Vivendo de luz

18.05.2015 ]

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Débora Lopes

São 21 dias sem comer nada. A primeira semana é “a seco”, ou seja, sem qualquer tipo de ingestão – inclusive de água. Depois, alimentos sólidos continuam restritos, mas água e suco são liberados. O mineiro Oberom, escritor, professor de ioga, ativista dos direitos dos animais e adepto da prática do “Processo dos 21 Dias”, explica que a alimentação prânica, também conhecida como “viver de luz”, parece loucura, mas serve para trabalhar o ego. “É um trabalho de autoconhecimento. Radical, intenso. Não envolve nenhuma ritualística, nenhuma religião. Nada. É só você observando você.”

O método ficou conhecido nos anos 90 depois que a esotérica australiana Jasmuheen lançou o livro Viver de Luz – A Fonte de Alimento Para o Novo Milênio. Ter em mãos o procedimento de jejum extremo recorrente na vida de mestres espirituais e iogues respeitados parece algo grandioso para qualquer entusiasta da felicidade e da completude espiritual. O livro foi traduzido para diversas línguas, virou best-seller e acabou chamando a atenção de “aventureiros”, classifica Oberom. “É um processo que envolve um monte de detalhes espirituais. E a galera nem aí”, lamenta. Na publicação, Jasmuheen afirma que, depois de palestrar em alguns lugares sobre o “processo”, muita gente tentava realizá-lo sem instrução alguma. “O propósito desse livro é dar o maior número possível de informações para ajudar as pessoas a fazerem essa viagem da maneira mais fácil que puderem”, diz a autora no prefácio. Mas, talvez, não tenha sido o suficiente para todos que tentaram viver de luz. Investigações apontam que algumas pessoas tiveram suas mortes relacionadas ao método, como a da australiana Verity Linn, cujo corpo foi encontrado em casa próximo ao livro de Jasmuheen e um diário em que ela relatava a rotina dos 21 dias. Até hoje, a consagrada guru do jejum segue se alimentando de prana (energia cósmica que nutre, segundo seus seguidores), publicando livros e dando palestras. Há também quem chame os adeptos de “respiratorianos”, já que teoricamente se alimentam basicamente de luz e ar.

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Oberom segue os passos de Jasmuheen, dando palestras sobre veganismo em vários cantos do mundo e disseminando o “processo”. Formando em Educação Física, ele é pós-graduado em dois outros cursos: Nutrição Humana e Saúde pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e Ioga pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Aos 30 anos, já lançou vários livros. Em Viajando na Luz, o professor de ioga conta suas experiências em outros países depois de conhecer e praticar a alimentação prânica. Ele responde e-mails, mas dispensa o celular. Não usa o aparelho.

Aqui no Brasil, não existem números oficiais, mas um local, que acompanha o “Processo dos 21 Dias” e pede para não ser identificado, afirma ter recebido cerca de mil pessoas desde 2001. “Não temos site e não divulgamos o espaço. O ano inteiro está cheio. As pessoas precisam reservar com quase um ano de antecedência”, informam os organizadores. Médicos, atletas e professores são alguns dos perfis que procuram o lugar, instalado numa área verde, longe dos barulhos e preocupações da vida na cidade grande.

Os 21 Dias

Trabalhar com o ego é o foco do método; portanto, entretenimento e estímulos visuais são tirados da rotina de quem se propõe à prática. Nada de filmes, música ou conversa. “Nas duas primeiras semanas, ficamos mais quietos, meditamos, colorimos mandalas”, relata Oberom. Depois, começam as caminhadas. “[Algumas pessoas] caminham 2 km e outras caminham 25 km”. Isso tudo, óbvio, sem comer nada.

A primeira semana é dura, já que não se poder beber líquido algum nem ingerir alimentos sólidos. “Quando o nosso ego não tem social, estímulos externos, entretenimento, nem comida, ele quer sobreviver. E, na nossa memória celular, a informação que temos é que sem água a gente não vive. Então, eu tiro a água. E, aí, o meu ego não tem apoio nenhum. Contrariando a ciência, que permite quatro dias sem água.

Segundo Oberom, as pessoas conseguem se manter bem na primeira semana. “É um tanto radical, é um tanto maluco, mas as pessoas passam sete dias sem nada, bem, lúcidas, andando. Não é deitada no soro, não é segurando a mão [e falando] ‘Aguenta só mais um pouquinho, faltam só quatro horas e você já vai beber’.”

Na segunda semana, segundo o praticante, toma-se 25% de concentração de suco em água; na terceira semana, esse nível de concentração de suco sobe para 40%. Natural e de fruta, sempre. Sem açúcar, sem gelo. Daí pra frente, nada de alimentos sólidos.

Um vídeo no YouTube (veja abaixo) mostra o primeiro gole de água de Cleverson, um rapaz do Mato Grosso do Sul, no oitavo dia do “processo”. “Beber a água foi, para mim, renascer, celebrar um passo na minha jornada de abertura do coração. Uma confirmação dos meus votos internos de fé”, escreveu em seu blog. Ali, ele detalha os 21 dias repletos de incômodos gástricos, como arrotos e ânsia de vômito, além de dores no corpo e reflexões sobre a vida e a gratidão que sente. Durante as três semanas, Cleverson perdeu 10 kg. “Algumas pessoas perdem muito mais, tipo 13 kg, e outras quase não perdem, tipo 2 kg”, frisa Oberom.

Veja vídeo:

Mas quem passa pelo método não sente fome? O estômago não ronca? “Ronca”, ele responde. “Você vai ter de contornar isso dentro de uma situação extrema. Meu corpo está pedindo, mas eu não vou tomar, não vou comer. Essa é a proposta. Então, observo esse corpo reagindo, mas, em algum momento nessa trajetória, percebo que a minha mente já aceitou que não vai comer. E, quando eu observo a minha barriga roncando e eu não reagindo mentalmente a esse estímulo, o que acontece é que a reação do corpo para. Ele para de roncar, para de dar chilique.”

Normalmente, pessoas que entram em jejuns programados por motivo espiritual ou algum outro propósito específico são muito determinadas. É o que diz o dr. Carlos Hübner, professor de psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP. Oberom reitera a informação quando diz ter ouvido relatos de pessoas que, durante o “processo”, sonham estar em banquetes. Mas, mesmo no sonho, resistem à fartura de alimentos e não comem.

Apesar de todo o foco, o praticante da alimentação prânica pode, sim, ficar debilitado. “O não comer coloca o equilíbrio físico em risco. Pode-se entrar num quadro de hipoglicemia e desidratação se, além de não comer, [a pessoa] não tomar líquido.” A queda de açúcar no sangue também pode provocar consequências psicológicas. “Isso pode levar a quadro de perda de consciência, confusão mental, agitação. A pessoa pode, inclusive, ficar psicótica”, relata o psiquiatra. Oberom rebate: “Existe uma desidratação, sim. Não chega a ser naquele nível de ter sequelas, danos cerebrais”.

O brasileiro Juliano Grafite dirigiu A Transição, o único documentário brasileiro sobre o assunto. O filme é pago, mas você pode ver o trailer de graça aqui. “O ‘Processo dos 21 dias’ é um retiro possível para todo mundo,mas nem todos estão preparados. É algo fácil ou difícil, depende da mentalidade de cada um, de como cada um cria sua realidade”, frisou o diretor. “Na dúvida, é melhor se preparar e se informar antes de sair fazendo.”

No Facebook, há um grupo fechado chamado Pranic para “organizar e manter informadas as pessoas sobre os encontros presenciais em São Paulo” a aqueles “que já fizeram ou pretendem fazer o processo”, segundo a descrição.

Voltando a comer

Durante os 21 dias, as pessoas continuam a urinar normalmente – mesmo na primeira semana, sem beber ou comer nada. O mesmo não serve para as fezes, que dão as caras até o terceiro dia e só voltam a aparecer no fim da semana em formato de “pedra”. “[São] fezes desidratadas”, explica Oberom. Provavelmente, o praticante só irá voltar a evacuar no final de todo o “processo”. “E aí é um cocô da sua vida toda. Aquilo que estava grudado ali em você desde que você é molequinho, sabe. E nem tem o cheiro que a gente imagina. É tipo um chorume. Um petróleo.”

Ao final dos 21 dias, é preciso cuidado para se voltar a comer, segundo o praticante. “Em uma semana, a pessoa tá pronta.”

Acostumado a ouvir relatos de quem se propôs a participar do “Processo”, Oberom atesta que o saldo é positivo. “A pessoa passa 21 dias sem álcool, sem festa, sem música, sem comida, e o relato comum do último dia é: ‘Eu vivi os dias mais felizes da minha vida’. Sem nenhum artifício externo. Porque, na verdade, a pessoa viveu. Ela não reproduziu coisas que não eram dela.” Para ele, o período funciona como “uma limpeza, uma faxina dentro de você”.

Com o perdão do trocadilho, Oberom sabe bem que dar uma entrevista e falar sobre isso na imprensa é um “prato cheio” para detratores, incrédulos e comentaristas profissionais da internet, mas ele se diz movido pela esperança. “Não como alguém que tem uma verdade que vai salvar o planeta, mas esperança no sentido de que você pode fazer diferente, de que a sua vida não precisa ser essa mediocridade.”

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