Bisfenol A causa 100 vezes mais danos do que se imaginava

 

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Dr Sebastián Vignoli Carradori

O revestimento interno das latas de conserva frequentemente contêm quantidades significativas de Bisfenol A

O bisfenol A (BPA) é um composto orgânico que se polimeriza para formar o plástico (principalmente policarbonato e resinas epóxi). É um dos produtos químicos que mais se fabrica no mundo. A exposição humana se dá a partir da contaminação de alimentos em contato com o BPA, embora também possa ocorrer pela inalação da poeira doméstica ou através da pele. Um artigo recentemente publicado pela revista médica JAMA Pediatrics disse que a exposição pré-natal ao BPA poderia aumentar o risco de asma e broncoespasmo em crianças (2). É mais uma na enorme lista de doenças e transtornos que está associada ao BPA nos últimos anos.

Uma vez no interior do organismo, tem a capacidade estrogênica e se comporta como um xenoestrógeno e disruptor endócrino. Ele está relacionado com problemas de fertilidade tanto em homens como em mulheres (3,4).

Como disruptor endócrino pode provocar obesidade (5), diabetes (6) e hipertensão arterial (7,8).

Também tem sido relatado que pode provocar doença cardiovascular (9,11).

Como possível cancerígeno, pode aumentar o risco de câncer de mama, próstata e testículos (12).

Tem sido descrito vários mecanismos de ação para explicar como o BPA produz seu efeito biológico: como análogo do estrogênio e antiandrogênico (4) e mudanças epigenéticas (5, 13), mas para poder explicar a grande variedade de efeitos biológicos que parece ter e as doenças que poderia provocar, o mecanismo que melhor o explicaria é o aumento do estresse oxidativo (11, 14, 15), o mecanismo de ação que provavelmente compartilha com a grande maioria dos xenobióticos nocivos para o ser humano e ao meio ambiente.

Um recente artigo científico estima que há 250.000 toneladas de plástico flutuando no oceano (16), o que é o mesmo que 5.000.000.000.000 de pedaços de plástico surfando nos mares. É muito preocupante.

Referências:

1) Vandenberg LN, Hunt PA, Myers JP, vom Saal FS. Human exposures to bisphenol A: mismatches between data and assumptions. Rev Environ Health 2013;28:37-58.
(2) Spanier AJ, Kahn RS, Kunselman AR. Bisphenol a exposure and the development of wheeze and lung function in children through age 5 years. JAMA Pediatrics 2014.
(3) Lassen TH, Frederiksen H, Jensen TK et al. Urinary bisphenol A levels in young men: association with reproductive hormones and semen quality. Environ Health Perspect 2014;122:478-484.
(4) Peretz J, Vrooman L, Ricke WA et al. Bisphenol a and reproductive health: update of experimental and human evidence, 2007-2013. Environ Health Perspect 2014;122:775-786.
(5) Manikkam M, Tracey R, Guerrero-Bosagna C, Skinner MK. Plastics derived endocrine disruptors (BPA, DEHP and DBP) induce epigenetic transgenerational inheritance of obesity, reproductive disease and sperm epimutations. PLoS One 2013;8:e55387.
(6) Alonso-Magdalena P, Quesada I, Nadal A. Endocrine disruptors in the etiology of type 2 diabetes mellitus. Nat Rev Endocrinol 2011;7:346-353.
(7) Bae S, Kim JH, Lim YH, Park HY, Hong YC. Associations of bisphenol A exposure with heart rate variability and blood pressure. Hypertension 2012;60:786-793.
(8) Shankar A, Teppala S. Urinary bisphenol A and hypertension in a multiethnic sample of US adults. J Environ Public Health 2012;2012:481641.
(9) Lind PM, Lind L. Circulating levels of bisphenol A and phthalates are related to carotid atherosclerosis in the elderly. Atherosclerosis 2011;218:207-213.
(10) Melzer D, Rice NE, Lewis C, Henley WE, Galloway TS. Association of urinary bisphenol a concentration with heart disease: evidence from NHANES 2003/06. PLoS One 2010;5:e8673.
(11) Gao X, Wang HS. Impact of bisphenol a on the cardiovascular system – epidemiological and experimental evidence and molecular mechanisms. Int J Environ Res Public Health 2014;11:8399-8413.
(12) Rochester JR. Bisphenol A and human health: a review of the literature. Reprod Toxicol 2013;42:132-155.
(13) Singh S, Li SS. Epigenetic effects of environmental chemicals bisphenol a and phthalates. Int J Mol Sci 2012;13:10143-10153.
(14) Kaur K, Chauhan V, Gu F, Chauhan A. Bisphenol A induces oxidative stress and mitochondrial dysfunction in lymphoblasts from children with autism and unaffected siblings. Free Radic Biol Med 2014;76:25-33.
(15) Song S, Zhang L, Zhang H, Wei W, Jia L. Perinatal BPA exposure induces hyperglycemia, oxidative stress and decreased adiponectin production in later life of male rat offspring. Int J Environ Res Public Health 2014;11:3728-3742.
(16) Eriksen M, Lebreton LCM, Carson HS et al. Plastic Pollution in the World’s Oceans: More than 5 Trillion Plastic Pieces Weighing over 250,000 Tons Afloat at Sea. PLoS One 2014;9:e111913.

O Bisfenol A (BPA) produz mais danos do que se pensava

selo_bisfenol-01Um dos paradigmas da toxicologia: “a dose faz o veneno“, é completamente falsa. Pelo contrário, doses diferentes causam doenças diferentes. Inclusive, pode até ser o caso de pequenas doses terem um efeito biológico similar ou superior a doses muito altas. No caso do Bisfenol A, baixíssimas concentrações têm efeito estrogênico.

Algo parecido acontece com a radiação eletromagnética, onde campos de muito pouca força e pulsada (similares aos que são produzidas pelos seres humanos de forma natural) teriam tanto efeito ou maior que a exposição a campos contínuos muito intensos.

O novo estudo estabelece que este produto químico, o Bisfenol A, o qual é utilizado em centenas de produtos de consumo e cada vez mais presente em outras substâncias análogas, como o Bisfenol S e o Bisfenol F, é muito mais prejudicial para o sistema endócrino masculino no período pré-natal do que os estudos toxicológicos anteriores foram capazes de determinar.

Este novo estudo foi publicado pela revista Fertility and Sterility: “Um novo capítulo na história do Bisfenol A: o Bisfenol S e o Bisfenol F não são alternativas seguras para substituir este composto“.

Devido a toxidade do Bisfenol A, os fabricantes estão substituindo este composto por outros bisfenóis quimicamente similares, cujos efeitos tóxicos no entanto não foram estudados. Alguns consumidores tomaram consciência deste problema e adquiriram produtos livres de Bisfenol A, mas estão sendo enganados ao acreditar que agora estão livres desta substância e que eram mais seguros.

No novo estudo foi empregado um inovador sistema de cultura organotípica, que consiste na tomada de tecidos de camundongos, ratos e testículo fetal humano, com a finalidade de criar um modelo experimental que reproduz com precisão algumas das dinâmicas observadas dentro dos sistemas in vivo, algo não comparável com os sistemas convencionais in vitro. A este ambiente experimental se denomina sistema de Ensaio com Testículo Fetal (Feta).

É preocupante o que encontraram:

“Com o emprego do sistema de cultura que temos desenvolvido (ensaio com testículo fetal: Feta) foi comprovado que 10nmol/L de BPA (nanomol por litro, ou seja 1×10-8 mol por litro) reduz a secreção basal da testosterona dos testículos fetais do ser humano e que a suscetibilidade pela exposição ao BPA é de ao menos 100 vezes menor nos testículos fetais do rato e camundongo“.

Em outras palavras, o efeito perturbador endócrino do Bisfenol A, em particular por sua capacidade para reduzir a secreção de testosterona durante o desenvolvimento embrionário, pode ser de ao menos 100 vezes mais tóxico do que se acreditava.

Como isso pode acontecer?

As avaliações toxicológicas convencionais de riscos de novos produtos químicos, tais como o Bisfenol A, foram sempre realizadas em roedores, com efeitos (doses letais 50%/DL 50) que extrapolaram aos dos seres humanos em relação a diferença do peso corporal. O que não se tem em conta são as diferenças ontológicas entre as células de diferentes espécies. Também não se leva em conta que a resposta não pode ser linear entre doses e efeito (ou seja, monotonicidade) e que a aplicação de um DL 50 pode estar errada. (DL = dose letal. DL50: dose necessária para matar 50% da população exposta ao tóxico por um tempo determinado).

Vem se acumulando evidências científicas que tem levado a reconhecer que as doses muito baixas de substâncias químicas presentes nos sistemas hormonais produzem uma resposta contrária a que seria de se esperar: uma dose mais baixa pode ter efeitos mais perturbadores em nosso sistema hormonal que uma dose mais alta.

Este conceito pode ser tão contraditório que requer uma maior explicação. Por exemplo, se 1 miligrama do composto químico X induz a morte de uma célula exposta a esse composto, e 0,001 miligrama deste composto X induz a uma mudança no fenótipo da célula, consistente com o aparecimento do câncer, este último efeito (a dose mais baixa) pode ser mais prejudicial a longo prazo, já que as células mortas podem ser substituídas por células estaminais, enquanto que as cancerígenas induzidas quimicamente podem resultar na morte de todo o organismo.

Este caso em questão:

“Utilizando o sistema Feta, conforme relatado anteriormente, se descobriu que a secreção de testosterona basal pelo testículos humanos não foram afetados pela concentração de 10000 nmol/L DES, mas as concentrações se reduziram a quantidades tão baixas quanto 10 nmol/L de BPA, o efeito é claro. Em contraste, 10 nmol/L e 100nmol/L de BPA não afetaram a secreção de testosterona dos testículos de ratos e camundongos, e 10000 nmol/L de BPA foi a concentração necessária para observar uma redução significativa“.(58)

Os pesquisadores também observaram que durante o desenvolvimento pré-natal masculino entre 5,5 e 14 semanas de gestação (conhecido como o período de masculinização) a exposição aos bisfenóis pode estar dando lugar a um aumento alarmante dos transtornos reprodutivos masculinos, como por exemplo “hispopádia (uma abertura anormal do orifício urinário), criptorquidia (ausência de um ou de ambos os testículos), desenvolvimento incompleto ou agenesia da próstata e vesículas seminais e a redução da distância anogenital (distância entre o anus e os genitais) e o comprimento do pênis“.

É o momento de pedir a proibição dos produtos que contêm Bisfenol

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São produzidas anualmente 3,4 milhões de toneladas, das quais 20% são destinadas às resinas Epoxi para os revestimentos internos das latas de conserva e embalagens metálicas de bebidas. Dado que é conhecido devido as últimas pesquisas, este produto químico está causando um enorme dano às pessoas expostas a ele. Os pesquisadores comentam o seguinte:

“O Bisfenol A (BPA) é um composto químico conhecido que causa transtornos endócrinos, e uma das dúvidas é se os novos compostos que o substituem são seguros. O Bisfenol S (BPS) e o Bisfenol F (BPF) já estão sendo utilizados como alternativas ao BPA. Com o novo sistema de investigação que temos desenvolvido (Ensaio com Testículo Fetal), foi comprovado que com somente 10nmol/L de BPA se reduz a secreção basal de testosterona nos testículos do feto humano e que a suscetibilidade do BPA nos testículos dos camundongos e ratos é 100 vezes menor. Foi descoberto que a adição de hormônio luteinizante (LH) ao sistema Feta, melhora muito a concentração mínima efetiva do BPA em camundongos e aos seres humanos, mas não nos testículos de ratos. Se utilizado o sistema Feta sem o LH (condições experimentais em que os testículos fetais do camundongo e dos seres humanos são mais sensíveis ao BPA), encontramos que, tanto para o BPA e uma concentração de 10nmol/L de BPS ou BPF, é suficiente para diminuir a secreção basal de testosterona nos testículos fetais, as diferenças entre dose/resposta eram em sua maioria monotônicas e as concentrações mínimas eficazes foram de 1000nmol/L de BPA e BPPF e de 100 nmol/L para o BPS. Finalmente, uma concentração de 10000 nmol/L de BPA, BPS ou BPF, reduz expressivamente o Insl3 nas culturas de células dos testículos fetais do camundongo. Este é o primeiro estudo que descreve os efeitos adversos do BPS e do BPF nas funções fisiológicas dos seres humanos e roedores.”

Aspectos positivos…

Há muitos produtos químicos como o BPA que representam um alto risco de produzir danos, no entanto dispomos de muita informação científica que pode nos ajudar a diminuir ou reparar esse dano associado. De acordo com nossa missão, temos consultado a Biblioteca Nacional de Medicina para conhecer aqueles sistemas biológicos que podem atenuar os efeitos adversos destes produtos químicos. Estas são algumas coisas que temos encontrado:

 Genisteína: É um composto químico encontrado em concentrações fisiologicamente significativas na soja, trevo vermelho e café. É capaz de diminuir os efeitos negativos pela exposição ao Bisfenol A.
 Ácido alfa-lipóico: Pode ser encontrado em lojas naturais, e já foi comprovado que diminui os efeitos da toxidade testicular do Bisfenol A.
 Probióticos: As cepas bacterianas do Bifidobacterium breve e Lactobaciluus casei reduzem a absorção intestinal do Bisfenol.
 Ácido fólico: Esta vitamina (embora seja sintética, escolha folato sempre que possível) foi comprovado que diminui os efeitos epigenéticos adversos do Bisfenol A, tais como a hipometilação do DNA.
 Chá preto: Este composto natural reduz os efeitos adversos do Bisfenol nas células.
 Kimchi: A cepa bacteriana encontrada neste extrato de couve fermentada foi descoberta por degradar o Bisfenol A.
 Geleia real: Produzida pelas abelhas operárias para a rainha, também é conhecida por inibir os efeitos estrogênicos e proliferativos (potencialmente causador do câncer) do Bisfenol A.

Evidentemente o melhor é evitar a exposição aos bisfenóis sempre que possível. Mas esta é uma proposta muito difícil, pois um simples comprovante de compra ou alimentos enlatados são fontes de Bisfenol A a serem evitados.

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