Tarahumara: a misteriosa tribo dos superatletas que correm descalços

por Sílvia Caneco

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Christopher McDougall passou dias a vasculhar a Sierra Madre, no México, em busca de um homem que julgava ser inventado: o Cavallo Branco. Uns diziam que era um fugitivo, outros afirmavam que era um pugilista que tinha espancado um homem até à morte no ringue e tinha procurado aquelas ravinas para redimir culpas. “Tenham cuidado com ele. Já ouvi falar desse Cavallo. Era um lutador que ficou loco. Morreu-lhe um homem e virou loco. Pode matar-vos com as mãos nuas. E além disso – acrescentou, caso nos tivéssemos esquecido – é loco.” Uns diziam que era “engraçado e simpático”, outros descreviam-no como “esquisito e gigantesco”. Não se sabia nome, nem idade, nem onde teria nascido. E ao fim de dias ao ouvir as histórias mais inverosímeis sobre o vagabundo solitário que teria abandonado a civilização para passar os dias a correr nas montanhas, o americano Christopher McDougall achou que estava no meio de um fiasco. “A história parecia boa demais para ser verdade”, escreveu, e resignou-se.

O Cavallo Branco nem sequer tinha sido o pretexto para McDougall perseguir a história que resultou no livro “Nascidos para Correr”. Tudo tinha partido de uma simples pergunta: “Por que me dói o pé?” O jornalista da “Men”s Health” e corredor nas horas livres tinha consultado os melhores especialistas em medicina desportiva e ouvido sempre as mesmas respostas: o seu problema é correr; um corpanzil como o seu, de 1,93 metros e 104 quilos, não foi feito para andar “aos pinotes contra o chão”. Em 2004, em reportagem no México, cruzou-se com uma revista de viagem com uma foto de um homem que confundiu com Jesus. Não era mas tinha 55 anos, uma túnica, sandálias e era capaz de sprintar 160 quilómetros pelas montanhas.

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“Nunca tinha ouvido falar de ninguém que conseguisse essa proeza, e quando descobri que ele fazia parte de uma tribo que conseguia correr as mais longas distâncias, fiquei em pulgas para descobrir todos os seus segredos”, contou ao ao i, por email, o autor e ex-correspondente da Associated Press em Lisboa.

Na condição de jornalista e “corredor aleijado” partiu para a terra dos Tarahumara: um lugar remoto do México, impossível de aceder por estrada, patrulhado por atiradores furtivos e controlado pelos cartéis de droga. “Tive sorte porque encontrei um homem que me pôde guiar pelos canyons. Era um caminho longo e difícil e mais perigoso do que esperava. Nunca imaginei que teria de atravessar um território controlado pelos cartéis de droga”, recorda McDougall, que ali passou quatro temporadas durante dois anos.

Tarahumara

Os Tarahumara são “uma pequena tribo que vive da mesma maneira desde 1600, quando se esconderam nos Canyons para escapar dos Conquistadores”, explica o jornalista e escritor. Entre eles, não existe crime, nem assaltos, nem obesidade, diabetes ou depressões. Vivem em casas camufladas e usam como moeda de troca grandes baldes de cerveja de milho. Os homens de 50 anos correm como adolescentes, os velhos de 90 correm distâncias de maratona. Se um aventureiro demora dez horas a subir de mula uma montanha das Ravinas do Cobre, um corredor tarahumara demora apenas 90 minutos a fazer o mesmo percurso. A alcunha dita-lhes o perfil. São conhecidos como “Rarámuri” – O Povo Corredor. Não é ficção e existe mesmo um povo assim, que quase nunca ninguém viu.

No início da década de 90, o fotógrafo Rick Fisher descobriu as capacidades atléticas da tribo e convenceu alguns a participar na corrida de Leadville, a cidade mais elevada da América do Norte. Durante dois anos, foram um fenómeno. Ninguém acreditava naqueles homens parados na linha de partida com faixas de borracha de pneu transformadas em sandálias, até os verem correr como relâmpagos. Ann, uma maluca da competição que chegara a correr uma ultramaratona por mês, não conseguiu travar o espanto ao ser ultrapassada por um deles: “Nem parecia cansado! Era como se estivesse só… a divertir-se.” E os sapatos Rockport tornaram-se apoiantes oficiais da única equipa de corrida do mundo que detestava sapatilhas e que demonstrava não precisar delas para nada. A revelação durou pouco: o agente Fisher endoideceu, cegou com loucuras publicitárias e os Tarahumara voltaram para o seu canyon. Desde então recusam sair do seu último refúgio no fim do mundo.

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O Cavallo Branco, que afinal não era um mito, é americano e participou na corrida de Leadville, foi atrás da tribo secreta, em busca da sua arte. Não se veste nem fala como os tarahumaras mas há dez anos que é um deles. Christopher McDougall passou dias a tentar encontrá-lo. E o Cavallo também queria encontrar o jornalista. O discípulo da arte Tarahumara tinha um plano e precisava de um estrangeiro influente para o concretizar: organizar uma corrida entre alguns dos melhores ultramaratonistas e os índios tarahumara. Um desafio secreto, num percurso de 80 quilómetros só palmilhados pela tribo. “Que vencedor de ultramaratonas é que se vai meter numa corrida com índios, em montanhas perigosas?”. Nove meses depois a corrida entre os Tarahumara e os “Mas Locos” aconteceu. Cavallo Branco teve a oferta de um patrocinador, mas recusou. McDougall não voltou a ter notícias. “Eles não têm telefones, nem computadores, nem email.”

Fonte: http://www1.ionline.pt

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Uma resposta

  1. o que eles produzem

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