Eles decidiram fugir de São Paulo

25.01.2015 ]

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Caos. Trânsito. Violência. Preços altos. Trabalho demais. Falta de espaço. Falta de tempo. E, agora, falta de água. Não está fácil ser paulistano neste aniversário de 461 anos da cidade. Tanto não está que 57% dos paulistanos afirmam que, se pudessem, sairiam da cidade. O dado está em uma pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo, junto com o Ibope, divulgada em janeiro. É o maior índice de insatisfação desde 2009.

A mesma pesquisa diz que os paulistanos dão à cidade a nota 5,1 em qualidade de vida. Ok, vejamos o copo meio cheio: melhorou (no ano passado, a nota foi 4,8). Mas a nota ainda está abaixo da média (que é 5,5). Você está feliz em viver em uma cidade abaixo da média? Se não está, o que te impede de partir?

(Se você está entre os paulistanos que têm desejo de partir, um aviso: sua vontade pode aumentar se você continuar a ler este texto.)

“Nós saímos de São Paulo porque achamos que o nível de qualidade de vida na cidade estava muito ruim. Trânsito, violência, poluição, preços abusivos, e a vibe no geral da cidade foram os motivadores para essa decisão”, conta Jaqueline Barbosa, 25, que saiu com o namorado, Emerson Viegas, há mais de dois anos. A dupla – responsável pelos projetos Hypeness, Casal sem Vergonha e Nômades Digitais, que quer justamente discutir a possibilidade de se viver de forma nômade – morou dois anos em Ilhabela, no litoral paulista, e agora está viajando pelo mundo. “A internet é a carta de alforria. Por mais urbano que você seja, a cidade te suga. Hoje em dia não é mais preciso abdicar de uma carreira de sucesso somente por não estar morando em São Paulo: você pode ser tão ou mais bem sucedido trabalhando remotamente, como no nosso caso.”

O Brasil inteiro sabe a fama: os paulistanos estão sempre apressados, só falam em trabalho, e esta é a cidade “que não pode parar”. Isso tem origem na formação da população paulista. O livro Metrópole em trânsito: percursos urbanos e culturaisexplica:

“Desenraizado e afastado do círculo de suas relações sociais, esse migrante foi levado a criar um estilo de vida determinado pela condições de sobrevivência que se viu obrigado a enfrentar: vivendo em habitações mais baratas, por isso acanhadas, inacabadas, distantes do local de trabalho e usadas apenas como dormitório; enfrentando longas horas de trânsito caótico; realizando grandes cargas de horas-extra no trabalho; alimentando-se inadequdamente; sendo obrigado a afastar-se das relações de vizinhança e parentesco; apressando o estilo de vida e fugindo do contexto urbano no tempo livre; o paulistano criou um estilo de vida sacrificado, baseado no trabalho e fundado na ética da responsabilidade, do compromisso e da renúncia.”

“Em São Paulo as pessoas são engolidas pelo tempo. Pelo trânsito, pelo trabalho. Não há tempo para viver o que realmente importa”, diz Helô Vianna, que se mudou há sete meses com a família para Ubatuba, litoral paulista. “Olhando de fora hoje acho assustador como todo mundo continua sendo engolido e vivendo anos e anos dessa maneira. Muitas vezes sem questionar.”

É claro que não são apenas as raízes migratórias que explicam a rotina do paulistano. Os altos preços da região metropolitana também são um fator que obriga a população a trabalhar muito para viver. Se você der uma olhada nos Índices de Custo de Vida do Dieese, verá que em praticamente todos os meses houve alta: uma hora dos alimentos puxam o aumento das despesas, em outra, a habitação. Em 2014, a vida na cidade ficou mais de 6% mais cara.

“Em São Paulo trabalhávamos de segunda a segunda, a gente não saía porque a grana não dava. Fora a falta de vontade, porque todo lugar que ia tinha fila e trânsito”, conta Ingrid Cervatti, que se mudou há sete meses com o marido e o filho para Bertioga. “Hoje trabalhos na frente da nossa casa, que é de frente pro mar e ganhamos o suficiente pra bancar as contas e o nosso lazer regularmente.”

Agora, além dos problemas já conhecidos, o paulistano tem de lidar com a falta de água. Algumas empresas já anunciaram que deixarão as zonas desabastecidas. Embora os especialistas ainda digam que é cedo para falar em êxodo urbano, para algumas pessoas a crise hídrica foi a gota d’água – com o perdão do trocadilho.

“A falta de água se somou ao combo trânsito, violência e aglomeração de pessoas”, conta Aline Dávila Bucci, que se mudou com o marido e a filha há um mês para Caçapava, interior do estado. “Já voltei duas vezes e não senti nada de saudade.”

O Brasil Post foi atrás de algumas das pessoas que resolveram levar o desejo de se mudar adiante e estão construindo uma vida nova longe do caos urbano. Quer ver o que mudou na vida delas?

De São Paulo para Ilhabela e, de lá, para o mundo

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Responsáveis por três projetos de sucesso na internet, Jaqueline Barbosa e Emerson Viegas fizeram do ‘nomadismo digital’ uma bandeira. “Nós saímos de São Paulo porque achamos que o nível de qualidade de vida na cidade estava muito ruim. Por mais urbano que você seja, a cidade te suga”, conta Jaqueline. O casal viveu dois anos em Ilhabela, e no último ano estiveram em Búzios, Rio de Janeiro, Florianopolis, Los Angeles, Las vegas, São Francisco, Berlim, Barcelona, Amsterdã, Roterdã e Zurique. “Ganhamos muito em qualidade de vida, em felicidade, em tranquilidade, em equilíbrio (por causa do contato com a natureza) e em criatividade, já que nos sentimos muito mais inspirados quando estamos onde gostaríamos de estar, e não fechados num escritório na Berrini. Desde que nos mudamos, nossos projetos só cresceram.” O casal acorda, faz uma atividade física e começa a trabalhar. O dia de labuta dura até 19h, mas é cheio de pausas. “Estar num lugar mais tranquilo e bonito deixa esses momentos bem especiais.” Hoje um dos projetos da dupla é o Nômades Digitais, site/manifesto que divulga histórias e dá o caminho das pedras para quem quer deixar o escritório (e a cidade).

De São Paulo para Ubatuba

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Helô Vianna, o marido e as filhas tinham uma vida relativamente tranquila para os padrões paulistanos: moravam perto do metrô, os filhos estudavam em uma escola próxima, os pais trabalhavam em home-office. Mas eles sempre tiveram vontade de mudar para um lugar mais tranquilo e perto da natureza. “Desde a adolescência eu alimentava aquela vontade meio romântica de largar tudo e morar na praia vivendo de vender sanduíche natural”, ri Helô. Em uma ida à Ubatuba, ela sentiu um clique.”Me liguei que era possível. Que se eu quisesse e arriscasse um pouco, dava.” Eles decidiram mudar em fevereiro e foram em julho. O marido, designer gráfico, trabalha em home-office. E, como o aluguel em Ubatuba é mais barato, Helô pode se dedicar às filhas. O que mudou pra melhor? “Quase tudo. Estamos rodeados de natureza. Andamos muito a pé e de bike. Ganhamos muito tempo livre e para cuidar de nós, da nossa casa, das plantas, das nossas filhas… Moro no que considero um dos lugares mais lindos do mundo e sou feliz só de olhar ao redor. Ar puro, praias lindas, silêncio. Enfim. Eu sinto um pouco de falta de vida social e cultural. Mas todo o resto tem compensado.”

De Guarulhos para Caçapava

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Quando a filha de Aline Dávila Bucci nasceu, o marido saía as 8h e só voltava as 21h, praticamente não via a mulher e a bebê. “Enquanto isso, eu ficava em casa sozinha com ela, porque mesmo morando em um apartamento, a indiferença e correria das pessoas da ‘cidade grande’ não nos permitiam muitas amizades e ficávamos sempre nós duas.” Nos últimos meses em Guarulhos, a família ficou quatro dias sem água. “A falta de água somou ao combo trânsito+violência+aglomeração de pessoas”, conta Aline. A família decidiu mudar para uma cidade que não fosse muito longe de São Paulo e tivesse rios e matas conservadas. Decidiram por Caçapava. “Colhemos frutas, trocamos com os vizinhos, pedalamos no final da tarde numa estradinha aqui perto, cuidamos do jardim”. Há um mês morando longe, não deu para sentir saudades. “Parece que eu não pertencia aquele lugar”, diz Aline. Hoje ela se dedica a uma nova profissão (é doula) e o marido também (é fotógrafo). “Estamos sempre juntos agora!”

De São Paulo para Bertioga

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Ingrid Cervatti quis mudar para ficar mais perto do filho, Bento, de dois meses. E para garantir ao bebê uma rotina com os pais presentes. “Em São Paulo trabalhávamos de segunda a segunda, a gente não saía porque a grana não dava, fora a falta de vontade porque todo lugar que ia tinha fila e trânsito”, lembra. Ela queria ir para Florianópolis, mas a família do marido era de Bertioga – acabou mudando para o litoral paulista. Hoje eles trabalham em frente à casa deles – que é de frente para o mar. “Convivemos com nosso filho o dia todo e sobra tempo pra fazer algumas coisas a mais como estudar, praticar algum esporte ou dar um mergulho no mar depois de um dia quente.” Ela não sente falta de São Paulo – o que não acha em Bertioga, compra pela internet ou sobe a serra. “São Paulo deixou de ser referência como um lugar que tem tudo.”

http://www.brasilpost.com.br

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