Afinal, o que são demônios?

Pressuposto

A respeito de demonologia, secularmente usou-se a Bíblia como principal argumentação, quase exclusiva.

Ora, é tema teológico ou é tema científico? Pertence à ciência o estudo das realidades observáveis do nosso mundo. E deduzíveis da observação (filosofia). A Bíblia é um livro de doutrina sobrenatural, inobservável, revelada. E da Bíblia podem deduzir-se outras verdades (Teologia). Não há direito a invocar a Bíblia em ciência, como a ciência não pode discutir Doutrina sobrenatural. A Igreja Católica e Denominações Protestantes, o Islã, as seitas religiosas, como tais, não têm a última palavra em ciência, nem sequer a primeira. E o conjunto dos ramos da ciência que estuda fatos incomuns, relacionados com o homem, é a Parapsicologia. Teologia e ciência tratam de temas diferentes (Falo inclusive como doutor em Teologia).

Isto pressuposto, em demonologia de que se trata? É Doutrina sobrenatural, inobservável, revelada, ou trata-se de cultura e interpretação de fatos do nosso mundo?

Naquele pressuposto muito, muito, muitíssimo deveríamos insistir para evitar tantos erros acumulados em demonologia…, por culpa de teólogos, padres, pastores, etc., inclusive santos e pretendidas revelações particulares (tema também muito importante que amplamente deveremos analisar em outra oportunidade).

DEMÔNIO

Hoje sob o termo geral demonologia tem-se embutido uma amálgama completamente heterogênea, misturando ou identificando conceitos na realidade totalmente incompatíveis.

Antigo Testamento. Uma primeira constatação é que o termo demônio (ou um eqüivalente hebraico para traduzir exatamente o termo grego daimónion e daimónia (ou daímon e daímones) tão freqüente, como veremos, no Novo Testamento apesar de ser tão curto, não aparece nunca nos originais do Antigo Testamento apesar de ser tão comprido. A palavra demônio no Antigo Testamento é só fruto de traduções posteriores.

Ídolos. Os sátiros (espécie mitológica de bode), “seres peludos” descritos por Isaías, inspirado nas divindades mesopotâmicas, são convertidos na tradução oficial, (chamado de Setenta), em demônios. Dançariam com sereias nas ruínas da Babilônia (Is 13,21).

Também em outras oportunidades os ídolos são traduzem por demônios (Isaías 65,3; Dt 32,17; Sl 106,36ss).

E quando Isaías (65,11) fala de Gad, o deus arameu da fortuna, os Setenta substituem Gad por demônio.

Esses mesmos sátiros, esses mesmos ídolos, esses mesmos demônios, no Levítico são, na tradução dos Setenta, simplesmente “coisas vãs”! (Lv 17,7). Coisas: Não existem como seres pessoais. Vãs: vazias, inúteis…

Soberania de Deus. Na sua pedagogia, a Bíblia não enfrentou diretamente desde o início os deuses estrangeiros. Utilizou-os, como instrumento de linguagem, para destacar a soberania de Deus. Apresentou-os como subordinados a Jahweh, o Deus dos deuses e das potestades. Aos deuses pagãos chamou-os “Filhos de Deus”, que formavam o conselho de Deus, “Potestades” que ajudavam no governo do universo. E inclusive os organizou hierarquicamente (Dn 10,13) -como em toda milícia bem-estabelecida- sob o comandante supremo, Satã (Zc 3,1-2).

Mas a manifesta semelhança com a mitologia pagã poderia induzir o povo judeu ao politeísmo. Aparecem então os Profetas lembrando que só há um Deus.

Os profetas tiram da mitologia e cultura da época todo traço de politeísmo, mas guardam os aspectos compatíveis com o único Deus, Criador e Supremo Governante. Os deuses pagãos, as Potestades e outras criaturas celestes servem para destacar a grandeza do Criador.

Este empréstimo de elementos das religiões pagãs é evidente em várias oportunidades. Por exemplo, no Levítico. O velho costume popular de expiação é aproveitado purificando-o da idolatria: “Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte ‘para Azazel’, será colocado vivo diante de Jahweh, para fazer com ele o rito de expiação, a fim de ser enviado a Azazel, no deserto… Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as faltas dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados (…) e o bode levará sobre si todas as faltas deles para uma região desolada” (Lv 16,10,21s).

O bode não é sacrificado ao demônio Azazel. A ação simbólica de transferir os pecados se faz diante de Jahweh pela mediação do sacerdote Aarão, e o “bode expiatório” indo ao deserto, onde morrerá, simboliza a desaparição dos pecados.

Inexistentes. Mais ainda, Israel logo compreende que Deus não precisa de conselho nem ajuda de ninguém e que os deuses pagãos não passam de absurdas falsidades enquanto não se identifiquem com o próprio Deus único.

Se não são o próprio Jahweh, essas divindades são falsas, inexistentes.

O Salmo 96,5 diz no original hebraico que os deuses dos pagãos são vãos: deuses = élohim, vãos = élilim. Não pode o grego conservar este jogo de palavras. E os Setenta convertem vãos em demônios!

Os demônios são vãos, inexistentes.

No Novo Testamento se recolhe a idéia: São João identifica os deuses pagãos com os demônios, e são seres inertes, meras imagens feitas pelas mãos dos homens: “Obras das suas mãos, para não mais adorar aos demônios, os ídolos de ouro, de prata, de bronze, de pedra e de madeira, que não podem ver, nem ouvir ou andar” (Ap 9,20).

E São Paulo também identifica deuses pagãos e demônios, e igualmente como vãos, nada, inexistentes: “Aquilo que os gentios imolam, eles o imolam aos demônios (…). Que quero dizer com isto? (…) Que os ídolos (os demônios) mesmos sejam alguma coisa? Não!” (1Cor 10,19-20).

Influencias pagãs. A antiquíssima demonologia-divindades da literatura suméria, os perniciosos deuses-demônios chamados udug, e a demonologia acádia influenciaram os hebreus do Antigo Testamento, e através dos caldeus penetraram o mundo grego e depois o romano.

Pouco antes de Cristo, a influência volta aos judeus, através da cultura grega, resultante da dominação romana. Dois séculos antes de Cristo e no próprio século 1º d.C., a demonologia judaica manifesta reflexos da demonologia mesopotâmica e grego-romana.

Demônios e demônio são as traduções vernáculas para os termos daímones no plural e daímon no singular na versão dos Setenta. Tenhamos em conta que esta tradução foi feita precisamente nesta época neo-testamentária. Ora, na literatura grega e na época helenística, daímon e daímones significam deus e deuses: divindades de grau inferior.
Os judeus na época neo-testamentária, também adotaram esta denominação. Flávio Josefo, o historiador judeu que escrevia no século primeiro, várias vezes emprega o termo daímones como sinônimo de deuses. Levemos em conta que o todo o Novo Testamento foi escrito em grego.

O termo daímon procede de daiomai, que significa distribuir: eram os deuses que distribuíam os bens e os castigos aos homens.

Neste mesmo sentido, os pagãos usam o termo daímones com referência à pregação de São Paulo: “Dir-se-ia um pregador de divindades (daímones) exóticas, porque ele anunciava Jesus e a Ressurreição” At 17,18). Os que escutavam Paulo usaram o termo daímones no plural porque acreditavam que Jesus era anunciado como um deus e a Ressurreição como uma deusa.

Elaboração do animismo. Zoroastro ou Zaratustra, o mais antigo fundador conhecido de religião, ensina que Alhura Mazda, o Deus Supremo, serve-se dos chamados “santos imortais”: são divindades inferiores, pois são concebidas como irradiações da natureza divina. Alhura Mazda não governa diretamente o mundo, serve-se para isso dos imortais, potestades ou daímones.

Na mais antiga mentalidade todas as manifestações da natureza, que o homem primitivo considerava superiores a ele, eram concebidas como dotadas de alma. Esses seres animados, espíritos bons ou maus, eram os responsáveis pelos acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis.

Com o tempo, o animismo dos povos primitivos foi se fazendo mais elaborado e complexo. É substituído por potestades, ou divindades inferiores, que como intermediários governam a humanidade e o mundo. Os próprios intermediários – divindades inferiores-, se multiplicam numa subordinação hierárquica mais ou menos extensa.

Elaborado ou primitivo conserva-se o animismo nas tradições de muitos povos africanos. De lá se ramificou principalmente pelos chamados cultos afro-brasileiros e de vários países latino-americanos.

O judaísmo num começo não se opôs ao animismo, mas o disciplinou, a fim de acomodá-lo às suas próprias exigências doutrinais.

Por exemplo, o animismo universal considerava que os rios e os vaus tinham alma. Depois, pensou que havia neles um deus. Eram daímones. Para atravessar um rio, primeiro era preciso aplacá-lo com oferendas e dádivas.

Lê-se na Bíblia: Jacó “se levantou, tomou suas duas mulheres, suas duas servas, seus onze filhos e passou o vau do Jaboc. Ele os tomou e os fez passar a torrente e fez passar também tudo o que possuía. E Jacó ficou só”.

Mas não aplacara o deus torrente! Teria portanto de ser castigado: “E alguém lutou com ele até surgir a aurora. Vendo que não o dominava, tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele”.

Com a aurora vem um daímon mais poderoso, que afugenta as divindades noturnas. Para isso, o deus da torrente disse: “Deixa-me ir, pois já rompeu o dia”. Mas Jacó respondeu: “Eu não te deixarei se não me abençoares”.

Faz parte também do animismo universal atribuir força mágica aos nomes. O Gênesis acomoda tal crença, fazendo intervir a Divina Providência nos nomes:

“Ele lhe perguntou: ‘Qual é teu nome?’ -‘Jacó’, respondeu. Ele retomou: ‘Não te chamarás mais Jacó, mas Israel (Deus forte, ou algum significado eqüivalente), porque foste forte contra Deus e contra os homens, e tu prevaleceste’. Jacó fez esta pergunta: ‘Revela-me teu nome, por favor’. Mas ele respondeu: ‘Por que perguntas pelo meu nome?’ E ali mesmo o abençoou. Jacó deu a este lugar o nome de Fanuel ‘porque -disse- eu vi Deus face a face'” (Gn 32,23-33).

A demonologia de Israel consta de elementos emprestados de todas as civilizações vizinhas. Tais culturas não pertencem ao conteúdo da Revelação! Trata-se de interpretação pagã de realidades do nosso mundo. Pertence à ciência. A Bíblia não é um livro de ciencia. Os elementos da natureza não são deuses. Estes daímones não existem. Só metaforicamente se substituem, ou identificam, esses demônios pelo verdadeiro e único Deus.

Novo Testamento. Sob diversos nomes alude 73 vezes ao que comumente hoje se chama demônio. O Novo Testamento usa, além de daimónion, os nomes: “Diabo e seus anjos” (Mt 25,41), “espíritos imundos” (Mt 10,1), “espírito impuro” (Mc 1,23), etc.

Demônio e os outros termos se usam indistintamente. No singular ou no plural. Assim, por exemplo, a mesma pessoa que, segundo Marcos (5,2), é possuída por um espírito impuro, no singular, pouco depois no mesmo Marcos (v. 13) está possuída por espíritos imundos, no plural. E segundo Lucas (8,27) essa mesma pessoa está possuída por demônios, no plural; mas imediatamente, no mesmo Evangelho de Lucas (v. 29) Jesus identifica esses demônios como um espírito impuro, no singular; e no versículo seguinte (30), Lucas diz que são muitos demônios

No apóstolo São Paulo. Paulo usa a linguagem e as imagens próprias da cultura judaica da sua época. Os “espíritos do astral” e outros demônios-divindades, originariamente do Oriente, foram convertidos pelos judeus em “armadas celestes” (Sabaoth). Jahweh é o Deus dos Sabaoth, Deus dos exércitos, ou em diversas passagens da tradução dos Setenta, “Deus das Potestades” (cf. por exemplo, Sl 80,5).

Paulo, pela sua cultura judaica, utilizou como comparação o mito de que Deus delegou o governo do mundo às Potestades e Principados (Gl 3,19; Hb 2,2; 1Cor 6,3 etc.) São os demônios. “O nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,11-12).

As Potestades ou demônios estão a serviço de Deus; são dignos de respeito (1Cor 11,10) e obediência (talvez também Rm 13,1-6); são os instrumentos de uma correção salutar por meio de doenças (1Cor 5,5); o próprio Paulo é deixado a Satã (2Cor 12,7); serão julgados (1 Cor 6,3) e podem ser castigados se não cumpriram bem a sua função. Em todo caso os demônios culpáveis terão de reconhecer o senhorio universal de Cristo (Fl 2,10-11; Cl 1,15-20; Ef 3,10; Cl 2,15).

Paralelamente à mentalidade mítica judaica, que concebia os lugares áridos como morada preferida dos baixos demônios, aparecem em Paulo as altas potestades habituando as camadas mais altas da atmosfera: “Príncipe do poder do ar” (Ef 2,2); “Espíritos do mal que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,12).

Tudo influencia os primeiros cristãos. Se os povos orientais influenciaram muito nos judeus e, em seqüência, em São Paulo, influíram mais ainda na demonologia dos primeiros cristãos.

São Justino, São Clemente de Alexandria etc. refletem claramente a mentalidade demonológica dos egípcios. Orígenes, no começo do século III, teve uma influência decisiva na demonologia cristã que lamentavelmente permanece até hoje.

Os demônios maus. O daímon, demônio, divindade inferior, vai deixar de ser um intermediário entre Deus e as criaturas, para o bem ou para o mal, e converte-se num ser unicamente mau. Para São Paulo, apostatar da fé é eqüivalente a escutar os ensinamentos dos demônios-deuses pagãos (1 Tm 4,1); a idolatria eqüivale a misturar-se com demônios-ídolos, que sustentam o paganismo (1 Cor 10,20ss). E assim passou-se a considerar os demônios como seres maus e desprezíveis, nada semelhantes a potestades que colaboram com Deus.

Isso já aparece nos últimos escritos do Novo Testamento: “Caiu, caiu Babilônia, a Grande, tornou-se moradia de demônios, abrigo de todo tipo de espíritos impuros, abrigo de todo tipo de aves impuras e repelentes” (Ap 18,2); “Nisto vi que da boca do Dragão (… ) saíram três espíritos impuros, como sapos” (Ap 16,13).

Gradualmente o abismo entre divindades e demônios foi-se alargando. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islã só vêem hoje nos demônios forças inimigas de Deus e dos homens.

OUTROS NOMES NA BÍBLIA

A SERPENTE

A primeira vez que um demônio apareceria na Bíblia seria a Serpente do Paraíso.

Uma resposta da Pontifícia Comissão Bíblica, em 30 de junho de 1909, declarava ser uma verdade inseparável dos fundamentos da fé cristã que o pecado de Adão foi por persuasão do Diabo sob aparência de serpente (“Diabolo sub serpentis specie suasore”). Isto estaria afirmado pelo Livro da Sabedoria e pelo Novo Testamento!

Esta resposta da Comissão tinha valor normativo. Meramente. Mas assim a interpretação comum passou a ser que a Serpente representa Satã. A Serpente tentadora que aparece em Gn 3, poderá aplicar-se, por elucubrações de teólogos, a qualquer conceito de demônio. Elucubrações. Na realidade, no episódio da tentação de Adão e Eva, nada se diz sobre o nome, natureza ou origem do tentador. O texto não oferece o menor motivo para identificar a Serpente) com Satanás, ou qualquer outra espécie de demônios.

O que importa é ver o que a ciência descobriu a respeito. A identificação serpente-Satã “apoia-se” numa tardia interpretação judaica que penetrou e se manteve até nossos dias entre os cristãos. De modo algum responde aos princípios da interpretação histórico-científica. Na linguagem figurada na narração do pecado original, a Serpente não é símbolo ou imagem do Tentador, mas da tentação. Esta acontece no coração do homem, embora dado o estilo simbolizante da narração, foi exteriorizada. O narrador atribui à Serpente a função de tentadora, devido à proverbial astúcia deste animal.

Na literatura religiosa da Índia há uma lenda com traços marcadamente semelhantes à do Gênesis. O homem vivia só. Inicialmente feliz e sem preocupações. Uma deusa, uma divindade, daímon, chamada Mara, apresentou a mulher ao homem. Mara incita ao prazer sexual. Considera-se o sexo como algo pecaminoso,.tabu. Só depois de conhecer sexualmente a mulher é que o homem descobre a solidão…

A lenda indiana apresenta um demônio tentador. Os melhores interpretes indianos suprimem o tentador.

A lenda indiana é um pouco anterior ao século VI a, C., quando se escreveu o capítulo sexto do Gênesis. O Gênesis purifica a lenda, mas é evidente a influência indiana no ambiente judaico. Era a mentalidade de todo Oriente.

A Serpente no Gênesis significa o próprio instinto sexual. Tentação sexual sem tentador. A serpente não passa de representação, personificação ou símbolo precisamente sexual.

Lamentavelmente essa interpretação sexual do pecado do Paraíso não é a mais comum entre os teólogos cristãos. Foi o belga Coppens, com conhecimentos científicos, isto é, parapsicológicos, o primeiro teólogo católico moderno que interpretou a serpente como símbolo sexual. Depois muitos exegetas católicos concordaram com Coppens: à luz da ciencia, à luz da pesquisa histórica, a descrição bíblica pretendia condenar os cultos cananeus da fertilidade.

Em toda a descrição do pecado no Paraíso respira-se uma atmosfera sexual. Adão e Eva teriam feito uma espécie de culto da deusa, daímos, Fertilidade, culto conhecido sem dúvida pelo autor sagrado porque muito praticado pelos pagãos da época. Tem fundamento muito valioso na antigüidade judaica a interpretação sexual da Serpente.

Filon de Alexandria, contemporâneo de Cristo, e que teve grande influência nos primeiros escritores cristãos, foi o principal defensor da teoria alegórica. A Serpente é considerada como mera imagem dos desejos e prazeres sexuais. Não é Satã nem nenhum outro tipo de demônio; é a hedoné, sensualidade humana.

A serpente é arquétipo no inconsciente do homem, simbolizando em todas as épocas e povos a vida, a eterna juventude e especialmente, a fecundidade e libido. Os tólogos deveriam levar em conta esta descoberta da Psicologia Profunda.

A serpente também poderia representar a idolatria, pois representa os deuses pagãos dos povos vizinhos de Israel. Muitos israelitas, traindo sua religião, chegaram a adorar a serpente como uma divindade que podia levá-los à salvação.

Evidentemente a teoria “ídolo” e a teoria “sexo” se identificam. A Serpente era adorada nos cultos da fertilidade precisamente por ser deusa do sexo e dos prazeres sexuais.

Em todo caso, o Paraíso terrestre não pode ser tomado no sentido literal histórico. Todo o conjunto referente a Adão e Eva: a quem pertence diretamente o tema? De que se trata? O aspecto origem da vida humana no nosso mundo perceptível pertence à ciência. A ciência diz que os primeiros homens certamente não foram super-homens vivendo num paraíso de delícias, senão possivelmente a coroação evolutiva dos primatas: Pithecanthopus Erectus, Homo de Java, de Neanderthal, de Cro-magnon etc. Os primeiro homens certamente viviam nas cavernas quase como animais. E ponto final. Não pertence ao teólogo como tal opinar nem contra nem a favor sobre o fato histórico, científico… Ao teólogo corresponde reconhecer o ditame da ciência. Como aceita o teólogo-cientista moderno Wildiers, “a evolução histórica da humanidade, tal como nós a conhecemos, não oferece nenhum resquício para a figura de Adão, tal como a tinha bosquejado a teologia secular”.

Aliás, não é de hoje que se considera o capítulo 3 do Gênesis como transcrevendo não uma história senão uma parábola educativa. Uma parábola para ensinar um ponto de vista explicativo do problema do mal. Neste outro aspecto, o doutrinal, o teólogo procurará unicamente o sentido religioso que se encerra nas expressões bíblicas em questão. Não se pode argumentar em favor da atividade de Satã ou demônios com um fato que não aconteceu.

Inseparável dos fundamentos da fé cristã? A Pontifícia Comissão Bíblica afirma que no Livro da Sabedoria e no Novo Testamento se define que a Serpente do Paraíso é Satã.

Vejamos. Comecemos pelo Novo Testamento. O Apocalipse (12,9 e 20,2) identifica “o grande Dragão, a antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás” com o Império Romano e os perseguidores dos cristãos. Em outro artigo insistirei nesta interpretação.

Em mais outra oportunidade -e só em mais uma- o Novo Testamento pareceria identificar a Serpente com Satã. No Evangelho de São João é manifesta metáfora. Contrapõem-se os justos aos pecadores, a verdade à mentira, o caminho da salvação ao da morte eterna. Não se está ensinando doutrina a respeito nem da Serpente nem de Satãnás: “Vós sois do Diabo, vosso pai. E quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44).

Passemos ao texto do Livro da Sabedoria. Foi muito invocado e discutido. Mas na realidade é indiscutível que não encerra nenhuma alusão à tentação do Paraíso, à morte física que teria decorrido do primeiro pecado, senão que se trata do castigo dos ímpios na eternidade: “Não esperam o prêmio pela santidade, não crêem na recompensa das vidas puras… Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade. É por inveja do Satã que a morte entrou no mundo. Prová-la-ão quantos são do seu partido” (Sb 2,22-24).

O texto do Livro da Sabedoria não se pode referir à morte física, que os ímpios conhecem e desejam para os justos (2,20). Evidentemente não a desejam para si próprios (2,6), proclamam exclusivamente o desfrute desta vida (2,1-20). Todo o texto e contexto (cf. também I,16,12s) mostra que o erro dos ímpios é acreditar que estão na vida, mas encontram a morte no outro mundo, enquanto que os justos morrendo para este mundo na realidade encontram a vida no outro (3,1-3).

(Compare-se com Rm 5,12: “Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte”. A morte espiritual).

Não é nada provável que o Livro da Sabedoria aludisse ao capítulo 3 do Gênesis, porque o recurso ao passado não é do estilo do Antigo Testamento onde só em mais uma oportunidade se faz (Eclo 25,24). E mesmo que admitíssemos que há uma alusão ao Gênesis, seria mais provável a alusão à morte pelo fraticídio de Caim (Gn 4,1-6), como já defenderam alguns teólogos à luz da ciência (destaquemos Bois no século XIX, Gregg no começo do século XX, e recentemente Wright ).

Além do mais esta referência a Satã (“Por inveja de Satã”) é tão desvinculada de todo o Livro da Sabedoria, que é lícito suspeitar que seja um comentário introduzido posteriormente.

O texto alude mais provavelmente às invejas entre deuses pagãos, não ao Paraíso. O autor – certamente um judeu helenizado, de Alexandria- batiza a inveja dos deuses substituindo – a pela inveja de Satã, porque os mitos de demônios naquela época, nos séculos II e I a.C., infestavam os livros apócrifos e a mentalidade judaica.

ASMODEU

É o segundo demônio que aparece na Bíblia. Reflete-se também no Livro de Tobias o mito de relacionamento amoroso de mulheres da nossa Terra com deuses ou daímones pagãos.

Manifestamente não é um livro histórico. Era um romance de “utilidade pública” e “religiosa”. Os judeus, após o exílio, voltaram cheios de pânico pelas idéias mágicas e mitos dos primitivos povos pagãos.

O autor sagrado não visa confirmar, nem sequer discutir, demonologia ou poderes reais ou imaginários da magia. Com essa ficção, falando do daímon Asmodeu que por ciume teria matado sete maridos de Sara (Tb 3,8; 6,14s), apresentando Tobias que teria usado defumadores para expulsar o daímon (Tb 6,17s), descrevendo que o anjo Rafael acorrenta Asmodeu no deserto do Egito (Tb 8,3) etc., só visa reforçar a onipotência divina sobre toda e qualquer possível ou imaginária magia ou divindade pagã (Tb 6,14-22).

Asmodeu é certamente emprestado do parsismo, a mitologia do Irã. Zaratustra, século VI antes de Cristo, fala freqüentemente de Aesma Deva, a divindade Ira ou Fúria, “a mais perigosa das divindades”. Foi trasformado na Bíblia em “Asmodeu, o mais perigoso dos demônios” (Tb 3,8). Foi recebido em sincretismo com o anjo destrutor de uma época bíblica anterior (2Sm 24,16; Sb 18,25) pela semelhança de Aesma com a raiz hebraica schamad = perder, destruir.

A idéia de deuses que se apaixonam de mulheres de nosso mundo existe em muitas mitologias e se perpetua no esoterismo das gerações posteriores, até hoje.

Santo Agostinho, na sua época pouco sabendo do que hoje se chama Parapsicologia, apesar do seu talento extraordinário, chegará a dizer que negar a existência de demônios machos, os célebres íncubos, que com mulheres humanas geram “filhos dos demônios”, seria notoriamente imprudente, pois é um fato muito bem estabelecido (?!).

Sto. Tomás de Aquino acreditava que “um e mesmo demônio, fazendo de súcubo -fêmea- para o varão, recebe o sémen deste e o passa à mulher, fazendo-se íncubo para ela”.

Sto. Agostinho e Sto. Tomás, e quantos mais!, contraditoriamente descreviam os íncubos e súcubos como anjos rebeldes, demônios, com instintos e possibilidades sexuais, portanto com corpo! Absurdos semelhantes são muito repetidos por toda classe de ocultistas e espíritas… Hoje não faltará muito em aparecer alguém pretendendo fazer um bebê de proveta com sêmen de algum íncubo, e até algum clone do mesmíssimo Diabo! Loucura total.

SATÃ

É provável que haja relação da palavra hebraica Satã com a palavra árabe shaitan, que originalmente -ao que opinam alguns linguistas árabes- significava serpente. Alguns povos vizinhos de Israel representavam seus ídolos sob forma de serpente. Satã, serpente, ídolo seriam sinônimos. A compreensão da Serpente do Paraíso seria assim confirmada deste ponto de vista etimológico.

A conceito de Satã nada tem a ver com o conceito de demônios, os anjos rebeldes, conceito clássico cristão.

Com efeito: em 15 oportunidades aparece o termo Satã no Antigo Testamento. E seis vezes na forma verbal: satanizar. Nunca significa um ser sobrenatural mau:

1) Com referência a Davi diziam os príncipes filisteus: “Não se volte contra nós no combate”. De acordo com o original hebraico seria: “Não se torne Satã nosso no combate” (1 Sm 29,4). Claramente Satã com o significado de pessoa inimiga.

2) Davi aplica o termo Satã aos homens que se opõem à vontade de Deus tentando o rei para que mate o benjaminita que o injuriou. Satã significa a oposição humana a Deus. Pode entender-se como pessoas adversárias do próprio Davi, no sentido de tentadores: “Davi disse: ‘Que tenho eu convosco filhos de Zeruia, para que vos torneis hoje meus adversários? Poderia ser alguém condenado à morte hoje em Israel?'” (2Sm 19,22).

O mesmo significado no Novo Testamento quando Jesus diz a São Pedro: “Afasta-te de Mim, Satanás, porque tuas palavras são palavras humanas e não de acordo com Deus”. Significado de tentação humana.

3) Quando Salomão, após haver vencido duas batalhas afirma que “agora (…) não tenho Satã nem infortúnio”, deve entender-se simplesmente por povo inimigo (1Rs 5,18).

4) Pouco depois, já há dois Satãs para Salomão. A palavra Satã nesta oportunidade aparece três vezes. Satã nas três vezes designa povos inimigos.

(1Rs 11,14.23.25).

5) No primeiro Livro dos Reis (21,13) o termo Satã qualifica duas falsas testemunhas. Atitude em Satã, isto é, acusadores inescrupulosos, inimigos.

6) O Salmo 108 (ou 107),12-13 chama de Satã os inimigos em geral e concretamente o acusador no julgamento.

7) Igualmente Satã é para o salmista, mais uma vez, um acusador no julgamento: “Designa um ímpio contra ele, que um Satã se poste à sua direita” (Sl 109,6).

8) Depois do exílio, Satã personifica o acusador no tribunal divino. Iahweh “me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Iahweh, e Satã que estava de pé à Sua direita para acusá-lo” (Zc 3,1s.). Imagina-se o Supremo Juiz como um rei terreno rodeado de sua corte. Dentre os servidores, um deles tem o cargo de Satã, de promotor. Aqui Satã é um cargo, não uma pessoa. Não é um nome próprio, é um título.

9) O livro de Jó (1,6) refere que um dos Filhos de Deus se apresenta diante do trono de Iahweh. Filhos de Deus são os deuses, como filhos de Israel são os Israelitas. Esse Filho de Deus é Satã, que pede licença para satanizar a Jó. O nome comum Satã representa o cargo de acusador. E durante a narração dos acontecimentos, Satã representa a própria adversidade, a inimizade, a oposição. Mas nem por esse simbolismo se deixa de explicar expressamente que Satã é o próprio Jahweh que permite ou sanciona a adversidade.

Em Jó 1,7; 2,2, Satã diz de si mesmo que vem de percorrer a Terra, essa mesma função que se considera própria de Iahweh, cujos sete olhos “Percorrem toda a Terra” (Zc 4,10b).

No fim da descrição interminável de desgraças, o Livro de Jó tira a máscara de Satã. Continuamente Jó vai ensinando: “Pois sabei que foi Deus que me transtornou, envolvendo-me em suas redes (…) Ele bloqueou meu caminho e não tenho saída, encheu de trevas minhas veredas” (Jó 19,6-8); “Deus abateu-me o ânimo, Shaddai encheu-me de terror” (Jo 23,15). É Deus, “Shaddai que me amargura a alma” (27,1); “Instruir-vos-ei a cerca do poder de Deus, não vos ocultarei os desígnios de Shaddai” (11); “O terror de Deus caiu sobre mim” (31,23). Etc.

E é clarissimo o que em todo o livro pretende-se encutir: “Jahweh o deu, Jahweh o tirou, bendito seja o nome de Jahweh” (1,20).

10) No Eclesiástico, emprega-se a palavra Satã, como inimigo no sentido do próprio instinto quando incita ao pecado: “Quando o ímpio maldiz Satã, ele maldiz a si próprio” (Eclo 21,27).

11) Em Habacuc (2,5), Satã designa a peste. Grande inimiga…

12) No primeiro livro dos Macabeus designa-se com o termo Satã a “gente ímpia” e os “homens perversos” (1Mc, 1,34), no sentido de adversário maléfico. “Aquilo era uma emboscada para o lugar santo, um adversário maléfico para Israel constantemente” (1Mc 1,36).

13) O termo Satã é aplicado ao próprio Iahweh no Livro dos Números: é a oposição feita por Iahweh. O texto diz que o Anjo de Iahweh, isto é, o próprio Iahweh se interpõe em oposição no caminho de Balaão. “Sou Eu que vim contra ti em Satã” (Nm 22,32).

14) Como em Jó e em Números, também nas Crônicas (1Cr 21,1) Satã significa a oposição “feita” (permitida) pelo próprio Deus. “Satã levantou-se contra Israel e induziu Daví a fazer o recenseamento de Israel”.

15) O Livro da Sabedoria foi escrito originariamente em grego, ignoramos qual seria a palavra escolhida pelo autor sagrado se escrevesse em hebraico. O autor utiliza a palavra grega Diábolos, termo com o qual os Setenta freqüentemente traduzem a palavra hebraica  Satã: “É por inveja de Satã que a morte entrou no mundo” (Sb 2,24). Como São Paulo (Rm 5,12) ensina que pelo pecado de Adão entrou a morte no mundo e o pecado pela tentação da serpente, surgiu o erro de identificar Satã com a serpente do Paraíso. Já estudamos o significado da Serpente e já analisamos o correspondente texto do Livro da Sabedoria.

Conclusão

Portanto, na Bíblia Satã nunca designa um ser que possamos considerar um demônio no sentido, errado, tão difundido entre os cristãos de um ser sobre-humano e perverso. Não significa um ser mas sim a própria inimizade com Deus, o que afasta o homem de Deus.

A palavra Satã, na sua forma verbal, stn em hebraico, aparece seis vezes no Antigo Testamento (Zc 3,1; Sl 38,21; Sl 71,13; Sl 109,4; Sl 109,29). Poderíamos traduzi-lo por “satanizar”. Os Setenta geralmente traduzem o verbo stn por endiabállô em grego; caluniar nas línguas vernáculas (e o substantivo Satã os Setenta geralmente o traduzem por Diábolos, que significa caluniador).

BELIAL

Belial (forma hebraica) ou Beliar (forma grega) aparece 27 vezes no Antigo Testamento e uma (2Cor 6,15) no Novo. Delas, 21 vezes forma a expressão “filhos de Belial”, que eqüivale a chamar essas pessoas de “beliais”, qualificativo. Igual expressão aparece em Qumran. Por exemplo: “Deus faz sair aos justos fora da massa dos filhos de Belial (…). Belial intenta derrubar os filhos da luz, os oprime e persegue” (IQS III,24). Contrapõem-se os justos aos injustos, os beliais ou filhos das trevas aos iluminados ou filhos da luz.

Belial era uma divindade cananéia, o daíimon do mundo subterrâneo. No Antigo Testamento, em três (Sl 18,5; Sl 41,9 e 2Sm 22,5) das 27 oportunidades em que a palavra aparece significa esse mundo subterrâneo que a Bíblia utiliza no simbolismo religioso de lugar afastado de Iahweh.

O conceito de Belial tinha tudo para representar a personificação do mal. Esta personificação ocupa um lugar de destaque nos manuscritos do mar Morto: “Deus criou a Belial, o anjo das trevas, o espírito do mal (…). O mundo e os homens estão sob Belial, a quem Deus e os justos odeiam, e ele odeia a Deus e aos justos” (IQS III, 24). “Deus marcou um final para a injustiça. Então Belial e seus anjos (isto é, todos os homens maus), serão submetidos a julgamento” (IQS IV, 18).

MASTEMAH

Era na mitologia de certos povos orientais, o “Príncipe dos espíritos” dos gigantes, ou “Chefe dos demônios”. É às vezes chamado Satã. A palavra Mastemah tem a mesma raiz stn que a palavra Satanás. Também Mastemah significa inimizade.

Mastemah aparece na Bíblia sem nenhuma relação com qualquer ser sobrenatural. No livro do profeta Oséias: “Por causa da gravidade de tua falta, grande é tua hostilidade (mastemah) (…), uma rede está estendida em todos os seus caminhos, há hostilidade (mastemah) na casa do seu Deus” (Os 9,7s.).

O qualificativo ou ofício aplicado ao Chefe dos Demônios era sar hammastemah, conservado em alguns manuscritos etíopes, que significa “chefe da inimizade”. Depois erradamente se abreviou para “chefe Mastemah”, convertendo-se assim o qualificativo em nome próprio.

No conjunto dos escritos de Qumran até agora encontrados aparece o nome de Satã quatro vezes. Não aparece Mastemah como nome próprio do Príncipe dos demônios, mas sim como qualificativo de Belial: Belial, “anjo da inimizade” (mastemah) [IQM (Regra da Guerra) XIII, 11; CD (Documento de Damasco) XVI, 5]; “projetos da inimizade” (mastemah) de Belial (IQM, XIII, 4); “domínio da inimizade” (mastemah) de Belial [IQS (Regra da Comunidade) III, 23].

Como acabamos de ver, Satã, Mastema, Belial, Inimizade… (daí Incredulidade, Impiedade, Trevas, Ídolos, etc.) são sinônimos.

Etimologicamente, Belial significa inútil. Esta é a tradução mais correta da frase do Deuteronômio: “Caso ousas dizer que, numa das cidades que Iahweh teu Deus te dará para aí morar, filhos de Belial, procedentes do teu meio, seduziram os habitantes da sua cidade…” Ao pé da letra: “Homens sem utilidade”, daí “vagabundos”, “maus”.

Para mostrar este simbolismo religioso ver como exemplo a frase de São Paulo: “Não formeis parelha incoerente com os incrédulos. Que afinidade pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Beliar? Que relação entre o fiel e o incrédulo? Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo (2 Cor 6, 14-16).

O DIABO

O termo Satã, e satanizar, tão freqüente no Antigo Testamento, é substituído algumas vezes na tradução grega dos Setenta pelo termo Ho Diábolos (o Diabo), e na forma verbal pelo termo endiabállô (ao pé da letra haveria que traduzi-lo por “endiabrar”). Diabo e Satã, ou Satanás, são sinônimos. O substantivo Satã ou Diabo, além das 15 vezes que aparece no Antigo Testamento e mais 6 vezes na forma verbal, no Novo Testamento Satanás aparece 37 vezes.

Diabo, ou Diábolos, não procede de diáxo (= despedaçar) como afirma a Enciclopédia Britânica, senão de diabállô, isto é, bállô = arrojar, com o prefixo diá = através de: Expulsar através de.

O verbo diabállô e o substantivo diábolos passaram a significar, substituindo o efeito pela causa, a ação e a pessoa que apresenta cargos com intento hostil, falsa ou caluniosamente (para “arrojar”, “expulsar”, “derrubar” alguém). Hostilidade, é este o significado que corresponde à palavra hebraica Satã. A escolha da palavra Diabo para substituir a palavra Satã na tradução dos Setenta é alusão à lenda da queda dos anjos rebeldes.

Transformação do mito de guerra de deuses. Que cristão não aprendeu que antes da criação do mundo houve uma guerra de anjos rebeldes, capitaneados por Lúcifer, sendo derrotados pelos anjos bons, capitaneados por São Miguel, e sendo então os rebeldes arrojados do Céu? Milton escreveu um drama impressionante no seu Paraíso Perdido. Tudo lenda.

Na mitologia greco-romana, havia uma multidão de deuses que lutavam entre si. Inclusive o terrível Titã chamado Tifão lutou encarniçadamente contra seu pai e deus supremo, Júpiter. Expulso do Olimpo, a morada dos deuses, Tifão como todos os deuses rebeldes moram nos infernos, nos abismos, na escuridão. De lá partem para desencadear toda classe de males contra a humanidade.

No judaísmo tardio circulavam lendas a esse respeito. A unidade psicológica dos judeus através dos séculos e superando tantas dificuldades, em parte deve-se às suas lendas. A lenda da queda dos anjos foi introduzida pelo Livro de Noé, perdido. Este livro de lendas, para dar prestigio à coletânea, foi atribuído (recursos análogos são freqüentes) nada menos que ao Patriarca Noé. Na realidade é do século II a.C.

Os judeus estavam rodeados de povos cujas mitologias falavam de guerras de deuses. Mas els pensaram: Como pode haver guerras de deuses, se só existe um? E o Livro de Noé transformou a guerra de deuses em guerra de anjos.

Livro de Henoc. O mito da guerra dos deuses, diretamente emprestado dos cananeus, concretizou-se numa outra coletânea de lendas, o Livro de Henoc, descoberto na Etiópia em 1773. Consta de 108 capítulos, redigidos originariamente em aramaico, e talvez em parte em hebraico, mas na época do descobrimento só se encontraram cópias em etíope. Encontraram-se nada menos que 26 cópias, porque a Igreja etíope antiga considerava, erradamente, esse apócrifo como canônico, como pertencente à Bíblia. É conhecido como Primeiro Livro de Henoc (1Hn) ou então como Henoc Etíope (Hn-et). Hoje já possuímos fragmentos em hebraico e mormente em aramaico, encontrados em Qumran, nas cavernas dos antigos essênios junto ao Mar Morto. Não tem unidade. É mais uma coleção de peças de diversas origens e antigüidades, compiladas entre o século II e primeiras décadas do século I a.C.

Segundo os primeiros 36 capítulos do Livro de Henoc, 200 anjos guardiães, sob o comando de Semyasa decidiram engendrar filhos com as mulheres da nossa Terra. Cada guardião comportadamente tomou uma só esposa. Essas duzentas mulheres engendraram 3.000 gigantes (!).

Segundo o Livro de Henoc, os anjos guardiães teriam ensinado aos terráqueos a fabricação de armas, a produção de cosméticos, a adivinhação pelos astros e a feitiçaria. Se ensinaram, é porque conheciam e tinham. Ensinaram o que eles tinham nos seus planetas. Ora, que sentido teriam esses conhecimentos no conceito tradicional de anjos?! Para os partidários dos OVNIs, esses guardiães seriam ETs que tinham por missão velar o comprimento da lei nos diversos planetas habitados.

Mas aconteceu que os gigantes começaram a devorar homens… E os homens, aterrados, clamaram a Jahweh. O Altíssimo envia então o anjo Uriel para prevenir Noé do dilúvio com que planeja matar os gigantes; e para reprimir Semyasa, Azazel e demais anjos guardiães, envia Miguel.

Os guardiães – ou extraterestres – rebeldes, organizaram-se militarmente com um chefe para cada dezena. Mais adiante, nos capítulos 37-71, o Livro de Henoc vai apresentar repetidamente Satã como chefe dos guardiães perversos. Ou vários Satãs, vários chefes. Esta última parte do Livro de Henoc é já bem próxima da época de Cristo, certamente não mais distante Dele que os primeiros decênios antes de Cristo.

As milícias de guardiães e seus chefes foram vencidos pelas milícias de Miguel, e ficaram acorrentados em grutas subterrâneas durante 70 gerações. Setenta gerações em ocultismo significa por tempo incalculável. Expressamente se diz: “até o dia do Grande Julgamento (até o fim do mundo), quando serão lançados, junto com os homens maus, às masmorras de fogo”. Um pouco de humorismo: Estes demônios não molestam mais!

Os espíritos dos gigantes mortos no dilúvio, porém, segundo o Livro de Henoc, percorrem continuamente toda a Terra, fazendo mal aos homens. Também estes demônios serão condenados, mas só no dia do Juízo Final.

O Primeiro Livro de Henoc alcançou grande prestígio no judaísmo da época de Cristo. Era conhecido pelos escritores do Novo Testamento, e muitos Santos Padres e Escritores Eclesiásticos, erradamente o tinham como inspirado tal como os livros canônicos da Bíblia.

Livro dos Segredos de Henoc. Recentemente apareceu outro livro com título parecido, o Livro dos Segredos de Henoc, 2º Livro de Henoc (2Hn), ou Henoc eslavo (Hn-esl) porque só numa versão eslava chegou completa até nós. Contra o que muitos acreditavam até há pouco tempo, foi demonstrado que é uma compilação de lendas feita na Idade Média. Desprezemos o absurdo de viagens cósmicas (ou extraterrestes) de Jesus-Cristo. Destaquemos unicamente a repetição da lenda de gigantes: Jesus teria encontrado guardiães, prisioneiros por terem mantido relações sexuais com mulheres da nossa Terra, induzidos por Satanás.

Livro dos Jubileus. Também outro apócrifo, o Livro dos Jubileus (Jb), fala dos gigantes. Jb começou a ser escrito no século II a. C., embora um pouco posterior ao principal de 1Hn, chegando a ser concluído talvez até no século II d. C. Apresenta a história bíblica do Gênesis e dos 12 primeiros capítulos do Êxodo segundo a mentalidade do judaísmo contemporâneo de Cristo e com as lendas judaicas ou midrashim. Deve seu nome ao fato de suas lendas serem apresentadas em períodos jubilares de 7 em 7 anos. O Livro dos Jubileus repete a lenda de que os anjos-guardiães, ou ETs, vieram ao nosso mundo a ensinar aos homens, mas logo se apaixonaram pelas mulheres da Terra…

Quase todas as fontes desta lenda falam em relações sexuais com mulheres, não de varões da Terra com guardiães femininos. As viagens interplanetárias só seriam feitas por astronautas varões. O machismo, pelo visto, tão arraigado entre os judeus, teria bases cósmicas!

Em Jb não se fala expressamente da origem dos daímones maus ou demônios atormentadores, mas claramente se dá por suposto em todo o livro que são os espíritos dos gigantes mortos, como afirmava o Primeiro Livro de Henoc. Noé suplica a Deus que reprima aos daímones, encerrando-os nas masmorras do castigo, mas “o príncipe dos espíritos”, Mastema, consegue de Deus que uma décima parte dos demônios continue na terra pondo à prova os homens. Mais um pouco de humorismo: Só uma décima parte! De 3.000 gigantes a imensa maioria foi acorrentada nas masmorras até o fim do mundo. Alguns, quantos?, foram mortos, e só uma décima parte dos espíritos destes mortos… Bom, a coisa não ficou tão grave!

Queda de anjos? A origem lendária da queda de anjos rebeldes fica assim muito clara. Igualmente fica clara a origem da crença em demônios que atormentam os homens. Depois os cristãos simplificaram e concretizaram. Simplificaram a estritamente isso, guerra de anjos; e concretizaram dizendo que os anjos rebeldes foram capitaneados por Lúcifer, e os bons capitaneados por São Miguel. Tiraram todos os outros enfeites mitológicos.

Mas nenhum texto bíblico pode com direito ser invocado. No início do Antigo Testamento, no Gênesis, alude-se ao mito dos pagãos a respeito de deuses que se apaixonaram de mulheres humanas: “Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e tomaram como esposas todas as que mais lhes agradavam. Quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim (= gigantes) habitavam sobre a Terra; estes homens foram os heróis dos tempos antigos” (Gn 6, 2.4).

Na interpretação ocultista da Bíblia, os rabinos muito fantasiaram sobre as relações sexuais dos “filhos de Deus” com as mulheres humanas. Escrevem no Talmud: Já desde Adão, que “todos estes anos engendrou espíritos, demônios e fantasmas noturnos; pois se diz: ‘quando Adão tinha 130 anos engendrou à sua imagem e semelhança’, o que quer dizer que antes tinha engendrado seres que não eram à sua imagem e semelhança”. Mais ainda, no Talmud chegam a sugerir também que guardiães femininos tiveram relações sexuais com varões humanos. Durante todo esse tempo, da mesma maneira que Adão fecundava guardiães femininos, também Eva teria engendrado de guardiães masculinos, dando-lhes abundante descendência (Rabba 24,6).

A intenção desmitizante. A intenção de “batizar” a lenda aparece clara nesse texto bíblico. O Gênesis diz que os Nefilim, os gigantes, “estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos” (Gn 6,4). A Bíblia está claramente ensinando que os gigantes, gerados por anjos guardiões ou deuses pagãos, astronautas vindos de outros planetas, tudo isso na realidade são lendas a respeito de meros homens, heróis miticamente engrandecidos.

Igualmente a expressão Filhos de Deus significa originariamente deuses, como filhos dos homens simplesmente significa homens. Igualmente filhas dos homens significa mulheres. (Como posteriormente aquela expressão típica de Cristo: filho do homem; quer ressaltar que Ele, apesar da Sua divindade, não deixa de ser plenamente também homem).

O Diabo ou Satã é um dos “filhos de Deus”, um dos deuses de tantos que os pagãos cultuavam. Na Bíblia está escrito: “No dia em que os filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satanás” (Jó 1,6). E logo depois: “Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Iahweh, entre eles veio também Satanás” (Jó 2,1).

A expressão “filhos de Deus” logo vai ser modificada, ressaltando a desmitização. A expressão original antiga num dos primeiros livros da Bíblia diz: “Quando o Altíssimo repartia as nações (…) fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Deus” (Dt 32,8). Significaria “conforme o número dos deuses”. Esta expressão, “Filhos de Deus”, é de fato a expressão original, conforme acaba de confirmar um fragmento de Qumran. Os Setenta, porém, mitigaram a expressão, traduzindo: “Conforme o número dos anjos de Deus”. E o significado verdadeiro desse texto da Bíblia o dá bem a entender a edição hebraica dos massoretas, comum entre os antigos judeus: “Conforme o número dos filhos de Israel”, isto é, simplesmente “segundo o número de pessoas”.

Na realidade é que a Bíblia, como Revelação doutrinal, vai combatendo o politeísmo pedagogicamente, aos poucos. Primeiro exalta a figura de Iahweh sobre os deuses ou “filhos de Deus”, Iahweh é o “Deus dos deuses”, “Levanta-se Iahweh no meio do conselho dos deuses”, etc. Depois virão os profetas insistindo em que só há um único Deus.

Embora sem deixar o estilo exagerado e metafórico, tipicamente oriental (Deus arrependendo-se?), bem claro fica na Bíblia que Iahweh não se “irritou” contra os deuses e semi-deuses, guardiães, gigantes…: tudo isso não passa de mitos. Iahwéh se “irritou” contra os homens: “Meu espírito não se responsabilizará eternamente pelo homem, pois ele é carne (…). Iahweh arrependeu-se de ter feito o homem sobre a Terra (…). E disse Iahweh: ‘Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei (…), porque me arrependo de tê-los feito´” (Gn 6,3,6s).

O Livro dos Jubileus corrige com lógica 1Hn, mostrando, expressamente, que se os culpados foram os anjos guardiões e os gigantes, o dilúvio não poderia ser para castigar os homens. Se o termo “Filhos de Deus” não designasse seres humanos, da nossa Terra, não se compreenderia por quê Deus haveria de irritar-se com a humanidade.

Mais ainda, o 2º Livro de Henoc diz bem claramente, entre tantas obscuridades e contradições, que o pecado foi responsabilidade exclusiva dos homens. Deus não amaldiçoou Satã nem nenhum outro dos daímones ou supostas divindades. Amaldiçoou somente a ignorância humana.

Em outros dois textos da Bíblia aparece primeiro um reflexo impressionante da lenda dos filhos de Deus, anjos-guardiões, que gerariam gigantes. Impressionante, apesar de pretender “batizar” os guardiões identificando-os com anjos. Mas depois, em outro livro bíblico posterior, a desmitização do episódio, num texto paralelo, é claríssima.

Primeiro: O reflexo da lenda. No Gênesis. Os guardiões tiveram que voltar a Sodoma e Gomorra para verificar se continuavam com os vícios verificados em viagens anteriores. Disse então Iahweh: “O grito contra Sodoma e Gomorra é muito grande! Seu pecado é muito grave! Vou descer e ver se eles fizeram ou não o que indica o grito que contra eles subiu até mim. Então ficarei sabendo” (Gn 18,20s). Subiram até Deus reclamações? Deus precisa descer à Terra para poder ver e só assim ficará sabendo? É impressionante até onde calou esse reflexo da lenda.

E aparece de novo o intento de relacionamento sexual, desta vez por iniciativa dos homens desejando gerar gigantes: “Ao anoitecer, quando os dois anjos chegaram a Sodoma (…), Ló se levantou ao seu encontro e prostrou-se com a face por terra. Ele disse: ‘Eu vos peço, meus senhores! Descei à casa de vosso servo para aí passares a noite e lavar-vos os pés; de manhã retomareis vosso caminho´ (…). Tanto insistiu que foram para sua casa e entraram (…) e comeram. Eles não tinham ainda deitado, quando a casa foi cercada pelos homens da cidade (…), todo o povo sem exceção (…). ‘Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos´. Ló saiu à porta e, fechando-a detrás de si, disse-lhes: ‘Suplico-vos, meus irmãos, não façais o mal! Ouvi: tenho duas filhas que ainda são virgens; eu vo-las trarei: fazei-lhes o que bem vos parecer, mas a estes homens nada façais´ (…). Arremessaram-se contra ele, Ló, e chegaram para arrombar a porta. Os homens, porém, (…) aos homens que estavam à entrada da casa, eles os feriram de cegueira (…). Disseram a Ló (…): ‘Vamos destruir este lugar, pois é grande o grito que se ergueu contra eles diante de Iahweh, e Iahweh nos enviou para extermina-los´” (Gn 19, 1-13).

Segundo: A desmitização. Esta visita dos misteriosos anjos guardiões, extraterrestres, a Ló tem em outra oportunidade um paralelo absolutamente sem alusão ao mito, usando símbolos plenamente humanos: “Fazemos o caminho de Belém de Judá para o vale da montanha de Efraim, é de lá que eu sou. Fui a Belém de Judá e volto para casa (…). Tenho (…) pão e vinho para mim, para a tua serva e para o jovem que acompanha o teu servo (…). ‘Sê bem-vindo´, disse-lhe o velho (…). ‘mas não passes a noite na praça´. Então ele o fez entrar na sua casa (…). Os viajantes lavaram os pés e depois comeram e beberam. Enquanto assim se reanimavam, eis que surgem vagabundos da cidade, fazendo tumulto ao redor da casa e, batendo na porta com golpes seguidos, diziam (…): ‘Faz sair o homem que está contigo, para que o conheçamos´ (sexualmente). Então o dono da casa saiu e lhes disse: ‘Não, irmãos meus, rogo-vos, não pratiqueis um crime (…). Aqui está minha filha, que é virgem. Eu a entrego a vós. Abusai dela e fazei o que vos aprouver, mas não pratiqueis para com este homem uma tal infâmia´ (…). As tribos de Israel enviaram emissários a toda a tribo de Benjamim com a mensagem: ‘Que crime é esse que se cometeu entre vós? Agora, pois, entregai-nos (…) esses bandidos (…) para que os executemos e extirpemos o mal do meio de Israel´” (Jz 19,18-25 e 20,12s).

A intenção desmitizante é também muito antiga. No “evangelho hindu”, o Bhagavad-Gita (que está em extensão e importância para o Mahabharata do poema épico dos Vedas como o Evangelho está para a Bíblia), transmitido por tradição oral anterior a 5.000 anos a.C., narra-se o combate entre os exércitos do bem e do mal. Krishna anima o vacilante príncipe Arjuna a lançar-se com o exército dos Pândavas contra os exércitos dos Kurus, chefiados por Duryôdhana, no campo de batalha de Kurukshetra.

Krishna, encarnação do Espírito Supremo -bem poderíamos traduzi-lo por Cristo–. Arjuna e os Pândavas –ou São Miguel e seus anjos– representam a humanidade como conjunto e como indivíduo, com seus desejos e tendências à perfeição e ao Sagrado. Enquanto que Duryôdhana e seus Kurus –Lúcifer com seus demônios–, são a outra parte do homem, as forças do mal tais como o ódio, a luxúria, o egoísmo… Kurukshetra é a própria natureza de cada homem e da humanidade dividida em dois reinos antagônicos –Cristo e anticristo–.

A interpretação simbólica, desmitizante, que acabo de apresentar do Bhagavad-Gita foi e é a mais comum entre os sábios da Índia.

Poderia fazer idêntica explicação desmitizante, simbólica, de outras lutas entre o bem e o mal de outras mitologias do antigo Oriente, como a de Marduc e Tiamat na religião de Babilônia; de Ormazd e Ahrimam na antiga religião iraniana, etc.

Este mito iraniano é particularmente interessante para a lenda judaico-cristã de luta de anjos bons e maus. Forma parte do Zervanismo, forma especial da religião de Zaratustra desenvolvida na região ocidental do Irã, nos centros de dispersão dos persas. As divindades subalternas más, esquadrões das trevas (anjos rebeldes) capitaneados por Ahriman (Lúcifer), atacam a fortaleza do Céu, onde reside o Deus Supremo, único verdadeiro Deus, Zervan. Ao encontro das divindades más saem os resplandecentes guerreiros (os anjos bons) capitaneados pela divindade boa Ormazd (São Miguel). Zervan não intervém. Quando Ahriman está a ponto de chegar ao Céu fazendo recuar os exércitos de Ormazd, o campo de batalha se afunda nas trevas. Ahriman com seus exércitos ficarão acorrentado e retidos para sempre no abismo tenebroso. Novamente um pouco de humor: “Acorrentados e retidos para sempre”, os demônios não molestam mais.

A lenda da queda dos anjos se inspirou, imediata ou mediatamente, no Bhagavad-Gita, na mitologia babilônica, na mitologia iraniana…? Tudo é produto de uma mesma mentalidade oriental? A coincidência é manifesta.

Alusões neotestamentárias. No Novo Testamento encontram-se duas alusões, e provavelmente só duas, à lenda dos anjos rebeldes. São Judas: “Os anjos que não conservaram o seu principado, mas abandonaram a sua morada, guardou-os presos em cadeias eternas, sob as trevas, para o juízo do Grande Dia” (Jd 6). E São Pedro: “Deus não poupou os anjos que pecaram, mas lançou-os nos abismos tenebrosos do Tártaro, onde estão guardados à espera do Juízo” (2Pd 2,4). Alusões ao mito. Instrumento de linguagem para Revelar a justiça e no fim o perdão por Deus a quem se arrepender. Seria significativo em ambos textos, humoristicamente tomando-os ao pé da letra: os demônios não molestam mais, estão em cadeias eternas, guardados nos abismos tenebros.

Quando Cristo (Mt 25,41) fala do fogo preparado para o Diabo e seus anjos, está também aludindo à lenda da queda? Talvez. Mas de acordo com outros textos neo-testamentários (1Cor 5,5; 1Tm 1,20; 1Tm 3,6) e extrabíblicos (1Hn 63,3; Documento de Damasco 8,2) em todo caso esta indicando meramente o castigo dos homens pecadores = servidores do Diabo.

Igualmente: Segundo o Apocalipse os anjos e seu chefe Miguel, após rude combate, precipitaram sobre a Terra “o grande Dragão, a antiga Serpente, o chamado Diabo, ou Satanás, Sedutor” e seus anjos (Ap 12,7-11). Na realidade não se ratifica ou Revela a queda dos anjos, senão que se simboliza a vitória da Redenção contra as dificuldades dos cristãos. “O acusador dos nossos irmãos” teria algo que ver com o milenar conceito do Diabo, sendo que fica “dia e noite diante do nosso Deus”? (Ap 12,10). Todo o texto é enormemente alegórico e seria simplismo interpretá-lo como Revelação de uma real batalha e queda de anjos!

Além do mais é já de longa data (Cassiodoro, 480-575) e é mais esclarecida, indiscutível à luz da ciência, outra interpretação: A “luta dos anjos” no Apocalipse refere-se ao presente e futuro do cristianismo, não a um longínquo passado, antes da criação da humanidade. O Apocalipse é “o livro da profecia”, descreve o futuro do cristianismo. Como é possível que os “defensores dos demônios” não saibam nem sequer isto?

Algo de análogo a frase de Cristo que vê Satã caindo do Céu como um raio (Lc 10,18): se é que alude a essa lenda, na realidade só esta querendo metaforicamente afirmar que os apóstolos estão vencendo o mal.

Afinal qual teria sido o pecado dos anjos? Não posso me deter pormenorizadamente nas diversas concretizações que os Santos Padres, Escritores Eclesiásticos, Doutores da Igreja e teólogos ao longo dos séculos aplicaram ao suposto pecado dos anjos. Como acabamos de ver, a tal queda dos anjos não pertence à Revelação, portanto não pertence à Teologia, é tema da ciência, embora deva interesar, e muito, aos teólogos mesmo que só fosse para colaborar com a Parapsicologia em tirar tanta superstição em favor de uma fé racional. Nenhuma das disquisições teológicas sobre o pecado dos anjos têm base. Nem posso me deter em profundidade, nas puras elucubrações falsamente filosóficas que fizeram para explicar como poderiam pecar apesar de estarem contemplando a “face de Deus” e portanto irresistivelmente atraídos pelo Sumo Bem. Somente apresento brevíssimas alusões, complementares do tema tratado.

Atenágoras julgou que alguns anjos-potestades foram condenados porque não governaram bem os diversos elementos do mundo que lhes teriam sido confiados. Pressuposto manifestamente de origem pagã.

São Irineu, Teruliano e São Gregório Niseno aceitam o absurdo de que os anjos teriam se deixado levar por ciúme com respeito à humanidade por ser amada por Deus. Fundamentam-se (?!) só no apócrifo Vida de Adão e Eva. Feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), Adão seria mais glorioso do que os anjos! Deus teria pedido aos anjos que venerassem Adão. São Miguel e seus anjos teriam obedecido; Satã e os seus, não. Na realidade o Gênesis nem sugere nem dá enseio para tais conclusões.

Taciano, Orígenes, São Gregório Nazianzeano, Santo Agostinho, São Gregório Magno…, embora elaborem mais seus pensamentos, não estão mais acertados em nenhum dos seis itens:

1) O Eclesiástico afirma que Deus rejeita a soberba (Eclo 10,15). Por soberba, multidão de anjos não teria aceito que Deus se fizesse homem e não anjo. Ora, sua soberba lhes faria acreditar que eram mais inteligentes que Deus? Seriam os anjos tão pouco inteligentes, que nem perceberam a necessidade de redenção que tinham os homens pecadores?

2) Ou teriam se negado a adorar a Cristo. Ora, acaso eles não queriam adorar a Deus?

3) O pecado teria sido tentar Eva no paraíso. Ora, o sentido da lenda do paraíso é outro. O paraíso não se pode interpretar em sentido material. Voltaremos a isso em outra oportunidade, ao refutarmos o erro de atribuir as tentações aos demônios.

Ao maior absurdo, influenciados pelos mitos pagãos que acabamos de ver, descem São Justino, São Clemente de Alexandria, São Cipriano, São Eusébio de Cesareia…: os anjos pecaram sexualmente com mulheres!

Para Justino, como para Taciano e Teófilo de Antioquia, duas correntes bíblico-judaicas de demônios-potestades que não governaram bem o mundo, e demônios-anjos que pecaram com mulheres no tempo de Noé, se unem numa terceira interpretação: foram as potestades que pecaram com mulheres; menos Satã, “o príncipe dos demônios”: este pecou quando, transformado em serpente, tentou a Eva no Paraíso. Outras correntes, entre elas a dos anjos rebeldes e caídos antes da criação do nosso mundo, foram ignoradas.

Santo Agostinho, com sua genialidade, conseguiu amalgamar quase tudo! Agostinho modificou as fontes, violentou-as, adaptou-as, cortou o que não encaixava, acrescentou o que achava que faltava. A demonologia entrou em um verdadeiro leito de Procusto, aquele bandido que esticava os seus seqüestrados se eram demasiado pequenos para o leite de ferro, ou lhes cortava as pernas se não cabiam nele. Agostinho admite a possibilidade de que os anjos com um corpo tênue, depois da queda, pecaram com mulheres. Com Orígenes (ou com seu tradutor e prefaciante Rufino), Agostinho também identifica os demônios com os anjos que com seu chefe, Lúcifer, se rebelaram antes da criação do mundo. E estes mesmos anjos, rebeldes ou não, seriam as potestades que receberam o encargo de governar o mundo e todas as forças da natureza. Os anjos rebeldes seriam os que atuam por trás dos ídolos. E eles mesmos seriam os que residem pelos “espaços celestes”, e também nos “abismos tenebrosos do Tártaro” (2Pd 2,4). “Dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12). Etc .

E muitas outras interpretações ao longo dos séculos. Meras disquisições que pulularam nas Universidades Teológicas medievais, e que ainda vivem por todas partes.

DIABO NADA TEM A VER COM DEMÔNIOS

Como vimos no artigo anterior o termo demônio (ou algum equivalente exato em hebraico e/ou aramaico) não aparece nunca no original do Antigo Testamento. Portanto. Também não há nenhuma possessão demoníaca no Antigo Testamento. Em contrapartida, no Novo Testamento, os demônios aparecem 73 vezes. Por quê essa diferença? É um argumento importantíssimo para quando, em outra oportunidade, demonstremos que não há possessões demoníacas.

No Novo Testamento, distingue-se entre o Diabo e demônios. Também o perceberam e distinguiram acertadamente alguns Santos Padres (São Justino, Tertuliano, São Clemente de Alexandria…), porque alcançaram alguns conhecimentos científicos do vocabulário e modo de pensar e de expressar-se na época em que se escreveu a Bíblia, e sobre a cultura judaica e a influencia de diversas culturas pagãs.

O Diabo ou o Satanás são sempre apresentados no original da Bíblia no masculino, no singular, com maiúscula a primeira letra, e com artigo determinado. Sinônimos de “o Satanás” , são o Maligno, o Inimigo, o Príncipe deste Mundo, o Pai da Mentira, etc.

Para o termo “o Satanás”, não podem ser considerados exceções os textos de Mt 4,10; 16,23; Lc 4,8; 20,3; Mc 8,33, porque em todos estes casos Satanás aparece em vocativo e portanto não pode levar artigo.

O Diabo só uma vez aparece sem o artigo determinado, mas também não pode ser considerado exceção. A tradução deve ser: “Não vos escolhi Eu aos doze? No entanto um de vós é um Diabo” (Jo 6,70), como o Diabo.

Mc 3,23 seria a única exceção? Também não! A tradução tem que ser mesmo com artigo e adjetivo indeterminados para contrapor dois hipotéticos Satanás: “Como pode um Satanás expulsar outro Satanás?”

No Novo Testamento, só em duas oportunidades (Mt 25,41 e Ap 12,7-9) junto ao Diabo (o Dragão, no Apocalipse) são colocados “seus anjos”. Eles são subordinados; mas seriam da mesma espécie? Tal conceito é contraditório com o conceito geral que se reflete na Bíblia: o Diabo é apresentado como único. Essa é a função do artigo determinado na gramática grega do Novo Testamento. “Seus anjos” nestas ocasiões refere-se simbolicamente aos homens maus, aos falsos profetas.

DEMÔNIOS NADA TÊM A VER COM O DIABO

Não são da mesma espécie. Em contraposição ao Diabo, com referência aos demônios nunca se usa o artigo determinado. Não se refere a uma pessoa, nem em masculino nem em feminino. Se usada a palavra que traduzimos por demônio, sempre se coloca em neutro (coisa): daimónium. Usa-se também o plural do neutro: daimónia. Usam-se os sinônimos: espíritos impuros, espíritos imundos, etc. no singular ou no plural. Tudo completamente diferente de “o Diabo”. Os demônios não são tentadores, não agem no âmbito moral. É o Diabo ou Satanás que relacionam com tentações e pecados.

Em nenhuma parte da Bíblia se apresenta o Satã ou o Diabo atormentando possessos. Nunca se fala de possessões satânicas ou diabólicas. Quando “o Satanás entrou em Judas” (Lc 22,3; Jo 13,27) simplesmente significa que é o pecado voluntário e culpável que entra; o mesmo no caso de Ananias cujo coração foi enchido por o Satanás (At 5,3). O Diabo ou o Satã é, nestes casos, a personificação ou símbolo do pecado.

A mesma identificação do pecado como sujeição ao Satã aparece em outros textos: “A fim de (…) voltarem das trevas à luz, e do poder do Satanás a Deus, e alcançarem pela fé em Mim a remissão dos pecados” (At 26,18). Contra Elimas, contra o pecado de magia, exalta-se São Paulo, e “repleto do Espírito Santo, fixou nele o olhar e disse: ‘Ó filho do Diabo'” (At 13,8). É o pecado da superstição (At 19,18). Ou o pecado da crença de que a telepatia se deve a algum espírito do além (At 16,16). Ou o pecado da idolatria (At 19,26). Etc., etc.

Alguns Santos Padres utilizarão a mesma comparação simbólico-cultural. Identificam o pecado e o Satanás: são obra do Diabo os enfeites femininos (Ireneu, Tertuliano, Cipriano), a astrologia e a adivinhação em geral (Tertuliano, Clemente de Alexandria) e inclusive certa filosofia (Clemente de Alexandria).

São Pedro uma vez atribui ao Diabo o controle das doenças (At 10,38), mas o exerceria por meio dos demônios (Lc 10,17-19; 13,11-16; Mt 12,22-29; Mc 3,22-27). São os demônios, não o Diabo, os que causam certas doenças. Ou melhor, os demônios são doenças. Teremos que provar isto a fundo quando em outra oportunidades analisarmos as mal chamadas possessões demoníacas…

Em poucas palavras: O Diabo e demônios são conceitos diferentes. Demônios relacionam-se com doenças. O Diabo relaciona-se com o pecado. Os demônios estão na ordem física, e o Diabo ou o Satã, na ordem moral.

Conclusão. Em nenhuma parte da Bíblia se Revela a tal de guerra de anjos bons capitaneados por São Miguel, e anjos mãos capitaneados por Lúcifer. Não faz parte da Revelação de doutrina sobrenatural. Trata-se de cultura humana, de mitos e lendas humanas, absolutamente sem fundamento.

LÚCIFER

Não é raro que a Bíblia aluda ou use como instrumento de linguagem a mitologia greco-romana e tantas outras mitologias, que influíram na cultura dos povos vizinhos e do próprio povo judeu, direta e principalmente através da mitologia cananéia. Metáfora. Instrumento de linguagem, como tal plenamente alheio à Revelação, para transmitir a verdadeira Revelação Doutrinal, Sobrenatural.

O Salmo 82 chega até a apresentar Deus, o único Deus, contraditoriamente ameaçando outros deuses de fazê-los simplesmente mortais em castigo pelas suas injustiças. A ameaça divina meramente metafórica -é evidente- foi posteriormente materializada pelos judeus e cristãos, convertendo esses daímones ou deuses pagãos em demônios ou anjos rebeldes

Como aludíamos no artigo anterior, Lúcifer, ou Luzbel, passou a ser considerado na cultura cristã o chefe supremo de todos os demônios. Os anjos bons, capitaneados por São Miguel, haveriam derrotado todos os anjos maus, capitaneados por Lúcifer, expulsando-os do Céu.

Após Orígenes, começou-se a identificar Lúcifer com Satanás ou O Diabo. O quê tem a ver Lúcifer com o Satanás, com “o príncipe dos demônios”? Tudo puras disquisições de teólogos sem olharem para a ciência.

O falso fundamento. Na realidade, Isaías (14,12) não faz nada mais que comparar a queda dum tirano -o rei da Babilônia, sem dúvida Nabucodonosor ou Nabônides- à queda de Helél bem Shahar da mitologia fenícia. Na epopéia mítica de Râs-Shamra aparecem as divindades Estrela d’Alva e Aurora. Reuniam-se com os outros deuses na Montanha da Assembléia, como os deuses greco-romanos no Olimpo.

Ora, Helel bem Shahar ou a Estrela d´Alba, é o planeta Venus, a estrela mais brilhante ou Lúcifer (= Que leva a luz), a primeira estrela que aparece e a última que some. Queda de Lúcifer. A estrela mais brilhante. E transformou-se na queda de Satanás, e no príncipe dos anjos rebeldes.

Na versão latina da Bíblia, a queda de Hélél bem Shahar converteu-se na queda de “Lúcifer, que aparece pela manhã”, a Aurora. E outras traduções, como a Bíblia de Jerusalém, apresentam a versão etimológica: “Estrela d’Alva, filha da Aurora”.

São João, no Apocalipse, visa também ao significado etimológico: o próprio Cristo é chamado Lúcifer: “Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante estrela da manhã” (Ap 22,16). Haveria que pôr Lúcifer. Mas estando tão difundida a lenda da queda dos anjos, nenhum tradutor atreveu-se a colocar Lúcifer…

E a Igreja repete essa aplicação de Lúcifer a Cristo no Exultet da Vigília Pascal, quando se acende o cirio representando a Jesus Ressuscitado. Haveria que dizer “Eis o verdadeiro Lúcifer”, em vez de “a verdadeira estrela da manhã”.

O “ANJO DE IAHWEH”. E quê dizer de São Miguel?

Na Bíblia consta, por exemplo: “Clamamos a Iahweh. Ele ouviu a nossa voz e enviou o Anjo que nos tirou do Egito” (Nm 20,16). O “Anjo de Iahweh” na Bíblia é sempre o próprio Deus. Em Êxodo (14,19), descrevem-se “o Anjo de Deus que ia adiante do exército de Israel (…), a Coluna de Nuvens (…) diante deles”. Já em Números (17,7) esse Anjo de Deus e essa Coluna de Nuvens são a Glória de Iahweh, o próprio Deus: “Moisés e Aarão, ambos se dirigiram para a tenda da Reunião. Eis que a Nuvem a cobriu e a Glória de Iahweh apareceu”.

Só três nomes próprios de anjos aparecem na Bíblia: Miguel, Rafael e Gabriel. El significa o próprio Deus. Assim Rafael significa Deus cura. Por sua parte, Gabriel significa Deus revela. Foi um anjo que se apareceu a Nossa Senhora na Anunciação? Claro que não. Muito teremos que falar em outras oportunidades a respeito das Aparições… E não foi São Miguel, nada menos!, quem teria capitaneado os anjos bons conta Lúcifer e seus anjos. Miguel significa o poder de Deus.

É que os judeus consideravam falta de respeito nomear Jahweh diretamente, por isso esses circunlóquios: o anjo de Iahweh, a nuvem de Iahweh, a sombra de Iahweh…, ou como acabamos de frisar, Miguel, Rafael, Gabriel ou a força, a cura, a comunicação de Iahweh.

O PRÓPRIO DEUS OU O SATANÁS

No começo do artigo vimos o daímon, o deus, da torrente lutando contra Jacó. E por fim abençoando-o (Gn 32,23-31). Esse demônio a Bíblia o transformou no próprio Deus. Vimos também afirmar-se expressamente que Satã era o próprio Iahweh: “Sou Eu (Iahweh) que vim contra ti em Satã” (Nm 22,32par).

O mesmo acontece em outras oportunidades, algumas também já aludidas nos artigos anteriores. Por exemplo no Livro de Samuel se apresenta Iahweh inflamando em cólera contra Israel e incitando Davi a provocar a desobediência do povo fazendo recenseamento proibido, para que Deus tenha motivo de castigá-lo (2Sm 24,1). Quando, porém, mais tarde o Livro das Crônicas refere o mesmo episódio, substitui o nome de Iahweh pelo de Satã, como nome próprio (1Cor 21,1).

A função do Satã no Livro de Jó é submeter à prova a paciência e fidelidade do santo a Deus. Outras provações ou dificuldades nos livros anteriores da Bíblia eram abertamente atribuídas diretamente a Deus: “Deus pôs Abraão à prova” (Gn 22,1). “Foi lá que Ele (Iahweh) os colocou à prova” (Ex 15,25; ver também 16,4). “Moisés disse ao povo: ‘Não temais, Deus veio para vos provar'” (Ex 20,20). “O caminho que Iahweh teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te e conhecer o que tinhas no coração (…), para te humilhar e te experimentar” (Dt 8,2-16); “Porque é Iahweh vosso Deus que vos experimenta” (Dt 13,4); “A ira de Iahweh se inflamou então contra Israel (…) a fim de (…) submeter Israel à prova” (Jz 2,22; cfr. 3,1-4). Etc.

O povo judeu não suportava, por não compreendê-la, a idéia de que Iahweh pudesse causar (na realidade: permitir) qualquer acontecimento desagradável para seu povo. A figura de Satã, como personificação do mal, ofereceu a solução para o problema.

Nem por esse subterfúgio o Livro de Jó deixa de afirmar, bem no início da tragédia, que todas as desgraças que Satã inflige ao santo são com expresso consentimento do Altíssimo: “Iahweh disse a Satanás: pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele” (1,12).

E nem por esse subterfúgio Jó deixa de atribuir suas desgraças a Deus: “Os terrores de Deus assediam-me” (6,4). E falando com Deus, pergunta: “Por que não afastaste de mim o olhar? (…). Por que me tomas por alvo?” (7,19s). E a lição que a Biblia quer incutir: “Iahweh o deu, Iahweh o tirou, bendito seja o nome de Iahweh” (1,20). É Deus que na sua Infinita sabedoria sabe por quê permite as provações e como na sua Divina Providência poderá tirar o bem.

Na tradução grega dos Setenta chama-se ho Diábolos, o Diabo, ao Satã das Crônicas ou Paralelipônemos (1Cr 21,1). Igualmente, com referência ao Satã do Livro de Jó, igual faz-se com o Satã que no Livro do Profeta Zacarias é o acusador do sumo sacerdote Josué (Zc 3,1).

Em conclusão: Deus quando permite provações, é representado por o Satã, o Diabo, personificação inexistente da realidade do mal.

O PRÓPRIO DEUS OU UM DEMÔNIO

No Gênesis (12,17), “Iahweh feriu Faraó com grandes pragas e também sua casa, por causa de Sarai, a mulher de Abraão”. Quando, porém, o “Apócrifo do Gênesis” encontrado em Qumran recita o mesmo fato, é um espírito mau, um demônio, que fere os egípcios provocando-lhes chagas purulentas para impedir-lhes relações sexuais; e curam-se quando Abraão expulsa o mau espírito (Qumran, Genêsis Apócrifo 20, 16-24).

Pode ser significativo, ao menos é curioso, que em sânscrito ou devanagari -“a escrita dos deuses”!- o mesmo radical Assur, que significa deus, espírito divino, luz divina, sopro divino, pode significar também demônio, espírito maligno, trevas, sopro demoníaco. Igualmente, vimos que em grego daímon tanto pode traduzir-se por divindade como por demônio.

O PRÓPRIO DEUS OU DEUSES OU AS FORÇAS DA NATUREZA

Para os pagãos, as doenças e mortes são semeadas pelos daímones do meio ambiente, como o egípcio Set. Por exemplo a peste corresponde aos daímones ou deuses babilônicos Erra e Nergal, e ao Resef cananeu. Ou as doenças e a morte elas mesmas são deuses, como a deusa Zánatos = a morte.

Essas funções dos “daímones” ou esses deuses maus das mitologias pagãs, na Bíblia freqüentemente são atribuídas diretamente a Iahweh ou identificadas com Ele. “Se uma calamidade semear morte repentina, Ele ri do desespero dos inocentes (…). Se não for Ele, quem é então?” (Jó 9,23s.). “Sacrificar a Iahweh, nosso Deus, para que não nos ataque com a peste ou com a espada” (Ex 5,3). “Então Iahweh teve piedade da Terra e a peste deixou Israel” (2Sm 24,25). “Levo cravadas as flechas de Shadai e sinto absorver Seu veneno” (Jó 6,4; cf.14,18s).

As flechas, a espada, e os animais ferozes são símbolos conhecidos do maléfico deus Astar, da mitologia síria. A respeito na Bíblia se suplica a Iahweh: “Cercam-me touros numerosos, touros fortes de Basã me rodeiam; escancaram sua boca contra mim como leão que dilacera e ruge (…). Tu (Iahweh) me colocas na poeira da morte. Cercam-me cães numerosos (…) (Iahweh) salva minha vida da espada, meu único ser da pata do cão! Salva-me (Iahweh) da goela do leão, dos chifres do búfalo minha pobre vida!” (Sl 22,13-22).

Atribuem-se a Deus as forças da natureza ou do próprio homem. É Iahweh quem castiga com a lepra a irmã de Moisés (Dt 24,9). Deus enviou contra o povo serpentes abrasadoras (Nm 21,6); Ele entrega Israel aos inimigos (Jz 2,14); “Eu lhe endurecerei o coração” (Ex 4,21).

Essas forças da natureza e do homem, quando em si mesmas benfazejas ou trazem benefícios, podem também ser representadas por Anjos de Deus, que como já vimos representam o próprio Deus. Como também já vimos, os nomes destes Anjos benfazejos, mesmo quando se trate claramente de forças da natureza ou do homem, vinculam-se à própria Providência Divina: Miguel = “Quem como Deus?”. Gabriel = “Mensagem de Deus”. Rafael = “Deus cura”.

Da mesma maneira as forças da natureza e do homem, quando em si mesmas ou imediatamente são prejudiciais ou acarretam males, podem ser também consideradas “mau espírito procedente de Iahweh” (1Sm 16,14). É o Anjo Devastador que arrasa Jerusalém (2Sm 24,16), destrói Sodoma (Gn 19,13), mata todos os primogênitos dos egípcios (Ex 12,12) e 185 mil assírios do exército de Senaquerib (2Rs 19,35; 2Cr 32,21), destrói Jerusalém como contemplou Ezequiel (Ez 9,1), ou vinga Suzana com a morte dos anciãos caluniadores (Dn 13,55).

Em outros textos, porém, esses Anjos ou Espíritos Maus procedentes ou enviados por Deus são o próprio “mau espírito de Deus”, ou “a ira de Iahweh” (2Sm 24,1). No texto paralelo do Livro das Crônicas a ira de Deus, o próprio Deus, é chamado Satã (1Cr 21,1).

Hoje devemos distinguir entre a ação de Deus intervindo diretamente (milagre) por um lado, e por outro a ação da natureza que a Divina Providência, sem intervir, quer ou simplesmente permite (porque tudo colabora para o bem). A Bíblia, para inculcar que não existe mais Deus que Iahweh, nem mais Divina Providência que a do único Deus, não duvida em identificar Deus com os daímones, deuses bons e deuses maus, dos países vizinhos, mas na realidade a Bíblia está suprimindo todos esses demônios ou deuses. Um único Deus. Estas forças da natureza são atribuídas e até identificadas com Deus ou com os demônios, mas não passam disso: forças da natureza e humanas.

MASTEMA

No Gênesis (22,1-2), Deus submete Abraão à prova pedindo-lhe que sacrifique seu filho Isaac. O verdadeiro significado o fornece o apócrifo Livro dos Jubileus: quando conta o mesmo episódio, é Mastema quem sugere a Abraão o sacrifício.

Mastema é um príncipe do céu que, como Satã no Livro de Jó, tem acesso ao trono do Altíssimo. Mastema desempenha o mesmo ofício e pronuncia praticamente as mesmas palavras que Satã no Livro de Jó: “Havia vozes no céu a respeito de Abraão; dizia-se que ele era fiel em tudo o que Deus lhe dizia (…). E o príncipe Mastema veio e disse em presença de Deus: ‘Eis que Abraão ama seu filho Isaac (…). Diz-lhe, pois, que o ofereça em holocausto sobre o altar, e verás se cumpre esta palavra. Reconhecerás então se Te é fiel em tudo o que lhe provas´” (Jb XVII, 16).

Igualmente: no Êxodo (4,24) se diz que é Iahweh quem assalta o in-circuncisso Moisés e intenta matá-lo ao regresso do Egito. No livro dos Jubileus (48,3), porém, é Mastema.

MONSTROS NA BÍBLIA

Também hoje qualquer pessoa culta, tratando de qualquer tema, poético e mesmo científico ou religioso, alude à mitologia grega ou latina. E nem por isso haveríamos de pensar que tal autor acredita na existência dos deuses Júpiter, Palas ou Posseidón… Da mesma maneira a Bíblia cita a mitologia dos pagãos. Os exílios do povo judaico o puseram em contato com os temores mágicos. Aos quais, por outra parte, são propensos. todos os primitivos, no tempo ou na mentalidade, e portanto também o povo israelita antigo. Após o exílio, na tentativa de evitar guerras ou de ser dominados, e na época de Cristo em que caíram sob o poder romano, os israelitas eram permeabilizados por culturas pagãs. Traziam-nas os judeus das diásporas nas suas visitas a Jerusalém. Também o comércio com os países vizinhos. Esses temores, convertidos em demônios, são citados na Bíblia.

Isaías (13,21), por exemplo, no original, fala de que no deserto habitava Lilith e sua corte, uma divindade feminina dos babilônios, traduzida depois por Satanás e seres peludos, e depois identificados com demônios. A eles, segundo o Levítico (17,7) e 2 Crônicas (11,15), ofereciam-se sacrifícios como a divindades, embora divindades de segunda categoria. É evidente que o Profeta não está aceitando nem Lilith nem sua corte de grotescos daímones, demônios peludos, nem que habitem no deserto.

Como não toma a sério Leviatã, o deus monstro do mar, nem Lannin, o deus dragão. Esses demônios-divindades da mitologia cananéia, citadas no Ras-Shamra, poema de Zaratustra, são meros símbolos com que Isaías (27,1) designa o Egito. O mesmo faz o salmista (Sl 74,13s). O monstro Leviatã acreditavam que engolia o deus Sol quando acontecia o que hoje compreendemos como um eclipse. Os feiticeiros teriam poder de evocar o monstruoso Leviatã!

No Livro de Daniel, quatro bestas monstruosas saídas do mar (Dn 7,1-8) representam quatro impérios sucessivos (Dn 7,13-27).

No Apocalipse, já no fim do Novo Testamento, se retoma a imagem dos monstros. O Império Romano concretamente e em geral os homens que se opõem ao Cristianismo são representados pelo mesmo símbolo de Grande Serpente, monstros e bestas tais como Rahab e Leviatã, oriundos de um caos primitivo. Realmente impressionante é a descrição joanina da aparição no céu do Grande Dragão (ou Grande Serpente em muitas traduções), “cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas, sua cauda arrastava um terço das estrelas do céu, lançando-as para a Terra” (Ap 12,3-4).

Visão magnífica. Mas metáfora: o Império Romano e os inimigos do Cristianismo personificados pelo Diabo, Satã, o Sedutor do mundo inteiro, o Inimigo, o Acusador dos cristãos… diante de Deus! (Ap 12,7-10).

BEELZEBU

Usam-se três termos: Beelzebu, Baalzebub, e Beelzebul.

Zaratustra ou Zoroastro, o fundador do Parsismo, religião do Irã, viveu no século VI a.C., ou antes. Zaratustra adverte sobre os cuidados que se devem ter após o corte de unhas e cabelos, pois uma vez cortados e separados do corpo, já pertencem ao Maligno, demônio mosca, e a outros devas ou espíritos maléficos, pelo fato mesmo de serem moradas da sujeira.

No mesmo sentido, na mitologia cananéia, se adorava a Baal-Zebub, o deus do estrume, das moscas…

Ora, devemos destacar o significado etimológico de Baal = o príncipe. E assim Beelzebu foi convertido pelos judeus em “príncipe dos demônios” (Mt 12,24 e Lc 11,15).

Surgiu um jogo de palavras: Jesus usou conjuntamente o aramaico be’el (= senhor) e o hebraico zebul (= casa). Beelzebul seria o “senhor da casa”. Assim, quando Cristo foi acusado pelos judeus de expulsar demônios pelo poder de Beelzebu, disse então Jesus: “Se chamaram Beelzebu ao senhor da casa, quanto mais chamarão assim aos seus familiares” (Mt 10,25). E acrescentou: “Uma casa cai sobre outra (…). Quando um homem forte (…) guarda sua moradia (…); voltarei para minha casa, de onde saí” (Lc 11,17.21. 24).

Há outro jogo de palavras: Cristo teve presente também que Baal-Zebud era considerado o deus das moscas e que mora na sujeira: “Quando o espírito imundo sai do homem, perambula em lugares áridos (…). Voltarei para minha casa (…), chegando lá, encontra-a varrida e arrumada. Diante disso, vai e toma outros sete espíritos piores do que ele, os quais vêm habitar aí. E com isso a condição final daquele torna-se pior do que antes” (Lc 11,24-26).

Aquele jogo de palavras com referência ao senhor da casa, foi percebido por muitos teólogos que conhecem hebraico. Aliás há muitos textos tanto no Antigo como no Novo Testamento e na literatura apócrifa e rabínica, como também na cultura supersticiosa secular, que apresentam os demônios habitando desertos, lugares áridos, ruínas de casas abandonadas e lugares imundos como esgotos e cemitérios. É a mitologia pagã que grassou entre os judeus e passou também aos cristãos.

Mas geralmente escapou aos teólogos, entre os que lamentavelmente há poucos familiarizados com ciência, com Parapsicologia, esse outro jogo de palavras a respeito do deus da sujeira, da casa barrida. Como também lhes escapou outro detalhe muito importante, que deveremos explanar em outra oportunidade ao demonstrar os perigos do curandeirismo: Jesus sabia que quando Ele cura “endemoninhados”, a cura é imediata e perfeita, mas quando os curandeiros, “vossos filhos”, pretendem curar, sobrevêm “outros sete espíritos piores…, com isso a condição final daquele homem torna-se pior do que antes”.

Quando o próprio Cristo se faz eco dessas crenças populares, emprestadas do paganismo, evidentemente que não pretendia confirmar o mito.. Repitamos mais uma vez, até a saciedade: Cristo e a Bíblia não vieram a ensinar ciência senão Religião, usam a cultura da sua época como instrumento de linguagem para a Revelação da Doutrina Sobrenatural.

ETEMMU

Demônios e Espíritos Imundos, Espíritos Impuros etc. no Novo Testamento identificam-se também com espíritos de mortos. Para os semitas mesopotâmicos, Etemmu são os espíritos dos mortos insepultos e privados dos sacrifícios prescritos. Pensavam que ficam vagando pela Terra e podem causar inúmeras doenças e outras desgraças aos homens.

Para as especulações rabínicas, a identificação entre certos demônios com espíritos de mortos é, às vezes, manifesta. No Talmud e em outros comentários, os demônios são considerados entre outras coisas “seja como espíritos infortunados que foram deixados sem corpo quando, de repente, começou o Sábado, após o sexto dia da criação; seja como os construtores da Torre de Babel, assim transformados a modo de castigo”

Este conceito espírita, ele também, não só diversos deuses de segunda categoria ou daímones e anjos rebeldes, etc, pode incluir-se na terminologia demonológica do Novo Testamento. Como explica Flávio Josefo, historiador judeu que escrevia no século I, expulsavam “os chamados demônios, com outras palavras, os espíritos dos homens malvados que penetram nos vivos”.

SEDUTORES E FALSOS PROFETAS

São Paulo (1Tm 4,1) fala de “espíritos sedutores e doutrinas demoníacas”. Por todo o contexto escatológico, fala em sentido moral, refere-se a homens feitores da apostasia, falsos profetas, impostores.

Esses falsos profetas são concebidos pelo Apocalipse como “espíritos impuros, como sapos”, saindo “da boca do Dragão, da boca da Besta e da boca do falso Profeta (…). São com efeito, espíritos de demônios: fazem maravilhas e vão até os reis de toda a Terra” (Ap 16,13-14). Esses espíritos de demônios são na realidade homens impostores. Metáfora.

São Justino frisa que “muitos demônios poderão arrepender-se e salvar-se. Se o Verbo de Deus Revelou (?!) que Satã e alguns outros anjos serão certamente castigadas ao fogo eterno, é porque Deus previu que esses poucos de fato não se arrependerão”. Orígenes e numerosos outros Padres da Igreja também dizem que muitos demônios haverão de converter-se.

No fundo estão dizendo, acertadamente, mais do que pretendiam dizer, erradamente. Referindo-se a demonios, anjos rebeldes, nada disso encaixa no conceito tradicional de demônios. Mas sendo esses demônios na realidade representação de pessoas, de falsos profetas, estão acertadíssimos porque a misericórdia de Deus sempre perdoa a quem se arrepende.

E não é verdade que na Biblia se revele a condenação de Satã e seus anjos rebeldes. Na realidade, nada há de Revelação na Bíblia a respeito de guerra e queda de demônios, como temos visto nestes artigos. E veremos em outra oportunidade que não há absolutamente nenhum Dogma de Fé a respeito de demonologia. Nem pode haver, precisamente porque a demonologia não faz parte da Revelação.

CONCLUSÃO

AFINAL, O QUÊ SÃO OS DEMÔNIOS?

ADERÊNCIA EXTRÍNSECA

A cultura demonológica bíblico-judaica-cristã é um mosaico de fontes e conceitos diferentes e até contraditórios. Mostra grande variedade nos conceitos como nas fontes que os inspiraram. Tudo o que a Bíblia, o judaísmo e a historia do Cristianismo dizem a este respeito mostra invariavelmente os traços de noções emprestadas de culturas estranhas à autêntica Revelação.

Segundo otimamente escreve o prestigioso teólogo e grande parapsicólogo jesuíta Pe. Karl Rahner, a demonologia é “uma interpretação da experiência natural em torno de diversos (…) poderes (considerados) sobrenaturais. Tal doutrina (…) vai penetrando lentamente de fora da religião autenticamente revelada”.

Não pertence à Revelação nem, portanto, à Teologia. Trata-se de fatos, observáveis, do nosso mundo. Pertence à Parapsicologia dar a última palavra a respeito “dessa experiência natural em torno de diversos poderes” ou fatos incomuns e por isso misteriosos. Teremos que dar especial destaque às chamadas possessões demoníacas, às tentações, aos exorcismos…

O Papa realizou exorcismos?

É exagero dos jornalistas que o Papa tenha aplicado os exorcismos. Simplesmente rezou, após retira-la da multidão (“onde não há platéia, não há show”) por uma jovem que um padre antiquado qualificava como endemonhinhada. O mesmo fez com outra senhora. E ambas continuaram doentes…

O número 666 significa o número do diabo?

– 666. Em hebráico cada letra tinha um valor numérico. O número de um nome é o total de suas letras, e assim na Cábala ou Ocultismo hebráico 666 eqüivaleria a Cesar-Neron em letras hebráicas. São João no Apocalipse (13,18) o apresenta como Anti-Cristo (um dos anticristos).

Pe. Oscar G. Quevedo S.J.

Fonte: http://oepnet.sites.uol.com.br

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Uma resposta

  1. […] Para se aprofundar sobre o tema Diabo e afins, por favor acesse: Afinal, o que são demônios? […]

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