Uma Kombi vendendo orgânicos por aí. Conheça a Komborgânica

Angélica Weise

“Empreendam em algo que acreditem. Trabalhar com o que se ama e se entende é transformador e surpreendente.” É isso que Joana Ricci, 32, diria a quem quer empreender. Ela e seu companheiro Thiago Avelaneda, e mais o casal de amigos Paula Zucareli Ribeiro e Mario Junior, criaram a Komborgânica que é uma espécie de feira móvel que comercializa alimentos orgânicos em diferentes regiões da capital paulista.

Os dois casais de amigos uniram-se para empreender. Todos são paulistas, menos o Junior que é mineiro. Joana é jornalista e Thiago trabalha com cinema e publicidade, mas sempre teve vontade de empreender. A formação de Junior é em Agroindústria e ele já tem uma ligação com a terra e a alimentação. Já a Paula é economista e é a responsável pelo no planejamento estratégico e as finanças da Komborgânica. Paula e Thiago são amigos há mais de 15 anos. Joana e Junior entraram na história logo depois. E assim, em meio a um laço de amizades, de conversa e reflexões nasceu a Komborgânica.

A vontade de Thiago de empreender somou-se aos questionamentos de Joana, que já consumia comida orgânica, mas passou a pensar mais sobre isso a partir da preocupação com a alimentação da filha. Também pesou o fato de Joana estar buscando um ramo alternativo de trabalho depois da maternidade. A Komborgânica foi pensada, planejada e colocada em operação bem rápido. Tudo aconteceu ao longo do ano passado.

Uma das ideias iniciais era a de um foodtrucks, mas logo a abandonaram porque o mercado já está saturado em São Paulo. Eles teriam de achar outra forma de empreender. Thiago e Joana já conversavam, cotidianamente, sobre os preços e a dificuldade de acessos aos produtos orgânicos. Com o negócio ainda embrionário, eles queriam provar que era possível ter variedade de produtos a um preço acessível, já que essa é uma das maiores queixas das pessoas que não comem orgânicos (dificuldade em encontrar os alimentos e preços caros). Aí veio a ideia da Kombi.

Para montar o negócio, os sócios investiram 40 mil reais (de suas próprias economias). Os trabalhos começaram no final de outubro de 2015 e, desde então, eles dizem, a aceitação do público tem sido surpreendente. Eles sabiam que a área estava em expansão. Mas se surpreenderam ao perceber como as pessoas estão de fato mudando seus hábitos de consumo. “É muito bom poder fazer parte desta mudança, desse movimento, desse estilo de vida”, diz Joana. Ela conta que nunca quis abrir um negócio convencional e que a proposta era fazer algo que tivesse um impacto positivo, como ela conta:

“Queríamos fazer algo que de fato impactasse positivamente a sociedade. A Kombi não é um negócio social, na teoria, mas no jeito que fazemos ele se aproxima. Porque queremos fortalecer também as pessoas que trabalham com a gente: os pequenos produtores, os nossos parceiros e contribuir para a vida dos nossos clientes”.

Desafios de logística e gestão

O trabalho com a Komborgânica, como em qualquer negócio, requer esforço e dedicação. E, neste caso específico, envolve desafios de logística próprios do ramo escolhido. Dos casais, Joana e Mario estão dedicados 100% ao negócio, ou seja, deixaram seus empregos para trabalhar na Komborgânica. Já Paula e Thiago continuam com os seus trabalhos em paralelo, mas acompanham Joana e Junior em todos os processos.

Para encontrar os fornecedores dos alimentos orgânicos, eles fazem um mapeamento dos produtos de orgânicos certificados em São Paulo e arredores. Depois , conversam e buscam conhecer pessoalmente o trabalho de cada um deles. Assim, dizem, conseguem mais variedade e criam uma rede de produtores. Atualmente a Komborgância trabalha com dez fornecedores diferentes.

A rotina de Joana e Junior começa bem cedo, com o recebimento dos produtos. Alguns fornecedores trazem seus produtos até eles, outros os encontram “no meio do caminho” e, quando necessário, eles também podem ir buscar a entrega. Uma vez carregados, eles estacionam a Kombi no ponto já pré-determinado daquele dia. O cronograma é divulgado nas redes sociais da empresa e os locais são sempre aqueles com os quais os sócios já conversaram e firmaram parceria (geralmente lojas com conceito alternativo ou academias de ginástica).

Estacionados, as caixas vão para fora, o toldo se estende e eles atendem os clientes até o final da tarde. Dentre os produtos comercializados estão as frutas e verduras da época, mas também granolas, bolos, geleias, molhose temperos. Terminado o expediente de venda, eles voltam para casa e é hora de preparar o trabalho do dia seguinte: fazer contatos, responder e-mails etc.

A Komborgânica também tem atendido encomendas (delivery) e isso requer uma logística ainda maior, que requereu a contratação de uma nova pessoa na equipe, apenas para fazer essas entregas. Os sócios não abriram os números de faturamento, mas afirmam que os pedidos de parceria só vêm aumentando. Diariamente, recebem convites de pessoas querendo levar a Komborgânica para seus bairros, estabelecimentos, condomínios e empresas.

Além do calendário fixo e do delivery, a Kombi também pode ser chamada para eventos. Até o momento, eles têm concentrado a atuação principalmente nas zonas sul e oeste da cidade. Com a grande procura, os sócios pensam até em abrir novas unidades com modelos de franquia. No momento, estão estudando esta possibilidade, mas ainda é uma perspectiva distante, pois “a Kombi é uma só”, diz Joana. Para expandir, eles teriam de adquirir e customizar outro veículo, além de ampliar a demanda de logística de pedidos, entregas, contabilidade etc.

É difícil, mas inspirador

Os negócios vão bem, os quatro sócios não esperavam a repercussão tão positiva do público já desde o princípio. Achavam que ia demorar mais para emplacar e comemoram. Mas o caminho é repleto de obstáculos. Entre as principais dificuldades do negócio, Joana menciona duas questões ligadas aos produtos: uma é encontrar fornecedores certificados (muitos fornecedores procuram a Kombi, mas não têm o selo de certificação, e não são aceitos); e outra é a disponibilidade dos produtos, pois como os orgânicos são sempre sazonais, nem sempre tem tudo e os consumidores menos acostumados a isso reclamam.

As dificuldades (já são mais que duas, rs) se acumulam. Por serem perecíveis um desafio permanente da Kombi é acertar a quantidade de alimentos a cada pedido. Se sobra, estraga e vira prejuízo. Se falta, não vende e o dinheiro não entra.

“Temos um trabalho constante para acertar as quantidades. Nosso objetivo é trabalhar com desperdício zero. Temos conseguido acertar na compra e levar para a banca algo bem próximo do que será vendido. Mas acontece de sobrar alguma coisa, aí ou dividimos entre nós, ou doamos para pessoas e instituições próximas para não perder nada”, diz Joana.

Ela comenta o quanto isso é, também um aprendizado e uma inspiração:

“Trabalhando com agricultores nós aprendemos a ter respeito com a terra e com o tempo das coisas, a conseguir fazer muito com pouco, a saber enxergar a abundância onde parece que há pouca coisa” Ela gosta de se inspirar nesse modo de “vida orgânico mesmo, de se desconectar do consumo exacerbado, de comprar o que você precisa para aquele momento que é o que a terra tem para te oferecer, sem forçar os processos”.

A jornalista, mãe e agora empreendedora que vende orgânicos numa Kombi conta que uma das suas alegrias é ver o número de pessoas que os acompanham nos pontos aumentando e os clientes fiéis que sempre voltam para buscar seus orgânicos com eles.

“Esse reconhecimento é uma energia extra para dar ainda mais ânimo de seguir”, diz.

Entre os planos para este ano está o de ampliar o negócio. Eles querem estar presentes em mais lugares, aumentar a operação, melhorar a logística. Ainda não sabem exatamente como, mas acreditam já ter acumulado uma boa experiência em perceberam o que funciona e o que precisa de ajuste. Estão plantando para colher, a seu tempo, mais prosperidade.

http://projetodraft.com

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