Saiba mais sobre as plantas que curam

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Cada vez mais prestigiados pelo governo, remédios (cápsulas, extratos e pomadas) à base de plantas são aliados no combate a doenças. Entenda quando eles valem a pena?e saiba os cuidados

Guaco para gripe, babosa para queimaduras, alcachofra para o fígado. Ainda pequenos, aprendemos com nossas avós que o alívio para um mal-estar pode ser comprado na feira ou colhido no quintal de casa. Fazer xaropes, chás e emplastros a partir de plantas é uma tradição que veio de comunidades que viviam da terra. Em 2006, o Ministério da Saúde deu o primeiro passo para que essa sabedoria popular começasse a ser utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS), com o lançamento da Política Nacional de Fitoterápicos e Plantas Medicinais. O objetivo é garantir à população o acesso seguro a medicamentos naturais.

Doze espécies de plantas foram incluídas na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), em 2013: alcachofra, aroeira, babosa, cáscara sagrada, espinheira-santa, garra-do-diabo, guaco, hortelã, isoflavona-de-soja, plantago, salgueiro e unha-de-gato. “O Ministério da Saúde autorizou que os laboratórios industrializassem essas 12 espécies. Quando você faz isso, coloca a planta em uma cápsula ou em forma de líquidos, torna-a mais palatável para participar de receituários na medicina clássica”, diz o médico de família e comunidade Angelmar Constantino Roman, professor titular de Saúde Coletiva da Universidade Positivo (UP).

O controle de qualidade dos fitoterápicos é feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “O órgão faz a regulação desde a hora em que a planta está sendo cultivada, fiscaliza o uso de agrotóxicos e pesticidas, a secagem, o processamento e a transformação em medicamento. Isso garante que o remédio tenha substâncias suficientes para provocar o efeito terapêutico. A legislação é bem rigorosa”, diz o farmacêutico professor da Uniandrade Vinícius Bednarczuk, mestre em Ciências Farmacêuticas com ênfase em produtos naturais e doutorando na mesma área. “Mas o fitoterápico entra como terapia complementar ao medicamento convencional , para auxiliar o tratamento, não para substituir”, enfatiza Bednarczuk.

Para situações agudas, de alta gravidade, os remédios naturais não são recomendados. “Doenças graves têm de ser atendidas dentro do hospital, elas pertencem ao campo da biomedicina. Não adianta estar com uma hemorragia digestiva e querer usar a espinheira-santa, é necessário o pronto atendimento, com medicação intravenosa”, completa Roman. Para quadros leves, como sensação de queimação no estômago, o fitoterápico pode ser utilizado de forma segura, sem efeitos colaterais. O médico lembra que em mais de 90% dos casos de dispepsia (indigestão e desconforto no aparelho estomacal), a espinheira-santa ou a alcachofra podem ser utilizadas de forma segura.

Segurança

Quando a planta medicinal é industrializada e transformada em medicamento, tem-se como resultado o fitoterápico. De acordo com a Gerência de Medicamentos Isentos, Específicos, Fitoterápicos e Homeopáticos (GMEFH) da Anvisa, o processo de industrialização evita contaminações por micro-organismos, agrotóxicos e substâncias estranhas, além de padronizar a quantidade e a forma certa que deve ser usada, permitindo uma maior segurança de uso. “Em muitos terrenos encontra-se a babosa, que também tem efeito hidratante e é usada para fazer xampus. Mas nessa babosa dos quintais está caindo chuva, há animais passando por perto. Não é recomendável encostar as folhas num ferimento aberto sem a higienização correta”, alerta Bednarczuk, sobre a planta usada para cicatrizar queimaduras. Além disso, a ingestão do vegetal é contraindicada, pois pode ter efeito laxante.

O uso de fitoterápicos deve ser feito com acompanhamento médico, pois pode apresentar riscos para gestantes e cardiopatas, por exemplo. “Diversos fatores têm de ser levados em consideração. Dependendo do medicamento, ele pode provocar um aborto ou ter substâncias que causam taquicardia”, explica o farmacêutico. Lactantes também devem tomar cuidado extra. No rótulo de um fitoterápico de alcachofra, há a informação de que o remédio pode diminuir a secreção de leite. Roman lembra que todo medicamento é em princípio um veneno. Concentrado, pode ser tóxico. “O que vai determinar se fará bem ou mal é a dose.”

A aposentada Vera Lúcia Souza de Oliveira não fica sem cápsulas de unha-de-gato e garra do diabo, dupla infalível contra as dores nas articulações.

A aposentada Vera Lúcia Souza de Oliveira não fica sem cápsulas de unha-de-gato e garra do diabo, dupla infalível contra as dores nas articulações.

Prescrição

Todos os 12 fitoterápicos indicados pelo Ministério da Saúde podem ser comprados em farmácias e drogarias sem prescrição médica. Em Curitiba, os remédios naturais não são disponibilizados pelo SUS. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde, estão sendo feitos estudos de viabilidade financeira. É recomendável que o médico tenha ciência do que o paciente está tomando, e acompanhe o tratamento. “Esses cuidados são importantes pois podem haver reações adversas e interações medicamentosas. Muitos pensam que como é derivado de planta, não traz problemas”, diz Bednarczuk.

“Muitos médicos acreditam que remédios feitos a partir de plantas não têm tanto efeito quanto os convencionais, e têm resistência a prescrevê-los. Mas estamos entrando num tempo em que as pessoas estão cada vez mais em busca desses tratamentos naturais”, conta Bednarczuk. Na visão de Roman, o fato de colocar as plantas em cápsulas e caixinhas deixa os médicos mais tranquilos, mais confortáveis para indicar fitoterápicos a seus pacientes no SUS. A oferta dos fitoterápicos à população não é obrigatória.

Na prática

Vera Lúcia Souza de Oliveira, aposentada de 59 anos, não fica sem cápsulas de unha-de-gato e garra do diabo, dupla infalível contra as dores nas articulações. Os nomes populares das plantas, que mais parecem ingredientes de uma poção mágica, rendem piadinhas na família. “Meu marido brinca: ‘só falta a asa de morcego’.” O uso dos medicamentos foi recomendado pela filha, Elaine Souza de Oliveira, 33, que é gerente de uma loja de produtos naturais. A outra filha, Carina Souza de Oliveira, 37, médica pediatra, chancelou o tratamento, e Vera vêm obtendo ótimos resultados. “As dores estavam diminuindo minha função, eu estava enferrujando por dentro. Sentia o joelho e não conseguia subir escadas, doía o ombro e eu não podia esticar o braço. Posso comprovar que é eficaz, porque recuperei os movimentos.”

A bióloga mestre em Ciências Farmacêuticas Juliana Kulik, 26 anos, descobriu com as mulheres de sua família o potencial curativo das plantas. Ela cresceu sentindo o cheiro doce do xarope de guaco, feito com açúcar e canela, vindo do fogão da avó Florinda Machado Kulik, 84 anos. A mãe, Deise Kulik, 60, sempre medicou Juliana com plantas e remédios naturais. O quintal da família é povoado de espécies vegetais aliadas da saúde, como a babosa. A planta de folhas pontiagudas foi, inclusive, objeto de estudo na monografia da bióloga. Em seu projeto de final de curso, ela observou que a espécie ativa células do sistema imunológico que remodelam e regeneram tecidos. “Por isso é tão eficaz como cicatrizante em queimaduras”, diz ela. Nas cascas da aroeira e do salgueiro, as Kulik encontram um ótimo antisséptico bucal.

A bióloga Juliana Kulik cultiva (e usa!) as folhas da babosa para o tratamento de queimaduras.

A bióloga Juliana Kulik cultiva (e usa!) as folhas da babosa para o tratamento de queimaduras.

Veja as indicações para algumas plantas no site: http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/saude/plantas-que-curam/

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