Terapias alternativas mudam rotina de presos em Rondônia

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“Essa história de homem passando a mão em mim não podia não.” Essa é a resposta invariável dos presos que frequentam um projeto em Porto Velho onde os detentos aprendem, entre outras coisas, a receber e aplicar massagem uns nos outros.

Reiki, ayurveda, cone chinês, gestalt e eneagrama são alguns dos instrumentos usados por uma ONG de Rondônia com detentos de presídios da capital. Há dois anos, o chá usado no Santo Daime, a religião surgida na Amazônia no século 20, também passou a fazer parte da rotina dos presos.

Os cerca de cem detentos atendidos atualmente pela Acuda (Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso) chegam à sede da ONG em forte escolta policial. Eles vêm de diferentes presídios estaduais, incluindo o de segurança máxima, Aruana.

Por volta das 7h30, todos ficam livres das algemas e restam apenas dois agentes penitenciários, que permanecem do lado de fora da ONG. “Eu ajudo a cuidar dos presos. Os agentes entregam para nós e vão embora”, conta Olívio de Andrade, que trabalha na ONG desde que sua pena progrediu para o regime domiciliar.

O pátio de terra em torno do qual ficam a administração, o salão terapêutico e os outros espaços da organização é ocupado pelos detentos, que circulam e conversam antes da meditação.

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Após abandonar as sandálias, cada homem posiciona seu colchonete no salão de cimento queimado e, em absoluto silêncio, ouve as instruções para começar mais uma sessão de massagem. A ayurvédica é a que mais desperta resistência nos recém-chegados. A massagem começa com uma hidratação à base de óleo vegetal. Os toques se espalham da coluna até os ombros e passam pelas pernas, pelo peito e rosto. No passado, a mulher de um dos presos queixou-se de que o marido estava ficando meio “boiola”. Ele tinha começado a aplicar a massagem nela após o sexo.

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Banhos de argila e ervas medicinais acontecem mensalmente. De cueca ou sunga, os presos aplicam a lama esbranquiçada usada na terapia nos corpos uns dos outros. Quase um dia é gasto no único momento em que os detentos abandonam o silêncio meditativo habitual.

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Além das terapias, são promovidos encontros que trabalham os conflitos psíquicos e a personalidade dos presos. A gestalt e o eneagrama são as técnicas utilizadas.

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Cultos evangélicos, missas católicas e cerimônias espíritas se revezam a cada semana no mesmo salão onde acontecem as terapias. “Aqui é um espaço aberto e ecumênico. Doutrina espírita, católica, budismo, tudo que vier de bom vai ser aceito”, explica Darci dos Santos, 43, um dos presos que frequenta a ONG.

Todas terapias são ensinadas por voluntários, que escolhem entre os detentos alguns assistentes para supervisionar a aplicação das técnicas. Alguns deles já viraram mestres. “Apesar de ser apenado, a gente pode transmitir essa energia positiva a nossos companheiros que estão na caminhada com a gente”, conta Santos, que virou reikiano e administra algumas sessões da terapia.

O reike busca restabelecer o equilíbrio energético do ser humano através das mãos.

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Depois das terapias, os detentos se distribuem por oficinas de tapeçaria, marcenaria e cerâmica, onde tapetes, móveis, mandalas e máscaras orientais são confeccionados por eles. Tudo o que é produzido segue para a loja da Acuda, onde 80% do valor de cada produto volta para os detentos.

Daime

Mensalmente, de 15 a 20 detentos recebem autorização judicial para participar de um retiro espiritual do Santo Daime. A cerimônia acontece numa chácara em Ji-Paraná, a segunda maior cidade de Rondônia, a 373 km de Porto Velho. A experiência começou há menos de dois anos.

O chá da ayahuasca possui propriedades alucinógenas e é utilizado em vários países da região da Amazônia. Relatos de missionários jesuítas mostram que a planta fazia parte de rituais de populações indígenas antes da colonização. Durante o século 20, movimentos religiosos passaram a utilizar a bebida em seus rituais. Em 2010, uma lei federal regulamentou seu uso para fins religiosos.

Durante o ritual do Santo Daime, é comum que os presos “reencontrem” suas vítimas. “Vi a mulher que matei como se fosse a minha filha”, diz Ceumiro de Almeida. Em uma das experiências que teve, viu-se morto, rodeado no caixão por seus familiares, que choravam. “Ouvi uma voz que me disse: foi desse jeito que você fez muita família sofrer”, conta o detento. “Muitas vezes eu chorei naquele chá, coisa que eu nunca tinha feito.”

Membros do judiciário de Rondônia também frequentam os rituais do Santo Daime e receberam bem a participação dos novos membros nos encontros. “O pessoal do sul, sudeste não tem a concepção de que o Daime aqui para Rondônia faz parte da cultura amazônica. Quando você começa a tomar consciência da história, você vê que é um trabalho sério e que o objetivo é incorporar as plantas de cura que nos temos aqui na amazônia ao homem urbano,” disse Maximiliano Deitos, 42, magistrado do Tribunal de Justiça de Rondônia.

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“Tudo começou quando o Ministério Público nos chamou para dar emprego aos presos”, explica Luiz Marques, 56, presidente da Acuda e diretor em Rondônia do SEST-SENAT (Sistema Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte).

Depois da reunião, foi criado um programa de qualificação profissional para ex-detentos e um outro com terapias e acompanhamento psicológico. “A luta não foi só com a sociedade, mas com os presos também. Eles não acreditavam na gente. Onde se viu dar massagem para preso? Dar reiki, banho de argila, afeto. Era só porrada. Era só pancada. Como é que você dá amor e consciência espiritual para alguém que só conheceu a sombra e as trevas?”, conta Marques.

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“De 10 leprosos só ficou curado um. Se com o próprio Jesus foi assim, imagina eu com problema de preso.” Luiz Marques, presidente da ONG.

Mudanças para melhor

Mortes, brigas e rebeliões fizeram parte da rotina do sistema prisional de Rondônia. De acordo com números do Ministério da Justiça de 2013, havia 7,7 mil presos para 4,9 mil vagas nas penitenciárias do Estado.

Há mais de uma década os presídios de Rondônia são observados internacionalmente por organizações de direitos humanos. Em 2002, Porto Velho foi palco da segunda maior chacina do país, quando 27 detentos foram mortos por outros presos durante um motim no presídio Urso Branco.

Os juízes da Vara de Execuções Penais de Porto Velho que visitam a ONG ficam surpresos quando percebem que serras, martelos e outras ferramentas usadas nas oficinas ficam disponíveis para os presos sem que a entidade tenha enfrentado rebeliões ou homicídios. Mais de dois mil homens já passaram pelo projeto desde a sua criação, em 2001.

A Secretaria de Justiça de Rondônia (Sejus) e o Banco da Amazônia são os principais financiadores da ONG desde a sua criação. “No começo houve resistência dos próprios agentes penitenciários. Eles diziam ‘Eu não recebo massagem, mas os presos recebem?’”, disse a secretária-adjunta de Justiça de Rondônia, Sirlene Bastos.

Há menos de um ano foi aberta uma oficina de mecânica no projeto, onde agentes penitenciários deixam suas motos sob os cuidados dos detentos. A convivência pacífica entre presos e agentes de segurança é garantida por Rogério Araújo, 43, ex-detento e atual coordenador da ONG.

"Minha mãe saiu do Pará para me visitar e não acreditava que eu tinha saído do crime" Rogério Araújo, ex-detento e coordenador da ONG.

“Minha mãe saiu do Pará para me visitar e não acreditava que eu tinha saído do crime” Rogério Araújo, ex-detento e coordenador da ONG.

Nascido na cidade de Marabá, no Pará, Araújo se envolveu desde jovem com conflitos em áreas de garimpo. “Quando jovem, a concepção que eu tinha de respeito era que era preciso matar alguém para ser respeitado”. Após deixar a região, se envolveu com o tráfico de entorpecentes em Rondônia, onde foi condenado a 15 anos de prisão. Araújo foi um dos primeiros a participar do projeto terapêutico da ONG e fez o ensino fundamental e médio no presídio enquanto frequentava a entidade.

Depois de terminar de cumprir sua pena, Araújo não quis voltar para o Pará e se tornou o coordenador do projeto. Recentemente, escolheu como seu auxiliar Jefferson de Souza, 23, um detento que cumpre medida protetiva de internação psiquiátrica após ser diagnosticado com esquizofrenia. “Li uma vez que os loucos às vezes são mais organizados que o pessoal normal. Por isso trouxe o Jefferson para cá. Tem coisas que ele sabe sobre a Acuda mais do que eu”.

"Sempre andei com o trafico. Eu nunca fiquei tanto tempo num canto como estou hoje." Pedro Lima, ex-detento e coordenador terapêutico da ONG.

“Sempre andei com o trafico. Eu nunca fiquei tanto tempo num canto como estou hoje.” Pedro Lima, ex-detento e coordenador terapêutico da ONG.

Teatro

Por mais de dez anos a ONG ofereceu também aulas de teatro aos presos. O espetáculo montado pelo grupo, o “Bizarrus”, falava da vida dos detentos. Araújo, que foi da segunda turma do teatro, se recorda do sentimento com que chegou ao primeiro encontro: “Fui para o teatro porque era a minha oportunidade de fugir”.

Um apelido foi criado para os frequentadores do grupo: as bailarinas do careca. “Já pensou o cara preso. O pessoal gritava ‘tão indo os viadinhos’. Eu tinha duas opções, deixava pra lá ou entrava na porrada e pegava castigo. Continuei e fiquei 10 anos”, explica Wanderley Borges, 45, que hoje está em prisão domiciliar e continua frequentando a ONG.

A Acuda estima que mais de 100 mil pessoas assistiram às apresentações. A ONG recebeu neste ano um prêmio do Ministério da Justiça de boas práticas no sistema prisional pelas atividades desenvolvidas por Marcelo Felici, 54, o diretor teatral que cuidou da preparação da peça com os presos. Hoje Felici prepara um novo espetáculo, chamado “Topo do Mundo”, no presídio Urso Branco, que ficou conhecido por ser palco da segunda maior chacina em um presídio no Brasil.

http://arte.folha.uol.com.br

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