Reflexões e Hipóteses sobre a Psicogênese da Religião

Universidade de Brasília, Maio-Julho de 2003
Instituto de Psicologia
Departamento de Psicologia Clínica
Disciplina: Psicologia da Religião.
Professores: Jorge Ponciano / Marco Aurélio Bilibio

Reflexões e Hipóteses sobre a Psicogênese da Religião

Marcus Valerio XR
Graduando em Filosofia, 02/98255
http://www.xr.pro.br

INTRODUÇÃO

Não que eu pretenda realizar uma Religiogênese no intuito de oferecer respostas para questões tais como, “se é a religião inerente ao Ser Humano”, pois isso seria um pouco ousado, e minha intenção não é ser pouco, mas muito ousado, por isso, o objetivo desta monografia é propor um modelo que consiga explicar a base de todo o fenômeno religioso humano não como apenas um subproduto da evolução cultural, mas na verdade como a geratriz da própria Sensciência humana, defendendo a tese de que o despertar do “sentimento” religioso é o divisor de águas entre o humano e o pré-humano.

Sendo inconteste que a religiosidade é fenômeno onipresente na história, e dado sua quase onipotência em definir a sócio-cultura, resta avaliar seu grau de onisciência como domínio capaz de compreender a essência do viver humano, oferecer respostas para os seus problemas e conseguir operacionalizar tais soluções.

Pretendo demonstrar que é da natureza do fenômeno religioso oferecer saídas à angústias fundamentais do Ser Humano independente do contexto cultural, mas também que muito da percepção de a mesma estar necessariamente ligada a respostas para questões sociais, em especial para a ética, pode muito bem ser ilusório, sendo mais um efeito decorrente da evolução histórica e dos diversos saberes que da natureza da religiosidade.

Dessa forma defendo que a religião, embora surja necessariamente em qualquer fenômeno humano em roupagens extremamente diversas, sendo então parte integrante e inseparável da cultura, oferece universalmente respostas a umas poucas questões, não por uma suficiência a priori, mas porque algo deve faze-lo diante da insondabilidade e perturbatividade de tais questões, e esse algo é em princípio um fenômeno religioso, embora possa em certos contextos culturais necessariamente mais complexos migrar para outros campos dos saberes.

Não pretendo porém aqui, advogar qualquer partição ideológica ou religiosa, e me abstenho de julgar neste trabalho a “verdadeira essência” da religião, como se isso fosse possível. Minha intenção é bolar um conjunto de explicações que funcionem independente do ponto de vista espiritualista ou materialista, estando mais preocupado com o “fenômeno” em si, a relação entre os elementos Mente Humana e Idéias, e menos com a natureza última destes mesmos elementos.

Entretanto antes devo confessar que este trabalho já estava planejado semestres antes de cursar esta disciplina, sendo um de meus projetos mais antigos. Tendo pretensões acadêmicas que transcendem a simples obtenção de um diploma, sempre procuro disciplinas aos quais eu possa harmonizar meus projetos investigativos pessoais. Portanto esse é o primeiro, ou um dos primeiros, passo mais organizado do sentido de elaborar uma teoria mais profunda e mais ampla, dentro de todo um projeto filosófico que venho desenvolvendo há alguns anos.

Por isso alguns dos conceitos a serem apresentados aqui derivam de conceitos anteriormente desenvolvidos, embora eu me esforce para possibilitar uma leitura independente, que podem ser obtidos principalmente em meu site na internet. http://www.xr.pro.br.

Marcus Valerio XR

ÍNDICE

Introdução & Índice
Algumas Definições
Ser Humano
Da Casualidade à Causalidade
Síntese de Religiões
A Meta-Continuidade Mental
Deus
Evolução Religiosa
Ética e Moral
Religiões do Futuro
Bibliografia

ALGUMAS DEFINIÇÕES

Boa parte dos desentendimentos intelectuais poderiam ser evitados se em geral houvesse mais cuidado com a definição dos termos usados numa conversação. Antes mesmo de me considerar um filósofo, já notava que na maioria das vezes as divergências se dão não nas idéias em si, mas em seus referenciais semânticos.

Curiosamente as pessoas costumam achar que só há necessidade de definir palavras novas, quando na verdade estão a usar palavras conhecidas em sentidos específicos diversos de vários outros sentidos comuns, e ainda ficar surpresas pela dificuldade de serem entendidas.

Faz-se mister então que os termos chaves usados nesta monografia sejam de imediato esclarecidos.

RELIGIÃO

Apelo à etimologia da palavra, considerando como tal qualquer modo de pensamento e sensibilidade que vise ligar o Ser Humano a um plano distinto, em geral extra físico ou ao menos insuperavelmente distante por outra via, quer no tempo ou no espaço. Dessa forma espero deitar por terra termos em geral pré conceituosos como Seita, que significaria apenas um segmento religioso minoritário, ou Heresia, que trata-se de uma derivação de um sistema religioso original. Todos são religião.

Alegações do tipo: “Isso não é religião, é seita!”; Que tive a oportunidade de ouvir em minha mais tenra idade num colégio católico, ou afirmações de que Espiritismo, Budismo, Esoterismo e Misticismo não sejam fenômenos religiosos, não tem aqui cabimento.

Da mesma forma espero excluir outros sistemas de pensamento ocasionalmente acusados de serem religiosos, como Marxismo, Evolucionismo ou a própria Ciência, por não visarem tal religação com um plano sutil.

Essa questão será retomada mais adiante, constituindo na verdade o fio condutor deste trabalho.

ESPIRITUALISMO

Considerado como uma postura oposta ao Materialismo, ou seja, que reconhece a existência de uma plano supra material, intangível. Em muitos casos pode agir como sinônimo de Religião, mas não necessariamente, pois é possível estabelecer uma postura espiritualista que não proponha, ou não se interesse, pelo contato entre os dois planos.

Nesse caso a Religião é necessariamente Espiritualista, mas não o contrário, com a exceção de fenômenos religiosos muito recentes, que serão citados posteriormente.

Válido também lembrar que o conceito de Materialismo implica meramente na postura de aceitar o Universo como meramente material, em nada determinando posicionamentos reprováveis como egoísmo, amoralidade ou o controverso Hedonismo, a postura de viver visando o prazer.

MÍSTICA

Mais uma vez respeitando a etimologia da palavra, diz respeito ao “Mistério”, algo que não é imediatamente acessível aos sentidos, e ou de difícil ou impossível racionalização, mas que considera-se existente. Sendo assim Espiritualidade e Religião são sempre posturas Místicas.

Infelizmente a palavra tem sido utilizada para designar segmentos específicos de religiosidade, em geral de teor ESÓTERICO, que por sua vez significa “Aprendizado Interior”, a crença de que o religare se dá por intermédio de uma oculta qualidade a ser despertada individualmente no Ser Humano.

Por esse motivo, defino simplesmente como Místico qualquer modo de pensamento humano que considere qualquer tipo de “algo” sutil, englobando necessariamente Espiritualidade e consequentemente Religião.

MENTE, CONSCIÊNCIA e SENSCIÊNCIA

Como MENTE, me refiro a qualquer tipo de concepção relativa a cognição, depositário das memórias, das crenças, desejos, razão e etc. Não vem ao caso então se esta é um domínio separado e autônomo em relação à matéria, ou se não passa de um epifenômeno do cérebro, considerarei que a Mente exista quer ontológica ou apenas semânticamente, tratando-se então antes de tudo de um termo facilitador.

Da mesma forma, quer se considere modelos que além da Mente ainda proponham outros domínios, como a tríade Corpo, Mente e Essência, ou Mônada ou Espírito como domínios superiores ou apenas distintos da Mente, mantém-se o uso do termo, pois mesmo que tais domínios sejam sustentados e seus modelos pressupostos, todo o discurso, inclusive sobre o mesmos, continua só se dando através do que conceituo como Mente.

Como CONSCIÊNCIA costuma-se entender uma miríade de coisas, por isso prefiro aplicar um termo que a princípio poderia lhe ser sinônimo, mas está menos contaminado por significações diferentes. O termo SENSCIÊNCIA remete a idéia da Consciência sobre si próprio, sobre a própria Existência como ser Consciente e em decorrência sobre a consciência da possibilidade da Não-Existência.

Note que SenSciência não é facilmente encontrado, constando antes nos dicionários a palavra SeNCiência, normalmente tomado como qualquer ser que tenha sensações. Para evitar conflitos com essa definição formal, utilizarei o termo com o mesmo SC encontrado em Consciência.

Dessa forma, enquanto afirmar que um Ser é consciente pode implicar em estar consciente de si próprio ou apenas do ambiente que o cerca, bem como capaz de entender ou não certos processos, e isso sem falar nas implicações dos termos, Inconsciente e Subconsciente, quando afirmo que um Ser é Sensciente digo que o mesmo tem antes de tudo Auto Consciência, senso de Existência e perspectivas existenciais bem como de possibilidades não existenciais.

INTUIÇÃO

Tomo como no sentido de um modo cognitivo que resulta em crenças, impressões e sensos imediatos, sem a tradicional operacionalização em etapas dos processos racionais. A Intuição costuma produzir juízos instantâneos, que podem ser corretos ou não.

Com isso proponho um termo chave para a condução desta monografia, trata-se do conceito de INTUIÇÃO-MÍSTICA, que é a crença, senso ou juízo imediato de que exista um Mistério, ou seja, algo que está além de nossa percepção.1

Como a Intuição é um dom tão passível de falhas quanto a Razão, haja visto as intuições largamente falsas que todos temos ou tivemos em alguma fase da vida sobre Mecânica e Cinemática, em nada a Intuição-Mística implica necessariamente numa percepção de algo real. Porém é o que considerarei como elementar na Psicogênese Mística, resultando na Espiritualidade e consequentemente na Religião.

1.O filósofo da religião Willian P. Alston tem trabalhado com um conceito similar denominado “Percepção Mística” (Perceiving God – The Epistemology of Religious Experience, 1991), advogando neste caso que uma possível percepção não exatamente sensorial direta ou indireta poderia validar a experiência de deus. Mas nesse caso, Alston empresta algum valor de verdade ao objeto desta percepção ao menos como forma de justificar a crença, haja visto seu comprometimento cristão. Além disso o termo Intuição-Mística também tem sido desenvolvido por vários filósofos com nuances diferentes, tanto no termo Intuição quanto no termo Mística.

SER HUMANO

É a mais importante definição. Tomo usualmente no mesmo sentido que costuma-se aplicar o termo “O Homem”, que considero problemático primeiro por uma questão de clareza. Não foram poucos os textos em que vi a palavra “Homem” ser usada em contextos que tornavam impossível diferenciar se o mesmo se referia a gênero masculino ou à espécie humana.

Além disso, defendo que o uso indiscriminado do termo “Homem” para se referir a espécie humana está sim impregnado de uma visão sexista da espécie, e que sua manutenção não deixa de constituir uma resistência ao processo emancipatório do feminino. Além do termo Ser Humano, em geral num sentido mais abrangente que enfoque cultura e algo que chamamos de “essência”, ou “natureza”, costumo usar também o termo Homo Sapiens quando quero enfocar aspectos predominantemente biológicos.

Como um Ser Humano, tenho algo muito claro em mente. Entendo-o como um ser Sensciente, entre outras coisas, dotado basicamente de 4 Potências fundamentais no que se refere ao modo como apreende o mundo a sua volta.

Essas 4 potências são a SENSORALIDADE, a EMOÇÃO a RAZÃO e a INTUIÇÃO. O Ser Humano tem então uma Mente, e caso a mesma também esteja presente em animais, com certeza não apresenta as mesmas potencialidades.

Como Sensoralidade, para não usar o confuso termo Sensação, entendo obviamente a capacidade de capturar impressões do ambiente por meio dos múltiplos sentidos. Essa potencialidade está também, ao que tudo indica, presente em todos os seres vivos.

Mesmo as bactérias possuem sensores, e mesmo as formas de vida “inanimadas” possuem meios de captar informações do ambiente em que vivem, por exemplo no sentido de, como certas plantas, orientar o crescimento de suas folhas rumo a fontes de luz.

Sendo assim a Sensoralidade é a mais básica faculdade do Ser Humano, compartilhada com aparentemente todas as formas de vida, e cuja manifestação física não pode ser mais evidente dado ao bio aparato sensório que a equipa, o que quase certamente não ocorre com a Emoção. Esta por sua vez, está inequivocamente presente ao menos nos animais superiores, como podermos inferir não só pelo comportamento, mas também pela presença de um sistema endócrino correlato ao encontrado nos seres humanos.

Pode parecer estranho a princípio colocar a Emoção como um poder de apreensão do ambiente, tenho motivos diversos para isso que não interessam aqui, e que podem ser encontrados em meu site na internet, mais especificamente na Filosofia EXERIANA no texto sobre os 4 Poderes Humanos.

O que interessa aqui é explicitar que há distintos graus de abrangência dessas potências, e que a Emoção é ao menos um subproduto inevitável da percepção ambiental em algum grau nos seres senscientes, ou mesmo pré-senscientes, influenciando na produção de crenças e juízos. Já o dom Racional, diferente da Emoção e ainda mais da Sensoralidade, é muito mais restrito fisicamente, ao âmbito cerebral, e sendo muito mais sutil e difícil de detectar do que os estados emocionais, que normalmente desencadeiam toda uma série de eventos hormonais no organismo.

É comum também, principalmente no discurso filosófico tradicional, considerar-se o Ser Humano como um Animal Racional. Há porém motivos para discordar que a racionalidade seja uma exclusividade humana, haja visto capacidades correlatas de aprender e solucionar problemas que os animais mais evoluídos apresentam,1 o que me leva a concordar que nossa diferença racional com relação ao demais animais é muito mais de grau do que de gênero.

Falei então das 3 primeiras potências humanas, Sensoralidade, Emoção e Razão, esperando ter deixando claro que elas apresentam graus de abrangência distintos, sendo respectivamente mais sutis, e menos compartilhadas entre os seres vivos.

Minha intenção é então definir a Intuição como uma potencialidade exclusivamente humana, o que me leva a afirmar que o Ser Humano é na verdade um Animal Intuitivo.

Antes de continuar porém é imprescindível prevenir uma possível, comum e completamente lamentável confusão, a de misturar o conceito de Intuição com o de Instinto.

Ambos tem em comum apenas o fato de serem dons não racionais, e a semelhança termina aí exatamente onde começou. Como Instinto, entendo um programa operacional inato que orienta os seres vivos a desempenhar ações primárias no sentido de manutenção de sua existência e perpetuação.

A Intuição como já disse, significa um modo de se relacionar com o ambiente que implica numa apreensão de conceitos novos, a posteriori, com infinitas aplicações e implicações, em absoluta oposição ao âmbito totalmente limitado onde agem os Instintos, a priori.

Ou seja, a Intuição, no sentido que defendo, não se trata de um dom que trás um pré conhecimento interno inato, mas sim num dom capaz de produzir “conhecimentos” imediatos ainda que a ponto destes parecerem sempre terem estado presentes. E, devo insistir, a Intuição não é um dom infalível, mas sim tão ou mais capaz de cometer erros quanto a Racionalidade.

Sendo assim, é possível uma Intuição sobre o comportamento de outros seres, sobre que caminho escolher numa trilha, sobre que decisão tomar num negócio ou sobre uma estratégica escolha em política internacional. Já os instintos só dizem respeito às funções primárias da existência, alimentação, auto preservação, reprodução e etc.

Dessa forma advogo que o Instinto não é uma Potência Humana, no sentido de produzir juízos e crenças, pois o mesmo nada diz a respeito do mundo que nos cerca, sendo um instrumento meramente funcional que apenas nos impulsiona a agir no ambiente, mas sem nada nos dizer sobre o que é esse ambiente, ou o que somos nós mesmos.

E se a Razão apesar de inegável, já é de âmbito sutil em nosso organismo, a Intuição será tanto ou ainda mais, e na verdade proponho que é a Intuição que irá promover o diferencial qualitativo entre o Ser Humano e os animais, pois será através dela que ocorrerá aquilo que, teorizo, seja o divisor de águas entre o pré-humano e o humano.

A capacidade de deduzir uma Causa de um Efeito.

1. WRANGHAM, Richard & PETERSON, Dale. O Macho Demoníaco.

DA CASUALIDADE À CAUSALIDADE

O Universo é antes de tudo um Macro Fenômeno, ou no mínimo está repleto deles. Todos os eventos que ocorrem estão relacionados, sendo uns causas de outros, que por sua vez constituem efeitos. Quando digo que um evento causa outro, entendo que o evento inicial produz um efeito, que por sua vez produz outro, e assim por diante, e quase nunca de modo unidirecional.

Uma complexa relação entre eventos constitui nosso Universo, e não há um só Efeito sem Causa, ou Causa sem Efeito, ou seja, todo e qualquer evento produz outros, assim como é produzido por outros, e não interessa aqui regredir a uma hipotética causa primeira ou progredir ao efeito último.

Ainda na insistência em se promover definições, proponho conceituar Inteligência como, antes de tudo: A capacidade de apreender relações de Causa e Efeito, quer sejam físicas ou formais. Quanto maior for a capacidade de um ser de compreender as relações entre os eventos, maior será sua Inteligência.

Dessa forma, podemos vislumbrar uma diferença entre o Ser Humano e os animais. É claro, que os animais são capazes de “deduzir” efeitos de causas por experiência, ou seja, ao receber um estímulo diretamente ligado a um outro, tende a associá-los. Como exemplo, o gato aprende que ao ouvir o som do pacote de ração sendo esvaziado em seu prato, resulta que nele encontrará comida, assim como o cão pode aprender que ao ver uma bacia cheia de água, logo deve se seguir um banho, o que pode resultar em comportamentos evasivos.

Porém, ao que tudo indica, os animais não parecem capazes de deduzir uma causa de um efeito. Um cão ao ver um bola passar a sua frente, preocupa-se apenas em acompanhar-lhe a trajetória, mas não procura pela origem do movimento. O gato pode ter tido a oportunidade de contemplar seu prato de comida vazio e permanecer próximo a ele, e constantemente verificá-lo de novo independente de que tenha presenciado seu dono despejar a comida nele ou não, e o mais notável, mesmo que a comida surja lá por outro meio sutil, isso em nada preocupa o animal. Ele não irá se ocupar de verificar de onde a ração surgiu, pois tudo que lhe interessa é que ela está ali, e não o evento causal que a trouxe.

O Ser Humano porém, e possivelmente alguns primatas superiores, age de forma mais complexa, sendo capaz de pressupor que qualquer evento teve uma causa anterior. Ele desenvolve o hábito de procurar pela origem dos eventos. Não pretendo aqui promover uma análise sistemática de como e quando isso ocorre, mas por enquanto, pressuponho que ocorreu um momento nos grupamentos de primatas superiores em que os indivíduos já apresentavam o dom cognitivo de deduzir causas para os efeitos, o que multiplicou enormemente seu poder sobre o meio ambiente.

Segundo alguns antropólogos, chimpanzes e bonobos usam ferramentas rudimentares apenas quando a situação exige, não lhes ocorrendo a idéia de armazená-las para usos posteriores. 1 A percepção de relações de Causa e Efeito mais abrangentes iria então gerar comportamentos muito mais complexos, como a prevenção, impulsionando os hominídeos a portarem ferramentas.

Uma vez já estando habituado a procurar causas para os efeitos, independente de ter sucesso nesta busca ou não, dão-se as condições para que venha a ocorrer o fenômeno que idealizo como sendo o “Despertar da Humanidade”.

Gosto de imaginar, confessando uma verve poética, um mito que simbolize esse despertar. Imagino que um ou mais hominídeos, provavelmente já aptos a utilizar como ferramentas rudimentares objetos que encontram na natureza, ou a talvez já transformar, lascar ou polir estas ferramentas, num dado momento contemplou, ou contemplaram, um certo fenômeno natural, como a “queda” de um raio por exemplo. Então, por algum motivo, ocorreu pela primeira vez o ato de procurar a Causa deste Efeito. O que poderia ter causado aquele evento?
Um dom primevo de estabelecer relações causais já vinha sendo útil para a sobrevivência num sentido prático, neste momento esse dom passa a ser usado de um modo mais amplo, relacionando eventos menos imediatos entre si, e o mais importante, procurando causas de fatos inevidentes.

Então, pelo dom da Intuição, teria se formado um juízo novo, uma crença. Talvez pela analogia de ser capaz de atirar uma pedra, ou produzir fogo, esses primeiros humanos intuíram que algo deveria ser voluntariamente responsável por aquele evento. Algo, ou alguém, lançara aquele raio dos céus. Esse modo primevo de associação explicaria a onipresença dos mitos antropomórficos em todas as culturas.

Fato é, que mesmo em estado de ignorância sobre o modo de funcionamento da natureza, um Ser Humano jamais deixa de tentar compreender causalmente os eventos. Ele precisa prever quando tal coisa deve acontecer novamente, quer entender e se prevenir, então imagina alguma explicação, determinado por um impulso irresistível de fazer relações entre eventos.

Por exemplo: Não conhecendo o processo de evaporação da água, das transições entre os estados físicos da matéria, se torna totalmente inexplicável como pode de repente cair água das nuvens. É preciso então admitir, por um procedimento inferencial já regido por leis fundamentais da lógica, que algo causa a chuva, algo que não é imediatamente evidente, abrindo espaço para a especulação sobre o imperceptível.

Vale lembrar inclusive que a palavra grega entendida como Téos, quer dizer também “invisível”. Ou seja, um deus é então algo não imediatamente evidente, e sim sutil, mas algo necessário para explicar o porquê de certos eventos ocorrerem.

Aproveito então para advogar que não posso compartilhar com as teses de que o despertar das primeiras associações mitológicas esteja sempre relacionado a um sentimento de medo com relação às forças naturais, pois da mesma forma com as relações mentais de causa e efeito podem fazer surgir idéias de seres terríveis que disparam raios do céu, podem também dar origem a idéias mais singelas, como uma divindade que despeja a água dos rios, que faz o Sol nascer, ou que traz uma brisa refrescante.

O que há de certo, creio eu, é que esse fenômeno, doravante denominado Intuição-Mística, sempre estará porém emocionalmente carregado, quer seja com um fascínio capaz de despertar o maravilhamento e a alegria, quer com o temor capaz de despertar submissão e obediência. Ambos resultarão então na reverência ante a potência sobre-humana do conceito formado. Os imaginários seres responsáveis por aqueles potentes eventos.

Sendo assim, defendo que em alguém momento da pré-história, já com a capacidade de traçar relações primevas de Causa e Efeito por via condicional, racional ou intuitiva, os hominídeos primitivos passaram a usar o que chamo de Intuição-Mística, formulando juízos que relacionam os mais diversos fenômenos naturais com sendo causados por entidades, a partir de um certo estágio com algum grau de antropomorfismo, e sobretudo de intencionalidade.

Nesse momento então ocorre a transferência da Casualidade para a Causalidade. O Ser Humano passa a conceber o mundo a sua volta como determinado por volições, como um Universo Causal, influenciado por um plano não imediatamente perceptível, mesmo porque os seres mitológicos nunca são fisicamente evidentes.

Consolida-se então o senso de Mistério, de que há algo que transcende a percepção, pois essa é a única forma de explicar eventos que aparentemente surgem do nada.

SÍNTESE DE RELIGIÕES

Acabo de lançar uma série de hipóteses que explicariam simplificadamente como se deu o despertar do fenômeno religioso. Posteriormente pretendo confrontá-las com evidências tidas como certas por nosso conhecimento histórico e cultural.

No momento proponho fazer uma reflexão sobre o que é inegavelmente essencial no fenômeno religioso. O que está presente necessariamente em qualquer tipo de manifestação cultural que entendamos como religiosa?

Algumas coisas podem ser descartadas logo de imediato, como por exemplo a idéia de um Deus Supremo Central, que é ausente no Budismo e Taoísmo por exemplo, bem como a idéia de uma cosmogênese, ausente também em alguns mitos indígenas norte americanos. Além do mais, pode-se sem muita dificuldade demonstrar que estes, e muitas outros elementos não são necessários ao fenômeno religioso em si, pois sem dúvida pode-se concebê-lo sem eles.

Mas há pelo menos 3 coisas que, creio eu, são absolutamente imprescindíveis. Primeiro porque não é possível, ou pelo menos disso nunca tive conhecimento, encontrar qualquer sistema religioso que não os possua, e segundo porque é mesmo difícil conceber uma idéia de religião sem eles.

Trata-se dos seguintes 3 itens:

– TODO sistema religioso propõe alguma explicação sobre o Universo.
– TODO sistema religioso propõe alguma solução para a expectativa futura da inexistência.
– TODO sistema religioso propõe alguma legislação sobre como se harmonizar com o invisível.

Com relação ao primeiro item, vemos que qualquer religião tem algo a dizer sobre o mundo a nossa volta. Ela explica como certas coisas ocorrem, e em geral o porquê. Nem sempre fala sobre de onde veio, se veio, e nem sempre diz que um dia deixará de existir, ou sofrerá uma tremenda transformação.

Mas me parece inquestionável, que a religião SEMPRE diz algo sobre a natureza da realidade, quer seja apenas sobre alguns eventos ou sobre sua totalidade, e não vejo como conceber o contrário.

Quanto ao segundo item, deriva diretamente do inegável, insuportável e onipresente drama da Sensciência. Se sei que Existo, posso imaginar que poderia não Existir! A tudo me leva a crer que minha existência é, como diria Welte, um breve hiato entre duas inexistências. 1

De certo há muitas outras necessidades que um contato com o plano transcendente pode satisfazer, mas não tenho dúvidas de qual seja o mais importante. Como nosso impulso pela existência é mais do que fundamental, é muito difícil se conformar com a idéia de que deixaremos de existir, a religião então será nossa salvação. Ela fornece ao menos uma possibilidade de transcender a morte.

E o terceiro item, que na verdade terá íntima relação com o segundo, também me parece onipresente, pois ao afirmar como funciona o mundo além das aparências, vêm então o conhecimento transcendente. Todos os sistemas religiosos, em maior ou menor grau, orientam o fiel ao menos no sentido de dizer o que se deve fazer para obter tal ou qual resultado.

O primeiro item, creio eu, já foi suficientemente abordado anteriormente na argumentação das relação causais. Dado as dimensões desta monografia, não estou pretendendo, a princípio, desenvolvê-lo mais longamente. Direi apenas que a Intuição-Mística irá orientar o indivíduo num processo de obtenção de respostas para o funcionamento da realidade, que será explicada mediante a ação do plano invisível. E por sinal é bom lembrar que a crença no invisível, ou seja, a postura Espiritualista, baseada na Intuição do Mistério, não está listada nos itens imprescindíveis pelo simples fato de que ela não é um item, ela é base sobre a qual se constrói qualquer Mística, Espiritualidade e Consequentemente Religião.

Como afirmei antes, seria possível articular uma posição Espiritualista sem se preocupar com qualquer um dos 3 itens fundamentais da religião, ou seja, pode-se crer que há um plano sutil, mas não se propor a conhecê-lo ou lhe dar importância. Vemos isso amplamente entre pessoas que não vivenciam diretamente religiões mas que não hesitam em concordar que deva haver algo mais entre o Céu e a Terra.

Da Intuição-Mística deriva então a noção do plano sutil, a semente da Espiritualidade, que pode então desenvolver-se em forma de Religião. É claro que o que normalmente entendemos como Espiritualidade está impregnado de conceitos que foram desenvolvidos pela Religião, pois ocorre evidentemente uma retroalimentação, e mesmo porque as pessoas sensíveis à Espiritualidade ainda que não sigam religiões, não deixam de considerar algumas de suas premissas.

Também podemos, baseado nestas classificações, estabelecer parâmetros de demarcação entre a Religião e a Não-Religião, quer seja como mera Espiritualidade, ou como qualquer outro corpo de pensamento.

Admitir que há um plano espiritual, mediante a aceitação do “Mistério”, quer por via da Intuição-Mística direta quer seja pela herança cultural, como já vimos, não implica necessariamente no desenvolvimento de uma postura religiosa. Da mesma forma, a expectativa de superação da morte, por si só, também e insuficiente para tal, pois é facilmente concebível que tal se dê por outras vias, ou melhor dizendo por via meramente materialista, quer seja mediante conceitos como memória genética, obtenção de imortalidade via Ciência, ou mesmo ousadas hipóteses de ressurreição corporal ou sobrevivência mental baseadas em possibilidades de uma ultra ciência futura.2

Da mesma forma, uma simples “ética” é ainda menos eficiente, mesmo que associada ao item anterior, pois tais preceitos poderiam ser dar meramente por condições filosóficas. Seria até concebível que uma “ética” baseada em Espiritualidade pudesse fundamentar uma Religião sem a solução Meta Existencial, porém faltaria-nos simplesmente um único exemplo.

Portanto, é necessária uma coordenação destes 3 itens fundamentais para que um sistema de pensamento seja classificado como Religioso, faltando um deles, teríamos uma Não-Religião.

Estabelecido então esses requisitos, e não perdendo de vista a derivação condicional, para haver Religião é necessário a Espiritualidade, e esta depende da Mística, mas agora devemos nos ater a aquele que talvez, seja o elemento mais crucial. O Item Segundo.

1. Bernhard Welte, Filosofia de La Religion.
2. Para melhores exemplos destas possibilidades que estão melhor representadas como Ficção Científica, temos a obra de Philip José Farmer sobre a “Saga do Mundo de O Rio”, que compreende vários livros, e meus contos de Ficção Científica Além da Ressureição e Seculários de um Homem Milenar em Contos de FC & FF

A META-CONTINUIDADE MENTAL

Não consigo imaginar uma questão mais monumental, mais fundamental, mais importante e titânica do que a pergunta comumente feita na forma de: “Existe vida após a morte?” Muito mais do que saber de onde viemos, como o universo surgiu ou se há um deus. Mesmo porque se a continuidade da existência não ocorrer, tudo o mais deixará de importar, e por outro lado se ela ocorrer, essas questões então tem muito maior possibilidade de serem respondidas, pois teremos muito mais tempo para abordá-las.

Sinceramente acho que um ser Sensciente não pode deixar de se preocupar com isso, embora costume haver, sem dúvida, uma fuga dessa preocupação, que sempre é menos forte quando nossa existência parece estar longe do fim.

Para evitar o paradoxismo do termo vida pós-morte, prefiro me referir a ela com o termo que eu mesmo cunhei. Meta-Continuidade Mental. Como já disse entendo Mente principalmente como um termo simplificador equivalente a qualquer concepção de conteúdo não físico, ou ao menos não pura e claramente físico, estando aí representados espírito, alma, essência, atmam ou similares, assim como mesmo o extremo do reducionismo, de que a Mente seja nada mais do que uma ilusão comportamental como advogada pela Behaviorismo Ontológico.

A Meta-Continuidade é então sua permanência após o fim de nosso corpo, por algum meio qualquer, quer seja vivência num plano sutil, ressureição, reencarnação ou etc.

Somente um ser Sensciente tem noção consciente da própria existência como um fenômeno, e ao mesmo tempo pode conceber a idéia de não existência. O animal simplesmente, aposto eu, não tem noção do que é exatamente existir ou deixar de existir. Ele preserva sua vida baseado puramente em instintos práticos que lhe orientem no sentido de evitar o sofrimento. Qualquer coisa que claramente o ameace fisicamente é sempre também algo que lhe trará dor. E nesse caso, advogo que sua intenção ao fugir do perigo é fugir da dor, e não conscientemente fugir de uma ameaça à sua existência.

Só o ser Sensciente então pode compreender, ao ver a velhice e a morte de companheiros, a noção de que, ao que tudo indica, ele também corre o risco de deixar de existir. Como a morte parece ser inevitável, o inexorável destino da inexistência se revela como uma expectativa, um mistério, e, no mínimo, uma apreensão.

A idéia de que a morte não seja necessariamente o fim pode ter muitas origens, ou melhor, poder ter sido “solucionada” de diversas formas, baseado em observações como a que viria a resultar na palavra “Espírito”, o sopro de vida, que abandona o corpo após a morte, ou a idéia, como defende Durkheim, de que o sonho sugere uma separação entre mente e corpo, uma vez que ao sonhar, o humano primitivo concebe que de algum modo viajou a algum outro lugar, embora seu corpo tenha ficado imóvel.1 Ou mesmo as curiosas experiências de distúrbios do sono.

Mas somente a religião irá garantir ao indivíduo sua chance de transcender a morte física. Uma vez que está construída uma noção de que há algo além da percepção que controla o mundo, de que há um plano invisível, é bem provável que estes fenômenos que parecem desafiar a morte, assim como toda a sorte de eventos não explicáveis, estejam diretamente associados ao transcendente. Afinal um domínio que controla os fenômenos naturais muito além da possibilidade humana deve ter poderes sobre muitas outras, ou todas as coisas.

Arrisco também uma idéia mais ousada. Talvez intuitivamente o ser humano se dê conta, mesmo nos mais rudimentares contextos, da vantagem em se apostar na sua meta existência. Pois crendo-a, ele não poderá decepcionar-se caso esta não ocorra, pois seu destino será o nada, e portanto a não consciência total, e caso ocorra, ele já estaria preparado, dentro de sua concepção.

Claro que isso tudo ocorreria de modo bastante simbólico e certamente inconsciente, como muito provavelmente quase todo o processo psicogênico religioso. É evidente que os humanos primitivos não racionalizaram essa percepção do mundo, gerando tudo de modo espontâneo.

Portanto, acho muito sensata a constatação de muitos estudiosos de que a consciência da mortalidade seja não apenas uma, mas talvez A Grande Causa das religiões, porém, creio que isso seja insuficiente para explicar o fenômeno em toda a sua complexidade, apostando então ao menos numa outra causa concorrente, que é a da Intuição-Mística do transcendente.

Seria então, da fusão entre esses dois aspectos que emergiria o comportamento religioso, a Intuição-Mística viabilizou a noção de Espiritualidade, que virá socorrer este anseio humano por superar a mortalidade, mas destes aspectos, decorre de imediato o terceiro que apontei.

Uma vez que o mundo físico está cheio de “regras”, que nos obrigam a adotar uma série de costumes, é plausabilíssimo que o mundo supra físico também seja, e desse modo haveria formas mais ou menos eficazes, corretas, de se relacionar com ele.

Se está nesse mundo espiritual a chave das grandes questões, como o porquê da coisas, e em especial a possibilidade de trans existência, ter acesso, compreender e seguir suas regras é inevitavelmente decorrente.

Como coloquei antes, a religião sempre oferece uma oportunidade de meta continuidade, mas nem sempre a garante. Temos sistemas religiosos que determinam condições para que isso ocorra, sendo muitas vezes a extinção exatamente a decorrência da não observação das regras transcendentes. Para citar um só exemplo, o judaísmo, em especial no modelo observado no Pentateuco, deixa claro que a punição dos desobedientes é tão somente a morte, reservando a meta existência apenas aos obedientes à Lei.

Dessa forma, continuar a existir é um dos objetivos do religioso, provavelmente o maior, e para tal, ele deve se ater às condições que seu sistema de crença colocar.

Com isso, espero sustentar a tese de que apenas esses 3 itens são absolutamente indispensáveis para um sistema de pensamento ser considerado religioso, a Fundamentação do Mundo, por meio de um plano invisível, a oportunidade da Meta Continuidade Existencial, e a observação dos meios e procedimentos para se obter esta oportunidade, e posturas subjacentes.

A Intuição-Mística irá desencadear a idéia de uma dimensão oculta na natureza, o que terminará por desembocar na Espiritualidade, que ao apresentar a idéia de um plano sutil, e da possibilidade da Meta Existência, implica em que haja métodos a serem seguidos para garanti-la, ou para usufruí-la da melhor forma possível.

A partir deste núcleo, tudo o mais é contingência, ou seja, complementar ao fenômeno religioso.

1. DURKHEIN, Emile. As Formas Elementares de Vida Religiosa.

DEUS

Considero que existam ao menos duas palavras que bem poderiam ser eliminadas de qualquer discurso cuidadoso que não se proponha exatamente a esclarecê-las. Uma já comentei, a irremediavelmente confusa e multi significante palavra “Consciência”. A outra, ainda pior, é “Deus”.

Sinceramente, para mim, qualquer frase dita com a palavra “Deus” pode fazer sentido, até mesmo “Sou Ateu graças a Deus”, dependendo do que se entenda pelo termo. O motivo é a simples multi significação potencial do termo, aliado ao vício aparentemente incorrigível que nossa civilização adotou de reduzi-lo geralmente a apenas uma categoria de suas possíveis significações. É possível extrair de duas pessoas próximas conversando num mesmo contexto essa palavra com significados praticamente opostos.

Dito isto, só nos resta então tentar estabelecer uma conceituação menos problemática. Apelo então para uma redução a um conceito consensual a todas as acepções do termo, e então advogo que a única característica que satisfaz a qualquer entendimento da palavra “Deus” é a de que este é necessariamente algo sobre humano. Então:

DEUS é algo com qualidades transcendentes ou superiores as qualidades humanas.

Daí, ocorre então a primeira grande divisão, que é com respeito a pessoalidade.

Um Deus Impessoal pode ser desde uma divindade Panteísta, estando imanente a tudo, quanto um simples conceito de Ordem no Universo, Cosmos, ou a simples regularidade da Natureza, suas “leis”, ou mesmo a sutil interconexão psíquica que poderia haver entre todos os seres senscientes.

Nessa categoria de acepções temos religiões Panteístas que se referem a uma Deusa como referem-se à simples Natureza, temos religiões orientais que se referem ao Universo como um Ser com certas regularidades, bem como podemos mesmo dizer que o Budismo conceitua o Universo como um Deus Panteísta totalmente despersonalizado, assim como temos também cientistas que usam a palavra Deus para se referir ao “comportamento” do Cosmos, e gostaria de citar também o Monismo, inclusive o do filósofo Baruch Espinoza, que tanto influenciou cientistas.

Isso tudo sem falar que uma multiplicidade de deuses impessoais pode ser alegada, como os imanentes em objetos específicos, como dizia Tales de Mileto “as coisas estão cheias de deuses”, e dessa forma podemos dizer que a Gravidade, o Magnetismo, o Calor e etc. são deuses!

Já na categoria Pessoal, temos deuses com maior ou menor grau de antropomorfismo tanto físico quanto psicológico. Temos então os deuses das religiões Politeístas e Monoteístas “ocidentais”, assim como poderíamos considerar também uma miríade de entidades menores, como duendes, ninfas ou elfos.

Vemos a palavra Deus ser empregada em praticamente todas essas acepções ao mesmo tempo quando observamos pessoas de várias visões de mundo diferentes dialogando sobre o termo, e isso não seria problema se todos tivessem consciência desta amplitude de significâncias.

Infelizmente nossa civilização trilhou uma história que priorizou um conceito Monoteísta de Deus de modo a excluir muitos conceitos diferentes, terminando por enviezar a percepção do termo, e hoje temos pessoas que não conseguem conceber Deus como outra coisa que o pregado por suas religiões assim como temos um Ateísmo Filosófico que aparenta e alega negar qualquer possibilidade de conceito de Deus mas dirige seus argumentos exclusivamente contra o modelo teísta abraâmico.

Dessa forma, um depoimento de alguém que fala de Deus numa acepção pode ser apropriado por outra pessoa para defender uma acepção diferente, de modo que por vezes alguém pode sofrer a ilusão que um número surpreendente de pessoas compartilha, ou esteja combatendo, sua opinião específica.

Por tudo isso, omiti o termo Deus até agora de minha linha de raciocínio, mas ele bem poderia ser facilmente enquadrado dependendo de minha percepção de divindade. Eu poderia considerar Deus como nada menos que o próprio plano transcendente em si, ou seja, a matriz da Espiritualidade, ou como as próprias relações causais que determinam a natureza. Porém, uma noção de divindade monoteísta ao estilo abrâamico está claramente excluída, o que creio condizer com muitas formas de religião primitivas.

Entretanto concordo que talvez a aplicação majoritária, em termos religiosos, e possivelmente a mais clara, seja aquela que entende Deus como uma entidade com algum grau de pessoalidade, ou seja, antropomorfismo, apesar de muito se usar, coloquialmente, deus como uma espécie de sinônimo de “acaso”. Frases como “Graças a Deus tudo está bem”, são equivalentes a “Por Sorte tudo está bem”, ou “Quis Deus que assim fosse”, a “Quis o Destino que assim fosse”, ou “Quis o Acaso que assim fosse”.

Mas voltando ao Deus pessoal, seu surgimento se dá num momento claramente posterior àquilo que antes explanei como Psicogênese Religiosa. Deus será então uma forma de atropomorfizar o transcendente.

Creio que a tendência humana para o animismo, para atribuir não só significados mas sentimentos e personalidades a objetos inanimados, está além de qualquer dúvida.

Não somente trazemos o hábito de atribuir valor sentimental aos objetos, mas, principalmente na infância, recheamos objetos de atributos humanos, e as crianças não parecem precisar ser ensinadas a pensar que seus brinquedos tem algo de vivo, parece espontâneo. Da mesma forma os adultos estão sempre prontos a atribuir sentidos os mais diversos a objetos, quer sejam bandeiras, imagens, talismãs e etc. E com outros seres vivos então a tendência é ainda mais explícita. É irresistível “dialogar” com nossos bichos de estimação. Com isso, não deveria ser surpreendente nosso potencial para nos iludir sobre outras pessoas, projetando nelas qualidades que nem sempre elas de fato tenham.

Provavelmente Projeção seja mesmo a palavra chave. Atribuímos ao externo aquilo que temos em nós mesmos, e isso não parece apenas mais uma de nossas características, pode muito bem ser algo fundamental.

Qualquer um familiarizado com o “Penso, Logo Existo”, com o Solipsismo ou com o “Problema de Outras Mentes” sabe que somente um ato volitivo de crença justifica nossa aceitação da realidade do mundo e da real pessoalidade de outras pessoas.

Mas essa crença é fundamental para a simples existência em interação com o mundo, e se temos esse impulso espontâneo, ou esse véu que nos impede de captar a essência das coisas, porque não extenderíamos tal hábito para além do que simplesmente atribuir pessoalidade a nossos semelhantes?

Podemos atribuir pessoalidade a virtualmente tudo, até mesmo idéias, daí faze-lo com as causas que parecem reger nosso mundo, à já elaborada noção transcendental obtida pela Intuição-Mística, é algo simplesmente inevitável.

O mecanismo evolutivo que teríamos trilhado para desenvolver esse comportamento pode ser demais para uma análise aqui, mas tenho convicção de que pode ser entendido mais uma vez pela nossa simples capacidade de estabelecer relações de causa e efeito. Vemos um ser semelhante a nós realizar coisas semelhantes as que realizamos, daí concluir que ele possua natureza interior semelhante a nossa é uma indução no mínimo de alto grau de probabilidade.

Portanto, se há algo que rege o mundo, um plano transcendente que controla os eventos, como poderíamos entendê-lo por outro modo que não atribuindo-lhe características ao menos compreensíveis, ou seja, em comum conosco?1

Aquilo que de fato esteja totalmente fora de nossa capacidade de compreensão simplesmente nem pode ser concebido. Tudo o que supomos, que intuímos, é no fundo algo que faz parte de nós, e dessa forma a Intuição-Mística nada mais faz do que atribuir ao invisível uma característica psiquicamente significativa.

Aos poucos, antropomorfizar mais e mais essa característica pode ser inevitável, principalmente à medida que conceitos intuídos por pessoas mais sensíveis são transmitidos a pessoas que os simplifiquem. Como regra em todo surgimento de um grande sistema religioso, vemos que a maioria dos seguidores sempre empobrecem o teor daquilo que foi vivido e pregado pelo fundador. 2

Há uma sutil embora notável ligação entre o nível de antropomorfismo com que um crente entende sua divindade e a tosquidão de sua percepção religiosa. Dependendo do grau, será atribuído ao Deus tantas características mundanas que ele termina por perder a dimensão transcendente.

Com tudo isso, quero defender a idéia de que somente após o despertar das bases religiosas, por meio da Intuição-Mística que desencadeia a Espiritualidade, da necessidade de atenuar a ansiedade da inevitável morte física, e da conclusão de que há algo a ser feito para se obter a meta existência, ou seja, somente após esses capítulos da Psicogênese Religiosa terem se passado, é que haverá solo fértil para o desenvolvimento dos Deuses propriamente ditos. Eles serão personagens a povoar esse imaginário místico representando então nossas características.

O maior reforço a essa tese são os estudos que denunciam, em sociedades primitivas, divindades menos antropomorfizadas do que as dos panteões grego, nórdico, ou zooantropomorfizadas, no caso do egípcio.3

A idéia de Deus, no sentido de um ser pessoal, não é então um fundamento da Religião, sendo mais algo que se desenvolve num estágio posterior ao surgimento das propriamente ditas bases do fenômeno. Seria a base se for considerado na forma impessoal, como Algo que permeia o transcendente e ou imanente, que possua características causais e possivelmente intencionais, porém não do modo como costumamos entender os Deuses pessoais.

Deus só pode ser “essencial” à Religião caso seja tomado como um princípio mais amplo e sutil, e é por essa razão que defendo a idéia de que as religiões primeiras são essencialmente Panteístas, e apenas posteriormente é que a tendência a antropomorfização povoará a religião com deuses, que personificarão as forças da natureza. Como veremos a seguir.

1. Como diria Ludwig Feuerbach na obra “A Essência do Cristianismo”, onde defende que a religião nada mais é que a projeção de elementos psicológicos do próprio ser humano em alvos externos, combatendo principalmente a tendência cristã de declarar que existam virtudes, evidentemente sublimes, presentes na divindade e ausentes no humano com o argumento de que se não possuíssemos em nós mesmos as qualidade máximas de Amor, Justiça, Beleza e etc, seríamos incapazes de reconhecê-las num ser alheio, quanto mais de dignificá-las.

2. Não conheço desenvolvimento melhor para esse tema do que o dado por Amit Goswani em “O Universo Auto-Consciente”, livro que, na linha de Frijot Capra, defende uma correlação entre a Física Contemporânea e o Pensamento Filosófico Místico Oriental.

3. Usando dados da Arqueologia e História, Riane Eisler defende, principalmente na obra O “Cálice e a Espada”, bem como Merlin Stone em When God was a Women, um processo pré-histórico de transição para um politeísmo androcêntrista de uma religiosidade mais voltada ao culto do feminino e da natureza, e notadamente Panteísta.

EVOLUÇÃO RELIGIOSA

Há muita formas distintas de classificar as coisas, inclusive as religiões, mas uma delas em especial obtém minha preferência por associar o nível de rebuscamento intelectual, em especial a presença de textos sagrados, e algumas de suas posturas práticas com uma evolução cronológica.

Dessa forma prefiros agrupá-las em Panteístas, Politeístas, Monoteístas e Ateístas. 1

As Religiões Panteístas sendo as mais antigas, são então o resultado direto da Psicogênese Religiosa. A Intuição-Mística ao produzir a Espiritualidade, resulta numa percepção da subordinação da natureza à Causalidade, de modo que todos os eventos parecem estar sob a influência ou mesmo determinação do invisível. Desse modo a indução de que Algo permeie a tudo, esteja em tudo ou mesmo seja tudo resultará no Panteísmo.

Um detalhe que ainda me é difícil elucidar é com relação aos dois tipos de Panteísmo. O Imanente e o Transcendente, também chamado de Panenteísmo. Pois aparentemente o Panteísmo primitivo estudado indiretamente pela Arqueologia, ou sobrevivente até a atualidade, tende à Imanência, ou seja, a Natureza parece ser a divindade em si. Cada parte dele é integrada a um todo sagrado. Porém outros elementos sugerem uma dualidade, como se o mundo físico fosse o corpo, mas que possuiria um espírito.

Isso seria mais lógico em minha concepção teórica de que a Intuição-Mística concebe um plano invisível para explicar os eventos, o que já implicaria num tipo de dualismo, ou que talvez o que concebemos como o “Espiritual” não seja exatamente algo transcendente, mas um modo de ser da realidade, ou seja, uma propriedade, de modo a termos um Monismo com dualismo de propriedades, no caso a Física e a Espiritual.

O mais importante todavia, é que no Panteísmo a solução Meta-Existencial está em normalmente se harmonizar com a natureza do mundo, sintonizando-se com o Espiritual.

Mas, voltando, de qualquer modo a tendência é uma progressiva antropomorfização, provavelmente a medida que a sociedade vai se tornando mais complexa e uma série de novas necessidades são adicionadas. Se antes o Sol, o vento, o raio ou as plantas tinham um espírito imanente, agora este será personificado tanto física quanto psicologicamente.

É muito plausível também que tal processo se dê a medida que os humanos aperfeiçoem seus dons artísticos representacionais, ou artesanais, de modo a retratar certos conceitos antes abstratos com formas inteligíveis, e assim as divindades vão sendo então concebidas de forma sensorial. Isso deve gerar uma retroalimentação no imaginário popular que passa a visualizar os deuses com mais nitidez.

Com isso o advento da pessoalidade é o esperado, e então, progressivamente, os deuses se tornam mais e mais humanos em comportamento e aparência. O Politeísmo se estabelece, e o premente racionalismo humano vai desenvolvendo lendas e mitos que expliquem cada vez mais figurativamente a natureza das coisas. As Gêneses, ausentes ou difíceis de identificar nas religiões Panteístas, se popularizam, e uma “história” divina se estabelece antes por tradição oral, até que nas sociedades mais avançadas, com o surgimento da escrita, sejam registradas literalmente, ganhando então mais estabilidade de conteúdo, o que produz o efeito colateral de um progressivo distanciamento da realidade cotidiana uma vez que, fora da tradição oral, deixam de acompanhar as inevitáveis mudanças culturais.

Notemos que as sociedades onde registramos os adventos primevos da escrita se encontravam sempre em estágios Politeístas, e não só no velho mundo, pois mesmo nas américas as sociedades já estavam bastante avançadas no desenvolvimento de sistemas de símbolos que sem dúvida resultariam em escritas e sistemas numéricos tão complexos quando os Babilônicos, Fenícios, Egípcios e Hindus.

No Politeísmo, a solução para a Meta Continuidade da Alma está em parte numa tendência natural do Universo, porém sob influência direta dos deuses. O Julgamento no Hades, a Mumificação, ou a conquista do Valhala, são elementos periféricos a uma aparente espontânea tendência para a Meta-Existëncia.

Somente num estágio posterior e necessariamente letrado, dão-se as bases para o surgimento do Monoteísmo, uma reviravolta que vem, entre outras coisas, por fim a um caos conceitual de deuses brigando entre si. Declara-se uma única divindade suprema, acima de tudo o mais, e que, mais importante, é incriada, princípio e fim das coisas.

Todas as religiões monoteístas se baseiam não em textos esparsos, mas em livros sagrados condensáveis em volume único, e este livro tem um peso dogmático ao qual os textos politeístas não podem ser comparados. Além disso, eles contam não apenas o origem e a natureza do mundo, mas eles definem os atributos da divindade e determinam como as pessoas devem se comportar de modo a obter a meta existência ditosa. Ou seja, Deus é então quem define e garante a Meta-Existência.

As religiões monoteístas também, por sua própria natureza estrutural, são as mais radicais em termos conceituais, e onde se desenvolve o enviesamento de visão de mundo que costumamos definir como fundamentalismo. Afinal, ao definirem não apenas um único Deus, mas uma única Verdade, elas não podem fazer concessões a conceitos alheios que discordem de seus cânones. Não por acaso elas irão se espalhar de modo em geral tão ostensivo, vencendo seja pela maior elaboração doutrinária, seja pela violência, e ainda são o tipo de religião dominante em nosso planeta.

Outra evidência de que os deuses não são elementos essenciais à Religião e que eles não só são tardios como dispensáveis, e que desenvolveram-se no oriente as Religiões Ateístas, que prescindem da idéia de deuses controladores do Universo, pois das divindades que em geral reconhecem, nenhuma delas tem poder sobre a natureza fundamental das coisas, nem criaram ou destruirão o Universo. Elas não são e não podem garantir a Meta-Continuidade, que passa ser algo a ser buscado pelo próprio indivíduo por imposição de uma ordem natural das coisas.

O “Deus” de uma religião ateísta é uma força impessoal, uma ordem universal que define o mundo e a dimensão espiritual, e que se, embora garanta relações causais, não necessariamente as revestem de uma intencionalidade compreensível à mente humana, e para a qual a espécie humana pode até mesmo ser um acidente.

As religiões ateístas também possuem textos sagrados, mas eles são visto mais obras filosóficas, não possuindo peso dogmático.

E por fim, há algo que permite que elas sejam confundidas com o Panteísmo, voltando então ao princípio. Pois não só sua percepção do transcendente, ou imanente, propriedade ou dimensão Espritual, é correlata dado a sua impessoalidade, sutileza e interpenetração, como ainda compartilham de uma noção de universo cíclico, sazonal, e muitas vezes que advoga metempsicose como solução para a Meta Existência.

Talvez seu maior diferencial seja literário, pois o Panteísmo não possui originalmente textos sagrados, óbvio, e o fato de que as religiões ateístas reconhecem preceptores, o que evidentemente também não ocorre com o Panteísmo, e nesse caso dividem com o Monoteísmo essa peculiaridade, o de serem “fundadas” por homens iluminados, bem como de possuírem alta elaboração teórica.

Dizer então que Deus é Tudo, possui notável equivalência a dizer que Deus é Nada, não existe.

Vale porém lembrar que atualmente temos um resgate de religiões panteístas por meio de novas tendências que misturam várias vertentes como religiões orientais, doutrinas ocultas como gnosticismo, xamanismo e feitiçarias. A essas religiões, que talvez possam ser bem denominadas como religiões Aquarianas, são um tipo de Panteísmo, havendo tanto o Imanente como o Transcendente. Em meu ensaio anterior sobre evolução de religiões denominei-as de Neopanteísmo.

Outro detalhe importante é que Budismo, Taoísmo e Jainísmo não são os únicos exemplares de religiões ateístas. No ocidente tivemos no final da idade antiga movimentos filosóficos que prescindiam ou mesmo negavam a presença de um Deus Central, como o Epicurismo, ou o consideravam como um tipo de Panteísmo Imanente, como o Estoicismo, e mesmo na atualidade há vertentes religiosas de teor claramente ateísta, como o Satanismo Laveyiano e outras formas de religiões reativas à herança cristã.

Um fenômeno muito interessante, e este sim podemos dizer original, são as religiões ufológicas, como o Raelianismo, Astharianismo e outras misturas de misticismo antigo com mitologias modernas, das quais a Ufologia tem lugar de destaque.

Muitas destas religiões representam sim, provavelmente, uma ruptura até mesmo com a noção de Espiritualidade, pois nesse caso o Mistério foi deslocado para um local físico ainda que praticamente inacessível, o espaço e outros planetas, e os extraterrestres, ou em alguns casos intraterrestres, fazem o papel dos deuses. Todavia esses exemplos não depõem contra o sistema que defendo pois eles não foram, e nem poderiam, ser resultado da Intuição-Mística. Eles jamais poderiam surgir na antiguidade, sendo então resultado de todo o processo histórico que viria a disponibilizar novos símbolos, a tecnologia de hoje e talvez do futuro, para substituir as alegorias antigas.

Sendo assim, esses exemplos só são possíveis, como afirmei no início deste trabalho, num contexto cultural necessariamente mais complexo, que permite então desviar elementos antes focalizados apenas no invisível, para um plano não tão misterioso embora sutil, como outras dimensões físicas e redutos localizados num espaço distante.

Mas talvez o maior problema nesta elaboração seja a justificação do Panteísmo como forma original de Religião, pois meu próprio raciocínio implica na inevidência deste Panteísmo Primitivo por meios arqueológicos, que sempre estariam impregnados de registros que remeteriam ao Politeísmo.

Meus argumentos para isso são, principalmente, que a concepção do Panteísmo seja o resultado mais provável da Espiritualidade original resultante da Intuição-Mística, e que o Homo Sapiens só passou a promover representações artísticas que nos evidenciam o Politeísmo num estágio posterior, tendo que antes essa vivência da Espiritualidade era mais intuitiva e sutil.

Além disso, podemos proceder pela exclusão das outras alternativas. Discordo totalmente da idéia de um Monoteísmo Primitivo2, endossado inclusive por Freud em sua teoria psicogênica. Pois como seria possível a uma cultura primeva conceber a manter a coesão em uma única divindade sem um sofisticado sistema de representação iconográfico?! E o pior! Sem escrita!

Vemos que textos sagrados bem elaborados são fundamentais ao Monoteísmo, inclusive aos orientais como o Bhramanismo, se o considerarmos como tal, e o Sikhismo. Ou ao menos uma classe sacerdotal forte, assim como o Monoteísmo, ou pré-monoteísmo, egípcio Akhenatônico, curiosamente também endossado por Freud em “Moisés e o Monoteísmo”.

O Ateísmo também me parece bem elaborado demais para um contexto primitivo, pelos mesmos motivos, e então a única dúvida está entre o Politeísmo e o Panteísmo.

Sendo notável uma confusão devido a transição entre ambos, acrescento mais uma argumento a favor do Panteísmo como primeira forma religiosa, um argumento evolutivo. Notamos que o Politeísmo é cada vez mais rebuscado e seus deuses cada vez mais antropomorfizados a medida que a cultura que o congrega evolui, descontando é claro elites de filosófos helênicos que tinham visões muito diferentes dos deuses, afinal estamos nos referindo a fenômenos religiosos de forma geral, o que priorizará as concepções mais populares e sacerdotais.

Na literatura grega as personalidades dos deuses olímpicos estão muito definidas, apesar das significações arquetípicas mais sutis, de modo extremamente mundano, mas o mesmo não acontece com as gerações divinas anteriores. Os deuses e titãs precedentes são mais simbólicos que os olímpicos, e o mesmo ocorre que seus antecessores, de modo que quanto mais recuamos mais temos deuses próximos da impessoalidade, Urano e Gaia, Eros e Caos.

O mesmo acontece na mitologia egípcia. Osíris, Hórus, Seth e Isís são bem melhor definidos do que Rá. Saltando para o oriente, o mesmo acontece com os deuses japoneses. Amaterasu, Susanoo, Izanagi e Izanami por exemplo, são bem mais antropomorfizados que os 5 deuses primordiais oriundos do Caos.3

Com isso, me parece claro que os deuses evoluem em características humanas, e, de modo que os primeiros são basicamente impessoais, e se admitirmos essas teogêneses como produtos culturais dinâmicos, podemos inferir que as primeiras divindades tendiam à impessoalidade, ou ao menos podemos detectar um reconhecimento ainda que inconsciente de um passado de deuses impessoais.

Resta ainda a questão sobre se esse Panteísmo primitivo não seria um Panenteísmo, ou Panteísmo Transcendente, o que pode gerar confusões com o conceito de Monoteísmo por sua característica transcendental, o que talvez justifique a ilusão de um Monoteísmo Primitivo.

Porém, volto a apelar a característica que melhor define o Monoteísmo como o entendemos, praticamente datado por volta de um milênio e meio antes de cristo, que é uma maior elaboração teórica e uma classe sacerdotal organizada. E, o mais importante, excluímos qualquer possibilidade de Monoteísmo se adotamos a impessoalidade como característica das divindades primitivas. Pois deuses Monoteístas Impessoais como o Lógos Platônico, o Motor Imóvel de Aristóteles, ou o Uno de Plotino, simplesmente não vingaram como religiões populares, só fazendo sentido para filósofos eruditos. E algo semelhante ocorre na atualidade com o Deus Monoteísta Impessoal do Espiritismo Kardecista, que continua sendo, em grande parte, uma religião de intelectuais.4

Por fim, que podemos extrair desta breve compilação? Primeiro, que a idéia de Deus no sentido de pessoalidade é plenamente dispensável do fenômeno religioso e em especial de sua gênese, e no sentido impessoal corre o risco de se diluir de tal forma que sua aplicação se torna também dispensável, além de imprópria, por simplificar demais certos conceitos mesmo que não os confunda com acepções alheias.

Acho simplesmente desastroso usar a palavra Deus para se referir a conceitos como Tao, Nirvana, Buda, pois isso não só destrói o sentido original como praticamente inviabiliza a possibilidade de se entender os demais conceitos.

Os Neopanteístas em geral percebem isso, e usam termos distintos para se referir aos princípios em que acreditam, quer seja “Deusa” ou “O Deus”. Na verdade, problema não seria não fosse o enviesamento que o termo sofre.

Apesar das múltiplas acepções, há uma predominância de uma acepção em especial. O conceito de Deus mais difundido hoje é um modelo neoplatônico, que foi melhor elaborado pelo Cristianismo.

Trata-se de exponenciar e fundir numa só as idéias de Criador do Universo, Sustentador, e Princípio do Bem, algo simplesmente impensável num ambiente politeísta, onde um deus cria, o outro sustenta, e um outro representa ideais de bem e justiça.

Fundir esses 3 elementos, tão bem representados na figura da Trindade, teve um efeito drástico, produzindo uma fórmula religiosa historicamente irresistível e recheada de inéditas contradições e paradoxos que jamais foram solucionados em mais de dois milênios de Teologia, ainda que nunca tenham chegado ao conhecimento da maior parte da massa de fiéis. Os adeptos das religiões politeístas jamais tiveram que se preocupar com Teodicéias 5, ou antinomias como a da Liberdade contra a Onipotência e Onisciência divinas.

Mesmo descomprometidas com esses elementos doutrinários, muitas pessoas de hoje internalizaram essa fórmula contraditória e a aplicam em suas concepções de forma inconsciente, e muitas vezes acham que ela é adequada para traduzir conceitos de tradições por meio das quais tal fórmula é claramente incompreensível, anulando a possibilidade de entendimento entre formas de pensamento num mundo onde tal entendimento desponta como cada vez mais premente.

Por isso preferi omitir o termo Deus da elaboração de minha Psicogênese das Religiões, e defendo sinceramente o fim do uso deste termo de forma genérica, mas sim sempre especificando qual conceito de Deus se está propondo, em especial a diferenciação entre o Pessoal e o Impessoal.

Mesmo minha divisão em 4 grandes grupos religiosos fica confusa se tal distinção não é feita, no caso Monoteísmo e Politeísmo são adeptos do Deus Pessoal ao passo que Panteísmo e Ateísmo são adeptos do Impessoal, e tal jogo de palavras pode então denunciar a inegável contradição de uma religião Ateísta.

A confusão típica da palavra Deus talvez ajude a entender as confusões típicas que atingem o conceito de Ateísmo, uma das poucas palavras a respeito de posições filosóficas que a maioria das pessoas entende a etimologia e sobre a qual julga saber o suficiente.

Talvez o Ateu seja uma das maiores vítimas de preconceito na atualidade, pois se eventos históricos do Século XX vem ajudando a diluir a estigmatização sobre negros, judeus e mais recentemente islâmicos e homossexuais, que eu saiba nada até hoje se propôs a esclarecer às massas que um Ateu não é necessariamente um indivíduo inescrupuloso.

Se entre outras coisas um Ateu, principalmente nas Américas e evidentemente mundo islâmico, jamais se elegeria presidente, em parte, tenho boas razões para acreditar, isso pode ser decorrente de nosso conceito predominante de Deus estar vinculado ao conceito de Bem, e o ateu seria então um indivíduo que recusasse entre outras coisas o ideal de justiça e virtude que desde Platão se fundiu aos conceitos de Criador e Governador do Universo.

Com tal confusão na cabeça, não é de se admirar que a maioria das pessoas reaja com tanta incredulidade ao ouvir falar que existem religiões ateístas, a ponto de que os budistas no ocidente prefiram transmitir alguns de seus conceitos impessoais com a palavra Deus.

Evidentemente que podemos considerar vários tipos de ateus, mas aqueles que de fato invocam decididamente o termo para si próprios invariavelmente estão entre as pessoas que melhor entendem os conceitos teóricos de Deus, em especial todas as contradições resultantes dos Omni atributos, Liberdade, Existência do Mal e Estado Natural das Coisas. São normalmente ateus por convicção filosófica.

Porém como já coloquei antes, nem eles escapam da confusão, pois quase sempre seu ateísmo se baseia em negar o modelo de Deus Pessoal, algo muito fácil se comparado a tentativa de negar um modelo impessoal, e no entanto tendem a estender suas críticas a qualquer sistema religioso.

Apenas para mostrar a versatilidade do conceito de Deus Impessoal, pode-se simplesmente afirmar que lato sensu, não existem ateus, pois mesmo o mais materialista e cético dos ateus evidentemente tem que acreditar em algum tipo de ordem no universo, como a Leis da Física, e tal pode muito bem ser chamada de Deus, e de fato o é por muitos cientistas como os próprios Albert Einstein e Stephen Hawkins.

Nesse mesmo sentido, não poderiam haver então religiões Ateístas, mas defendo que os orientais sabiam muito bem o que faziam quando adotaram visões impessoais de ordenamento universal. Seus sistemas religiosos surgiram em âmbitos de deidades pessoais, e em tais, tentar reintroduzir uma noção impessoal de Deus não é nada fácil, bem como qualquer tentativa fica vista como negação do próprio conceito de Deus em si.

Finalizando esta parte, além da negação na necessidade de deuses pessoais na religião e sustentação da tese de que deuses impessoais acabam sendo conceitos tão versáteis que chegam a ser inúteis, outra conclusão que espero defender com essa explanação sobre evolução dos sistemas religiosos é que além dos 3 itens fundamentais, a explicação causal para o mundo, a meta-continuidade mental e a legislação comportamental decorrente, tudo o mais no fenômeno religioso são adições posteriores que terminam por desviar, ao menos aparentemente, o foco principal da Religião.

A maior destas adições veremos a seguir.

1. Essa idéia foi originalmente desenvolvida em meio Ensaio sobre Religiões.
2. Freud, em sua teoria psicogênica da religião primitiva por meio do sentimento de culpa dos primeiros humanos em terem matado o macho alfa do grupo.
3. Xintoísmo
4. Ver também nota 3 do capítulo anterior, página 15.
5. Tentativa de solucionar a contradição entre a existência de um Deus Onipotente e Bom com a existência do Mal.

ÉTICA E MORAL

“Talvez o maior crime cometido pelas religiões foi a apropriação indevida do conceito de Ética”. É mais ou menos esta uma das mais utilizadas máximas da crítica à Religião. E a meu ver com razão. O preconceito contra o Ateísmo decorre basicamente da forçada associação que nossa história conseguiu fazer, de que a Ética derive necessariamente do comprometimento religioso, e em especial da idéia de Deus.

Como vimos, adotando minha tese, nada há em princípio no comportamento religioso que implique numa postura Ética no sentido que normalmente entendemos, pois pela percepção da uma ordem invisível no mundo, a conquista da meta existência pode muito bem ser obtida mediante atos, de acordo com o sistema, que ninguém hesitaria em taxar como reprováveis, e de fato o são em algumas religiões mais primitivas ou marginais, onde sacrifícios humanos ou de animais, canibalismo, ou o extermínio sistemático de nações adversárias é regra imposta pela divindade.

Não é preciso ir longe para encontrar exemplos. Qualquer um que leia os primeiros livros da Bíblia, em especial Deuteronômio, Josué e Juízes, poderá ver que atos atrozes são cometidos a mando direto de Deus, quando não pelo próprio Deus, e qualquer um que tenha a ingênua ilusão de que os 10 Mandamentos constituem um sistema Ético, saiba que ele se aplicava exclusivamente ao povo hebreu, pois nem faria sentido aplicá-los a povos com hábitos totalmente diferentes mesmo porque os Hebreus não faziam conversões, e são baseados numa sociedade escravocrata, androcêntrica e que aplicava a pena de morte a crimes como trabalhar no Sábado.

Da mesma forma, percebemos mesmo hoje em dia que crimes brutais são cometidos por indivíduos que acreditam plenamente estarem seguindo os ditames do divino, e não raro possuem um embasamento bastante coerente para tal.

Pode-se argumentar, não sem razão, que tais eventos decorrem da má interpretação de seus próprios códigos canônicos, o que é bastante compreensível uma vez que muitos destes códigos são contraditórios e de dificílima interpretação, a ponto de que arremessar aviões em prédios ou bombardear alvos civis com armas inteligentes possam ser feitos em nome de Deus, bem como queimar pessoas em fogueiras ou enviar exércitos em cruzadas santas.

Observe que tudo isso pode ser e tem sido feito ao longo de toda história, não só em nome de Deus, mas em nome da Religião em si, ou em nome da Liberdade, da Lei, ou da Pátria. Mas, curiosamente, observe: É possível fazer qualquer coisa disso em nome da Ética, da Bondade ou pelo Bem da Humanidade? Ou mesmo em nome da Filosofia ou da Ciência? O discurso não soaria estranho?

O delírio de que uma postura ética derive necessariamente da religião é muito difundido, o que é impressionante uma vez que nosso sistema ético predominante atual é completamente laico, sem sequer uma sombra de religiosidade, mas sim totalmente construído sobre elaboração filosófica. E são muito poucos os que discordam de que ele é ao menos teoricamente louvável.

Nossa referência, para o que chamamos “mundo livre”, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela ONU logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Suas origens podem ser rastreadas ao Iluminismo e Positivismo, em especial ao “espírito” da Revolução Francesa com seu lema Igualdade, Liberdade e Fraternidade, e com um salto maior, até alguns filósofos gregos antigos.

Podemos notar que esses âmbitos possuem em comum a tendência ao desvinculamento com sistemas religiosos, de modo que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é puramente laica. E não poderia ser diferente. Em milhares de anos de história JAMAIS um sistema religioso, a não ser depois da Declaração Universal, se propôs a condenar a escravidão e a servidão, pelo contrário, eles invariavelmente sacramentaram a hierarquia social. Nenhum grande sistema religioso também jamais questionou o androcentrismo propondo a valorização feminina, e os poucos sistemas pequenos que o fizeram, como o Bahaísmo, ou Gnosticismo antigo invarialmente foram massacrados pelos sistemas dominantes. E por fim, querer que um sistema religioso qualquer pregasse liberdade de crença é algo que beira o inconcebível.

Foi tão somente o desvencilhamento do pensamento da influência religiosa, bem como a separação Igreja e Estado, que permitiu que tivéssemos um documento ético legítimo e reconhecido até mesmo por muitos daqueles que se beneficiariam de sistemas teocráticos.

Isso só já deveria denunciar a falácia de se associar ética à religião, mas há algo mais que precisa ser dito, e que esclarece melhor porque um sistema ético não só não costuma, como não poderia ser derivado de um sistema religioso, em especial dos sistemas monoteístas.

Trata-se de mais um dos inúmeros paradoxos resultantes de nosso confuso conceito trinário de Deus, que é: Como é possível reconhecer o valor de um sistema ético revelado por Deus?

Se dissermos que reconhecemos tal valor, bem como sua autenticidade, devido ao seu conteúdo, significa que temos competência para julgar tal conteúdo, e assim sendo, nós que decidimos se aquela revelação é válida ou não, e portanto, somos capazes de desenvolver um sistema ético independente da divindade.

Se dissermos que não temos tal competência dependendo então da divindade, como aliás as religiões tem sustentado, então como podemos decidir? Qualquer coisa que a divindade nos ordene fazer é válido! E dessa forma guerras podem ser santas, bem como sacrifícios humanos ou escravidão e opressão desde que sejam ordenadas pela divindade, que só se revela mediante uma classe social específica, ou em experiências psicológicas intensas que não raro induzem os indivíduos a ações torpes.

Ainda poderíamos dizer que não seríamos capazes de criar o sistema, mas sim de reconhecê-lo, o que nos deixa então dependentes da divindade, porém isso esbarra no simples fato de que até hoje nenhum sistema supostamente revelado foi satisfatório. Todas as teocracias do passado e do presente foram e são reprováveis em inúmeros aspectos, e que em contrapartida fizemos sistemas laicos.

Ética, no sentido que está sendo tratado aqui corresponde aquilo que em geral entende-se no senso comum, e dessa forma é óbvio que ela diz respeito a relações entre indivíduos e ou coletividades em vários aspectos, e com o fato trivial de que seus objetos são mundanos, o que interessa imediatamente à ética é tão somente a vida terrena. É o modo como devemos tratar nossos semelhantes, a qualidade de nossas escolhas e ações em consideração a seus efeitos para outras pessoas e sobretudo nosso sentimento de Empatia. Uma palavra mágica!

Se o objetivo de uma conduta ética fosse a conquista de um bem externo ao mundo, como a Meta-Continuidade, ela deixaria de ter como alvo nossas relações e se tornaria apenas uma condição a ser satisfeita para obter um prêmio. O objetivo da ética não pode ser nada além do maior Bem Estar individual e Coletivo possível, tanto em quantidade como em qualidade.

Uma estrutura ética na verdade é praticamente uma emergência natural, em algum nível, em qualquer sociedade. Sem parâmetros de comportamento definidos com limites claros e previamente acordados, a convivência seria impossível. Por isso em qualquer tempo e local jamais existiu uma sociedade sem regras, explícitas ou implícitas, o que variou foi apenas o nível de abrangência dessas regras e principalmente a definição de qual é o objetivo a ser alcançado por elas.

Nesse sentido podemos sim dizer que o Decálogo hebráico foi um código ético, mas somente num âmbito muito restrito, porque quase metade de seus itens nada tem haver com a relação entre os humanos, e principalmente porque seu objetivo assumido não era o estabelecimento do Bem Estar coletivo, mas sim a submissão e louvor a uma divindade.

Nossos sistemas éticos atuais nada tem haver com isso, sua meta é puramente o Bem Estar humano individual e social, promovendo o melhor equilíbrio possível entre os interesses de modo a estabelecer uma sociedade funcional e satisfatória, o que inclui, é claro, permitir liberdade de culto religioso a quem se interessar.

Mas o que mais explica a confusão entre Religião e Ética é, mais uma vez, nosso conceito misto de Deus, em especial sua atrelação à idéia de Bem. Durante muito tempo tentou-se desenvolver sistemas éticos baseados numa concepção ontológica pura e ideal do Bem em Si. Nunca houve sucesso, simplesmente porque é impossível definir o que vem a ser o Bem num sentido absoluto. Só podemos faze-lo no sentido relativo e pragmático.

Essa ilusão de que é possível definir o Bem em Si ainda hoje é defendida por muitos teóricos, mas nunca conseguiram ir além das palavras. Platão, sem dúvida a maior referência, também fracassa em traduzir seu ideal ético para o plano prático, e não só porque sua concepção de sociedade perfeita é nada mais nada menos do que fascista, hierárquica e belicosa, mas principalmente porque perseguir um ideal de Bem fora do mundo físico não costuma levar a lugar nenhum.

Portanto, até agora, a única definição satisfatória de Bem é a relativa e pragmática, que temos hoje, visando a satisfação de nossas necessidades práticas do modo mais bem distribuído possível, e que só passou a ser seriamente desenvolvida a partir da metade da Idade Moderna no Ocidente, exatamente quando a influência religiosa declinou.

É claro no entanto, que as religiões absorveram e reinterpretaram a ética a sua maneira, de modo que a medida em que evoluíram, a ética, ou melhor dizendo, a moral religiosa, passou a fazer parte inseparável do sistema.

Como Moral, também entendo aqui o conceito relativamente bem difundido de que se trata de uma aplicação mais restrita e condicional da Ética. Por isso a Religião não pode produzir Ética propriamente dita, embora possa incorporá-la, mas sim Moral.

Portanto valores como virgindade antes do casamento, monogamia ou utilização obrigatória de determinadas vestimentas são morais, e não éticos, dizendo respeito somente a um tempo local e jamais tendo aplicação universal.

Mas em essência, no fundamento psicogênico da religião, simplesmente não há lugar para ética, e nem mesmo moral, pois tudo o que de fato interessa é a observação de certas condições para obtenção de benefícios oriundos da ordenação transcendente do cosmo, em especial a Meta-Continuidade Mental. Assim como os deuses, as gêneses ou as escatologias, a moral religiosa é um efeito resultante da evolução dos sistemas derivados da espiritualidade, embora provavelmente inevitável e que se incorporou de modo irreversível.

Essa incorporação permitiu a dedução inevitável, nas religiões mais complexas, de que as regras de convivência devem levar em conta o bem estar reflexivo entre os indivíduos, expressa na famosa Regra de Ouro das religiões, que afirma que devemos considerar nossos semelhantes como nós mesmos, e nesse sentido as religiões foram sintetizadores conceituais geniais.

Infelizmente essa bela decorrência talvez seja o subproduto mais ineficaz gerado pelas religiões, sendo largamente ignorado na maioria dos contextos. Se selecionarmos um fiel qualquer de qualquer religião, ele jamais discordará da possibilidade de vida pós morte ou existência do plano divino, e normalmente pratica ao menos ocasionalmente alguns de seus ritos, subprodutos das regras derivadas da ordem sutil. Mas a prática da Regra de Ouro tem sido negligenciada em massa em qualquer lugar e tempo do mundo, o que no entanto praticamente não afeta as religiões, o que é simples de entender mediante esta minha tese, pois tal decorrência é simplesmente irrelevante para os fundamentos da religião em si.

Por outro lado, a simples suspeita ou acusação de que e existência do plano espiritual seja incerta, ou de que haja Meta-Continuidade, abala violentamente a estrutura de um sistema religioso. É por isso que não foram as vergonhosas práticas passadas e presentes destoando da Regra de Ouro que puseram as religiões em Xeque, mas sim as descobertas científicas ou argumentações filosóficas que enfraqueciam a segurança argumentativa do sistema. Não são as agora evidentemente atrozes atitudes divinas presentes no Velho Testamento que promovem a contestação mais séria de que exista de fato o deus Jeová, mas sim a sugestão de que a Gênese e os demais milagres são fábulas, pois violam a ordem atualmente conhecida da natureza, ou seja, contestou-se o sistema religioso em seu fundamento primário, o ordenamento do mundo.

Da mesma forma não são os atos mais questionáveis de Jesus no Evangelho que abalam a crença, nem mesmo as incoerências históricas, o que não pode ser contestado é sua ressurreição e a promessa da imortalidade, bem como suas prerrogativas sobrenaturais, garantia da ordem transcendente, sem a qual o Cristianismo como religião desabaria. Notemos inclusive, que aquelas pessoas que se apegam a sistemas religiosos pelos seus conteúdos éticos são justamente as que fazem menos questão de crer nos milagres.

Por tudo isso, um indivíduo religioso, o Homo Religous como diria Mircea Eliade, não necessariamente é um indivíduo ético. Porém como as religiões simplesmente se apropriaram da ética, o que ocorre é que pessoas eticamente sensíveis tendem a procurar religiões, por isso podemos encontrar muitos exemplos de indivíduos religiosos de conduta ética irreprovável.

RELIGIÕES DO FUTURO

Defendi nesta tese que os fundamentos primários da Religião podem ser reduzidos a 3, a intuição de uma ordem sutil no mundo, a necessidade de aliviar a angústia da perspectiva inexistencial, e a decorrência de um conjunto de procedimentos relativos à ordem sutil a serem observados para obter a Meta-Continuidade da existência, e outros benefícios.

Mas é claro que, uma vez que as Religiões não se resumem a isso, sobre esse tripé se incorporaram inúmeros outros objetivos e características que ao longo da história nos legaram os inúmeros sistemas religiosos distintos mas inegavelmente interligados que possuímos.

Uma vez que utilizei o termo Intuição-Mística, que defendi que Intuição é o diferencial entre o humano e não-humano, e que potencializa a inteligência humana, que nada mais é que a capacidade de buscar, entender ou supor relações de causa e efeito, creio que a pergunta “É a religião inerente ao Ser Humano?” está positivamente respondida.

Simplesmente seria impossível, nesse sistema, que se desenvolvesse qualquer grupamento humano sem noções religiosas, que se fundem com outras atividades humanas também inevitáveis, nos moldes de desenvolvimento primevo de nossa espécie cultural.

As grande questão então fica sendo: “Sempre haverá religião?”

Primeiro, devo cobrir aquela lacuna que provavelmente deve ter ficado evidente ao leitor. Concebi apenas como surgiram os fundamentos da Mística, Espiritualidade e Religião na mente humana primitiva, mas não como esses conceitos são transmitidos prontos para outras mentes.

Evidentemente isso é tema para um desmembramento desta monografia, mas não deve ser de difícil entendimento e aceitação que um sistema religioso transmitido pronto satisfaz a necessidade primárias decorrentes da Intuição-Mística da maioria das pessoas.

Uma vez que qualquer pessoa, em maior ou menor grau, é afetada pelos mesmos impulsos mentais que serviram aos primitivos para desenvolver as bases da religião, ela será sensível em maior ou menor grau a conceitos desenvolvidos sobre esses mesmos impulsos.

Por isso, para a maioria, a Intuição-Mística serviu meramente como meio de reconhecer e valorar estruturas culturalmente transmitidas. Uma pessoa que não a tiver, ou tenha em baixo grau, fatalmente será menos sensível ao discurso religioso, a não ser que este assuma outras características.

Quando uma religião se funde com várias outras questões sociais, seus elementos transcendentes podem ficar dissolvidos, de modo que muitas pessoas se integram aos sistemas sem preocupação maior com as questões fundamentais primárias. A Intuição-Mística está lá, ajudando a adequar a mente ao sistema, tentando compatibilizar os impulsos individuais com os conceitos apreendidos.

Quando uma religião se torna apenas um sistema de exploração social baseado em conceitos fantasmagóricos, elementos fundamentais podem ser exponenciados, como o medo da inexistência ou a perspectiva de uma transexistência ruim, bem como a delineação de fenômenos ocultos malignos, e a sugestão de regras transcendentes dolorosas e assustadoras, ou ainda, que a ordem transcendente esteja particularmente interessada em detalhes da vida pessoal do indivíduo estabelecendo diretrizes que determinam sua vida prática.

Quando uma religião se une a filosofias éticas humanistas, seus elementos condicionais podem ser associados aos parâmetros éticos de uma sociedade, muitas vezes de modo extremamente satisfatório e produtivo socialmente.

Mas tudo isso, como eu já disse, é contingente ao fenômeno religioso, a essência em si não é alterada, apenas sua manifestação, por isso, é errôneo basear-se nesses subprodutos para julgar o futuro da religião.

Temos que nos atermos aos elementos fundamentais para supor se é possível uma experiência humana totalmente isenta de religiosidade, espiritualidade ou mística.

Suponhamos que num tempo e local específico, as crianças de uma sociedade jamais aprendam nenhum conceito religioso, espiritual ou místico, sendo educadas de modo unicamente pragmático e recebendo como respostas aos questionamentos inevitáveis sobre os eventos apenas explicações científicas de ordem bastante avançada, de modo que a natureza, pelo menos a nível macro, não seja mais mistério.

Muitos apostariam que uma sociedade como essa seria totalmente a-religiosa e materialista, mas eu tenho minhas dúvidas.

Primeiro porque não acredito que a Ciência, ou qualquer outra atividade humana, tenha respostas definitivas a todas as questões, portanto, sempre haverão mistérios, e sendo assim, sempre a Intuição-Mística estará a atuar.

Numa sociedade como essas no entanto, sem dúvida, não teremos os sistemas religiosos como os temos em sua maioria hoje em dia, mas uma vez que haja não só mistérios sobre a natureza, mas que as questões fundamentais da Ontologia e Metafísica também muito provavelmente não serão solucionadas, jamais será possível negar a possibilidade da dualidade ou propriedade espiritualista.

Para desespero dos ateístas mais radicais, sempre haverá lacunas para “deus” preencher.

Sendo assim, o mínimo que se esperaria é que haveriam filosofias místicas, uma versão extremamente refinada de religião, mas ainda assim, Religião, Espiritualidade e Mística.

Como já disse, tais sistemas religiosos seriam praticamente irreconhecíveis para a maioria de nós, principalmente com nossa concepção viciada de Deus, muitos de nossa cultura não os aceitariam como religiões, mas eles reuniriam pelo menos os 3 itens fundamentais.

Ao senso de uma ordem sutil, o primeiro e mais inevitável, se uniria a insondável questão meta existencial, que despontará, tenho certeza, sempre como uma esperança, resultando na suposição de como seria o meio, ou o melhor modo, de obter essa imortalidade, pois simplesmente não consigo conceber a idéia de que o Ser Humano algum dia se contentará com a possibilidade de só possuir uma única existência temporária.

Mesmo que a Ciência obtenha conquistas extremas, como a imortalidade e a ressurreição, algumas questões filosóficas, como a continuidade mental, o solipsismo ou o problema de outras mentes simplesmente não serão solucionados. Não importa que você desperte num paraíso futuro com as lembranças de todas as suas existências passadas, é simplesmente impossível ter certeza objetiva de que, por exemplo, essas lembranças não foram criadas juntamente com você um segundo antes. Nem mesmo o você de agora pode ter certeza objetiva de que é o mesmo você de um segundo atrás, a possibilidade de que todo o Universo tenha sido criado um instante no passado e totalmente pronto, inclusive com memórias, é impossível de refutar, bem como a possibilidade de que você ter sido copiado do original e este destruído e reduzido a nada, o que, duvido, não deixaria ninguém tranquilo quanto a possibilidade de ser destruído baseado na garantia de que uma cópia sua garantiria sua continuidade pessoal.

Por todas essas questões, considero impossível que o sentimento de mistério seja completamente anulado no Ser Humano, isso faz parte de nós. Nosso impulso de vida é forte demais para se conformar com a morte, e procurará transcendê-la a qualquer custo, e a religião é somente um dos meios.

Um meio para conquistarmos a imortalidade, ou sonharmos.
Afinal estamos vivos. E enquanto estivermos, somos imortais.

Marcus Valerio XR
http://www.xr.pro.br
04 de Julho de 2003

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Fonte: http://www.xr.pro.br

 

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