposição de crianças à violência na mídia contribui de forma significativa para a violência no mundo real. Entre outros impactos identificados, merecem atenção:

. O efeito da aprendizagem social – Segundo a teoria da aprendizagem social, o processo de aprendizado das crianças acontece pela observação das imagens da televisão assim como ocorre pela observação das ações de pessoas na realidade. Formulada por Albert Bandura (Prentice Hall, 1973), esta abordagem sustenta-se no resultado de experimentos com crianças na pré-escola, comprovando que a partir da exposição a conteúdos da televisão elas podem adquirir formas agressivas de comportamento, que irão manifestar quando agrupadas em brincadeiras escolares.

. O efeito da dessensibilização – As pesquisas demonstram que o ato prolongado de ver violência na mídia pode levar à dessensibilização emocional em relação à violência do mundo real e às suas vítimas – o que, por sua vez, pode levar a atitudes insensíveis em relação à violência dirigida a outros e a uma probabilidade menor de agir em benefício da vítima quando ocorre violência. Com o passar do tempo, mesmo aqueles espectadores que inicialmente reagem com horror à violência na mídia podem se habituar a ela ou se sentir mais psicologicamente confortáveis, uma vez que veem determinado ato de violência como menos grave e podem avaliar a violência na mídia de forma mais favorável.

. O aumento do medo – Outro aspecto marcante identificado pelas pesquisas é que os cenários de violência retratados pela mídia transformam o mundo em um lugar atemorizante para o espectador infanto-juvenil, mais impressionável que o adulto. O Physician Guide to Media Violence – publicado pela American Medical Association (AMA), em 1996 – alerta que “a exposição a um único filme, programa de televisão ou reportagem pode resultar em depressão emocional, pesadelos ou outros problemas relativos ao sono em muitas crianças”, particularmente as mais novas. E crianças amedrontadas estão mais sujeitas a se tornarem vítimas ou agressores.

5.3 FCC: relatório do órgão regulador dos EUA demanda do Congresso a regulação urgente dos conteúdos televisivos violentos

Em 2007, a Federal Communications Commission (FCC), agência reguladora da radiodifusão nos Estados Unidos, publicou o relatório In the matter of violent television programming and its impact on children. O documento sugere de forma veemente que o Congresso americano deve regular os conteúdos violentos na televisão, da mesma forma que já vem fazendo com os de teor sexual, estabelecendo uma faixa horária de proteção para a criança.

Aponta o relatório:

. Não há dúvidas quanto aos efeitos negativos que a violência transmitida pela mídia pode causar nas crianças e adolescentes, especialmente no curto prazo;

. É citada com especial ênfase pesquisa patrocinada pelo Center for Successful Parenting, cujos resultados comprovam haver “uma correlação entre o grau de exposição à violência transmitida pela televisão e cinema e contida no vídeo-game e o funcionamento normal do cérebro”;

. O documento da FCC ressalta que este estudo se valeu de técnicas de ressonância magnética e os resultados mostraram que a violência na mídia afeta diretamente o córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelas tarefas cognitivas mais sofisticadas e complexas da mente humana. Considerada a “sede” da personalidade e da vida intelectiva, essa estrutura do cérebro participa na tomada de decisões e na adoção de estratégias comportamentais adequadas à situação física e social.

5.4 Sexualização precoce e consumo excessivo de álcool e tabaco

De acordo com vários estudos, a sexualização precoce e o consumo excessivo de álcool e tabaco na sociedade norte-americana também se relacionam com a exposição de crianças e adolescentes a estes conteúdos na televisão. Dados de 1996 apontavam que, nos EUA, o adolescente médio estava exposto a cerca de 14 mil referências audiovisuais ligadas a sexo, durante o período de um ano.

O documento Watching Sex on Television Predicts Adolescent Initiation of Sexual Behavior8, publicado pela Academia Americana de Pediatria (2004) constata que a exposição dos adolescentes ao sexo em programas de TV tem sido determinante na iniciação sexual dos adolescentes.

Federal Trade Comission (FTC), dos Estados Unidos, denuncia indústria midiática de violar seus próprios códigos de autorregulação

No ano 2000 foi publicado o relatório Marketing violent entertainment to children: a review of self-regulation and industry practices in the motion picture, music recording & electronic game industries, da Federal Trade Comission (FTC), órgão responsável pela proteção dos direitos do consumidor dos EUA.

. O documento constata uma contradição: as próprias empresas que autoclassificam seus produtos como possuidores de conteúdos inadequados para crianças e adolescentes ou como requerendo especial preocupação dos pais em função do conteúdo violento que comportam, dirigem rotineiramente a publicidade desses produtos para o público infanto-juvenil;

. Além disso, os planos de marketing e mídia dessas companhias envolvem estratégias de promoção e publicidade desses produtos em veículos que mais comumente alcançam crianças com menos de 17 anos, incluindo aqueles programas televisivos identificados como os “mais populares” entre o grupo com menos de 17 anos.

Já o Physician Guide to Media Violence, da AMA (1996), aponta como potenciais consequências decorrentes do excesso de exposição à mídia eletrônica por crianças e adolescentes o aumento do uso de tabaco e álcool, da atividade sexual precoce e do consumismo excessivo. Segundo o guia, “Essas investigações comprovam uma tendência, bem documentada, das crianças imitarem os padrões comportamentais mostrados na televisão”.

6. ANÁLISES SOBRE O TEMA EM OUTROS PAÍSES

6.1 Holanda: heróis “exterminadores” e o fascínio pela violência em um mundo globalizado

O estudo Young People’s Perception of Violence on the Screen9 (Unesco; Universidade de Utrecht, 1997), realizado pelo pesquisador Jo Groebel, da Universidade de Utrecht (Holanda), é a maior pesquisa já realizada sobre este assunto e a conduzida da forma mais abrangente. O levantamento ouviu 5 mil crianças de 12 anos de idade, de 23 países, selecionados por meio do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

As crianças viviam em regiões urbanas e rurais, em áreas com altos e com baixos índices de violência, e em países com elevados ou reduzidos níveis de desenvolvimento tecnológico. A pesquisa revelou que:

. Independente de sua realidade social ou cultural, quase todas as crianças entrevistadas conheciam personagens como Exterminador do Futuro e Rambo, ou citavam um herói local favorito como modelo principal;

. Um herói violento como o Exterminador do Futuro parece representar as características que as crianças consideram necessárias para resolver situações difíceis;

. O fascínio pela violência está frequentemente relacionado com o fato dos heróis serem recompensados por suas ações, já que são capazes de lidar com todos os problemas;

. Assim, conclui o estudo, a violência na tela se torna atraente como um modelo para resolver os problemas da vida real e, portanto, contribui para uma cultura pautada pela agressividade, em nível global.

6.2 Canadá: violência física entre crianças e adolescentes cresce 160% após chegada da televisão em comunidade rural

No estudo Educating oppositional and defiant children (Association for Supervision and Curriculum Development , 2003), os pesquisadores Philip Hall e Nancy Hall, da Associação para Supervisão e Desenvolvimento Curricular do Canadá, mencionam pesquisa de 1986, conduzida por L.A. Joy, M.M. Kimball e M.L. Zabrack, que faz grave constatação:

. Dois anos após a introdução da televisão em Notel, uma pequena cidade da zona rural do Canadá, o volume de violência física entre crianças e adolescentes cresceu 160%.

Também foi realizado no Canadá o estudo Children, adolescents & the media10 (Sage Publications, 2002). Os resultados apontam que a exposição a conteúdos sexuais veiculados pelos meios de comunicação pode estar relacionada à iniciação precoce da atividade sexual e ao desenvolvimento de comportamento de risco.

6.3 Suécia: influência da mídia nas mudanças de comportamento das crianças e dos adolescentes

A pesquisa Children, ethics, media (Save the Children Sweden, 2002), realizada por Helena Thorfinn para a Save the Children Suécia analisou como as crianças podem aprender novos comportamentos, adquirir ideias, emoções, pensamentos e fantasias a partir dos meios de comunicação. A pesquisa mostra que:

. Dependendo do tipo de conteúdo veiculado, as mudanças no comportamento podem variar de elementos negativos (especialmente na forma de violência, negligência e arrogância) a positivos (como altruísmo, amizade e solidariedade);

. A mensagem da mídia mescla-se com as experiências, sentimentos e frustrações anteriores dos indivíduos e é processada por cada pessoa de maneira única e imprevisível.

6.4 Alemanha: telenovelas reforçam estereótipos e seus personagens são referências para crianças e adolescentes

O Instituto Central Internacional para a Juventude e a Televisão Educativa11 da Alemanha, com sede em Munique, desenvolve inúmeras pesquisas sobre o tema do impacto do conteúdo televisivo sobre o público infanto-juvenil. Um dos trabalhos que merece destaque focaliza a influência das telenovelas e seriados no dia-a-dia das crianças e adolescentes.12

Os pesquisadores entrevistaram 401 indivíduos entre 6 e 19 anos que se declararam “fãs de novelas”. Segundo o estudo, para crianças e adolescentes que assistem esses programas por um período que corresponde a pelo menos um terço de seu tempo livre, os conteúdos veiculados se transformam em importantes aspectos de seu processo de socialização – o que requer um alto grau de responsabilidade por parte dos produtores e uma reflexão de toda a sociedade sobre as consequências da intensa exposição das crianças e adolescentes à mídia, típica das sociedades contemporâneas.

Algumas conclusões da pesquisa:

. Cenas espetaculares não são indicadas para crianças do ensino fundamental. Houve vários relatos de pesadelos e crises de choro por crianças quando expostos a cenas violentas. Violência (sexual ou não) contra personagens com os quais as crianças se identificam permanecem por anos em suas mentes;

. Os personagens são tidos como uma forma de espelho, de auto-imagem idealizada. São diferenciados entre “o vilão” e “o mocinho” de forma estereotipada. Na pesquisa, as crianças nomearam mais os “mocinhos”, avaliando suas atividades pessoais, comportamento e também sua aparência física;

. A novela é uma maneira das crianças e jovens identificarem formas de falar, se vestir e se pentear quando querem parecer “na moda”;

. Personagens femininas geralmente estão enquadradas em construções estereotipadas. Elas não são apenas magras e bem vestidas, mas tornam-se também referências de um ideal de beleza. Os conteúdos levam à disseminação de clichês relacionados a gênero e, em vez de exporem uma variedade de características, terminam reforçando estereótipos;

. Crianças e adolescentes também desenvolvem relações para-sociais com os personagens. Como estas condições ideais não podem ser alcançadas nas interações com as pessoas de seu entorno, isto acaba se tornando um obstáculo para o desenvolvimento de relacionamentos na vida real.

CONCLUSÃO

É em função deste amplo conjunto de evidências que, ao longo das últimas décadas, as principais democracias do planeta vêm adotando sistemas similares ao da Classificação Indicativa utilizada pelo Ministério da Justiça brasileiro com o fim de proteger os direitos humanos de crianças e adolescentes expostos ao conteúdo da televisão.

Com a Classificação Indicativa, as programações televisivas passam a dar indicação à família sobre a faixa etária para a qual as obras audiovisuais são recomendadas. Isso porque é um direito inalienável das famílias decidir o que seus filhos podem ou não assistir. Entretanto, para que esse direito possa ser exercido, é preciso que o Estado – o poder concedente – ofereça as condições objetivas necessárias.

Para exemplificar, vale aqui usar uma analogia:

Todos têm direito à saúde, mas se o hospital público mais próximo está a 500 quilômetros de uma certa localidade, dificilmente os direitos daquela população estarão garantidos. Assim, cabe ao Estado construir a unidade médica. Da mesma forma, ocorre com o direito das famílias em escolher o que seus filhos assistirão ou não:

. De saída, os pais ou responsáveis precisam estar presentes no lar para orientar os filhos – daí a pertinência de remeter a programação potencialmente inadequada para o horário noturno;

. Depois, os pais precisam saber quais conteúdos (violência, por exemplo) vão encontrar no programa que começam a assistir na companhia dos filhos – daí a relevância de tornar obrigatória e vinculante o cumprimento das regras da Classificação Indicativa por parte das empresas concessionárias.

A Classificação Indicativa trata-se, portanto, de uma política pública implementada para garantir o respeito aos direitos das crianças e dos adolescentes que, sem dúvida, estão mais vulneráveis ao conteúdo a que serão expostos na televisão, já que ainda se encontram em processo de formação. Para os pais poderem cumprir com suas responsabilidades em relação à proteção do processo de desenvolvimento de seus filhos, antes o Estado e as empresas devem fazer sua parte, estabelecendo e obedecendo os limites para a veiculação de conteúdos potencialmente danosos.

NOTAS

[1] As primeiras pesquisas sobre os prováveis impactos do conteúdo de sexo e violência veiculado pela mídia sobre a formação de crianças e adolescentes datam de 1929 e coincidem com o crescimento do cinema como meio de entretenimento e informação. Desde então, esses estudos passaram a ser desenvolvidos de forma frequente, por meio de um conjunto variado de métodos, entre os quais pesquisas experimentais, correlacionais, longitudinais e meta-análises.

[2] MediaBook 2011. Hábitos da Mídia e Investimento Publicitário em 2010. Ibope, São Paulo, 2010.

[3] Informação acessada em http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Comunicacao.aspx?page=1&v=4.

[4] Cecilia von Feilitzen e Ulla Carlsson (org.), A criança e a violência na mídia (Unesco, 1999).

[5] Informação acessada em http://www2.aap.org/advocacy/releases/jstmtevc.htm.

[6] Informação acessada em http://aappolicy.aappublications.org/cgi/reprint/pediatrics;108/5/1222.pdf.

[7] Pesquisadores responsáveis pelo estudo: Rowell Huesmann, Jéssica Moise-Titus, Cheryl-Lynn Podolski e Leonard D. Eron.

[8] O documento foi elaborado pelos médicos e pesquisadores Rebecca Collins, Marc. N. Elliott, Sandra H. Berry, Daviv E. Kanouse, Dale Kunkel, Sarah B. Hunter, e Ângela Miu.

[9] Projeto conjunto da Unesco e Universidade de Utrecht.

[10] O estudo foi realizado pelos pesquisadores Victor C. Strasburger e Barbara J. Wilson.

[11] Internationales Zentralinstitut für das Jugend und Bildungsfernsehen.

[12] Pesquisa publicada no livro The reception of soap operas in children’s and adolescents’ everyday life (Instituto Central Internacional para a Juventude e a Televisão Educativa, 2010).

BIBLIOGRAFIA

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media violence. Disponível em: http://aappolicy.aappublications. org/cgi/reprint/pediatrics;108/5/1222.pdf. Acesso em: 06.02.2011.

AMERICAN MEDICAL ASSOCIATION. Physician Guide to Media Violence. Chicago: American Medical Association;1996.

BANDURA, Albert. Aggression: a social learning analysis. N. Jersey: Englewood Clifs, Prentice Hall, 1973.

BJURSTRÖM, Erling. Children and television advertising: a critical study of international research concerning the effects of TV-commercials on children. Stockholm: Swedish Consumer Agency, 1994.

CARLSSON, Ulla e von FEILITZEN, Cecilia (org.). A criança e a violência na mídia. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 1999.

COLLINS, Rebecca L.; ELLIOTT, Marc N., BERRY, Sandra H.; KANOUSE, David E.; KUNKEL, Dale; HUNTER, Sarah B., MIU, Ângela. Watching Sex on Television Predicts Adolescent Initiation of Sexual Behavior. Pediatrics. v. 114, n.3, p. 280-289, September 2004.

DUMOVA, Tatyana, FIORDO, Richard e RENDAHL, Stephen. Mass media, television, and children’s socialization: making peace with TV, in: Communication & Social Change, volume 2, issue 1, June 2008, pp. 174-192.

FEDERAL COMMUNICATIONS COMMISSION. In the matter of violent television programming and its impact on children. Washington: FCC, 2007.

FEDERAL TRADE COMMISSION. Marketing violent entertainment to children: a review of self-regulation and industry practices in the motion picture, music recording & electronic game industries. Washington: FTC, 2000.

FISCH, Shalom M. Children’s learning from television, in: Televizion, 18. Munich: Internationales Zentralinstitut für das Jugend und Bildungsfernsehen, 2005/E, pp. 10-15.

GÖTZ, Maya et. al. Gender in children’s television worldwide, in: Televizion – Girls and boys and television: the role of gender, 21. Munich: Internationales Zentralinstitut für das Jugend und Bildungsfernsehen, 2008/E, pp. 4-9.

GÖTZ, Maya. The reception of soap operas in children’s and adolescents’ everyday life. Munich: Internationales Zentralinstitut für das Jugend und Bildungsfernsehen, 2010.

HALL, Philip S. and HALL, Nancy D. Educating oppositional and defiant children. Alexandria: Association for Supervision and Curriculum Development, 2003.

HARGRAVE, Andrea Millwood. How children interpret screen violence. Reino Unido: BBC, BBFC, BSC, ITV, 2003. Disponível em: http://www.ofcom.org.uk/static/archive/bsc/pdfs/research/how%20child.pdf.

HUESMANN, L. Rowell et. al. Longitudinal relations between children’s exposure to TV violence and their aggressive and violent behavior in young adulthood: 1977–1992, in: Developmental Psychology, Vol. 39, No. 2, 2003.

INSTITUTO ALANA. Perguntas e Respostas. Disponível em: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Comunicacao.aspx?page=1&v=4. Acesso em: 03.01.2012.

LIVINGSTONE, Sonia and HARGRAVE, Andrea Millwood. Harmful to children? Drawing conclusions from empirical research in media effects, in: CARLSSON, Ulla (ed.) – Regulation, awareness, empowerment: young people and harmful media content in the digital age. Göteborg: The International Clearing House on Children, Youth and Media, 2006, pp. 21-48.

MEDIABOOK 2011. Hábitos da Mídia e Investimento Publicitário em 2010. São Paulo: Ibope, 2010.

PEREIRA JÚNIOR, Antonio Jorge. Direito de formação da criança e do adolescente em face da TV comercial aberta no Brasil: o exercício do poder-dever de educar diante da programação televisiva. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Direito, 2006.

POSTMAN, Neil. The disappearance of childhood. New York: Vintage Books, 1994.

STRASBURGER, Victor C. and WILSON, Barbara J. Children, adolescents & the media. Thousand Oaks: Sage Publications, 2002.

THORFINN, Helena. Children, ethics, media. Stockholm: Save the Children Sweden, 2002.

VIVARTA, Veet (ed.) e CANELA, Guilherme (coord.). Classificação indicativa: construindo a cidadania na tela da tevê. Brasília: ANDI, Secretaria Nacional de Justiça, 2006.

…………………………………………..

ANDI – Comunicação e Direitos
SDS, Ed. Boulevard Center
Bloco A Sala 101
70.391-900 – Brasília – DF
Telefone: (61) 2102.6551
andi@andi.org.br
http://www.andi.org.br

Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Rua Rego Freitas, 454 – Cj 92,
9° andar – República
01220-010 – São Paulo – SP
Telefone: (11) 3877.0824
intervozes@intervozes.org.br
http://www.intervozes.org.br

log_pir_47

.

 Gostou? Então Curta nossa página no Facebook.

eu_47 Seja amigo do autor do site no Facebook, e esteja sempre antenado em assuntos interessantes como este.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s