John Ioannidis: “A maior parte da pesquisa médica não é confiável”

ioannidis

O médico americano, da Universidade Stanford, tornou-se um dos pesquisadores mais prestigiados ao denunciar interesses comerciais e erros nos estudos de medicina

Marcela Buscato

O médico americano John Ioannidis, de 50 anos, cria motivos aos montes para contar com a antipatia dos colegas. O título de um de seus estudos mais recentes, publicado em junho, é Por que a maior parte da pesquisa clínica não é útil. Seu artigo mais famoso, divulgado em 2005, afirma haver maior probabilidade de estudos médicos publicados estarem errados do que certos. Ao denunciar os erros das pesquisas, porém, Ioannidis conquistou o respeito e não a inimizade na academia. Ele vem mostrando que a aprovação de novas drogas e a adoção de novas práticas têm nascido de um jeito viciado de fazer ciência, que inclui de enganos corriqueiros e involuntários a manipulações mal-intencionadas e sofisticadas. Diretor do Centro de Pesquisa em Prevenção, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, Ioannidis se tornou um dos cientistas mais influentes do mundo em pesquisa médica. Seu trabalho descreve como a indústria farmacêutica se apropriou de estudos para favorecer a aprovação de novas drogas e como cientistas que trabalham nas universidades ficam presos à necessidade de encontrar resultados gritantes, ainda que forçados, para alcançar reconhecimento. “Não culpo os pesquisadores por fazer isso nem a indústria por querer aumentar sua participação no mercado”, afirma. “Nós os forçamos a fazer isso.”

ÉPOCA – Estamos na era das evidências na medicina. Há mais de 1 milhão de testes sobre drogas e intervenções. Por que o senhor diz que ainda não basta?
John Ioannidis – Fizemos progressos nos últimos 25 anos. Deixamos de perguntar a opinião de professores de medicina e passamos a adotar estudos comparativos para nos guiar. Entretanto, a maior parte da literatura biomédica não é nada útil. Muitas pesquisas não são sobre problemas relevantes para os pacientes. E o grosso dos estudos está perto do zero na escala de credibilidade. Há erros aleatórios e vieses propositais, que interferem nas conclusões.

ÉPOCA – Isso quer dizer que muitos estudos são fraudes?
Ioannidis – Não é que sejam fraude ou que os cientistas sejam fraudulentos. Eles só estão fazendo o melhor para chegar a resultados estatisticamente relevantes, que sejam extremos e incomuns. Nós os incentivamos a fazer isso. Conseguir esse tipo de resultado é a única maneira de publicar o estudo, conseguir financiamento e ser promovido na universidade. Então, eles farão o seu melhor: torturarão os dados até encontrar algo muito significativo. Além disso, existem pessoas com uma agenda que vai além de chegar a conclusões incomuns.

ÉPOCA – O senhor se refere a pesquisadores que conduzem estudos patrocinados pela indústria farmacêutica?
Ioannidis – A maior parte dessas pesquisas é patrocinada por fabricantes que, claramente, querem chegar a um resultado determinado ou, pelo menos, interpretá-lo segundo suas intenções. Quando a indústria farmacêutica está envolvida em pesquisa, não é pela curiosidade da descoberta científica ou para salvar as pessoas. Ela quer ganhar dinheiro. Pesquisadores de um estudo em que há um patrocinador com conflito de interesses podem até chegar aos mesmos resultados de outros envolvidos em uma pesquisa em que não há patrocínio. Mas, na etapa de analisar os resultados, talvez o grupo patrocinado interprete o mesmo número como indício de que a droga é incrivelmente eficaz e de que todo mundo precisa usar, e o segundo ache que ele não justifica alguém tomar a medicação, levando em consideração os efeitos colaterais e o custo do tratamento. Eu não culparia a indústria por querer chegar a resultados que aumentem sua participação no mercado. Nós a forçamos a fazer isso também.

ÉPOCA – O que o senhor quer dizer? A indústria aprendeu a usar o sistema científico a seu favor?
Ioannidis – Absolutamente. Não os culpo por fazer isso. Vinte anos atrás, se você quisesse vender uma droga, tinha de encontrar os professores de medicina com maior prestígio e ter certeza de que eles se tornariam membros do conselho de sua empresa. Eles apresentariam sua droga em grandes congressos, muitos médicos estariam ouvindo e seriam convencidos. Agora, as pessoas não ouvem mais a professores com prestígio, mas a pesquisas clínicas e a grandes estudos que compilam e analisam os achados de uma área. São as chamadas revisões sistemáticas e meta-análises. A indústria mudou o foco de sua atenção dos experts para esses testes e levantamentos. Todo o pensamento sobre como elaborar o estudo, que evidências encontrar, que manipulação analítica fazer são escolhas para conseguir resultados favoráveis.

ÉPOCA – O senhor pode dar um exemplo?
Ioannidis – Recentemente, meu grupo investigou levantamentos sobre antidepressivos. Encontramos 185, um número impressionante. Precisamos de 185? Talvez de um ou dois. Quatro estaria ótimo. Cerca de 80% desses levantamentos tinham algum tipo de envolvimento da indústria. Eles nunca diziam nada ruim sobre os antidepressivos. A conclusão era muito favorável: eram ótimos, eficazes e sem grandes perigos. Era algo do tipo “vá em frente e tome mais”. Quando esses levantamentos eram feitos por pessoas sem conexão com a indústria, mais da metade trazia ressalvas: afirmava que eles não eram tão eficazes ou que tinham alguns riscos a ser levados em consideração.

“Em vez de testar os próprios produtos, a indústria pode contribuir com um fundo público para custear pesquisas”

ÉPOCA – Como evitar o sequestro de um sistema de verificação científica que levou décadas para ser estruturado?
Ioannidis – A única maneira é desvincular os fabricantes de testar seus próprios produtos. Assim, não haveria razão para chegar a um resultado favorável exagerado ou para interpretar os resultados de maneira enviesada. A indústria deve ter todo o incentivo para desenvolver a melhor droga, o melhor tipo de exame diagnóstico. Mas é preciso ter os melhores testes para avaliar esses produtos, elaborados, conduzidos e analisados por cientistas independentes – idealmente com financiamento público. A indústria poderia contribuir com recursos, num fundo público, que custearia essas avaliações. Uma pequena parte das vendas dos medicamentos alimentaria esse fundo.

ÉPOCA – O que poderia ser feito para melhorar a qualidade das pesquisas sem fins comerciais, mas que o senhor também diz não serem úteis e críveis?
Ioannidis – Precisamos realinhar os incentivos com o tipo de ciência que queremos. Outros critérios deveriam ser usados para decidir se um trabalho será publicado numa grande revista científica, se o pesquisador receberá financiamento ou será promovido na universidade. Precisamos avaliar outras dimensões, como a transparência dos dados e do método usado, se outros pesquisadores conseguiram reproduzir o estudo e chegar aos mesmos resultados e se há potencial de aplicação para melhorar a vida das pessoas.

ÉPOCA – Há grupos de pacientes que questionam a necessidade de haver várias etapas na pesquisa de novas drogas. O senhor não teme, com seu trabalho, acabar fortalecendo esse tipo de desconfiança em relação à ciência?
Ioannidis – Existe esse risco. Mas charlatões sempre usarão qualquer argumento absurdo para apoiar suas alegações. Muita gente tem atacado os testes em que novas drogas são comparadas a outras mais antigas, o tipo de estudo mais confiável para avaliar a eficácia de medicamentos. Esses grupos usam argumentos que soam muito emocionais. Dizem que pessoas estão morrendo, que precisamos ser mais rápidos nesses testes que “duram para sempre” e citam todos os erros metodológicos – que eu nem posso negar, porque fui eu que descrevi. Mas daí a abandonar esse tipo de estudo comparativo… E fazer o quê? Voltar para a Idade Média? Não é assim que se progride na ciência. A única maneira de fazer frente a esses grupos é se apegar ao método científico, baseado na transparência, no escrutínio dos erros, na reflexão cuidadosa sobre vieses. Estamos falando de ceticismo saudável sobre como os estudos são elaborados. Dizer que nunca estamos errados não é ciência, é dogma.

ÉPOCA – Mas, na prática, os pacientes – e mesmo os médicos – podem ficar confusos ao considerar os problemas apontados pelo senhor. Estamos sem parâmetros para tomar decisões médicas?
Ioannidis – Não devemos ficar pessimistas sobre nossa habilidade de tomar decisões ou sobre a utilidade da ciência médica. Há muitas coisas na medicina baseadas em ciência muito sólida. Fumar, por exemplo. Sabemos muito bem que é devastador. As vacinas são um sucesso. Mas há muitas outras coisas sobre as quais não temos tanta certeza, como novos e caros tratamentos. Precisamos reconhecer as incertezas. Temos de comunicar primeiro para os médicos e depois para os pacientes que um novo tratamento tem 1% de chance de funcionar, ou 5%, ou 10%. Você toma a decisão consciente dos riscos e se estiver disposto a pagar – ou a fazer seu governo pagar. É preciso integrar a ciência à vida cotidiana.

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