Se7en, a origem dos Sete Pecados Capitais

9 set 2008 ]

por Marcelo del Debbio

Como hoje é meu aniversário, escolhi fazer uma pausa nos textos mais científicos envolvendo Plano Astral e Demônios para escrever alguma coisa mais leve, voltada para o conhecimento interior. Na verdade, um exercício interessante que vai ajudar a explicar a origem de certas palavras que todo mundo usa diariamente mas pouca gente conhece o real significado delas.

Falarei sobre os Sete “Pecados” Capitais e as Sete Virtudes.

Em primeiro lugar: ninguém nunca se perguntou qual a diferença entre os Dez Mandamentos e os sete Pecados Capitais? Porque os pecados, que a Igreja tanto fala e que são formas certas de levar uma pessoa para o tal do Inferno, mencionados na Divina Comédia (escrita por Dante Alighieri, um iniciado) não estão na bíblia em lugar algum?

Os chamados “Pecados Capitais” são originários da alquimia e das tradições iniciáticas muito antigas, remontando dos antigos rituais egípcios e babilônicos. Antes de começar, vamos usar a nomenclatura certa: DEFEITOS capitais.

Os defeitos capitais são em número de sete, diretamente relacionados com o avanço espiritual e estando cada um deles associado a um Planeta, de acordo com uma estrutura denominada “Estrela Setenária”.

ORGULHO

Defeito capital relacionado com o SOL e, na minha opinião, o mais difícil de ser destruído.

Em sua síntese, Orgulho é um sentimento de satisfação pessoal pela capacidade ou realização de uma tarefa. Sua origem remonta do latim “superbia”, que também significa supérfluo.

Algumas pessoas consideram que o orgulho para com os próprios feitos é um ato de justiça para consigo mesmo. Que ele deveria existir, como forma de elogiar a si próprio, dando forças para evoluir e conseguir uma evolução individual, rumo a um projeto de vida mais amplo e melhor. O orgulho em excesso pode se transformar em vaidade, ostentação, soberba, apenas então sendo visto apenas então como algo de negativo.

Outras pessoas classificam o orgulho como “exagerado” quando se torna um tipo de satisfação incondicional ou quando os próprios valores são superestimados, acreditando ser melhor ou mais importante do que os outros. Isso se aplica tanto a si próprio quanto ao próximo, embora socialmente uma pessoa que tenha orgulho pelos outros é geralmente vista no sentido da realização e é associada como uma atitude altruísta, enquanto o orgulho por si mesmo costuma ser associado ao sentimento de capacidade e egoísmo.

O Orgulho é um defeito muito traiçoeiro, justamente porque, conforme coloquei no parágrafo anterior, a maioria das pessoas não o enxerga como um “defeito”, mas como uma “recompensa” moral ou espiritual por um trabalho que executaram. Por esta razão, é muito mais difícil livrar-nos dele, pois, ao nos acostumarmos com a recompensa, nos sentimos inferiorizados se não somos “reconhecidos” por nossos feitos.

Em minhas palestras sobre alquimia, sempre coloquei o orgulho como o último (e mais complexo) dos defeitos a serem finalmente destruídos, pois, ao contrário da preguiça ou da raiva, por exemplo, que são (na minha opinião) mais simples de serem trabalhados, o orgulho está enraizado em nosso pensamento de uma maneira intrínseca. É muito fácil cair na tentação de, ao “final” do caminho, batermos com as mãos no peito como o Fariseu da parábola de Lucas ou nos sentirmos injustiçados caso ninguém “reconheça” nossa “evolução”.

Aprender a trabalhar a via interior como algo íntimo para nós mesmos (e não para mostrarmos aos outros) certamente é o primeiro passo para o desenvolvimento espiritual.

A virtude cardeal do Sol é a MAGNANIMIDADE. A capacidade de brilhar e iluminar os outros ao seu redor. A virtude de brilhar pelo reto pensar, reto falar e reto agir. Assim como o orgulho é o pior de todos os vícios, a magnanimidade é a maior de todas as virtudes.

São Thomas de Aquino determinou sete características como inerentes ao orgulho:

Jactância – Ostentação, vanglória, elevar-se acima do que se realmente é.

Pertinácia – Uma palavra bonita para “cabeça-dura” e “teimosia”. É o defeito de achar que se está sempre certo.

Hipocrisia – o ato de pregar alguma coisa para “ficar bem entre os semelhantes” e, secretamente, fazer o oposto do que prega. Muito comum nas Igrejas.

Desobediência – por orgulho, a pessoa se recusa a trabalhar em equipe quando não tem suas vontades reafirmadas. Tem relação com a Preguiça.

Presunção – achar que sabe tudo. É um dos maiores defeitos encontrados nos céticos e adeptos do mundo materialista. A máxima “tudo sei que nada sei” é muito sábia neste sentido. Tem relação com a Gula.

Discórdia – criar a desunião, a briga. Ao impor nossa vontade sobre os outros, podemos criar a discórdia entre dois ou mais amigos. Tem relação com a Ira.

Contenda – é uma disputa mais exacerbada e mais profunda, uma evolução da discórdia onde dois lados passam não apenas a discordar, mas a brigar entre si. Tem relação com a Inveja.

ACÍDIA (Preguiça)

Isto provavelmente quase ninguém entre vocês deve saber, mas o nome original da Preguiça é Acídia. Acídia é a preguiça de busca espiritual. Quando a pessoa fica acomodada e passa a deixar que os outros tomem todas as decisões morais e espirituais por elas. É muito fácil de entender porque a Igreja Católica substituiu a Acídia pela Preguiça dentro dos “sete pecados”! trabalhar pode, mas pensar não !!!

A preguiça está ligada diretamente à LUA. Mas você já devia ter desconfiado disso… qual o dia da semana onde sentimos mais as influências destas energias? Moonday.

A virtude cardeal relacionada com a Lua é a HUMILDADE. É necessário lembrar que estamos sempre falando em termos espirituais dentro da alquimia. Em sua origem, a Humildade (Humilitas) está relacionada a “fazer o seu trabalho sem esperar reconhecimento e sem esperar por recompensas”. Humilde não é sinônimo de “coitadinho”, de “idiota”, de “pobrezinho” e outras tolices que vocês foram forçados a engolir por causa da Igreja. Uma pessoa humilde não precisa (nem deve) ser um pateta. “Cordeiro Humilde” nas palavras de Yeshua significa “Aquele que tem as características de Áries e faz o seu trabalho sem esperar reconhecimento”. Bem diferente do coitadinho medíocre que a Igreja espera que você seja.

São Thomas de Aquino determina sete características como filhas da acídia.

Desespero – quando o homem considera que o objetivo visado se tornou impossível de ser alcançado, por quaisquer meios, gerando um abatimento que domina o seu afeto.

Pusilanimidade – covardia, falta de ânimo, falta de coragem para encarar um trabalho árduo e que requer deliberação.

Divagação da mente – é quando um homem abandona as questões espirituais e se instala nos prazeres exteriores, permanecendo com sua mente rondando assuntos do âmbito material.

Torpor – estado de abandono onde a pessoa ignora a própria consciência.

Rancor – ressentimento contra aqueles que querem nos conduzir a caminhos mais elevados, o que acaba gerando uma agressividade. Está relacionado à Ira. Posso ver muito de rancor em relação aos textos ateístas e outros textos religiosos mais fanáticos..

Malícia – desprezo pelos próprios bens espirituais, resultando em uma opção deliberada pelo mal. Está ligada diretamente ao materialismo e á Luxúria. Hoje em dia tornou-se sinônimo de sexualidade explícita.

Preguiça – a falta de vontade ligada aos esforços físicos.

IRA

Defeito capital ligado diretamente a MARTE, representado acertadamente pelos Deuses da Guerra. A ira é o mal uso da energia agressiva de marte. Ao invés de direcioná-la para o sexo ou para os esportes, a pessoa canaliza este excesso de energia para a destruição. “Faça amor, não faça a guerra”. Com tantas travas e tabus sexuais, não é de se admirar que fanáticos religiosos sejam tão violentos.

A Virtude cardeal relacionada com marte é a DILIGÊNCIA, ou seja, a capacidade de guiar a energia e a capacidade de produzir de maneira efetivamente produtiva.

São Thomas de Aquino determina seis características inerentes como sendo filhas da Ira:

Insulto – uma forma de violência verbal, na qual o interlocutor visa ofender ou agredir moralmente o atacado, atingindo algum ponto fraco para humilhar o outro.

Perturbação – agitação física e psíquica produzida por emoções intensas e acumuladas. Um dos maiores problemas na psicologia, a tensão das emoções acumuladas pode gerar todo tipo de problemas no organismo.

Indignação – sentimento de ira em relação a uma ofensa ou ação injusta.

Clamor – queixa ou súplica em voz alta, reclamação, gritos tumultuosos de reprovação. Quando a Ira extravasa de uma pessoa para um grupo, como se fosse uma entidade viva (na verdade, astralmente, o Clamor É uma entidade viva, manifestada pelas Fúrias).

Rixa – briga, desordem, contestação, tumulto. A Rixa tem ligação com o Orgulho

Blasfêmia – difamação do nome de um ou mais deuses. A Ira voltada para dentro de si mesmo.

INVEJA

Defeito capital ligado ao Planeta MERCÚRIO. Hoje em dia, as pessoas utilizam-se do termo “inveja” de maneira errada. Seu sentido original quer dizer “Caminhar segundo o passo espiritual de outra pessoa”. Ter inveja de outra pessoa é tomar seu próprio caminho com base nos esforços e resultados obtidos por outras pessoas. A Inveja como a conhecemos hoje é a parte material do defeito.

Por esta razão que a Virtude cardeal associada a Mercúrio é a PACIÊNCIA. A paciência é a capacidade de caminhar (espiritualmente) no seu próprio ritmo. Não é sinônimo de “lerdeza” ou de “calma” ou de “ir devagar”… ir devagar é para gente devagar! Ter paciência é ter a capacidade de avançar nos estudos iniciáticos no seu próprio passo.

São Thomas de Aquino determina cinco características inerentes como sendo filhas da Inveja:

Exultação pela Adversidade – Diminuir a glória do próximo. Por causa do sentimento de inveja, a pessoa tenta de todas as maneiras diminuir o resultado do trabalho e das glórias das pessoas ao redor.

Detração – Significa falar mal às claras. Possui os efeitos semelhantes aos do murmúrio, com as mesmas intenções, mas mais abertamente. A diferença entre os dois é que a detração está maculada pelo Orgulho de se mostrar como causador do dano.

Ódio – o efeito final da inveja: o invejoso não apenas se entristece pelas conquistas do outro e deseja o fim das glórias e objetivos alcançados pelo próximo, mas passa a desejar o mal sob todos os aspectos para aquela pessoa também.

Aflição pela Prosperidade – A tristeza pela glória do próximo. Ocorre quando não se consegue de nenhuma maneira diminuir as realizações da outra pessoa, então passa a se entristecer com o resultado das conquistas alheias.

Murmuração – Também conhecido como fofoca, consiste em espalhar mentiras, meias-verdades, distorções, mentira (associada à Avareza) ou fatos embaraçosos ou depreciativos em relação a outra pessoa, com o intuito de prejudicar o próximo.

GULA

A gula, como já era de se esperar, era uma característica do Planeta JÚPITER. Júpiter, como o benfeitor da astrologia, rege a fartura e a prosperidade. O defeito é a gula e a virtude é a caridade.

Oras… estamos lidando com Excessos. A Gula é absorver o que não se necessita, ou o que é excedente. Pode se manifestar em todos os quatro planos (espiritual, emocional, racional e material). Claro que a igreja distorceu o sentido original da alquimia, adaptando-a para o mundo material, então hoje em dia, gula é sinônimo apenas de “comer muito”.

A virtude relacionada a Júpiter é a CARIDADE. A caridade lida com a maneira que tratamos nossos excessos. Ao invés de consumi-los sem necessidade, os doamos para quem não os possui. A caridade não está relacionada apenas a dinheiro, mas também aos 4 elementos da alquimia (espiritual, emocional, racional e material). Esta coluna, por exemplo, faz parte dos meus projetos de caridade intelectual.

São Thomas de Aquino determina cinco características inerentes como sendo filhas da gula:

Loquacidade Desvairada – a desordem no falar, o excesso de palavras atrapalhando e causando confusão mental. Está relacionada ao elemento Ar.

Imundície – aparência desleixada devido à falta de higiene por estar preocupado em demasia com a obtenção de excessos. Não tem o mesmo significado desta palavra em nosso vocabulário moderno, onde imundície quer dizer apenas “excesso de sujeira”, mas sim uma imundície espiritual, ligada à falta de cuidado com o corpo físico por conta dos excessos.

Alegria Néscia – desordem do pensamento e das emoções através do descontrole da vontade, muito associada ao ato de beber. Ligada ao elemento Água.

Expansividade Debochada – O excesso de gesticulações e movimentos do corpo ao comunicar, causando tumulto e desordenação.

Embotamento da inteligência – obstrução da razão devido ao consumo desordenado de alimentos.

LUXÚRIA

Defeito capital ligado ao Planeta VÊNUS, quer dizer em seu sentido original “deixar-se dominar pelas paixões”. Em português, luxúria foi completamente deturpado e levado apenas para o sentido físico e sexual da palavra, mas seu equivalente em inglês (Lust) ainda mantém o sentido original (pode-se usar expressões como “lust for money”, “lust for blood”, “lust for power”). A melhor tradução para isso seria “obsessão”. A luxúria tem efeito na esfera espiritual quando a pessoa passa a ser guiada pelas suas paixões ao invés de sua racionalidade. Para chegar ao auto-conhecimento, é necessário domar suas paixões (vide a representação do Arcano da Força no tarot!).

A virtude associada a Vênus é a TEMPERANÇA (do latim temperatia), ou a virtude de quem é moderado.

São Thomas de Aquino determina 8 características inerentes como sendo as filhas da Luxuria:

Cegueira da Mente – é aquela que nos impede de ver os acontecimentos, situações e ações ao nosso redor. A pessoa fica tão entregue às suas paixões que não consegue raciocinar nem intuir a respeito do mundo ao seu redor.

Amor de Si – faz com que a pessoa feche seus sentimentos para dentro de si mesmo, gerando um amor egoísta que segundo Thomas de Aquino é a origem de todos os outros pecados.

Ódio de Deus – com a vontade dominada pelas paixões, o indivíduo abandona a busca espiritual para se dedicar aos afazeres prazerosos mundanos, esquecendo sua busca por Deus no processo. Do esquecimento, estas paixões acabam se tornando ódio ao criador e a todo o mundo espiritual.

Apego ao Mundo – Os vícios e as paixões criam no indivíduo um apego ao mundo e aos seus desejos e ambições, desviando totalmente o foco espiritual de sua missão.

Inconstância – deixar-se dominar pelas paixões faz com que o indivíduo se torna inconstante, balançando sua dedicação à Grande Obra para dedicar-se às perseguições dos prazeres mundanos.

Irreflexão – Quando as paixões cegam o indivíduo, ele fecha-se a todo estímulo externo ou interno, procurando apenas satisfazer seus instintos, sem refletir nas conseqüências de seus atos.

Precipitação – da mesma forma, a urgência em saciar seus apetites e prazeres gera no indivíduo uma precipitação em agir sem pensar, tomando ações e atos sem o devido pesar.

Desespero em relação ao mundo futuro – os atos mal pensados ou não-pensados causam tantos problemas ao indivíduo que o levam a uma situação de desespero em relação ao seu futuro, quando se vê obrigado a encarar os resultados de suas ações.

AVAREZA

A Avareza (avaritia) é o defeito capital relacionado ao planeta SATURNO. Caracteriza-se pelo excesso de apegos pelo que se possui. Normalmente se associa avareza apenas ao significado materialista, de juntar dinheiro, mas sua manifestação nos outros elementos (espiritual, emocional e mental) é mais sutil e perniciosa. A avareza é a origem de todas as falsidades e enganações.

A virtude associada ao planeta Saturno é a CASTIDADE, ou a pureza dos costumes. Do latim Castitas, quer dizer “de sentimentos puros”. Normalmente a associação errada de “sentimentos puros” com a palavra “castidade” usada da maneira incorreta leva à associação de “abstinência sexual feminina” com “pureza”, esquecendo que esta pureza é Espiritual. A Mãe de Jesus que o diga.

São Thomas de Aquino determina sete características inerentes como sendo as filhas da Avareza:

Mentira – Ao procurar para si coisas que não lhe pertencem, o avaro pode se servir do engano. No desespero para não perder o que possui ou adquirir mais coisas que realmente não necessita, o avaro pode apelar para a falsidade. Se este se verificar através de simples palavras, caracteriza-se a mentira, mas se for através de juramento, então está classificada como Perjúrio.

Quanto ao engano em si: se for aplicado contra outras pessoas, classifica-se como Traição, se for em relação a coisas, classifica-se como Fraude:

Inquietude: Excesso de afã para juntar para si gera excessivas preocupações e cuidados.

Violência: Ao procurar para si bens alheios, o indivíduo pode se servir da violência, tamanha a ganância que possui, ao ver seus desejos negados pelo outro. O sentido esotérico se perdeu e violência hoje em dia é sinônimo de agressão, descaracterizando a razão causadora da agressão.

Dureza de Coração: O excesso de apegos pelo que se tem produz a dureza no coração, pois não permite à pessoa usar de seus bens para socorrer aos irmãos. Para se ser misericordioso, é necessário saber gastar seus bens excedentes.

Lição de Casa:

Utilizando-se da estrela Setenária, São Thomas de Aquino afirma que a bondade divina era tão grande que para cada Defeito Capital existiam DUAS virtudes que poderiam ser utilizadas para combatê-lo. Assim sendo, basta seguir as pontas da estrela para as virtudes associadas dos planetas opostos e meditar sobre quais virtudes podem ser utilizadas para combater os sete pecados capitais.

Agradecimentos à minha querida Soror Thahy, do blog Intensidade.

http://www.sedentario.org/colunas/teoria-da-conspiracao/se7en-a-origem-dos-sete-pecados-capitais-7971

 

História da Umbanda, com Alexandre Cumino

Universalismo É…

Pena que a recíproca não seja verdadeira!

Nota de Repúdio ao Preconceito da IURD

IURD e seus abusos não param. Você pode até não acreditar na crença religiosa alheia, mas respeito é coisa que se deve a todos. Se você concorda que todas as crenças religiosas devem ser respeitadas, repasse. Lembrando: se você quer que a SUA crença seja respeitada, respeite a dos outros.

NOTA DE REPÚDIO AO PRECONCEITO E INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

O Instituto Cultural Aruanda (ICA), em nome de seu presidente Rodrigo Queiroz, de seus membros, alunos,parceiros e de toda comunidade umbandista, vem por meio desta nota manifestar repúdio ao posicionamento tomado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no programa Exército Universal, exibido pela Rede Record e pela IURD TV,e divulgado na internet em 07/06/2012, no qual um vídeo de palestra ministrada por Rodrigo Queiroz sacerdote de Umbanda na cidade de Bauru (SP) gravado no ICA – Templo em 05/02/2010 (integrante da série Gira Aberta, produzida pela TV Umbanda Sagrada)foi utilizado sem prévia autorização,para agredir, ofender e desmoralizar a Umbanda,bem como outras religiões de matriz africana, seus seguidores, suas entidades sagradas e seus sacerdotes, além do próprio presidente do ICA.

Uma vez que não só a utilização deste material sem autorização, mas sobretudo o preconceito, perseguição e intolerância religiosa são crimes previstos em lei, o ICA informa que está tomando todas as providências judiciais cabíveis frente a este infeliz incidente, divulgado ao vivo em rede nacional, a fim de conquistar o direito de resposta do instituto. “Lutamos para engrandecer a bandeira da Umbanda há oito anos. O ICA vem desenvolvendo um trabalho sólido, contínuo e crescente em vários campos da religião e da sociedade, e não é de hoje que estamos estafados da truculência, dos crimes e da incitação ao ódio preconizados pela IURD. Sabemos que fomos apenas um rápido alvo em meio a tantas ações depreciativas, mas nem por isso ficaremos em silêncio”, declarou Rodrigo Queiroz.

Para que mais este crime contra a comunidade umbandista não fique oculto, pedimos o apoio da mídia, parceiros, irmãos de fé e de toda a sociedade na divulgação deste ocorrido. O trecho do programa exibido pela IURD TV pode ser acessado em http://www.youtube.com/watch?v=lnPlkZFM9Q4&feature=player_embedded;
já o vídeo original na íntegra da palestra ministrada por Rodrigo Queiroz está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=xwkLjSjhutY&list=UUWS3zYgt5HsuUuV0fZ1fPMg&index=1&feature=plcp.

Atenciosamente,

Rodrigo Queiroz
Presidente do ICA

Reflexões e Hipóteses sobre a Psicogênese da Religião

Universidade de Brasília, Maio-Julho de 2003
Instituto de Psicologia
Departamento de Psicologia Clínica
Disciplina: Psicologia da Religião.
Professores: Jorge Ponciano / Marco Aurélio Bilibio

Reflexões e Hipóteses sobre a Psicogênese da Religião

Marcus Valerio XR
Graduando em Filosofia, 02/98255
http://www.xr.pro.br

INTRODUÇÃO

Não que eu pretenda realizar uma Religiogênese no intuito de oferecer respostas para questões tais como, “se é a religião inerente ao Ser Humano”, pois isso seria um pouco ousado, e minha intenção não é ser pouco, mas muito ousado, por isso, o objetivo desta monografia é propor um modelo que consiga explicar a base de todo o fenômeno religioso humano não como apenas um subproduto da evolução cultural, mas na verdade como a geratriz da própria Sensciência humana, defendendo a tese de que o despertar do “sentimento” religioso é o divisor de águas entre o humano e o pré-humano.

Sendo inconteste que a religiosidade é fenômeno onipresente na história, e dado sua quase onipotência em definir a sócio-cultura, resta avaliar seu grau de onisciência como domínio capaz de compreender a essência do viver humano, oferecer respostas para os seus problemas e conseguir operacionalizar tais soluções.

Pretendo demonstrar que é da natureza do fenômeno religioso oferecer saídas à angústias fundamentais do Ser Humano independente do contexto cultural, mas também que muito da percepção de a mesma estar necessariamente ligada a respostas para questões sociais, em especial para a ética, pode muito bem ser ilusório, sendo mais um efeito decorrente da evolução histórica e dos diversos saberes que da natureza da religiosidade.

Dessa forma defendo que a religião, embora surja necessariamente em qualquer fenômeno humano em roupagens extremamente diversas, sendo então parte integrante e inseparável da cultura, oferece universalmente respostas a umas poucas questões, não por uma suficiência a priori, mas porque algo deve faze-lo diante da insondabilidade e perturbatividade de tais questões, e esse algo é em princípio um fenômeno religioso, embora possa em certos contextos culturais necessariamente mais complexos migrar para outros campos dos saberes.

Não pretendo porém aqui, advogar qualquer partição ideológica ou religiosa, e me abstenho de julgar neste trabalho a “verdadeira essência” da religião, como se isso fosse possível. Minha intenção é bolar um conjunto de explicações que funcionem independente do ponto de vista espiritualista ou materialista, estando mais preocupado com o “fenômeno” em si, a relação entre os elementos Mente Humana e Idéias, e menos com a natureza última destes mesmos elementos.

Entretanto antes devo confessar que este trabalho já estava planejado semestres antes de cursar esta disciplina, sendo um de meus projetos mais antigos. Tendo pretensões acadêmicas que transcendem a simples obtenção de um diploma, sempre procuro disciplinas aos quais eu possa harmonizar meus projetos investigativos pessoais. Portanto esse é o primeiro, ou um dos primeiros, passo mais organizado do sentido de elaborar uma teoria mais profunda e mais ampla, dentro de todo um projeto filosófico que venho desenvolvendo há alguns anos.

Por isso alguns dos conceitos a serem apresentados aqui derivam de conceitos anteriormente desenvolvidos, embora eu me esforce para possibilitar uma leitura independente, que podem ser obtidos principalmente em meu site na internet. http://www.xr.pro.br.

Marcus Valerio XR

ÍNDICE

Introdução & Índice
Algumas Definições
Ser Humano
Da Casualidade à Causalidade
Síntese de Religiões
A Meta-Continuidade Mental
Deus
Evolução Religiosa
Ética e Moral
Religiões do Futuro
Bibliografia

ALGUMAS DEFINIÇÕES

Boa parte dos desentendimentos intelectuais poderiam ser evitados se em geral houvesse mais cuidado com a definição dos termos usados numa conversação. Antes mesmo de me considerar um filósofo, já notava que na maioria das vezes as divergências se dão não nas idéias em si, mas em seus referenciais semânticos.

Curiosamente as pessoas costumam achar que só há necessidade de definir palavras novas, quando na verdade estão a usar palavras conhecidas em sentidos específicos diversos de vários outros sentidos comuns, e ainda ficar surpresas pela dificuldade de serem entendidas.

Faz-se mister então que os termos chaves usados nesta monografia sejam de imediato esclarecidos.

RELIGIÃO

Apelo à etimologia da palavra, considerando como tal qualquer modo de pensamento e sensibilidade que vise ligar o Ser Humano a um plano distinto, em geral extra físico ou ao menos insuperavelmente distante por outra via, quer no tempo ou no espaço. Dessa forma espero deitar por terra termos em geral pré conceituosos como Seita, que significaria apenas um segmento religioso minoritário, ou Heresia, que trata-se de uma derivação de um sistema religioso original. Todos são religião.

Alegações do tipo: “Isso não é religião, é seita!”; Que tive a oportunidade de ouvir em minha mais tenra idade num colégio católico, ou afirmações de que Espiritismo, Budismo, Esoterismo e Misticismo não sejam fenômenos religiosos, não tem aqui cabimento.

Da mesma forma espero excluir outros sistemas de pensamento ocasionalmente acusados de serem religiosos, como Marxismo, Evolucionismo ou a própria Ciência, por não visarem tal religação com um plano sutil.

Essa questão será retomada mais adiante, constituindo na verdade o fio condutor deste trabalho.

ESPIRITUALISMO

Considerado como uma postura oposta ao Materialismo, ou seja, que reconhece a existência de uma plano supra material, intangível. Em muitos casos pode agir como sinônimo de Religião, mas não necessariamente, pois é possível estabelecer uma postura espiritualista que não proponha, ou não se interesse, pelo contato entre os dois planos.

Nesse caso a Religião é necessariamente Espiritualista, mas não o contrário, com a exceção de fenômenos religiosos muito recentes, que serão citados posteriormente.

Válido também lembrar que o conceito de Materialismo implica meramente na postura de aceitar o Universo como meramente material, em nada determinando posicionamentos reprováveis como egoísmo, amoralidade ou o controverso Hedonismo, a postura de viver visando o prazer.

MÍSTICA

Mais uma vez respeitando a etimologia da palavra, diz respeito ao “Mistério”, algo que não é imediatamente acessível aos sentidos, e ou de difícil ou impossível racionalização, mas que considera-se existente. Sendo assim Espiritualidade e Religião são sempre posturas Místicas.

Infelizmente a palavra tem sido utilizada para designar segmentos específicos de religiosidade, em geral de teor ESÓTERICO, que por sua vez significa “Aprendizado Interior”, a crença de que o religare se dá por intermédio de uma oculta qualidade a ser despertada individualmente no Ser Humano.

Por esse motivo, defino simplesmente como Místico qualquer modo de pensamento humano que considere qualquer tipo de “algo” sutil, englobando necessariamente Espiritualidade e consequentemente Religião.

MENTE, CONSCIÊNCIA e SENSCIÊNCIA

Como MENTE, me refiro a qualquer tipo de concepção relativa a cognição, depositário das memórias, das crenças, desejos, razão e etc. Não vem ao caso então se esta é um domínio separado e autônomo em relação à matéria, ou se não passa de um epifenômeno do cérebro, considerarei que a Mente exista quer ontológica ou apenas semânticamente, tratando-se então antes de tudo de um termo facilitador.

Da mesma forma, quer se considere modelos que além da Mente ainda proponham outros domínios, como a tríade Corpo, Mente e Essência, ou Mônada ou Espírito como domínios superiores ou apenas distintos da Mente, mantém-se o uso do termo, pois mesmo que tais domínios sejam sustentados e seus modelos pressupostos, todo o discurso, inclusive sobre o mesmos, continua só se dando através do que conceituo como Mente.

Como CONSCIÊNCIA costuma-se entender uma miríade de coisas, por isso prefiro aplicar um termo que a princípio poderia lhe ser sinônimo, mas está menos contaminado por significações diferentes. O termo SENSCIÊNCIA remete a idéia da Consciência sobre si próprio, sobre a própria Existência como ser Consciente e em decorrência sobre a consciência da possibilidade da Não-Existência.

Note que SenSciência não é facilmente encontrado, constando antes nos dicionários a palavra SeNCiência, normalmente tomado como qualquer ser que tenha sensações. Para evitar conflitos com essa definição formal, utilizarei o termo com o mesmo SC encontrado em Consciência.

Dessa forma, enquanto afirmar que um Ser é consciente pode implicar em estar consciente de si próprio ou apenas do ambiente que o cerca, bem como capaz de entender ou não certos processos, e isso sem falar nas implicações dos termos, Inconsciente e Subconsciente, quando afirmo que um Ser é Sensciente digo que o mesmo tem antes de tudo Auto Consciência, senso de Existência e perspectivas existenciais bem como de possibilidades não existenciais.

INTUIÇÃO

Tomo como no sentido de um modo cognitivo que resulta em crenças, impressões e sensos imediatos, sem a tradicional operacionalização em etapas dos processos racionais. A Intuição costuma produzir juízos instantâneos, que podem ser corretos ou não.

Com isso proponho um termo chave para a condução desta monografia, trata-se do conceito de INTUIÇÃO-MÍSTICA, que é a crença, senso ou juízo imediato de que exista um Mistério, ou seja, algo que está além de nossa percepção.1

Como a Intuição é um dom tão passível de falhas quanto a Razão, haja visto as intuições largamente falsas que todos temos ou tivemos em alguma fase da vida sobre Mecânica e Cinemática, em nada a Intuição-Mística implica necessariamente numa percepção de algo real. Porém é o que considerarei como elementar na Psicogênese Mística, resultando na Espiritualidade e consequentemente na Religião.

1.O filósofo da religião Willian P. Alston tem trabalhado com um conceito similar denominado “Percepção Mística” (Perceiving God – The Epistemology of Religious Experience, 1991), advogando neste caso que uma possível percepção não exatamente sensorial direta ou indireta poderia validar a experiência de deus. Mas nesse caso, Alston empresta algum valor de verdade ao objeto desta percepção ao menos como forma de justificar a crença, haja visto seu comprometimento cristão. Além disso o termo Intuição-Mística também tem sido desenvolvido por vários filósofos com nuances diferentes, tanto no termo Intuição quanto no termo Mística.

SER HUMANO

É a mais importante definição. Tomo usualmente no mesmo sentido que costuma-se aplicar o termo “O Homem”, que considero problemático primeiro por uma questão de clareza. Não foram poucos os textos em que vi a palavra “Homem” ser usada em contextos que tornavam impossível diferenciar se o mesmo se referia a gênero masculino ou à espécie humana.

Além disso, defendo que o uso indiscriminado do termo “Homem” para se referir a espécie humana está sim impregnado de uma visão sexista da espécie, e que sua manutenção não deixa de constituir uma resistência ao processo emancipatório do feminino. Além do termo Ser Humano, em geral num sentido mais abrangente que enfoque cultura e algo que chamamos de “essência”, ou “natureza”, costumo usar também o termo Homo Sapiens quando quero enfocar aspectos predominantemente biológicos.

Como um Ser Humano, tenho algo muito claro em mente. Entendo-o como um ser Sensciente, entre outras coisas, dotado basicamente de 4 Potências fundamentais no que se refere ao modo como apreende o mundo a sua volta.

Essas 4 potências são a SENSORALIDADE, a EMOÇÃO a RAZÃO e a INTUIÇÃO. O Ser Humano tem então uma Mente, e caso a mesma também esteja presente em animais, com certeza não apresenta as mesmas potencialidades.

Como Sensoralidade, para não usar o confuso termo Sensação, entendo obviamente a capacidade de capturar impressões do ambiente por meio dos múltiplos sentidos. Essa potencialidade está também, ao que tudo indica, presente em todos os seres vivos.

Mesmo as bactérias possuem sensores, e mesmo as formas de vida “inanimadas” possuem meios de captar informações do ambiente em que vivem, por exemplo no sentido de, como certas plantas, orientar o crescimento de suas folhas rumo a fontes de luz.

Sendo assim a Sensoralidade é a mais básica faculdade do Ser Humano, compartilhada com aparentemente todas as formas de vida, e cuja manifestação física não pode ser mais evidente dado ao bio aparato sensório que a equipa, o que quase certamente não ocorre com a Emoção. Esta por sua vez, está inequivocamente presente ao menos nos animais superiores, como podermos inferir não só pelo comportamento, mas também pela presença de um sistema endócrino correlato ao encontrado nos seres humanos.

Pode parecer estranho a princípio colocar a Emoção como um poder de apreensão do ambiente, tenho motivos diversos para isso que não interessam aqui, e que podem ser encontrados em meu site na internet, mais especificamente na Filosofia EXERIANA no texto sobre os 4 Poderes Humanos.

O que interessa aqui é explicitar que há distintos graus de abrangência dessas potências, e que a Emoção é ao menos um subproduto inevitável da percepção ambiental em algum grau nos seres senscientes, ou mesmo pré-senscientes, influenciando na produção de crenças e juízos. Já o dom Racional, diferente da Emoção e ainda mais da Sensoralidade, é muito mais restrito fisicamente, ao âmbito cerebral, e sendo muito mais sutil e difícil de detectar do que os estados emocionais, que normalmente desencadeiam toda uma série de eventos hormonais no organismo.

É comum também, principalmente no discurso filosófico tradicional, considerar-se o Ser Humano como um Animal Racional. Há porém motivos para discordar que a racionalidade seja uma exclusividade humana, haja visto capacidades correlatas de aprender e solucionar problemas que os animais mais evoluídos apresentam,1 o que me leva a concordar que nossa diferença racional com relação ao demais animais é muito mais de grau do que de gênero.

Falei então das 3 primeiras potências humanas, Sensoralidade, Emoção e Razão, esperando ter deixando claro que elas apresentam graus de abrangência distintos, sendo respectivamente mais sutis, e menos compartilhadas entre os seres vivos.

Minha intenção é então definir a Intuição como uma potencialidade exclusivamente humana, o que me leva a afirmar que o Ser Humano é na verdade um Animal Intuitivo.

Antes de continuar porém é imprescindível prevenir uma possível, comum e completamente lamentável confusão, a de misturar o conceito de Intuição com o de Instinto.

Ambos tem em comum apenas o fato de serem dons não racionais, e a semelhança termina aí exatamente onde começou. Como Instinto, entendo um programa operacional inato que orienta os seres vivos a desempenhar ações primárias no sentido de manutenção de sua existência e perpetuação.

A Intuição como já disse, significa um modo de se relacionar com o ambiente que implica numa apreensão de conceitos novos, a posteriori, com infinitas aplicações e implicações, em absoluta oposição ao âmbito totalmente limitado onde agem os Instintos, a priori.

Ou seja, a Intuição, no sentido que defendo, não se trata de um dom que trás um pré conhecimento interno inato, mas sim num dom capaz de produzir “conhecimentos” imediatos ainda que a ponto destes parecerem sempre terem estado presentes. E, devo insistir, a Intuição não é um dom infalível, mas sim tão ou mais capaz de cometer erros quanto a Racionalidade.

Sendo assim, é possível uma Intuição sobre o comportamento de outros seres, sobre que caminho escolher numa trilha, sobre que decisão tomar num negócio ou sobre uma estratégica escolha em política internacional. Já os instintos só dizem respeito às funções primárias da existência, alimentação, auto preservação, reprodução e etc.

Dessa forma advogo que o Instinto não é uma Potência Humana, no sentido de produzir juízos e crenças, pois o mesmo nada diz a respeito do mundo que nos cerca, sendo um instrumento meramente funcional que apenas nos impulsiona a agir no ambiente, mas sem nada nos dizer sobre o que é esse ambiente, ou o que somos nós mesmos.

E se a Razão apesar de inegável, já é de âmbito sutil em nosso organismo, a Intuição será tanto ou ainda mais, e na verdade proponho que é a Intuição que irá promover o diferencial qualitativo entre o Ser Humano e os animais, pois será através dela que ocorrerá aquilo que, teorizo, seja o divisor de águas entre o pré-humano e o humano.

A capacidade de deduzir uma Causa de um Efeito.

1. WRANGHAM, Richard & PETERSON, Dale. O Macho Demoníaco.

DA CASUALIDADE À CAUSALIDADE

O Universo é antes de tudo um Macro Fenômeno, ou no mínimo está repleto deles. Todos os eventos que ocorrem estão relacionados, sendo uns causas de outros, que por sua vez constituem efeitos. Quando digo que um evento causa outro, entendo que o evento inicial produz um efeito, que por sua vez produz outro, e assim por diante, e quase nunca de modo unidirecional.

Uma complexa relação entre eventos constitui nosso Universo, e não há um só Efeito sem Causa, ou Causa sem Efeito, ou seja, todo e qualquer evento produz outros, assim como é produzido por outros, e não interessa aqui regredir a uma hipotética causa primeira ou progredir ao efeito último.

Ainda na insistência em se promover definições, proponho conceituar Inteligência como, antes de tudo: A capacidade de apreender relações de Causa e Efeito, quer sejam físicas ou formais. Quanto maior for a capacidade de um ser de compreender as relações entre os eventos, maior será sua Inteligência.

Dessa forma, podemos vislumbrar uma diferença entre o Ser Humano e os animais. É claro, que os animais são capazes de “deduzir” efeitos de causas por experiência, ou seja, ao receber um estímulo diretamente ligado a um outro, tende a associá-los. Como exemplo, o gato aprende que ao ouvir o som do pacote de ração sendo esvaziado em seu prato, resulta que nele encontrará comida, assim como o cão pode aprender que ao ver uma bacia cheia de água, logo deve se seguir um banho, o que pode resultar em comportamentos evasivos.

Porém, ao que tudo indica, os animais não parecem capazes de deduzir uma causa de um efeito. Um cão ao ver um bola passar a sua frente, preocupa-se apenas em acompanhar-lhe a trajetória, mas não procura pela origem do movimento. O gato pode ter tido a oportunidade de contemplar seu prato de comida vazio e permanecer próximo a ele, e constantemente verificá-lo de novo independente de que tenha presenciado seu dono despejar a comida nele ou não, e o mais notável, mesmo que a comida surja lá por outro meio sutil, isso em nada preocupa o animal. Ele não irá se ocupar de verificar de onde a ração surgiu, pois tudo que lhe interessa é que ela está ali, e não o evento causal que a trouxe.

O Ser Humano porém, e possivelmente alguns primatas superiores, age de forma mais complexa, sendo capaz de pressupor que qualquer evento teve uma causa anterior. Ele desenvolve o hábito de procurar pela origem dos eventos. Não pretendo aqui promover uma análise sistemática de como e quando isso ocorre, mas por enquanto, pressuponho que ocorreu um momento nos grupamentos de primatas superiores em que os indivíduos já apresentavam o dom cognitivo de deduzir causas para os efeitos, o que multiplicou enormemente seu poder sobre o meio ambiente.

Segundo alguns antropólogos, chimpanzes e bonobos usam ferramentas rudimentares apenas quando a situação exige, não lhes ocorrendo a idéia de armazená-las para usos posteriores. 1 A percepção de relações de Causa e Efeito mais abrangentes iria então gerar comportamentos muito mais complexos, como a prevenção, impulsionando os hominídeos a portarem ferramentas.

Uma vez já estando habituado a procurar causas para os efeitos, independente de ter sucesso nesta busca ou não, dão-se as condições para que venha a ocorrer o fenômeno que idealizo como sendo o “Despertar da Humanidade”.

Gosto de imaginar, confessando uma verve poética, um mito que simbolize esse despertar. Imagino que um ou mais hominídeos, provavelmente já aptos a utilizar como ferramentas rudimentares objetos que encontram na natureza, ou a talvez já transformar, lascar ou polir estas ferramentas, num dado momento contemplou, ou contemplaram, um certo fenômeno natural, como a “queda” de um raio por exemplo. Então, por algum motivo, ocorreu pela primeira vez o ato de procurar a Causa deste Efeito. O que poderia ter causado aquele evento?
Um dom primevo de estabelecer relações causais já vinha sendo útil para a sobrevivência num sentido prático, neste momento esse dom passa a ser usado de um modo mais amplo, relacionando eventos menos imediatos entre si, e o mais importante, procurando causas de fatos inevidentes.

Então, pelo dom da Intuição, teria se formado um juízo novo, uma crença. Talvez pela analogia de ser capaz de atirar uma pedra, ou produzir fogo, esses primeiros humanos intuíram que algo deveria ser voluntariamente responsável por aquele evento. Algo, ou alguém, lançara aquele raio dos céus. Esse modo primevo de associação explicaria a onipresença dos mitos antropomórficos em todas as culturas.

Fato é, que mesmo em estado de ignorância sobre o modo de funcionamento da natureza, um Ser Humano jamais deixa de tentar compreender causalmente os eventos. Ele precisa prever quando tal coisa deve acontecer novamente, quer entender e se prevenir, então imagina alguma explicação, determinado por um impulso irresistível de fazer relações entre eventos.

Por exemplo: Não conhecendo o processo de evaporação da água, das transições entre os estados físicos da matéria, se torna totalmente inexplicável como pode de repente cair água das nuvens. É preciso então admitir, por um procedimento inferencial já regido por leis fundamentais da lógica, que algo causa a chuva, algo que não é imediatamente evidente, abrindo espaço para a especulação sobre o imperceptível.

Vale lembrar inclusive que a palavra grega entendida como Téos, quer dizer também “invisível”. Ou seja, um deus é então algo não imediatamente evidente, e sim sutil, mas algo necessário para explicar o porquê de certos eventos ocorrerem.

Aproveito então para advogar que não posso compartilhar com as teses de que o despertar das primeiras associações mitológicas esteja sempre relacionado a um sentimento de medo com relação às forças naturais, pois da mesma forma com as relações mentais de causa e efeito podem fazer surgir idéias de seres terríveis que disparam raios do céu, podem também dar origem a idéias mais singelas, como uma divindade que despeja a água dos rios, que faz o Sol nascer, ou que traz uma brisa refrescante.

O que há de certo, creio eu, é que esse fenômeno, doravante denominado Intuição-Mística, sempre estará porém emocionalmente carregado, quer seja com um fascínio capaz de despertar o maravilhamento e a alegria, quer com o temor capaz de despertar submissão e obediência. Ambos resultarão então na reverência ante a potência sobre-humana do conceito formado. Os imaginários seres responsáveis por aqueles potentes eventos.

Sendo assim, defendo que em alguém momento da pré-história, já com a capacidade de traçar relações primevas de Causa e Efeito por via condicional, racional ou intuitiva, os hominídeos primitivos passaram a usar o que chamo de Intuição-Mística, formulando juízos que relacionam os mais diversos fenômenos naturais com sendo causados por entidades, a partir de um certo estágio com algum grau de antropomorfismo, e sobretudo de intencionalidade.

Nesse momento então ocorre a transferência da Casualidade para a Causalidade. O Ser Humano passa a conceber o mundo a sua volta como determinado por volições, como um Universo Causal, influenciado por um plano não imediatamente perceptível, mesmo porque os seres mitológicos nunca são fisicamente evidentes.

Consolida-se então o senso de Mistério, de que há algo que transcende a percepção, pois essa é a única forma de explicar eventos que aparentemente surgem do nada.

SÍNTESE DE RELIGIÕES

Acabo de lançar uma série de hipóteses que explicariam simplificadamente como se deu o despertar do fenômeno religioso. Posteriormente pretendo confrontá-las com evidências tidas como certas por nosso conhecimento histórico e cultural.

No momento proponho fazer uma reflexão sobre o que é inegavelmente essencial no fenômeno religioso. O que está presente necessariamente em qualquer tipo de manifestação cultural que entendamos como religiosa?

Algumas coisas podem ser descartadas logo de imediato, como por exemplo a idéia de um Deus Supremo Central, que é ausente no Budismo e Taoísmo por exemplo, bem como a idéia de uma cosmogênese, ausente também em alguns mitos indígenas norte americanos. Além do mais, pode-se sem muita dificuldade demonstrar que estes, e muitas outros elementos não são necessários ao fenômeno religioso em si, pois sem dúvida pode-se concebê-lo sem eles.

Mas há pelo menos 3 coisas que, creio eu, são absolutamente imprescindíveis. Primeiro porque não é possível, ou pelo menos disso nunca tive conhecimento, encontrar qualquer sistema religioso que não os possua, e segundo porque é mesmo difícil conceber uma idéia de religião sem eles.

Trata-se dos seguintes 3 itens:

– TODO sistema religioso propõe alguma explicação sobre o Universo.
– TODO sistema religioso propõe alguma solução para a expectativa futura da inexistência.
– TODO sistema religioso propõe alguma legislação sobre como se harmonizar com o invisível.

Com relação ao primeiro item, vemos que qualquer religião tem algo a dizer sobre o mundo a nossa volta. Ela explica como certas coisas ocorrem, e em geral o porquê. Nem sempre fala sobre de onde veio, se veio, e nem sempre diz que um dia deixará de existir, ou sofrerá uma tremenda transformação.

Mas me parece inquestionável, que a religião SEMPRE diz algo sobre a natureza da realidade, quer seja apenas sobre alguns eventos ou sobre sua totalidade, e não vejo como conceber o contrário.

Quanto ao segundo item, deriva diretamente do inegável, insuportável e onipresente drama da Sensciência. Se sei que Existo, posso imaginar que poderia não Existir! A tudo me leva a crer que minha existência é, como diria Welte, um breve hiato entre duas inexistências. 1

De certo há muitas outras necessidades que um contato com o plano transcendente pode satisfazer, mas não tenho dúvidas de qual seja o mais importante. Como nosso impulso pela existência é mais do que fundamental, é muito difícil se conformar com a idéia de que deixaremos de existir, a religião então será nossa salvação. Ela fornece ao menos uma possibilidade de transcender a morte.

E o terceiro item, que na verdade terá íntima relação com o segundo, também me parece onipresente, pois ao afirmar como funciona o mundo além das aparências, vêm então o conhecimento transcendente. Todos os sistemas religiosos, em maior ou menor grau, orientam o fiel ao menos no sentido de dizer o que se deve fazer para obter tal ou qual resultado.

O primeiro item, creio eu, já foi suficientemente abordado anteriormente na argumentação das relação causais. Dado as dimensões desta monografia, não estou pretendendo, a princípio, desenvolvê-lo mais longamente. Direi apenas que a Intuição-Mística irá orientar o indivíduo num processo de obtenção de respostas para o funcionamento da realidade, que será explicada mediante a ação do plano invisível. E por sinal é bom lembrar que a crença no invisível, ou seja, a postura Espiritualista, baseada na Intuição do Mistério, não está listada nos itens imprescindíveis pelo simples fato de que ela não é um item, ela é base sobre a qual se constrói qualquer Mística, Espiritualidade e Consequentemente Religião.

Como afirmei antes, seria possível articular uma posição Espiritualista sem se preocupar com qualquer um dos 3 itens fundamentais da religião, ou seja, pode-se crer que há um plano sutil, mas não se propor a conhecê-lo ou lhe dar importância. Vemos isso amplamente entre pessoas que não vivenciam diretamente religiões mas que não hesitam em concordar que deva haver algo mais entre o Céu e a Terra.

Da Intuição-Mística deriva então a noção do plano sutil, a semente da Espiritualidade, que pode então desenvolver-se em forma de Religião. É claro que o que normalmente entendemos como Espiritualidade está impregnado de conceitos que foram desenvolvidos pela Religião, pois ocorre evidentemente uma retroalimentação, e mesmo porque as pessoas sensíveis à Espiritualidade ainda que não sigam religiões, não deixam de considerar algumas de suas premissas.

Também podemos, baseado nestas classificações, estabelecer parâmetros de demarcação entre a Religião e a Não-Religião, quer seja como mera Espiritualidade, ou como qualquer outro corpo de pensamento.

Admitir que há um plano espiritual, mediante a aceitação do “Mistério”, quer por via da Intuição-Mística direta quer seja pela herança cultural, como já vimos, não implica necessariamente no desenvolvimento de uma postura religiosa. Da mesma forma, a expectativa de superação da morte, por si só, também e insuficiente para tal, pois é facilmente concebível que tal se dê por outras vias, ou melhor dizendo por via meramente materialista, quer seja mediante conceitos como memória genética, obtenção de imortalidade via Ciência, ou mesmo ousadas hipóteses de ressurreição corporal ou sobrevivência mental baseadas em possibilidades de uma ultra ciência futura.2

Da mesma forma, uma simples “ética” é ainda menos eficiente, mesmo que associada ao item anterior, pois tais preceitos poderiam ser dar meramente por condições filosóficas. Seria até concebível que uma “ética” baseada em Espiritualidade pudesse fundamentar uma Religião sem a solução Meta Existencial, porém faltaria-nos simplesmente um único exemplo.

Portanto, é necessária uma coordenação destes 3 itens fundamentais para que um sistema de pensamento seja classificado como Religioso, faltando um deles, teríamos uma Não-Religião.

Estabelecido então esses requisitos, e não perdendo de vista a derivação condicional, para haver Religião é necessário a Espiritualidade, e esta depende da Mística, mas agora devemos nos ater a aquele que talvez, seja o elemento mais crucial. O Item Segundo.

1. Bernhard Welte, Filosofia de La Religion.
2. Para melhores exemplos destas possibilidades que estão melhor representadas como Ficção Científica, temos a obra de Philip José Farmer sobre a “Saga do Mundo de O Rio”, que compreende vários livros, e meus contos de Ficção Científica Além da Ressureição e Seculários de um Homem Milenar em Contos de FC & FF

A META-CONTINUIDADE MENTAL

Não consigo imaginar uma questão mais monumental, mais fundamental, mais importante e titânica do que a pergunta comumente feita na forma de: “Existe vida após a morte?” Muito mais do que saber de onde viemos, como o universo surgiu ou se há um deus. Mesmo porque se a continuidade da existência não ocorrer, tudo o mais deixará de importar, e por outro lado se ela ocorrer, essas questões então tem muito maior possibilidade de serem respondidas, pois teremos muito mais tempo para abordá-las.

Sinceramente acho que um ser Sensciente não pode deixar de se preocupar com isso, embora costume haver, sem dúvida, uma fuga dessa preocupação, que sempre é menos forte quando nossa existência parece estar longe do fim.

Para evitar o paradoxismo do termo vida pós-morte, prefiro me referir a ela com o termo que eu mesmo cunhei. Meta-Continuidade Mental. Como já disse entendo Mente principalmente como um termo simplificador equivalente a qualquer concepção de conteúdo não físico, ou ao menos não pura e claramente físico, estando aí representados espírito, alma, essência, atmam ou similares, assim como mesmo o extremo do reducionismo, de que a Mente seja nada mais do que uma ilusão comportamental como advogada pela Behaviorismo Ontológico.

A Meta-Continuidade é então sua permanência após o fim de nosso corpo, por algum meio qualquer, quer seja vivência num plano sutil, ressureição, reencarnação ou etc.

Somente um ser Sensciente tem noção consciente da própria existência como um fenômeno, e ao mesmo tempo pode conceber a idéia de não existência. O animal simplesmente, aposto eu, não tem noção do que é exatamente existir ou deixar de existir. Ele preserva sua vida baseado puramente em instintos práticos que lhe orientem no sentido de evitar o sofrimento. Qualquer coisa que claramente o ameace fisicamente é sempre também algo que lhe trará dor. E nesse caso, advogo que sua intenção ao fugir do perigo é fugir da dor, e não conscientemente fugir de uma ameaça à sua existência.

Só o ser Sensciente então pode compreender, ao ver a velhice e a morte de companheiros, a noção de que, ao que tudo indica, ele também corre o risco de deixar de existir. Como a morte parece ser inevitável, o inexorável destino da inexistência se revela como uma expectativa, um mistério, e, no mínimo, uma apreensão.

A idéia de que a morte não seja necessariamente o fim pode ter muitas origens, ou melhor, poder ter sido “solucionada” de diversas formas, baseado em observações como a que viria a resultar na palavra “Espírito”, o sopro de vida, que abandona o corpo após a morte, ou a idéia, como defende Durkheim, de que o sonho sugere uma separação entre mente e corpo, uma vez que ao sonhar, o humano primitivo concebe que de algum modo viajou a algum outro lugar, embora seu corpo tenha ficado imóvel.1 Ou mesmo as curiosas experiências de distúrbios do sono.

Mas somente a religião irá garantir ao indivíduo sua chance de transcender a morte física. Uma vez que está construída uma noção de que há algo além da percepção que controla o mundo, de que há um plano invisível, é bem provável que estes fenômenos que parecem desafiar a morte, assim como toda a sorte de eventos não explicáveis, estejam diretamente associados ao transcendente. Afinal um domínio que controla os fenômenos naturais muito além da possibilidade humana deve ter poderes sobre muitas outras, ou todas as coisas.

Arrisco também uma idéia mais ousada. Talvez intuitivamente o ser humano se dê conta, mesmo nos mais rudimentares contextos, da vantagem em se apostar na sua meta existência. Pois crendo-a, ele não poderá decepcionar-se caso esta não ocorra, pois seu destino será o nada, e portanto a não consciência total, e caso ocorra, ele já estaria preparado, dentro de sua concepção.

Claro que isso tudo ocorreria de modo bastante simbólico e certamente inconsciente, como muito provavelmente quase todo o processo psicogênico religioso. É evidente que os humanos primitivos não racionalizaram essa percepção do mundo, gerando tudo de modo espontâneo.

Portanto, acho muito sensata a constatação de muitos estudiosos de que a consciência da mortalidade seja não apenas uma, mas talvez A Grande Causa das religiões, porém, creio que isso seja insuficiente para explicar o fenômeno em toda a sua complexidade, apostando então ao menos numa outra causa concorrente, que é a da Intuição-Mística do transcendente.

Seria então, da fusão entre esses dois aspectos que emergiria o comportamento religioso, a Intuição-Mística viabilizou a noção de Espiritualidade, que virá socorrer este anseio humano por superar a mortalidade, mas destes aspectos, decorre de imediato o terceiro que apontei.

Uma vez que o mundo físico está cheio de “regras”, que nos obrigam a adotar uma série de costumes, é plausabilíssimo que o mundo supra físico também seja, e desse modo haveria formas mais ou menos eficazes, corretas, de se relacionar com ele.

Se está nesse mundo espiritual a chave das grandes questões, como o porquê da coisas, e em especial a possibilidade de trans existência, ter acesso, compreender e seguir suas regras é inevitavelmente decorrente.

Como coloquei antes, a religião sempre oferece uma oportunidade de meta continuidade, mas nem sempre a garante. Temos sistemas religiosos que determinam condições para que isso ocorra, sendo muitas vezes a extinção exatamente a decorrência da não observação das regras transcendentes. Para citar um só exemplo, o judaísmo, em especial no modelo observado no Pentateuco, deixa claro que a punição dos desobedientes é tão somente a morte, reservando a meta existência apenas aos obedientes à Lei.

Dessa forma, continuar a existir é um dos objetivos do religioso, provavelmente o maior, e para tal, ele deve se ater às condições que seu sistema de crença colocar.

Com isso, espero sustentar a tese de que apenas esses 3 itens são absolutamente indispensáveis para um sistema de pensamento ser considerado religioso, a Fundamentação do Mundo, por meio de um plano invisível, a oportunidade da Meta Continuidade Existencial, e a observação dos meios e procedimentos para se obter esta oportunidade, e posturas subjacentes.

A Intuição-Mística irá desencadear a idéia de uma dimensão oculta na natureza, o que terminará por desembocar na Espiritualidade, que ao apresentar a idéia de um plano sutil, e da possibilidade da Meta Existência, implica em que haja métodos a serem seguidos para garanti-la, ou para usufruí-la da melhor forma possível.

A partir deste núcleo, tudo o mais é contingência, ou seja, complementar ao fenômeno religioso.

1. DURKHEIN, Emile. As Formas Elementares de Vida Religiosa.

DEUS

Considero que existam ao menos duas palavras que bem poderiam ser eliminadas de qualquer discurso cuidadoso que não se proponha exatamente a esclarecê-las. Uma já comentei, a irremediavelmente confusa e multi significante palavra “Consciência”. A outra, ainda pior, é “Deus”.

Sinceramente, para mim, qualquer frase dita com a palavra “Deus” pode fazer sentido, até mesmo “Sou Ateu graças a Deus”, dependendo do que se entenda pelo termo. O motivo é a simples multi significação potencial do termo, aliado ao vício aparentemente incorrigível que nossa civilização adotou de reduzi-lo geralmente a apenas uma categoria de suas possíveis significações. É possível extrair de duas pessoas próximas conversando num mesmo contexto essa palavra com significados praticamente opostos.

Dito isto, só nos resta então tentar estabelecer uma conceituação menos problemática. Apelo então para uma redução a um conceito consensual a todas as acepções do termo, e então advogo que a única característica que satisfaz a qualquer entendimento da palavra “Deus” é a de que este é necessariamente algo sobre humano. Então:

DEUS é algo com qualidades transcendentes ou superiores as qualidades humanas.

Daí, ocorre então a primeira grande divisão, que é com respeito a pessoalidade.

Um Deus Impessoal pode ser desde uma divindade Panteísta, estando imanente a tudo, quanto um simples conceito de Ordem no Universo, Cosmos, ou a simples regularidade da Natureza, suas “leis”, ou mesmo a sutil interconexão psíquica que poderia haver entre todos os seres senscientes.

Nessa categoria de acepções temos religiões Panteístas que se referem a uma Deusa como referem-se à simples Natureza, temos religiões orientais que se referem ao Universo como um Ser com certas regularidades, bem como podemos mesmo dizer que o Budismo conceitua o Universo como um Deus Panteísta totalmente despersonalizado, assim como temos também cientistas que usam a palavra Deus para se referir ao “comportamento” do Cosmos, e gostaria de citar também o Monismo, inclusive o do filósofo Baruch Espinoza, que tanto influenciou cientistas.

Isso tudo sem falar que uma multiplicidade de deuses impessoais pode ser alegada, como os imanentes em objetos específicos, como dizia Tales de Mileto “as coisas estão cheias de deuses”, e dessa forma podemos dizer que a Gravidade, o Magnetismo, o Calor e etc. são deuses!

Já na categoria Pessoal, temos deuses com maior ou menor grau de antropomorfismo tanto físico quanto psicológico. Temos então os deuses das religiões Politeístas e Monoteístas “ocidentais”, assim como poderíamos considerar também uma miríade de entidades menores, como duendes, ninfas ou elfos.

Vemos a palavra Deus ser empregada em praticamente todas essas acepções ao mesmo tempo quando observamos pessoas de várias visões de mundo diferentes dialogando sobre o termo, e isso não seria problema se todos tivessem consciência desta amplitude de significâncias.

Infelizmente nossa civilização trilhou uma história que priorizou um conceito Monoteísta de Deus de modo a excluir muitos conceitos diferentes, terminando por enviezar a percepção do termo, e hoje temos pessoas que não conseguem conceber Deus como outra coisa que o pregado por suas religiões assim como temos um Ateísmo Filosófico que aparenta e alega negar qualquer possibilidade de conceito de Deus mas dirige seus argumentos exclusivamente contra o modelo teísta abraâmico.

Dessa forma, um depoimento de alguém que fala de Deus numa acepção pode ser apropriado por outra pessoa para defender uma acepção diferente, de modo que por vezes alguém pode sofrer a ilusão que um número surpreendente de pessoas compartilha, ou esteja combatendo, sua opinião específica.

Por tudo isso, omiti o termo Deus até agora de minha linha de raciocínio, mas ele bem poderia ser facilmente enquadrado dependendo de minha percepção de divindade. Eu poderia considerar Deus como nada menos que o próprio plano transcendente em si, ou seja, a matriz da Espiritualidade, ou como as próprias relações causais que determinam a natureza. Porém, uma noção de divindade monoteísta ao estilo abrâamico está claramente excluída, o que creio condizer com muitas formas de religião primitivas.

Entretanto concordo que talvez a aplicação majoritária, em termos religiosos, e possivelmente a mais clara, seja aquela que entende Deus como uma entidade com algum grau de pessoalidade, ou seja, antropomorfismo, apesar de muito se usar, coloquialmente, deus como uma espécie de sinônimo de “acaso”. Frases como “Graças a Deus tudo está bem”, são equivalentes a “Por Sorte tudo está bem”, ou “Quis Deus que assim fosse”, a “Quis o Destino que assim fosse”, ou “Quis o Acaso que assim fosse”.

Mas voltando ao Deus pessoal, seu surgimento se dá num momento claramente posterior àquilo que antes explanei como Psicogênese Religiosa. Deus será então uma forma de atropomorfizar o transcendente.

Creio que a tendência humana para o animismo, para atribuir não só significados mas sentimentos e personalidades a objetos inanimados, está além de qualquer dúvida.

Não somente trazemos o hábito de atribuir valor sentimental aos objetos, mas, principalmente na infância, recheamos objetos de atributos humanos, e as crianças não parecem precisar ser ensinadas a pensar que seus brinquedos tem algo de vivo, parece espontâneo. Da mesma forma os adultos estão sempre prontos a atribuir sentidos os mais diversos a objetos, quer sejam bandeiras, imagens, talismãs e etc. E com outros seres vivos então a tendência é ainda mais explícita. É irresistível “dialogar” com nossos bichos de estimação. Com isso, não deveria ser surpreendente nosso potencial para nos iludir sobre outras pessoas, projetando nelas qualidades que nem sempre elas de fato tenham.

Provavelmente Projeção seja mesmo a palavra chave. Atribuímos ao externo aquilo que temos em nós mesmos, e isso não parece apenas mais uma de nossas características, pode muito bem ser algo fundamental.

Qualquer um familiarizado com o “Penso, Logo Existo”, com o Solipsismo ou com o “Problema de Outras Mentes” sabe que somente um ato volitivo de crença justifica nossa aceitação da realidade do mundo e da real pessoalidade de outras pessoas.

Mas essa crença é fundamental para a simples existência em interação com o mundo, e se temos esse impulso espontâneo, ou esse véu que nos impede de captar a essência das coisas, porque não extenderíamos tal hábito para além do que simplesmente atribuir pessoalidade a nossos semelhantes?

Podemos atribuir pessoalidade a virtualmente tudo, até mesmo idéias, daí faze-lo com as causas que parecem reger nosso mundo, à já elaborada noção transcendental obtida pela Intuição-Mística, é algo simplesmente inevitável.

O mecanismo evolutivo que teríamos trilhado para desenvolver esse comportamento pode ser demais para uma análise aqui, mas tenho convicção de que pode ser entendido mais uma vez pela nossa simples capacidade de estabelecer relações de causa e efeito. Vemos um ser semelhante a nós realizar coisas semelhantes as que realizamos, daí concluir que ele possua natureza interior semelhante a nossa é uma indução no mínimo de alto grau de probabilidade.

Portanto, se há algo que rege o mundo, um plano transcendente que controla os eventos, como poderíamos entendê-lo por outro modo que não atribuindo-lhe características ao menos compreensíveis, ou seja, em comum conosco?1

Aquilo que de fato esteja totalmente fora de nossa capacidade de compreensão simplesmente nem pode ser concebido. Tudo o que supomos, que intuímos, é no fundo algo que faz parte de nós, e dessa forma a Intuição-Mística nada mais faz do que atribuir ao invisível uma característica psiquicamente significativa.

Aos poucos, antropomorfizar mais e mais essa característica pode ser inevitável, principalmente à medida que conceitos intuídos por pessoas mais sensíveis são transmitidos a pessoas que os simplifiquem. Como regra em todo surgimento de um grande sistema religioso, vemos que a maioria dos seguidores sempre empobrecem o teor daquilo que foi vivido e pregado pelo fundador. 2

Há uma sutil embora notável ligação entre o nível de antropomorfismo com que um crente entende sua divindade e a tosquidão de sua percepção religiosa. Dependendo do grau, será atribuído ao Deus tantas características mundanas que ele termina por perder a dimensão transcendente.

Com tudo isso, quero defender a idéia de que somente após o despertar das bases religiosas, por meio da Intuição-Mística que desencadeia a Espiritualidade, da necessidade de atenuar a ansiedade da inevitável morte física, e da conclusão de que há algo a ser feito para se obter a meta existência, ou seja, somente após esses capítulos da Psicogênese Religiosa terem se passado, é que haverá solo fértil para o desenvolvimento dos Deuses propriamente ditos. Eles serão personagens a povoar esse imaginário místico representando então nossas características.

O maior reforço a essa tese são os estudos que denunciam, em sociedades primitivas, divindades menos antropomorfizadas do que as dos panteões grego, nórdico, ou zooantropomorfizadas, no caso do egípcio.3

A idéia de Deus, no sentido de um ser pessoal, não é então um fundamento da Religião, sendo mais algo que se desenvolve num estágio posterior ao surgimento das propriamente ditas bases do fenômeno. Seria a base se for considerado na forma impessoal, como Algo que permeia o transcendente e ou imanente, que possua características causais e possivelmente intencionais, porém não do modo como costumamos entender os Deuses pessoais.

Deus só pode ser “essencial” à Religião caso seja tomado como um princípio mais amplo e sutil, e é por essa razão que defendo a idéia de que as religiões primeiras são essencialmente Panteístas, e apenas posteriormente é que a tendência a antropomorfização povoará a religião com deuses, que personificarão as forças da natureza. Como veremos a seguir.

1. Como diria Ludwig Feuerbach na obra “A Essência do Cristianismo”, onde defende que a religião nada mais é que a projeção de elementos psicológicos do próprio ser humano em alvos externos, combatendo principalmente a tendência cristã de declarar que existam virtudes, evidentemente sublimes, presentes na divindade e ausentes no humano com o argumento de que se não possuíssemos em nós mesmos as qualidade máximas de Amor, Justiça, Beleza e etc, seríamos incapazes de reconhecê-las num ser alheio, quanto mais de dignificá-las.

2. Não conheço desenvolvimento melhor para esse tema do que o dado por Amit Goswani em “O Universo Auto-Consciente”, livro que, na linha de Frijot Capra, defende uma correlação entre a Física Contemporânea e o Pensamento Filosófico Místico Oriental.

3. Usando dados da Arqueologia e História, Riane Eisler defende, principalmente na obra O “Cálice e a Espada”, bem como Merlin Stone em When God was a Women, um processo pré-histórico de transição para um politeísmo androcêntrista de uma religiosidade mais voltada ao culto do feminino e da natureza, e notadamente Panteísta.

EVOLUÇÃO RELIGIOSA

Há muita formas distintas de classificar as coisas, inclusive as religiões, mas uma delas em especial obtém minha preferência por associar o nível de rebuscamento intelectual, em especial a presença de textos sagrados, e algumas de suas posturas práticas com uma evolução cronológica.

Dessa forma prefiros agrupá-las em Panteístas, Politeístas, Monoteístas e Ateístas. 1

As Religiões Panteístas sendo as mais antigas, são então o resultado direto da Psicogênese Religiosa. A Intuição-Mística ao produzir a Espiritualidade, resulta numa percepção da subordinação da natureza à Causalidade, de modo que todos os eventos parecem estar sob a influência ou mesmo determinação do invisível. Desse modo a indução de que Algo permeie a tudo, esteja em tudo ou mesmo seja tudo resultará no Panteísmo.

Um detalhe que ainda me é difícil elucidar é com relação aos dois tipos de Panteísmo. O Imanente e o Transcendente, também chamado de Panenteísmo. Pois aparentemente o Panteísmo primitivo estudado indiretamente pela Arqueologia, ou sobrevivente até a atualidade, tende à Imanência, ou seja, a Natureza parece ser a divindade em si. Cada parte dele é integrada a um todo sagrado. Porém outros elementos sugerem uma dualidade, como se o mundo físico fosse o corpo, mas que possuiria um espírito.

Isso seria mais lógico em minha concepção teórica de que a Intuição-Mística concebe um plano invisível para explicar os eventos, o que já implicaria num tipo de dualismo, ou que talvez o que concebemos como o “Espiritual” não seja exatamente algo transcendente, mas um modo de ser da realidade, ou seja, uma propriedade, de modo a termos um Monismo com dualismo de propriedades, no caso a Física e a Espiritual.

O mais importante todavia, é que no Panteísmo a solução Meta-Existencial está em normalmente se harmonizar com a natureza do mundo, sintonizando-se com o Espiritual.

Mas, voltando, de qualquer modo a tendência é uma progressiva antropomorfização, provavelmente a medida que a sociedade vai se tornando mais complexa e uma série de novas necessidades são adicionadas. Se antes o Sol, o vento, o raio ou as plantas tinham um espírito imanente, agora este será personificado tanto física quanto psicologicamente.

É muito plausível também que tal processo se dê a medida que os humanos aperfeiçoem seus dons artísticos representacionais, ou artesanais, de modo a retratar certos conceitos antes abstratos com formas inteligíveis, e assim as divindades vão sendo então concebidas de forma sensorial. Isso deve gerar uma retroalimentação no imaginário popular que passa a visualizar os deuses com mais nitidez.

Com isso o advento da pessoalidade é o esperado, e então, progressivamente, os deuses se tornam mais e mais humanos em comportamento e aparência. O Politeísmo se estabelece, e o premente racionalismo humano vai desenvolvendo lendas e mitos que expliquem cada vez mais figurativamente a natureza das coisas. As Gêneses, ausentes ou difíceis de identificar nas religiões Panteístas, se popularizam, e uma “história” divina se estabelece antes por tradição oral, até que nas sociedades mais avançadas, com o surgimento da escrita, sejam registradas literalmente, ganhando então mais estabilidade de conteúdo, o que produz o efeito colateral de um progressivo distanciamento da realidade cotidiana uma vez que, fora da tradição oral, deixam de acompanhar as inevitáveis mudanças culturais.

Notemos que as sociedades onde registramos os adventos primevos da escrita se encontravam sempre em estágios Politeístas, e não só no velho mundo, pois mesmo nas américas as sociedades já estavam bastante avançadas no desenvolvimento de sistemas de símbolos que sem dúvida resultariam em escritas e sistemas numéricos tão complexos quando os Babilônicos, Fenícios, Egípcios e Hindus.

No Politeísmo, a solução para a Meta Continuidade da Alma está em parte numa tendência natural do Universo, porém sob influência direta dos deuses. O Julgamento no Hades, a Mumificação, ou a conquista do Valhala, são elementos periféricos a uma aparente espontânea tendência para a Meta-Existëncia.

Somente num estágio posterior e necessariamente letrado, dão-se as bases para o surgimento do Monoteísmo, uma reviravolta que vem, entre outras coisas, por fim a um caos conceitual de deuses brigando entre si. Declara-se uma única divindade suprema, acima de tudo o mais, e que, mais importante, é incriada, princípio e fim das coisas.

Todas as religiões monoteístas se baseiam não em textos esparsos, mas em livros sagrados condensáveis em volume único, e este livro tem um peso dogmático ao qual os textos politeístas não podem ser comparados. Além disso, eles contam não apenas o origem e a natureza do mundo, mas eles definem os atributos da divindade e determinam como as pessoas devem se comportar de modo a obter a meta existência ditosa. Ou seja, Deus é então quem define e garante a Meta-Existência.

As religiões monoteístas também, por sua própria natureza estrutural, são as mais radicais em termos conceituais, e onde se desenvolve o enviesamento de visão de mundo que costumamos definir como fundamentalismo. Afinal, ao definirem não apenas um único Deus, mas uma única Verdade, elas não podem fazer concessões a conceitos alheios que discordem de seus cânones. Não por acaso elas irão se espalhar de modo em geral tão ostensivo, vencendo seja pela maior elaboração doutrinária, seja pela violência, e ainda são o tipo de religião dominante em nosso planeta.

Outra evidência de que os deuses não são elementos essenciais à Religião e que eles não só são tardios como dispensáveis, e que desenvolveram-se no oriente as Religiões Ateístas, que prescindem da idéia de deuses controladores do Universo, pois das divindades que em geral reconhecem, nenhuma delas tem poder sobre a natureza fundamental das coisas, nem criaram ou destruirão o Universo. Elas não são e não podem garantir a Meta-Continuidade, que passa ser algo a ser buscado pelo próprio indivíduo por imposição de uma ordem natural das coisas.

O “Deus” de uma religião ateísta é uma força impessoal, uma ordem universal que define o mundo e a dimensão espiritual, e que se, embora garanta relações causais, não necessariamente as revestem de uma intencionalidade compreensível à mente humana, e para a qual a espécie humana pode até mesmo ser um acidente.

As religiões ateístas também possuem textos sagrados, mas eles são visto mais obras filosóficas, não possuindo peso dogmático.

E por fim, há algo que permite que elas sejam confundidas com o Panteísmo, voltando então ao princípio. Pois não só sua percepção do transcendente, ou imanente, propriedade ou dimensão Espritual, é correlata dado a sua impessoalidade, sutileza e interpenetração, como ainda compartilham de uma noção de universo cíclico, sazonal, e muitas vezes que advoga metempsicose como solução para a Meta Existência.

Talvez seu maior diferencial seja literário, pois o Panteísmo não possui originalmente textos sagrados, óbvio, e o fato de que as religiões ateístas reconhecem preceptores, o que evidentemente também não ocorre com o Panteísmo, e nesse caso dividem com o Monoteísmo essa peculiaridade, o de serem “fundadas” por homens iluminados, bem como de possuírem alta elaboração teórica.

Dizer então que Deus é Tudo, possui notável equivalência a dizer que Deus é Nada, não existe.

Vale porém lembrar que atualmente temos um resgate de religiões panteístas por meio de novas tendências que misturam várias vertentes como religiões orientais, doutrinas ocultas como gnosticismo, xamanismo e feitiçarias. A essas religiões, que talvez possam ser bem denominadas como religiões Aquarianas, são um tipo de Panteísmo, havendo tanto o Imanente como o Transcendente. Em meu ensaio anterior sobre evolução de religiões denominei-as de Neopanteísmo.

Outro detalhe importante é que Budismo, Taoísmo e Jainísmo não são os únicos exemplares de religiões ateístas. No ocidente tivemos no final da idade antiga movimentos filosóficos que prescindiam ou mesmo negavam a presença de um Deus Central, como o Epicurismo, ou o consideravam como um tipo de Panteísmo Imanente, como o Estoicismo, e mesmo na atualidade há vertentes religiosas de teor claramente ateísta, como o Satanismo Laveyiano e outras formas de religiões reativas à herança cristã.

Um fenômeno muito interessante, e este sim podemos dizer original, são as religiões ufológicas, como o Raelianismo, Astharianismo e outras misturas de misticismo antigo com mitologias modernas, das quais a Ufologia tem lugar de destaque.

Muitas destas religiões representam sim, provavelmente, uma ruptura até mesmo com a noção de Espiritualidade, pois nesse caso o Mistério foi deslocado para um local físico ainda que praticamente inacessível, o espaço e outros planetas, e os extraterrestres, ou em alguns casos intraterrestres, fazem o papel dos deuses. Todavia esses exemplos não depõem contra o sistema que defendo pois eles não foram, e nem poderiam, ser resultado da Intuição-Mística. Eles jamais poderiam surgir na antiguidade, sendo então resultado de todo o processo histórico que viria a disponibilizar novos símbolos, a tecnologia de hoje e talvez do futuro, para substituir as alegorias antigas.

Sendo assim, esses exemplos só são possíveis, como afirmei no início deste trabalho, num contexto cultural necessariamente mais complexo, que permite então desviar elementos antes focalizados apenas no invisível, para um plano não tão misterioso embora sutil, como outras dimensões físicas e redutos localizados num espaço distante.

Mas talvez o maior problema nesta elaboração seja a justificação do Panteísmo como forma original de Religião, pois meu próprio raciocínio implica na inevidência deste Panteísmo Primitivo por meios arqueológicos, que sempre estariam impregnados de registros que remeteriam ao Politeísmo.

Meus argumentos para isso são, principalmente, que a concepção do Panteísmo seja o resultado mais provável da Espiritualidade original resultante da Intuição-Mística, e que o Homo Sapiens só passou a promover representações artísticas que nos evidenciam o Politeísmo num estágio posterior, tendo que antes essa vivência da Espiritualidade era mais intuitiva e sutil.

Além disso, podemos proceder pela exclusão das outras alternativas. Discordo totalmente da idéia de um Monoteísmo Primitivo2, endossado inclusive por Freud em sua teoria psicogênica. Pois como seria possível a uma cultura primeva conceber a manter a coesão em uma única divindade sem um sofisticado sistema de representação iconográfico?! E o pior! Sem escrita!

Vemos que textos sagrados bem elaborados são fundamentais ao Monoteísmo, inclusive aos orientais como o Bhramanismo, se o considerarmos como tal, e o Sikhismo. Ou ao menos uma classe sacerdotal forte, assim como o Monoteísmo, ou pré-monoteísmo, egípcio Akhenatônico, curiosamente também endossado por Freud em “Moisés e o Monoteísmo”.

O Ateísmo também me parece bem elaborado demais para um contexto primitivo, pelos mesmos motivos, e então a única dúvida está entre o Politeísmo e o Panteísmo.

Sendo notável uma confusão devido a transição entre ambos, acrescento mais uma argumento a favor do Panteísmo como primeira forma religiosa, um argumento evolutivo. Notamos que o Politeísmo é cada vez mais rebuscado e seus deuses cada vez mais antropomorfizados a medida que a cultura que o congrega evolui, descontando é claro elites de filosófos helênicos que tinham visões muito diferentes dos deuses, afinal estamos nos referindo a fenômenos religiosos de forma geral, o que priorizará as concepções mais populares e sacerdotais.

Na literatura grega as personalidades dos deuses olímpicos estão muito definidas, apesar das significações arquetípicas mais sutis, de modo extremamente mundano, mas o mesmo não acontece com as gerações divinas anteriores. Os deuses e titãs precedentes são mais simbólicos que os olímpicos, e o mesmo ocorre que seus antecessores, de modo que quanto mais recuamos mais temos deuses próximos da impessoalidade, Urano e Gaia, Eros e Caos.

O mesmo acontece na mitologia egípcia. Osíris, Hórus, Seth e Isís são bem melhor definidos do que Rá. Saltando para o oriente, o mesmo acontece com os deuses japoneses. Amaterasu, Susanoo, Izanagi e Izanami por exemplo, são bem mais antropomorfizados que os 5 deuses primordiais oriundos do Caos.3

Com isso, me parece claro que os deuses evoluem em características humanas, e, de modo que os primeiros são basicamente impessoais, e se admitirmos essas teogêneses como produtos culturais dinâmicos, podemos inferir que as primeiras divindades tendiam à impessoalidade, ou ao menos podemos detectar um reconhecimento ainda que inconsciente de um passado de deuses impessoais.

Resta ainda a questão sobre se esse Panteísmo primitivo não seria um Panenteísmo, ou Panteísmo Transcendente, o que pode gerar confusões com o conceito de Monoteísmo por sua característica transcendental, o que talvez justifique a ilusão de um Monoteísmo Primitivo.

Porém, volto a apelar a característica que melhor define o Monoteísmo como o entendemos, praticamente datado por volta de um milênio e meio antes de cristo, que é uma maior elaboração teórica e uma classe sacerdotal organizada. E, o mais importante, excluímos qualquer possibilidade de Monoteísmo se adotamos a impessoalidade como característica das divindades primitivas. Pois deuses Monoteístas Impessoais como o Lógos Platônico, o Motor Imóvel de Aristóteles, ou o Uno de Plotino, simplesmente não vingaram como religiões populares, só fazendo sentido para filósofos eruditos. E algo semelhante ocorre na atualidade com o Deus Monoteísta Impessoal do Espiritismo Kardecista, que continua sendo, em grande parte, uma religião de intelectuais.4

Por fim, que podemos extrair desta breve compilação? Primeiro, que a idéia de Deus no sentido de pessoalidade é plenamente dispensável do fenômeno religioso e em especial de sua gênese, e no sentido impessoal corre o risco de se diluir de tal forma que sua aplicação se torna também dispensável, além de imprópria, por simplificar demais certos conceitos mesmo que não os confunda com acepções alheias.

Acho simplesmente desastroso usar a palavra Deus para se referir a conceitos como Tao, Nirvana, Buda, pois isso não só destrói o sentido original como praticamente inviabiliza a possibilidade de se entender os demais conceitos.

Os Neopanteístas em geral percebem isso, e usam termos distintos para se referir aos princípios em que acreditam, quer seja “Deusa” ou “O Deus”. Na verdade, problema não seria não fosse o enviesamento que o termo sofre.

Apesar das múltiplas acepções, há uma predominância de uma acepção em especial. O conceito de Deus mais difundido hoje é um modelo neoplatônico, que foi melhor elaborado pelo Cristianismo.

Trata-se de exponenciar e fundir numa só as idéias de Criador do Universo, Sustentador, e Princípio do Bem, algo simplesmente impensável num ambiente politeísta, onde um deus cria, o outro sustenta, e um outro representa ideais de bem e justiça.

Fundir esses 3 elementos, tão bem representados na figura da Trindade, teve um efeito drástico, produzindo uma fórmula religiosa historicamente irresistível e recheada de inéditas contradições e paradoxos que jamais foram solucionados em mais de dois milênios de Teologia, ainda que nunca tenham chegado ao conhecimento da maior parte da massa de fiéis. Os adeptos das religiões politeístas jamais tiveram que se preocupar com Teodicéias 5, ou antinomias como a da Liberdade contra a Onipotência e Onisciência divinas.

Mesmo descomprometidas com esses elementos doutrinários, muitas pessoas de hoje internalizaram essa fórmula contraditória e a aplicam em suas concepções de forma inconsciente, e muitas vezes acham que ela é adequada para traduzir conceitos de tradições por meio das quais tal fórmula é claramente incompreensível, anulando a possibilidade de entendimento entre formas de pensamento num mundo onde tal entendimento desponta como cada vez mais premente.

Por isso preferi omitir o termo Deus da elaboração de minha Psicogênese das Religiões, e defendo sinceramente o fim do uso deste termo de forma genérica, mas sim sempre especificando qual conceito de Deus se está propondo, em especial a diferenciação entre o Pessoal e o Impessoal.

Mesmo minha divisão em 4 grandes grupos religiosos fica confusa se tal distinção não é feita, no caso Monoteísmo e Politeísmo são adeptos do Deus Pessoal ao passo que Panteísmo e Ateísmo são adeptos do Impessoal, e tal jogo de palavras pode então denunciar a inegável contradição de uma religião Ateísta.

A confusão típica da palavra Deus talvez ajude a entender as confusões típicas que atingem o conceito de Ateísmo, uma das poucas palavras a respeito de posições filosóficas que a maioria das pessoas entende a etimologia e sobre a qual julga saber o suficiente.

Talvez o Ateu seja uma das maiores vítimas de preconceito na atualidade, pois se eventos históricos do Século XX vem ajudando a diluir a estigmatização sobre negros, judeus e mais recentemente islâmicos e homossexuais, que eu saiba nada até hoje se propôs a esclarecer às massas que um Ateu não é necessariamente um indivíduo inescrupuloso.

Se entre outras coisas um Ateu, principalmente nas Américas e evidentemente mundo islâmico, jamais se elegeria presidente, em parte, tenho boas razões para acreditar, isso pode ser decorrente de nosso conceito predominante de Deus estar vinculado ao conceito de Bem, e o ateu seria então um indivíduo que recusasse entre outras coisas o ideal de justiça e virtude que desde Platão se fundiu aos conceitos de Criador e Governador do Universo.

Com tal confusão na cabeça, não é de se admirar que a maioria das pessoas reaja com tanta incredulidade ao ouvir falar que existem religiões ateístas, a ponto de que os budistas no ocidente prefiram transmitir alguns de seus conceitos impessoais com a palavra Deus.

Evidentemente que podemos considerar vários tipos de ateus, mas aqueles que de fato invocam decididamente o termo para si próprios invariavelmente estão entre as pessoas que melhor entendem os conceitos teóricos de Deus, em especial todas as contradições resultantes dos Omni atributos, Liberdade, Existência do Mal e Estado Natural das Coisas. São normalmente ateus por convicção filosófica.

Porém como já coloquei antes, nem eles escapam da confusão, pois quase sempre seu ateísmo se baseia em negar o modelo de Deus Pessoal, algo muito fácil se comparado a tentativa de negar um modelo impessoal, e no entanto tendem a estender suas críticas a qualquer sistema religioso.

Apenas para mostrar a versatilidade do conceito de Deus Impessoal, pode-se simplesmente afirmar que lato sensu, não existem ateus, pois mesmo o mais materialista e cético dos ateus evidentemente tem que acreditar em algum tipo de ordem no universo, como a Leis da Física, e tal pode muito bem ser chamada de Deus, e de fato o é por muitos cientistas como os próprios Albert Einstein e Stephen Hawkins.

Nesse mesmo sentido, não poderiam haver então religiões Ateístas, mas defendo que os orientais sabiam muito bem o que faziam quando adotaram visões impessoais de ordenamento universal. Seus sistemas religiosos surgiram em âmbitos de deidades pessoais, e em tais, tentar reintroduzir uma noção impessoal de Deus não é nada fácil, bem como qualquer tentativa fica vista como negação do próprio conceito de Deus em si.

Finalizando esta parte, além da negação na necessidade de deuses pessoais na religião e sustentação da tese de que deuses impessoais acabam sendo conceitos tão versáteis que chegam a ser inúteis, outra conclusão que espero defender com essa explanação sobre evolução dos sistemas religiosos é que além dos 3 itens fundamentais, a explicação causal para o mundo, a meta-continuidade mental e a legislação comportamental decorrente, tudo o mais no fenômeno religioso são adições posteriores que terminam por desviar, ao menos aparentemente, o foco principal da Religião.

A maior destas adições veremos a seguir.

1. Essa idéia foi originalmente desenvolvida em meio Ensaio sobre Religiões.
2. Freud, em sua teoria psicogênica da religião primitiva por meio do sentimento de culpa dos primeiros humanos em terem matado o macho alfa do grupo.
3. Xintoísmo
4. Ver também nota 3 do capítulo anterior, página 15.
5. Tentativa de solucionar a contradição entre a existência de um Deus Onipotente e Bom com a existência do Mal.

ÉTICA E MORAL

“Talvez o maior crime cometido pelas religiões foi a apropriação indevida do conceito de Ética”. É mais ou menos esta uma das mais utilizadas máximas da crítica à Religião. E a meu ver com razão. O preconceito contra o Ateísmo decorre basicamente da forçada associação que nossa história conseguiu fazer, de que a Ética derive necessariamente do comprometimento religioso, e em especial da idéia de Deus.

Como vimos, adotando minha tese, nada há em princípio no comportamento religioso que implique numa postura Ética no sentido que normalmente entendemos, pois pela percepção da uma ordem invisível no mundo, a conquista da meta existência pode muito bem ser obtida mediante atos, de acordo com o sistema, que ninguém hesitaria em taxar como reprováveis, e de fato o são em algumas religiões mais primitivas ou marginais, onde sacrifícios humanos ou de animais, canibalismo, ou o extermínio sistemático de nações adversárias é regra imposta pela divindade.

Não é preciso ir longe para encontrar exemplos. Qualquer um que leia os primeiros livros da Bíblia, em especial Deuteronômio, Josué e Juízes, poderá ver que atos atrozes são cometidos a mando direto de Deus, quando não pelo próprio Deus, e qualquer um que tenha a ingênua ilusão de que os 10 Mandamentos constituem um sistema Ético, saiba que ele se aplicava exclusivamente ao povo hebreu, pois nem faria sentido aplicá-los a povos com hábitos totalmente diferentes mesmo porque os Hebreus não faziam conversões, e são baseados numa sociedade escravocrata, androcêntrica e que aplicava a pena de morte a crimes como trabalhar no Sábado.

Da mesma forma, percebemos mesmo hoje em dia que crimes brutais são cometidos por indivíduos que acreditam plenamente estarem seguindo os ditames do divino, e não raro possuem um embasamento bastante coerente para tal.

Pode-se argumentar, não sem razão, que tais eventos decorrem da má interpretação de seus próprios códigos canônicos, o que é bastante compreensível uma vez que muitos destes códigos são contraditórios e de dificílima interpretação, a ponto de que arremessar aviões em prédios ou bombardear alvos civis com armas inteligentes possam ser feitos em nome de Deus, bem como queimar pessoas em fogueiras ou enviar exércitos em cruzadas santas.

Observe que tudo isso pode ser e tem sido feito ao longo de toda história, não só em nome de Deus, mas em nome da Religião em si, ou em nome da Liberdade, da Lei, ou da Pátria. Mas, curiosamente, observe: É possível fazer qualquer coisa disso em nome da Ética, da Bondade ou pelo Bem da Humanidade? Ou mesmo em nome da Filosofia ou da Ciência? O discurso não soaria estranho?

O delírio de que uma postura ética derive necessariamente da religião é muito difundido, o que é impressionante uma vez que nosso sistema ético predominante atual é completamente laico, sem sequer uma sombra de religiosidade, mas sim totalmente construído sobre elaboração filosófica. E são muito poucos os que discordam de que ele é ao menos teoricamente louvável.

Nossa referência, para o que chamamos “mundo livre”, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela ONU logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Suas origens podem ser rastreadas ao Iluminismo e Positivismo, em especial ao “espírito” da Revolução Francesa com seu lema Igualdade, Liberdade e Fraternidade, e com um salto maior, até alguns filósofos gregos antigos.

Podemos notar que esses âmbitos possuem em comum a tendência ao desvinculamento com sistemas religiosos, de modo que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é puramente laica. E não poderia ser diferente. Em milhares de anos de história JAMAIS um sistema religioso, a não ser depois da Declaração Universal, se propôs a condenar a escravidão e a servidão, pelo contrário, eles invariavelmente sacramentaram a hierarquia social. Nenhum grande sistema religioso também jamais questionou o androcentrismo propondo a valorização feminina, e os poucos sistemas pequenos que o fizeram, como o Bahaísmo, ou Gnosticismo antigo invarialmente foram massacrados pelos sistemas dominantes. E por fim, querer que um sistema religioso qualquer pregasse liberdade de crença é algo que beira o inconcebível.

Foi tão somente o desvencilhamento do pensamento da influência religiosa, bem como a separação Igreja e Estado, que permitiu que tivéssemos um documento ético legítimo e reconhecido até mesmo por muitos daqueles que se beneficiariam de sistemas teocráticos.

Isso só já deveria denunciar a falácia de se associar ética à religião, mas há algo mais que precisa ser dito, e que esclarece melhor porque um sistema ético não só não costuma, como não poderia ser derivado de um sistema religioso, em especial dos sistemas monoteístas.

Trata-se de mais um dos inúmeros paradoxos resultantes de nosso confuso conceito trinário de Deus, que é: Como é possível reconhecer o valor de um sistema ético revelado por Deus?

Se dissermos que reconhecemos tal valor, bem como sua autenticidade, devido ao seu conteúdo, significa que temos competência para julgar tal conteúdo, e assim sendo, nós que decidimos se aquela revelação é válida ou não, e portanto, somos capazes de desenvolver um sistema ético independente da divindade.

Se dissermos que não temos tal competência dependendo então da divindade, como aliás as religiões tem sustentado, então como podemos decidir? Qualquer coisa que a divindade nos ordene fazer é válido! E dessa forma guerras podem ser santas, bem como sacrifícios humanos ou escravidão e opressão desde que sejam ordenadas pela divindade, que só se revela mediante uma classe social específica, ou em experiências psicológicas intensas que não raro induzem os indivíduos a ações torpes.

Ainda poderíamos dizer que não seríamos capazes de criar o sistema, mas sim de reconhecê-lo, o que nos deixa então dependentes da divindade, porém isso esbarra no simples fato de que até hoje nenhum sistema supostamente revelado foi satisfatório. Todas as teocracias do passado e do presente foram e são reprováveis em inúmeros aspectos, e que em contrapartida fizemos sistemas laicos.

Ética, no sentido que está sendo tratado aqui corresponde aquilo que em geral entende-se no senso comum, e dessa forma é óbvio que ela diz respeito a relações entre indivíduos e ou coletividades em vários aspectos, e com o fato trivial de que seus objetos são mundanos, o que interessa imediatamente à ética é tão somente a vida terrena. É o modo como devemos tratar nossos semelhantes, a qualidade de nossas escolhas e ações em consideração a seus efeitos para outras pessoas e sobretudo nosso sentimento de Empatia. Uma palavra mágica!

Se o objetivo de uma conduta ética fosse a conquista de um bem externo ao mundo, como a Meta-Continuidade, ela deixaria de ter como alvo nossas relações e se tornaria apenas uma condição a ser satisfeita para obter um prêmio. O objetivo da ética não pode ser nada além do maior Bem Estar individual e Coletivo possível, tanto em quantidade como em qualidade.

Uma estrutura ética na verdade é praticamente uma emergência natural, em algum nível, em qualquer sociedade. Sem parâmetros de comportamento definidos com limites claros e previamente acordados, a convivência seria impossível. Por isso em qualquer tempo e local jamais existiu uma sociedade sem regras, explícitas ou implícitas, o que variou foi apenas o nível de abrangência dessas regras e principalmente a definição de qual é o objetivo a ser alcançado por elas.

Nesse sentido podemos sim dizer que o Decálogo hebráico foi um código ético, mas somente num âmbito muito restrito, porque quase metade de seus itens nada tem haver com a relação entre os humanos, e principalmente porque seu objetivo assumido não era o estabelecimento do Bem Estar coletivo, mas sim a submissão e louvor a uma divindade.

Nossos sistemas éticos atuais nada tem haver com isso, sua meta é puramente o Bem Estar humano individual e social, promovendo o melhor equilíbrio possível entre os interesses de modo a estabelecer uma sociedade funcional e satisfatória, o que inclui, é claro, permitir liberdade de culto religioso a quem se interessar.

Mas o que mais explica a confusão entre Religião e Ética é, mais uma vez, nosso conceito misto de Deus, em especial sua atrelação à idéia de Bem. Durante muito tempo tentou-se desenvolver sistemas éticos baseados numa concepção ontológica pura e ideal do Bem em Si. Nunca houve sucesso, simplesmente porque é impossível definir o que vem a ser o Bem num sentido absoluto. Só podemos faze-lo no sentido relativo e pragmático.

Essa ilusão de que é possível definir o Bem em Si ainda hoje é defendida por muitos teóricos, mas nunca conseguiram ir além das palavras. Platão, sem dúvida a maior referência, também fracassa em traduzir seu ideal ético para o plano prático, e não só porque sua concepção de sociedade perfeita é nada mais nada menos do que fascista, hierárquica e belicosa, mas principalmente porque perseguir um ideal de Bem fora do mundo físico não costuma levar a lugar nenhum.

Portanto, até agora, a única definição satisfatória de Bem é a relativa e pragmática, que temos hoje, visando a satisfação de nossas necessidades práticas do modo mais bem distribuído possível, e que só passou a ser seriamente desenvolvida a partir da metade da Idade Moderna no Ocidente, exatamente quando a influência religiosa declinou.

É claro no entanto, que as religiões absorveram e reinterpretaram a ética a sua maneira, de modo que a medida em que evoluíram, a ética, ou melhor dizendo, a moral religiosa, passou a fazer parte inseparável do sistema.

Como Moral, também entendo aqui o conceito relativamente bem difundido de que se trata de uma aplicação mais restrita e condicional da Ética. Por isso a Religião não pode produzir Ética propriamente dita, embora possa incorporá-la, mas sim Moral.

Portanto valores como virgindade antes do casamento, monogamia ou utilização obrigatória de determinadas vestimentas são morais, e não éticos, dizendo respeito somente a um tempo local e jamais tendo aplicação universal.

Mas em essência, no fundamento psicogênico da religião, simplesmente não há lugar para ética, e nem mesmo moral, pois tudo o que de fato interessa é a observação de certas condições para obtenção de benefícios oriundos da ordenação transcendente do cosmo, em especial a Meta-Continuidade Mental. Assim como os deuses, as gêneses ou as escatologias, a moral religiosa é um efeito resultante da evolução dos sistemas derivados da espiritualidade, embora provavelmente inevitável e que se incorporou de modo irreversível.

Essa incorporação permitiu a dedução inevitável, nas religiões mais complexas, de que as regras de convivência devem levar em conta o bem estar reflexivo entre os indivíduos, expressa na famosa Regra de Ouro das religiões, que afirma que devemos considerar nossos semelhantes como nós mesmos, e nesse sentido as religiões foram sintetizadores conceituais geniais.

Infelizmente essa bela decorrência talvez seja o subproduto mais ineficaz gerado pelas religiões, sendo largamente ignorado na maioria dos contextos. Se selecionarmos um fiel qualquer de qualquer religião, ele jamais discordará da possibilidade de vida pós morte ou existência do plano divino, e normalmente pratica ao menos ocasionalmente alguns de seus ritos, subprodutos das regras derivadas da ordem sutil. Mas a prática da Regra de Ouro tem sido negligenciada em massa em qualquer lugar e tempo do mundo, o que no entanto praticamente não afeta as religiões, o que é simples de entender mediante esta minha tese, pois tal decorrência é simplesmente irrelevante para os fundamentos da religião em si.

Por outro lado, a simples suspeita ou acusação de que e existência do plano espiritual seja incerta, ou de que haja Meta-Continuidade, abala violentamente a estrutura de um sistema religioso. É por isso que não foram as vergonhosas práticas passadas e presentes destoando da Regra de Ouro que puseram as religiões em Xeque, mas sim as descobertas científicas ou argumentações filosóficas que enfraqueciam a segurança argumentativa do sistema. Não são as agora evidentemente atrozes atitudes divinas presentes no Velho Testamento que promovem a contestação mais séria de que exista de fato o deus Jeová, mas sim a sugestão de que a Gênese e os demais milagres são fábulas, pois violam a ordem atualmente conhecida da natureza, ou seja, contestou-se o sistema religioso em seu fundamento primário, o ordenamento do mundo.

Da mesma forma não são os atos mais questionáveis de Jesus no Evangelho que abalam a crença, nem mesmo as incoerências históricas, o que não pode ser contestado é sua ressurreição e a promessa da imortalidade, bem como suas prerrogativas sobrenaturais, garantia da ordem transcendente, sem a qual o Cristianismo como religião desabaria. Notemos inclusive, que aquelas pessoas que se apegam a sistemas religiosos pelos seus conteúdos éticos são justamente as que fazem menos questão de crer nos milagres.

Por tudo isso, um indivíduo religioso, o Homo Religous como diria Mircea Eliade, não necessariamente é um indivíduo ético. Porém como as religiões simplesmente se apropriaram da ética, o que ocorre é que pessoas eticamente sensíveis tendem a procurar religiões, por isso podemos encontrar muitos exemplos de indivíduos religiosos de conduta ética irreprovável.

RELIGIÕES DO FUTURO

Defendi nesta tese que os fundamentos primários da Religião podem ser reduzidos a 3, a intuição de uma ordem sutil no mundo, a necessidade de aliviar a angústia da perspectiva inexistencial, e a decorrência de um conjunto de procedimentos relativos à ordem sutil a serem observados para obter a Meta-Continuidade da existência, e outros benefícios.

Mas é claro que, uma vez que as Religiões não se resumem a isso, sobre esse tripé se incorporaram inúmeros outros objetivos e características que ao longo da história nos legaram os inúmeros sistemas religiosos distintos mas inegavelmente interligados que possuímos.

Uma vez que utilizei o termo Intuição-Mística, que defendi que Intuição é o diferencial entre o humano e não-humano, e que potencializa a inteligência humana, que nada mais é que a capacidade de buscar, entender ou supor relações de causa e efeito, creio que a pergunta “É a religião inerente ao Ser Humano?” está positivamente respondida.

Simplesmente seria impossível, nesse sistema, que se desenvolvesse qualquer grupamento humano sem noções religiosas, que se fundem com outras atividades humanas também inevitáveis, nos moldes de desenvolvimento primevo de nossa espécie cultural.

As grande questão então fica sendo: “Sempre haverá religião?”

Primeiro, devo cobrir aquela lacuna que provavelmente deve ter ficado evidente ao leitor. Concebi apenas como surgiram os fundamentos da Mística, Espiritualidade e Religião na mente humana primitiva, mas não como esses conceitos são transmitidos prontos para outras mentes.

Evidentemente isso é tema para um desmembramento desta monografia, mas não deve ser de difícil entendimento e aceitação que um sistema religioso transmitido pronto satisfaz a necessidade primárias decorrentes da Intuição-Mística da maioria das pessoas.

Uma vez que qualquer pessoa, em maior ou menor grau, é afetada pelos mesmos impulsos mentais que serviram aos primitivos para desenvolver as bases da religião, ela será sensível em maior ou menor grau a conceitos desenvolvidos sobre esses mesmos impulsos.

Por isso, para a maioria, a Intuição-Mística serviu meramente como meio de reconhecer e valorar estruturas culturalmente transmitidas. Uma pessoa que não a tiver, ou tenha em baixo grau, fatalmente será menos sensível ao discurso religioso, a não ser que este assuma outras características.

Quando uma religião se funde com várias outras questões sociais, seus elementos transcendentes podem ficar dissolvidos, de modo que muitas pessoas se integram aos sistemas sem preocupação maior com as questões fundamentais primárias. A Intuição-Mística está lá, ajudando a adequar a mente ao sistema, tentando compatibilizar os impulsos individuais com os conceitos apreendidos.

Quando uma religião se torna apenas um sistema de exploração social baseado em conceitos fantasmagóricos, elementos fundamentais podem ser exponenciados, como o medo da inexistência ou a perspectiva de uma transexistência ruim, bem como a delineação de fenômenos ocultos malignos, e a sugestão de regras transcendentes dolorosas e assustadoras, ou ainda, que a ordem transcendente esteja particularmente interessada em detalhes da vida pessoal do indivíduo estabelecendo diretrizes que determinam sua vida prática.

Quando uma religião se une a filosofias éticas humanistas, seus elementos condicionais podem ser associados aos parâmetros éticos de uma sociedade, muitas vezes de modo extremamente satisfatório e produtivo socialmente.

Mas tudo isso, como eu já disse, é contingente ao fenômeno religioso, a essência em si não é alterada, apenas sua manifestação, por isso, é errôneo basear-se nesses subprodutos para julgar o futuro da religião.

Temos que nos atermos aos elementos fundamentais para supor se é possível uma experiência humana totalmente isenta de religiosidade, espiritualidade ou mística.

Suponhamos que num tempo e local específico, as crianças de uma sociedade jamais aprendam nenhum conceito religioso, espiritual ou místico, sendo educadas de modo unicamente pragmático e recebendo como respostas aos questionamentos inevitáveis sobre os eventos apenas explicações científicas de ordem bastante avançada, de modo que a natureza, pelo menos a nível macro, não seja mais mistério.

Muitos apostariam que uma sociedade como essa seria totalmente a-religiosa e materialista, mas eu tenho minhas dúvidas.

Primeiro porque não acredito que a Ciência, ou qualquer outra atividade humana, tenha respostas definitivas a todas as questões, portanto, sempre haverão mistérios, e sendo assim, sempre a Intuição-Mística estará a atuar.

Numa sociedade como essas no entanto, sem dúvida, não teremos os sistemas religiosos como os temos em sua maioria hoje em dia, mas uma vez que haja não só mistérios sobre a natureza, mas que as questões fundamentais da Ontologia e Metafísica também muito provavelmente não serão solucionadas, jamais será possível negar a possibilidade da dualidade ou propriedade espiritualista.

Para desespero dos ateístas mais radicais, sempre haverá lacunas para “deus” preencher.

Sendo assim, o mínimo que se esperaria é que haveriam filosofias místicas, uma versão extremamente refinada de religião, mas ainda assim, Religião, Espiritualidade e Mística.

Como já disse, tais sistemas religiosos seriam praticamente irreconhecíveis para a maioria de nós, principalmente com nossa concepção viciada de Deus, muitos de nossa cultura não os aceitariam como religiões, mas eles reuniriam pelo menos os 3 itens fundamentais.

Ao senso de uma ordem sutil, o primeiro e mais inevitável, se uniria a insondável questão meta existencial, que despontará, tenho certeza, sempre como uma esperança, resultando na suposição de como seria o meio, ou o melhor modo, de obter essa imortalidade, pois simplesmente não consigo conceber a idéia de que o Ser Humano algum dia se contentará com a possibilidade de só possuir uma única existência temporária.

Mesmo que a Ciência obtenha conquistas extremas, como a imortalidade e a ressurreição, algumas questões filosóficas, como a continuidade mental, o solipsismo ou o problema de outras mentes simplesmente não serão solucionados. Não importa que você desperte num paraíso futuro com as lembranças de todas as suas existências passadas, é simplesmente impossível ter certeza objetiva de que, por exemplo, essas lembranças não foram criadas juntamente com você um segundo antes. Nem mesmo o você de agora pode ter certeza objetiva de que é o mesmo você de um segundo atrás, a possibilidade de que todo o Universo tenha sido criado um instante no passado e totalmente pronto, inclusive com memórias, é impossível de refutar, bem como a possibilidade de que você ter sido copiado do original e este destruído e reduzido a nada, o que, duvido, não deixaria ninguém tranquilo quanto a possibilidade de ser destruído baseado na garantia de que uma cópia sua garantiria sua continuidade pessoal.

Por todas essas questões, considero impossível que o sentimento de mistério seja completamente anulado no Ser Humano, isso faz parte de nós. Nosso impulso de vida é forte demais para se conformar com a morte, e procurará transcendê-la a qualquer custo, e a religião é somente um dos meios.

Um meio para conquistarmos a imortalidade, ou sonharmos.
Afinal estamos vivos. E enquanto estivermos, somos imortais.

Marcus Valerio XR
http://www.xr.pro.br
04 de Julho de 2003

BIBLIOGRAFIA

SWINBURNE, Richard. Será que Deus Existe? Ed. Gradiva, Lisboa, 2002.

WRANGHAM, Richard & PETERSON, Dale. O Macho Demoníaco. Ed. Objetiva. 1995.

WELTE, Bernhard. Filosofia de La Religion.

ABRANTES, Paulo. Imagens de Natureza, Imagens de Ciência. Ed. Papirus, Capinas-SP, 1998.

CAMPBELL, Joseph. Para viver os Mitos. Ed. Cultrix, São Paulo. Original de 1972.

FILORAMO, Giovanni. PRANDI, Carlo. As Ciências das Religiões. Ed. Paulus, São Paulo, 1999.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1992. Original de 1957.

DURKHEIN, Emile. As Formas Elementares de Vida Religiosa. Ed. Martins Fontes, São Paulo.

FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo. Original de 1841.

GOSWANI, Amit. O Universo Auto-Consciente. Ed. Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro. 1993.

EISLER, Riane. O Cálice e a Espada. Ed. Imago. 1989.
— O Prazer Sagrado. Ed. Rocco. 1995.

Fonte: http://www.xr.pro.br

 

Sociedades sem Deus: por que os países menos religiosos são os mais satisfeitos socialmente

23.12.2008 ]

Entrevista especial com o sociólogo Phil Zuckerman

O que seria de nossas sociedades se Deus simplesmente não existisse para grande parte da população? Essa foi uma das perguntas que o sociólogo norte-americano Phil Zuckerman certamente tinha em mente ao dar início à sua mais recente pesquisa, que o levou a morar por mais de um ano na Escandinávia, especificamente na Dinamarca e na Suécia. Na bagagem, levava uma pergunta desafiante: como esses dois países, considerados os menos religiosos do mundo em todas as pesquisas prévias, podiam ser os que possuíam os mais altos índices de qualidade de vida, com economias fortes, baixas taxas de criminalidade, alto padrão de vida e igualdade social (em resumo, “contentment”, contentamento, satisfação, como ele chamou no subtítulo de seu livro)?

Zuckerman tinha ainda outro objetivo, mais localizado. Segundo ele, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a maioria de seus conterrâneos norte-americanos “pensa que qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-Lo no centro de sua cultura será condenada”, ou que “sem uma religião forte, um país se desintegrará no caos, no crime e na imoralidade”. Assim, entrevistando 150 cidadãos dinamarqueses e suecos, ele quis mostrar que, mesmo sem Deus, “é possível que uma sociedade seja forte, saudável, moral e próspera”.

O resultado de sua viagem foi recém publicado em livro, pela New York University Press, intitulado “Society Without God – What the Least Religious Nations Can Tell Us About Contentment” [Sociedade sem Deus – O que as nações menos religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação].

Phil Zuckerman é sociólogo, com mestrado e Ph.D. em Sociologia pela Universidade do Oregon. Atualmente, é professor do Pitzer College, em Claremont, no sul da Califórnia. Também é autor de “Sex and Religion” (Wadsworth, 2005), “Invitation to the Sociology of Religion” (Routledge, 2003), “Du Bois on Religion” (Alta Mira Press, 2000) e “Strife in the Sanctuary: Religious Schism in a Jewish Community” (Alta Mira Press, 1999), dentre outros. Em sua página no sítio do Pitzer, está publicado um dos principais artigos de Zuckerman, intitulado “Atheism: Contemporary Rates and Patterns” [Ateísmo: Taxas e Padrões] em que ele analisa detalhadamente diversos dados sobre o ateísmo contemporâneo (em inglês). Esse texto faz parte do livro “The Cambridge Companion to Atheism”, organizado por Michael Martin (Cambridge University Press, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você realizou a sua pesquisa na Escandinávia? Qual foi a sua intenção e as suas principais descobertas?

Phil Zuckerman – A maioria dos norte-americanos pensa que qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-Lo no centro de sua cultura será condenada – e que, sem uma religião forte, um país se desintegrará no caos, no crime e na imoralidade. Eu quis mostrar que isso não é necessariamente verdade. Eu quis mostrar aos meus conterrâneos norte-americanos que é possível que uma sociedade seja relativamente irreligiosa e, ainda assim, forte, saudável, moral e próspera.

Há mais ou menos quatro anos, a Cambridge University Press [editora universitária] me pediu para escrever um capítulo de um livro a respeito de quantos ateus existem no mundo. Então, eu passei cerca de seis meses procurando por todas as pesquisas nacionais e internacionais que eu pudesse encontrar. No fim, as pesquisas mostraram que a Dinamarca e a Suécia são, talvez, os países mais irreligiosos do mundo. Muitas pessoas, na Dinamarca e na Suécia, dizem acreditar em Deus, mas muito poucas dão importância a essa crença. Muito poucas pessoas rezam a Deus, ou acreditam que o Deus literal da Bíblia é real, ou acreditam que a Bíblia é divina. Esses países têm os menores índices de crença na vida após a morte, na ressurreição de Jesus, no céu e no inferno etc. Além disso, têm os menores índices do mundo em termos de participação semanal na igreja. E mesmo assim, apesar de tudo isso, estão entre as sociedades mais prósperas, igualitárias, civilizadas e humanas da Terra. Quando olhamos os níveis de sucesso social, da alfabetização à expectativa de vida, da igualdade de gênero aos padrões ambientais, da saúde à democracia, da criminalidade aos cuidados com os mais velhos e com as crianças, as nações da Dinamarca e da Suécia estão no topo da lista.

Em resumo, a Dinamarca e a Suécia provam que é possível que as sociedades sejam relativamente não-religiosas e ainda assim muito honestas e boas. Eu quis que os meus conterrâneos norte-americanos soubessem disso.

Para entender melhor a falta de religião na Escandinávia, assim como melhor compreender a cultura de lá, eu vivi na Dinamarca durante 14 meses, em 2005-2006. E, durante esse tempo, eu realizei 149 entrevistas em profundidade com dinamarqueses e suecos de todas as classes sociais. Essas entrevistas me permitiram ir mais fundo do que os dados das pesquisas e realmente tentar entender o secularismo escandinavo.

Minhas descobertas principais: dinamarqueses e suecos são, de fato, muito seculares. E, mesmo que eles não tenham crenças religiosas fortes, geralmente são muito satisfeitos. Não acreditam na vida após a morte, mas mesmo assim eles ainda levam vidas repletas e valiosas. E não acham que exista um “significado religioso último” para a vida, e mesmo assim eles ainda aproveitam o seu tempo aqui na Terra e fazem o melhor que podem com ele. Finalmente, eu tentei entender por que essas nações são tão contrárias à religião e em que sentido elas são diferentes dos Estados Unidos no que se refere à religião e à cultura política.

IHU On-Line – Em que sentido a falta de religião está ligada à satisfação das sociedades da Dinamarca e da Suécia?

Phil Zuckerman – A Dinamarca está no topo de todas as pesquisas internacionais que se referem à felicidade. A Suécia também está bem lá em cima. Os dinamarqueses e os suecos parecem ser pessoas razoavelmente satisfeitas. Isso está ligado à falta de religião deles? É difícil dizê-lo. É ainda mais difícil prová-lo. Eu não acho que uma falta de religião, por si só, faça com que os dinamarqueses e os suecos se sintam felizes ou satisfeitos. Pelo contrário, nós só temos que notar que a falta de religião ou a falta de uma conexão forte com Deus parece não levar ao desespero, à depressão, à tristeza ou à apatia. Em outras palavras, a falta de uma fé forte não causa necessariamente a felicidade, mas também não é uma barreira ou um impedimento.

IHU On-Line – Você não concorda que, de certa forma, essas sociedades alcançaram esse bem-estar social por um substrato cristão de raízes antiqüíssimas? O inconsciente coletivo cristão que acompanhou o desenvolvimento dessas sociedades não teve importância nesse sentido?

Phil Zuckerman – Definitivamente. Não se questiona que certos valores cristãos, ao longo dos séculos, ajudaram a dar forma a esses estados de bem-estar social. Não se questiona que os ensinamentos de Lutero tiveram o seu papel, assim como a visão religiosa de Grundtvig [1]. Entretanto, devemos ser cuidadosos por diversas razões. Primeiro, aqueles que construíram o estado de bem-estar social tendiam a ser democratas sociais seculares, que eram, muitas vezes, anti-religiosos. Não foram os dinamarqueses e suecos fortemente religiosos que construíram o estado de bem-estar social. Então, parece um pouco injusto dar muito crédito ao cristianismo, quando foram os dinamarqueses e suecos seculares que verdadeiramente criaram as nações modernas e prósperas da Dinamarca e da Suécia que nós hoje admiramos.

IHU On-Line – Em uma sociedade religiosa, os valores humanos estão baseados em uma concepção que vai além do próprio humano, chegando a Deus. Em que estão baseados os valores humanos em uma sociedade irreligiosa?

Phil Zuckerman – Simples: no valor fundamental da vida humana. Os dinamarqueses e os suecos têm um respeito muito forte pela dignidade humana. Eles criaram sociedades com as menores taxas de pobreza do mundo, as menores taxas de crimes violentos do mundo e o melhor sistema de educação e de saúde do mundo. Eles fizeram isso não como uma tentativa de agradar ou alcançar Deus, mas porque vêem um valor manifesto na vida humana e acreditam que o sofrimento é um mal em e além de si mesmo. Não é necessário acreditar em Deus para acreditar na justiça. De fato, se poderia argumentar que aqueles que acreditam fortemente em Deus podem ser mais indiferentes e assumir que “tudo está nas mãos de Deus”, enquanto que os seculares sabem que a possibilidade de construir uma vida e um mundo melhores está nas mãos deles e apenas deles. Então, os dinamarqueses e os suecos contaram apenas com o seu próprio esforço – não com orações a Deus.

IHU On-Line – Podemos assumir que uma sociedade irreligiosa não é a garantia do inferno na terra. Porém, quais seriam suas principais limitações e problemas sociais? Quais seriam suas causas?

Phil Zuckerman – Nenhum país é livre de problemas. Nenhuma sociedade é livre de quaisquer erros ou fraquezas. Sim, existem problemas na Dinamarca e na Suécia. Mas eu diria que, independentemente de quais sejam esses problemas, eles comumente são piores em qualquer outro lugar. Quais limitações ou problemas podem surgir em sociedades seculares? Eu não posso dizer com certeza. Eu não tenho resposta.

IHU On-Line – Em seu livro, você afirma que uma “sociedade sem Deus não é apenas possível, como também pode ser moral, próspera e completamente agradável”. Essa é apenas uma constatação ou também uma sugestão? Sua intenção é defender e propor uma sociedade ateísta?

Phil Zuckerman – Eu não tenho nenhum desejo de propor uma sociedade ateísta. Eu acho que a religião pode ser uma coisa boa e moral. Eu acho que a religião oferece histórias e rituais maravilhosos, que os líderes religiosos ajudam as pessoas durante tempos difíceis ou nos ritos de passagem e que a religião – como qualquer criação humana – pode, às vezes, ser uma força potencial do bem no mundo. Eu não estou recomendando que as sociedades se tornem seculares. Eu estou simplesmente tentando mostrar ao mundo que o secularismo não é um mal em ou além de si mesmo, que a religião não é o ÚNICO [sic] caminho para se criar uma sociedade saudável e que precisamos reconhecer que as nações mais religiosas hoje são as mais caóticas, miseráveis e corruptas, e a tendência é que as sociedades menos religiosas hoje sejam as mais estáveis, seguras e humanas. As pessoas podem fazer o que quiserem com essas informações.

IHU On-Line – Na sua opinião, qual a explicação para a grande maioria da população que se considera religiosa em países como o Brasil? Seríamos menos “satisfeitos”?

Phil Zuckerman – Eu não sei se as pessoas são menos satisfeitas e contentes no Brasil por si sós (todo brasileiro que eu já conheci era muito feliz e satisfeito!). O que eu sei é que, no Brasil, vocês têm taxas de pobreza e de criminalidade mais altas, níveis muito altos de desigualdade, de corrupção política, um sistema de saúde mais pobre, uma igualdade de gênero mais fraca etc. Vocês têm centenas de milhares de desabrigados vivendo nas ruas, dezenas de milhares de crianças pedindo comida etc. Claro, vocês também têm Milton Nascimento e Os Mutantes. Então, quem pode reclamar?

IHU On-Line – E nos EUA mesmo, país plenamente “satisfeito” em termos sociais, como o senhor explica a grande expansão de seitas cristãs?

Phil Zuckerman – Explicar a religião nos EUA é um assunto de grande importância – e eu abordo isso no meu livro. Em poucas palavras, os altos índices de religiosidade nos EUA têm a ver com o seguinte: a religião é pesadamente comercializada e agressivamente “vendida” aqui. Nós também temos altas taxas de pobreza, de criminalidade e de desigualdade, nós também temos altos índices de diversidade racial e étnica e um excesso de comunidades imigrantes – tudo isso contribui com a nossa forte religiosidade aqui nos EUA.

IHU On-Line – Em seu livro, você diferencia o ateísmo ditatorial e o democrático, assim como a religiosidade ditatorial e a democrática. Em que se fundamenta essa diferenciação?

Phil Zuckerman – Simples: o ateísmo é forçado sobre a população ou não? Na antiga URSS, a religião se tornou virtualmente ilegal, e as pessoas que eram fortemente religiosas enfrentaram todos os tipos de punições possíveis, incluindo a tortura e a prisão. Esse também foi o caso da Albânia. E da Coréia do Norte. Se uma sociedade é regida por fascistas que impõem o ateísmo sobre uma população relutante, ele não é orgânico. É forçado. Entretanto, se olharmos os países democráticos onde a religião é simplesmente abandonada pelas pessoas livremente ao longo do tempo e sem nenhuma coerção governamental (como na Grã-Bretanha, nos Países Baixos, na Escandinávia etc.), então podemos dizer que esse é um secularismo mais orgânico, verdadeiro, livre e honesto.

IHU On-Line – Não se poderia ler em seu livro um pouco de “preconceito” com os ateus, afirmando que eles são “bons”, e um pouco de “obviedade” com os religiosos, por mostrar que eles também são humanos e têm o direito de errar, inclusive socialmente?

Phil Zuckerman – Eu não tenho certeza do que você quer dizer com essa questão. Eu não sei se os ateus são “bons”. Tudo o que eu sei é que as sociedades menos religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais saudáveis, mais morais, mais igualitárias e mais livres – e as nações mais religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais corruptas, pobres, dominadas pelo crime e caóticas. Os leitores podem fazer o que quiserem com essa informação. E eu sei que as pessoas relativamente não-religiosas que eu conheci e/ou entrevistei na Escandinávia estavam entre as pessoas mais gentis e mais humanas que eu já conheci – e tudo sem muita fé em Deus.

Notas:

1. Nikolai Frederik Severin Grundtvig (1783-1782) é uma das personalidades mais importantes na história da Dinamarca. Professor, escritor, poeta, filósofo, historiador, pastor e político, Grundtvig teve grande influência na história dinamarquesa. Os escritos de Grundtvig contribuíram para o surgimento do nacionalismo dinamarquês, a formação de cultura democrática e o desenvolvimento econômico. Convertido ao luteranismo em 1810, publicou “Kort Begreb af Verdens Krønike i Sammenhæng” [A crônica do primeiro mundo], de 1812, uma apresentação da história européia em que tenta explicar como Deus se faz presente na história humana e no qual critica a ideologia de diversos expoentes dinamarqueses.  Em 1825, publicou “Kirkens Gienmæle” [A réplica da igreja], uma resposta à obra de H. N. Clausen sobre o protestantismo e o catolicismo. Para Clausen, apesar de a Bíblia ser a principal base do cristianismo, ela era uma expressão inadequada de seu sentido global. Grundtvig chamou Clausen de professor anticristão e defendeu que o cristianismo não era uma teoria para ser derivada da Bíblia e elaborada por estudiosos, questionando o direito dos teólogos de interpretar a Bíblia. Por causa disso, foi proibido de pregar pela Igreja Luterana durante sete anos. Entre 1837 e 1841, publicou “Sang-Værk til den Danske Kirke” [Obra musical para a Igreja dinamarquesa], uma rica coleção de poesia sacra. No total, Grundtvig escreveu ou traduziu cerca de 1.500 hinos. A partir de 1830, deu origem ao movimento “Folkehøjskole” [alta escola popular] da Dinamarca, que influenciou a educação de adultos nos EUA na primeira metade do século XX, por meio de um tipo singular de escola, do e para o povo. As reflexões de Grundtvig sobre educação eram norteadas por cinco idéias centrais: a palavra viva (det levende ord), iuminação para a vida (livsoplysning), iluminação do Povo (folkeoplysning), dialógo equilibrado (Vekselvirkning) e as pessoas comuns acima das educadas (folket overfor de dannede).

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

 

Documentário: A Roda do Tempo (2003)

Documentário de Werner Herzog sobre o maior ritual budista para promover a paz e a tolerância, realizado por Sua Santidade o Dalai Lama em Bodh Gaya, na Índia, e em Graz, na Áustria, em 2002. O filme inclui entrevistas exclusivas com o Dalai Lama, o acesso pioneiro aos rituais anteriormente secretos, bem como imagens de uma peregrinação a montanha sagrada de Kailash no Tibete.Em 2002, Herzog foi para a Índia para filmar o festival de Kalachakra, um ritual que acontece todos os anos para a ordenação dos monges budistas. Cerca de 500.000 budistas participaram da iniciação em Bodh Gaya, a terra onde se acredita que o Buda adquiriu a iluminação. O documentário resultante, Wheel of Time, é um olhar, muitas vezes sublime de uma cultura ameaçada, cujo próprio modo de vida está em perigo. Herzog admite que sabe pouco sobre o budismo, mas quando observamos os rituais, as festas, e a dedicação dos budistas tibetanos, aprendemos muito sobre a riqueza da sua tradição e da sua força como povo.O festival, que dura dez dias, surgiu do desejo de criar um vínculo forte e positivo para a paz interior entre um grande número de pessoas. A mandala magnificamente bela, símbolo da roda do tempo, é cuidadosamente construída no início do festival com catorze diferentes tonalidades de areia colorida, sendo destruída no final para dramatizar a impermanência de todas as coisas.

Wheel of Time contém muitos desses momentos de graça e imagens de beleza espetacular, que nos oforecem uma visão sobre uma antiga tradição voltada para o aperfeiçoamento da humanidade através da quietude da mente e do cultivo da compaixão.

Dados do Arquivo:
Direção: Werner Herzog
Qualidade: DVDRip
Áudio: Inglês/Tibetano
Legenda: Português
Tamanho: 746 MB
Duração: 01:20:06
Formato: AVI
Servidor: Peeje

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Afinal, o que são demônios?

Pressuposto

A respeito de demonologia, secularmente usou-se a Bíblia como principal argumentação, quase exclusiva.

Ora, é tema teológico ou é tema científico? Pertence à ciência o estudo das realidades observáveis do nosso mundo. E deduzíveis da observação (filosofia). A Bíblia é um livro de doutrina sobrenatural, inobservável, revelada. E da Bíblia podem deduzir-se outras verdades (Teologia). Não há direito a invocar a Bíblia em ciência, como a ciência não pode discutir Doutrina sobrenatural. A Igreja Católica e Denominações Protestantes, o Islã, as seitas religiosas, como tais, não têm a última palavra em ciência, nem sequer a primeira. E o conjunto dos ramos da ciência que estuda fatos incomuns, relacionados com o homem, é a Parapsicologia. Teologia e ciência tratam de temas diferentes (Falo inclusive como doutor em Teologia).

Isto pressuposto, em demonologia de que se trata? É Doutrina sobrenatural, inobservável, revelada, ou trata-se de cultura e interpretação de fatos do nosso mundo?

Naquele pressuposto muito, muito, muitíssimo deveríamos insistir para evitar tantos erros acumulados em demonologia…, por culpa de teólogos, padres, pastores, etc., inclusive santos e pretendidas revelações particulares (tema também muito importante que amplamente deveremos analisar em outra oportunidade).

DEMÔNIO

Hoje sob o termo geral demonologia tem-se embutido uma amálgama completamente heterogênea, misturando ou identificando conceitos na realidade totalmente incompatíveis.

Antigo Testamento. Uma primeira constatação é que o termo demônio (ou um eqüivalente hebraico para traduzir exatamente o termo grego daimónion e daimónia (ou daímon e daímones) tão freqüente, como veremos, no Novo Testamento apesar de ser tão curto, não aparece nunca nos originais do Antigo Testamento apesar de ser tão comprido. A palavra demônio no Antigo Testamento é só fruto de traduções posteriores.

Ídolos. Os sátiros (espécie mitológica de bode), “seres peludos” descritos por Isaías, inspirado nas divindades mesopotâmicas, são convertidos na tradução oficial, (chamado de Setenta), em demônios. Dançariam com sereias nas ruínas da Babilônia (Is 13,21).

Também em outras oportunidades os ídolos são traduzem por demônios (Isaías 65,3; Dt 32,17; Sl 106,36ss).

E quando Isaías (65,11) fala de Gad, o deus arameu da fortuna, os Setenta substituem Gad por demônio.

Esses mesmos sátiros, esses mesmos ídolos, esses mesmos demônios, no Levítico são, na tradução dos Setenta, simplesmente “coisas vãs”! (Lv 17,7). Coisas: Não existem como seres pessoais. Vãs: vazias, inúteis…

Soberania de Deus. Na sua pedagogia, a Bíblia não enfrentou diretamente desde o início os deuses estrangeiros. Utilizou-os, como instrumento de linguagem, para destacar a soberania de Deus. Apresentou-os como subordinados a Jahweh, o Deus dos deuses e das potestades. Aos deuses pagãos chamou-os “Filhos de Deus”, que formavam o conselho de Deus, “Potestades” que ajudavam no governo do universo. E inclusive os organizou hierarquicamente (Dn 10,13) -como em toda milícia bem-estabelecida- sob o comandante supremo, Satã (Zc 3,1-2).

Mas a manifesta semelhança com a mitologia pagã poderia induzir o povo judeu ao politeísmo. Aparecem então os Profetas lembrando que só há um Deus.

Os profetas tiram da mitologia e cultura da época todo traço de politeísmo, mas guardam os aspectos compatíveis com o único Deus, Criador e Supremo Governante. Os deuses pagãos, as Potestades e outras criaturas celestes servem para destacar a grandeza do Criador.

Este empréstimo de elementos das religiões pagãs é evidente em várias oportunidades. Por exemplo, no Levítico. O velho costume popular de expiação é aproveitado purificando-o da idolatria: “Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte ‘para Azazel’, será colocado vivo diante de Jahweh, para fazer com ele o rito de expiação, a fim de ser enviado a Azazel, no deserto… Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as faltas dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados (…) e o bode levará sobre si todas as faltas deles para uma região desolada” (Lv 16,10,21s).

O bode não é sacrificado ao demônio Azazel. A ação simbólica de transferir os pecados se faz diante de Jahweh pela mediação do sacerdote Aarão, e o “bode expiatório” indo ao deserto, onde morrerá, simboliza a desaparição dos pecados.

Inexistentes. Mais ainda, Israel logo compreende que Deus não precisa de conselho nem ajuda de ninguém e que os deuses pagãos não passam de absurdas falsidades enquanto não se identifiquem com o próprio Deus único.

Se não são o próprio Jahweh, essas divindades são falsas, inexistentes.

O Salmo 96,5 diz no original hebraico que os deuses dos pagãos são vãos: deuses = élohim, vãos = élilim. Não pode o grego conservar este jogo de palavras. E os Setenta convertem vãos em demônios!

Os demônios são vãos, inexistentes.

No Novo Testamento se recolhe a idéia: São João identifica os deuses pagãos com os demônios, e são seres inertes, meras imagens feitas pelas mãos dos homens: “Obras das suas mãos, para não mais adorar aos demônios, os ídolos de ouro, de prata, de bronze, de pedra e de madeira, que não podem ver, nem ouvir ou andar” (Ap 9,20).

E São Paulo também identifica deuses pagãos e demônios, e igualmente como vãos, nada, inexistentes: “Aquilo que os gentios imolam, eles o imolam aos demônios (…). Que quero dizer com isto? (…) Que os ídolos (os demônios) mesmos sejam alguma coisa? Não!” (1Cor 10,19-20).

Influencias pagãs. A antiquíssima demonologia-divindades da literatura suméria, os perniciosos deuses-demônios chamados udug, e a demonologia acádia influenciaram os hebreus do Antigo Testamento, e através dos caldeus penetraram o mundo grego e depois o romano.

Pouco antes de Cristo, a influência volta aos judeus, através da cultura grega, resultante da dominação romana. Dois séculos antes de Cristo e no próprio século 1º d.C., a demonologia judaica manifesta reflexos da demonologia mesopotâmica e grego-romana.

Demônios e demônio são as traduções vernáculas para os termos daímones no plural e daímon no singular na versão dos Setenta. Tenhamos em conta que esta tradução foi feita precisamente nesta época neo-testamentária. Ora, na literatura grega e na época helenística, daímon e daímones significam deus e deuses: divindades de grau inferior.
Os judeus na época neo-testamentária, também adotaram esta denominação. Flávio Josefo, o historiador judeu que escrevia no século primeiro, várias vezes emprega o termo daímones como sinônimo de deuses. Levemos em conta que o todo o Novo Testamento foi escrito em grego.

O termo daímon procede de daiomai, que significa distribuir: eram os deuses que distribuíam os bens e os castigos aos homens.

Neste mesmo sentido, os pagãos usam o termo daímones com referência à pregação de São Paulo: “Dir-se-ia um pregador de divindades (daímones) exóticas, porque ele anunciava Jesus e a Ressurreição” At 17,18). Os que escutavam Paulo usaram o termo daímones no plural porque acreditavam que Jesus era anunciado como um deus e a Ressurreição como uma deusa.

Elaboração do animismo. Zoroastro ou Zaratustra, o mais antigo fundador conhecido de religião, ensina que Alhura Mazda, o Deus Supremo, serve-se dos chamados “santos imortais”: são divindades inferiores, pois são concebidas como irradiações da natureza divina. Alhura Mazda não governa diretamente o mundo, serve-se para isso dos imortais, potestades ou daímones.

Na mais antiga mentalidade todas as manifestações da natureza, que o homem primitivo considerava superiores a ele, eram concebidas como dotadas de alma. Esses seres animados, espíritos bons ou maus, eram os responsáveis pelos acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis.

Com o tempo, o animismo dos povos primitivos foi se fazendo mais elaborado e complexo. É substituído por potestades, ou divindades inferiores, que como intermediários governam a humanidade e o mundo. Os próprios intermediários – divindades inferiores-, se multiplicam numa subordinação hierárquica mais ou menos extensa.

Elaborado ou primitivo conserva-se o animismo nas tradições de muitos povos africanos. De lá se ramificou principalmente pelos chamados cultos afro-brasileiros e de vários países latino-americanos.

O judaísmo num começo não se opôs ao animismo, mas o disciplinou, a fim de acomodá-lo às suas próprias exigências doutrinais.

Por exemplo, o animismo universal considerava que os rios e os vaus tinham alma. Depois, pensou que havia neles um deus. Eram daímones. Para atravessar um rio, primeiro era preciso aplacá-lo com oferendas e dádivas.

Lê-se na Bíblia: Jacó “se levantou, tomou suas duas mulheres, suas duas servas, seus onze filhos e passou o vau do Jaboc. Ele os tomou e os fez passar a torrente e fez passar também tudo o que possuía. E Jacó ficou só”.

Mas não aplacara o deus torrente! Teria portanto de ser castigado: “E alguém lutou com ele até surgir a aurora. Vendo que não o dominava, tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele”.

Com a aurora vem um daímon mais poderoso, que afugenta as divindades noturnas. Para isso, o deus da torrente disse: “Deixa-me ir, pois já rompeu o dia”. Mas Jacó respondeu: “Eu não te deixarei se não me abençoares”.

Faz parte também do animismo universal atribuir força mágica aos nomes. O Gênesis acomoda tal crença, fazendo intervir a Divina Providência nos nomes:

“Ele lhe perguntou: ‘Qual é teu nome?’ -‘Jacó’, respondeu. Ele retomou: ‘Não te chamarás mais Jacó, mas Israel (Deus forte, ou algum significado eqüivalente), porque foste forte contra Deus e contra os homens, e tu prevaleceste’. Jacó fez esta pergunta: ‘Revela-me teu nome, por favor’. Mas ele respondeu: ‘Por que perguntas pelo meu nome?’ E ali mesmo o abençoou. Jacó deu a este lugar o nome de Fanuel ‘porque -disse- eu vi Deus face a face'” (Gn 32,23-33).

A demonologia de Israel consta de elementos emprestados de todas as civilizações vizinhas. Tais culturas não pertencem ao conteúdo da Revelação! Trata-se de interpretação pagã de realidades do nosso mundo. Pertence à ciência. A Bíblia não é um livro de ciencia. Os elementos da natureza não são deuses. Estes daímones não existem. Só metaforicamente se substituem, ou identificam, esses demônios pelo verdadeiro e único Deus.

Novo Testamento. Sob diversos nomes alude 73 vezes ao que comumente hoje se chama demônio. O Novo Testamento usa, além de daimónion, os nomes: “Diabo e seus anjos” (Mt 25,41), “espíritos imundos” (Mt 10,1), “espírito impuro” (Mc 1,23), etc.

Demônio e os outros termos se usam indistintamente. No singular ou no plural. Assim, por exemplo, a mesma pessoa que, segundo Marcos (5,2), é possuída por um espírito impuro, no singular, pouco depois no mesmo Marcos (v. 13) está possuída por espíritos imundos, no plural. E segundo Lucas (8,27) essa mesma pessoa está possuída por demônios, no plural; mas imediatamente, no mesmo Evangelho de Lucas (v. 29) Jesus identifica esses demônios como um espírito impuro, no singular; e no versículo seguinte (30), Lucas diz que são muitos demônios

No apóstolo São Paulo. Paulo usa a linguagem e as imagens próprias da cultura judaica da sua época. Os “espíritos do astral” e outros demônios-divindades, originariamente do Oriente, foram convertidos pelos judeus em “armadas celestes” (Sabaoth). Jahweh é o Deus dos Sabaoth, Deus dos exércitos, ou em diversas passagens da tradução dos Setenta, “Deus das Potestades” (cf. por exemplo, Sl 80,5).

Paulo, pela sua cultura judaica, utilizou como comparação o mito de que Deus delegou o governo do mundo às Potestades e Principados (Gl 3,19; Hb 2,2; 1Cor 6,3 etc.) São os demônios. “O nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,11-12).

As Potestades ou demônios estão a serviço de Deus; são dignos de respeito (1Cor 11,10) e obediência (talvez também Rm 13,1-6); são os instrumentos de uma correção salutar por meio de doenças (1Cor 5,5); o próprio Paulo é deixado a Satã (2Cor 12,7); serão julgados (1 Cor 6,3) e podem ser castigados se não cumpriram bem a sua função. Em todo caso os demônios culpáveis terão de reconhecer o senhorio universal de Cristo (Fl 2,10-11; Cl 1,15-20; Ef 3,10; Cl 2,15).

Paralelamente à mentalidade mítica judaica, que concebia os lugares áridos como morada preferida dos baixos demônios, aparecem em Paulo as altas potestades habituando as camadas mais altas da atmosfera: “Príncipe do poder do ar” (Ef 2,2); “Espíritos do mal que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,12).

Tudo influencia os primeiros cristãos. Se os povos orientais influenciaram muito nos judeus e, em seqüência, em São Paulo, influíram mais ainda na demonologia dos primeiros cristãos.

São Justino, São Clemente de Alexandria etc. refletem claramente a mentalidade demonológica dos egípcios. Orígenes, no começo do século III, teve uma influência decisiva na demonologia cristã que lamentavelmente permanece até hoje.

Os demônios maus. O daímon, demônio, divindade inferior, vai deixar de ser um intermediário entre Deus e as criaturas, para o bem ou para o mal, e converte-se num ser unicamente mau. Para São Paulo, apostatar da fé é eqüivalente a escutar os ensinamentos dos demônios-deuses pagãos (1 Tm 4,1); a idolatria eqüivale a misturar-se com demônios-ídolos, que sustentam o paganismo (1 Cor 10,20ss). E assim passou-se a considerar os demônios como seres maus e desprezíveis, nada semelhantes a potestades que colaboram com Deus.

Isso já aparece nos últimos escritos do Novo Testamento: “Caiu, caiu Babilônia, a Grande, tornou-se moradia de demônios, abrigo de todo tipo de espíritos impuros, abrigo de todo tipo de aves impuras e repelentes” (Ap 18,2); “Nisto vi que da boca do Dragão (… ) saíram três espíritos impuros, como sapos” (Ap 16,13).

Gradualmente o abismo entre divindades e demônios foi-se alargando. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islã só vêem hoje nos demônios forças inimigas de Deus e dos homens.

OUTROS NOMES NA BÍBLIA

A SERPENTE

A primeira vez que um demônio apareceria na Bíblia seria a Serpente do Paraíso.

Uma resposta da Pontifícia Comissão Bíblica, em 30 de junho de 1909, declarava ser uma verdade inseparável dos fundamentos da fé cristã que o pecado de Adão foi por persuasão do Diabo sob aparência de serpente (“Diabolo sub serpentis specie suasore”). Isto estaria afirmado pelo Livro da Sabedoria e pelo Novo Testamento!

Esta resposta da Comissão tinha valor normativo. Meramente. Mas assim a interpretação comum passou a ser que a Serpente representa Satã. A Serpente tentadora que aparece em Gn 3, poderá aplicar-se, por elucubrações de teólogos, a qualquer conceito de demônio. Elucubrações. Na realidade, no episódio da tentação de Adão e Eva, nada se diz sobre o nome, natureza ou origem do tentador. O texto não oferece o menor motivo para identificar a Serpente) com Satanás, ou qualquer outra espécie de demônios.

O que importa é ver o que a ciência descobriu a respeito. A identificação serpente-Satã “apoia-se” numa tardia interpretação judaica que penetrou e se manteve até nossos dias entre os cristãos. De modo algum responde aos princípios da interpretação histórico-científica. Na linguagem figurada na narração do pecado original, a Serpente não é símbolo ou imagem do Tentador, mas da tentação. Esta acontece no coração do homem, embora dado o estilo simbolizante da narração, foi exteriorizada. O narrador atribui à Serpente a função de tentadora, devido à proverbial astúcia deste animal.

Na literatura religiosa da Índia há uma lenda com traços marcadamente semelhantes à do Gênesis. O homem vivia só. Inicialmente feliz e sem preocupações. Uma deusa, uma divindade, daímon, chamada Mara, apresentou a mulher ao homem. Mara incita ao prazer sexual. Considera-se o sexo como algo pecaminoso,.tabu. Só depois de conhecer sexualmente a mulher é que o homem descobre a solidão…

A lenda indiana apresenta um demônio tentador. Os melhores interpretes indianos suprimem o tentador.

A lenda indiana é um pouco anterior ao século VI a, C., quando se escreveu o capítulo sexto do Gênesis. O Gênesis purifica a lenda, mas é evidente a influência indiana no ambiente judaico. Era a mentalidade de todo Oriente.

A Serpente no Gênesis significa o próprio instinto sexual. Tentação sexual sem tentador. A serpente não passa de representação, personificação ou símbolo precisamente sexual.

Lamentavelmente essa interpretação sexual do pecado do Paraíso não é a mais comum entre os teólogos cristãos. Foi o belga Coppens, com conhecimentos científicos, isto é, parapsicológicos, o primeiro teólogo católico moderno que interpretou a serpente como símbolo sexual. Depois muitos exegetas católicos concordaram com Coppens: à luz da ciencia, à luz da pesquisa histórica, a descrição bíblica pretendia condenar os cultos cananeus da fertilidade.

Em toda a descrição do pecado no Paraíso respira-se uma atmosfera sexual. Adão e Eva teriam feito uma espécie de culto da deusa, daímos, Fertilidade, culto conhecido sem dúvida pelo autor sagrado porque muito praticado pelos pagãos da época. Tem fundamento muito valioso na antigüidade judaica a interpretação sexual da Serpente.

Filon de Alexandria, contemporâneo de Cristo, e que teve grande influência nos primeiros escritores cristãos, foi o principal defensor da teoria alegórica. A Serpente é considerada como mera imagem dos desejos e prazeres sexuais. Não é Satã nem nenhum outro tipo de demônio; é a hedoné, sensualidade humana.

A serpente é arquétipo no inconsciente do homem, simbolizando em todas as épocas e povos a vida, a eterna juventude e especialmente, a fecundidade e libido. Os tólogos deveriam levar em conta esta descoberta da Psicologia Profunda.

A serpente também poderia representar a idolatria, pois representa os deuses pagãos dos povos vizinhos de Israel. Muitos israelitas, traindo sua religião, chegaram a adorar a serpente como uma divindade que podia levá-los à salvação.

Evidentemente a teoria “ídolo” e a teoria “sexo” se identificam. A Serpente era adorada nos cultos da fertilidade precisamente por ser deusa do sexo e dos prazeres sexuais.

Em todo caso, o Paraíso terrestre não pode ser tomado no sentido literal histórico. Todo o conjunto referente a Adão e Eva: a quem pertence diretamente o tema? De que se trata? O aspecto origem da vida humana no nosso mundo perceptível pertence à ciência. A ciência diz que os primeiros homens certamente não foram super-homens vivendo num paraíso de delícias, senão possivelmente a coroação evolutiva dos primatas: Pithecanthopus Erectus, Homo de Java, de Neanderthal, de Cro-magnon etc. Os primeiro homens certamente viviam nas cavernas quase como animais. E ponto final. Não pertence ao teólogo como tal opinar nem contra nem a favor sobre o fato histórico, científico… Ao teólogo corresponde reconhecer o ditame da ciência. Como aceita o teólogo-cientista moderno Wildiers, “a evolução histórica da humanidade, tal como nós a conhecemos, não oferece nenhum resquício para a figura de Adão, tal como a tinha bosquejado a teologia secular”.

Aliás, não é de hoje que se considera o capítulo 3 do Gênesis como transcrevendo não uma história senão uma parábola educativa. Uma parábola para ensinar um ponto de vista explicativo do problema do mal. Neste outro aspecto, o doutrinal, o teólogo procurará unicamente o sentido religioso que se encerra nas expressões bíblicas em questão. Não se pode argumentar em favor da atividade de Satã ou demônios com um fato que não aconteceu.

Inseparável dos fundamentos da fé cristã? A Pontifícia Comissão Bíblica afirma que no Livro da Sabedoria e no Novo Testamento se define que a Serpente do Paraíso é Satã.

Vejamos. Comecemos pelo Novo Testamento. O Apocalipse (12,9 e 20,2) identifica “o grande Dragão, a antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás” com o Império Romano e os perseguidores dos cristãos. Em outro artigo insistirei nesta interpretação.

Em mais outra oportunidade -e só em mais uma- o Novo Testamento pareceria identificar a Serpente com Satã. No Evangelho de São João é manifesta metáfora. Contrapõem-se os justos aos pecadores, a verdade à mentira, o caminho da salvação ao da morte eterna. Não se está ensinando doutrina a respeito nem da Serpente nem de Satãnás: “Vós sois do Diabo, vosso pai. E quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44).

Passemos ao texto do Livro da Sabedoria. Foi muito invocado e discutido. Mas na realidade é indiscutível que não encerra nenhuma alusão à tentação do Paraíso, à morte física que teria decorrido do primeiro pecado, senão que se trata do castigo dos ímpios na eternidade: “Não esperam o prêmio pela santidade, não crêem na recompensa das vidas puras… Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade. É por inveja do Satã que a morte entrou no mundo. Prová-la-ão quantos são do seu partido” (Sb 2,22-24).

O texto do Livro da Sabedoria não se pode referir à morte física, que os ímpios conhecem e desejam para os justos (2,20). Evidentemente não a desejam para si próprios (2,6), proclamam exclusivamente o desfrute desta vida (2,1-20). Todo o texto e contexto (cf. também I,16,12s) mostra que o erro dos ímpios é acreditar que estão na vida, mas encontram a morte no outro mundo, enquanto que os justos morrendo para este mundo na realidade encontram a vida no outro (3,1-3).

(Compare-se com Rm 5,12: “Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte”. A morte espiritual).

Não é nada provável que o Livro da Sabedoria aludisse ao capítulo 3 do Gênesis, porque o recurso ao passado não é do estilo do Antigo Testamento onde só em mais uma oportunidade se faz (Eclo 25,24). E mesmo que admitíssemos que há uma alusão ao Gênesis, seria mais provável a alusão à morte pelo fraticídio de Caim (Gn 4,1-6), como já defenderam alguns teólogos à luz da ciência (destaquemos Bois no século XIX, Gregg no começo do século XX, e recentemente Wright ).

Além do mais esta referência a Satã (“Por inveja de Satã”) é tão desvinculada de todo o Livro da Sabedoria, que é lícito suspeitar que seja um comentário introduzido posteriormente.

O texto alude mais provavelmente às invejas entre deuses pagãos, não ao Paraíso. O autor – certamente um judeu helenizado, de Alexandria- batiza a inveja dos deuses substituindo – a pela inveja de Satã, porque os mitos de demônios naquela época, nos séculos II e I a.C., infestavam os livros apócrifos e a mentalidade judaica.

ASMODEU

É o segundo demônio que aparece na Bíblia. Reflete-se também no Livro de Tobias o mito de relacionamento amoroso de mulheres da nossa Terra com deuses ou daímones pagãos.

Manifestamente não é um livro histórico. Era um romance de “utilidade pública” e “religiosa”. Os judeus, após o exílio, voltaram cheios de pânico pelas idéias mágicas e mitos dos primitivos povos pagãos.

O autor sagrado não visa confirmar, nem sequer discutir, demonologia ou poderes reais ou imaginários da magia. Com essa ficção, falando do daímon Asmodeu que por ciume teria matado sete maridos de Sara (Tb 3,8; 6,14s), apresentando Tobias que teria usado defumadores para expulsar o daímon (Tb 6,17s), descrevendo que o anjo Rafael acorrenta Asmodeu no deserto do Egito (Tb 8,3) etc., só visa reforçar a onipotência divina sobre toda e qualquer possível ou imaginária magia ou divindade pagã (Tb 6,14-22).

Asmodeu é certamente emprestado do parsismo, a mitologia do Irã. Zaratustra, século VI antes de Cristo, fala freqüentemente de Aesma Deva, a divindade Ira ou Fúria, “a mais perigosa das divindades”. Foi trasformado na Bíblia em “Asmodeu, o mais perigoso dos demônios” (Tb 3,8). Foi recebido em sincretismo com o anjo destrutor de uma época bíblica anterior (2Sm 24,16; Sb 18,25) pela semelhança de Aesma com a raiz hebraica schamad = perder, destruir.

A idéia de deuses que se apaixonam de mulheres de nosso mundo existe em muitas mitologias e se perpetua no esoterismo das gerações posteriores, até hoje.

Santo Agostinho, na sua época pouco sabendo do que hoje se chama Parapsicologia, apesar do seu talento extraordinário, chegará a dizer que negar a existência de demônios machos, os célebres íncubos, que com mulheres humanas geram “filhos dos demônios”, seria notoriamente imprudente, pois é um fato muito bem estabelecido (?!).

Sto. Tomás de Aquino acreditava que “um e mesmo demônio, fazendo de súcubo -fêmea- para o varão, recebe o sémen deste e o passa à mulher, fazendo-se íncubo para ela”.

Sto. Agostinho e Sto. Tomás, e quantos mais!, contraditoriamente descreviam os íncubos e súcubos como anjos rebeldes, demônios, com instintos e possibilidades sexuais, portanto com corpo! Absurdos semelhantes são muito repetidos por toda classe de ocultistas e espíritas… Hoje não faltará muito em aparecer alguém pretendendo fazer um bebê de proveta com sêmen de algum íncubo, e até algum clone do mesmíssimo Diabo! Loucura total.

SATÃ

É provável que haja relação da palavra hebraica Satã com a palavra árabe shaitan, que originalmente -ao que opinam alguns linguistas árabes- significava serpente. Alguns povos vizinhos de Israel representavam seus ídolos sob forma de serpente. Satã, serpente, ídolo seriam sinônimos. A compreensão da Serpente do Paraíso seria assim confirmada deste ponto de vista etimológico.

A conceito de Satã nada tem a ver com o conceito de demônios, os anjos rebeldes, conceito clássico cristão.

Com efeito: em 15 oportunidades aparece o termo Satã no Antigo Testamento. E seis vezes na forma verbal: satanizar. Nunca significa um ser sobrenatural mau:

1) Com referência a Davi diziam os príncipes filisteus: “Não se volte contra nós no combate”. De acordo com o original hebraico seria: “Não se torne Satã nosso no combate” (1 Sm 29,4). Claramente Satã com o significado de pessoa inimiga.

2) Davi aplica o termo Satã aos homens que se opõem à vontade de Deus tentando o rei para que mate o benjaminita que o injuriou. Satã significa a oposição humana a Deus. Pode entender-se como pessoas adversárias do próprio Davi, no sentido de tentadores: “Davi disse: ‘Que tenho eu convosco filhos de Zeruia, para que vos torneis hoje meus adversários? Poderia ser alguém condenado à morte hoje em Israel?'” (2Sm 19,22).

O mesmo significado no Novo Testamento quando Jesus diz a São Pedro: “Afasta-te de Mim, Satanás, porque tuas palavras são palavras humanas e não de acordo com Deus”. Significado de tentação humana.

3) Quando Salomão, após haver vencido duas batalhas afirma que “agora (…) não tenho Satã nem infortúnio”, deve entender-se simplesmente por povo inimigo (1Rs 5,18).

4) Pouco depois, já há dois Satãs para Salomão. A palavra Satã nesta oportunidade aparece três vezes. Satã nas três vezes designa povos inimigos.

(1Rs 11,14.23.25).

5) No primeiro Livro dos Reis (21,13) o termo Satã qualifica duas falsas testemunhas. Atitude em Satã, isto é, acusadores inescrupulosos, inimigos.

6) O Salmo 108 (ou 107),12-13 chama de Satã os inimigos em geral e concretamente o acusador no julgamento.

7) Igualmente Satã é para o salmista, mais uma vez, um acusador no julgamento: “Designa um ímpio contra ele, que um Satã se poste à sua direita” (Sl 109,6).

8) Depois do exílio, Satã personifica o acusador no tribunal divino. Iahweh “me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Iahweh, e Satã que estava de pé à Sua direita para acusá-lo” (Zc 3,1s.). Imagina-se o Supremo Juiz como um rei terreno rodeado de sua corte. Dentre os servidores, um deles tem o cargo de Satã, de promotor. Aqui Satã é um cargo, não uma pessoa. Não é um nome próprio, é um título.

9) O livro de Jó (1,6) refere que um dos Filhos de Deus se apresenta diante do trono de Iahweh. Filhos de Deus são os deuses, como filhos de Israel são os Israelitas. Esse Filho de Deus é Satã, que pede licença para satanizar a Jó. O nome comum Satã representa o cargo de acusador. E durante a narração dos acontecimentos, Satã representa a própria adversidade, a inimizade, a oposição. Mas nem por esse simbolismo se deixa de explicar expressamente que Satã é o próprio Jahweh que permite ou sanciona a adversidade.

Em Jó 1,7; 2,2, Satã diz de si mesmo que vem de percorrer a Terra, essa mesma função que se considera própria de Iahweh, cujos sete olhos “Percorrem toda a Terra” (Zc 4,10b).

No fim da descrição interminável de desgraças, o Livro de Jó tira a máscara de Satã. Continuamente Jó vai ensinando: “Pois sabei que foi Deus que me transtornou, envolvendo-me em suas redes (…) Ele bloqueou meu caminho e não tenho saída, encheu de trevas minhas veredas” (Jó 19,6-8); “Deus abateu-me o ânimo, Shaddai encheu-me de terror” (Jo 23,15). É Deus, “Shaddai que me amargura a alma” (27,1); “Instruir-vos-ei a cerca do poder de Deus, não vos ocultarei os desígnios de Shaddai” (11); “O terror de Deus caiu sobre mim” (31,23). Etc.

E é clarissimo o que em todo o livro pretende-se encutir: “Jahweh o deu, Jahweh o tirou, bendito seja o nome de Jahweh” (1,20).

10) No Eclesiástico, emprega-se a palavra Satã, como inimigo no sentido do próprio instinto quando incita ao pecado: “Quando o ímpio maldiz Satã, ele maldiz a si próprio” (Eclo 21,27).

11) Em Habacuc (2,5), Satã designa a peste. Grande inimiga…

12) No primeiro livro dos Macabeus designa-se com o termo Satã a “gente ímpia” e os “homens perversos” (1Mc, 1,34), no sentido de adversário maléfico. “Aquilo era uma emboscada para o lugar santo, um adversário maléfico para Israel constantemente” (1Mc 1,36).

13) O termo Satã é aplicado ao próprio Iahweh no Livro dos Números: é a oposição feita por Iahweh. O texto diz que o Anjo de Iahweh, isto é, o próprio Iahweh se interpõe em oposição no caminho de Balaão. “Sou Eu que vim contra ti em Satã” (Nm 22,32).

14) Como em Jó e em Números, também nas Crônicas (1Cr 21,1) Satã significa a oposição “feita” (permitida) pelo próprio Deus. “Satã levantou-se contra Israel e induziu Daví a fazer o recenseamento de Israel”.

15) O Livro da Sabedoria foi escrito originariamente em grego, ignoramos qual seria a palavra escolhida pelo autor sagrado se escrevesse em hebraico. O autor utiliza a palavra grega Diábolos, termo com o qual os Setenta freqüentemente traduzem a palavra hebraica  Satã: “É por inveja de Satã que a morte entrou no mundo” (Sb 2,24). Como São Paulo (Rm 5,12) ensina que pelo pecado de Adão entrou a morte no mundo e o pecado pela tentação da serpente, surgiu o erro de identificar Satã com a serpente do Paraíso. Já estudamos o significado da Serpente e já analisamos o correspondente texto do Livro da Sabedoria.

Conclusão

Portanto, na Bíblia Satã nunca designa um ser que possamos considerar um demônio no sentido, errado, tão difundido entre os cristãos de um ser sobre-humano e perverso. Não significa um ser mas sim a própria inimizade com Deus, o que afasta o homem de Deus.

A palavra Satã, na sua forma verbal, stn em hebraico, aparece seis vezes no Antigo Testamento (Zc 3,1; Sl 38,21; Sl 71,13; Sl 109,4; Sl 109,29). Poderíamos traduzi-lo por “satanizar”. Os Setenta geralmente traduzem o verbo stn por endiabállô em grego; caluniar nas línguas vernáculas (e o substantivo Satã os Setenta geralmente o traduzem por Diábolos, que significa caluniador).

BELIAL

Belial (forma hebraica) ou Beliar (forma grega) aparece 27 vezes no Antigo Testamento e uma (2Cor 6,15) no Novo. Delas, 21 vezes forma a expressão “filhos de Belial”, que eqüivale a chamar essas pessoas de “beliais”, qualificativo. Igual expressão aparece em Qumran. Por exemplo: “Deus faz sair aos justos fora da massa dos filhos de Belial (…). Belial intenta derrubar os filhos da luz, os oprime e persegue” (IQS III,24). Contrapõem-se os justos aos injustos, os beliais ou filhos das trevas aos iluminados ou filhos da luz.

Belial era uma divindade cananéia, o daíimon do mundo subterrâneo. No Antigo Testamento, em três (Sl 18,5; Sl 41,9 e 2Sm 22,5) das 27 oportunidades em que a palavra aparece significa esse mundo subterrâneo que a Bíblia utiliza no simbolismo religioso de lugar afastado de Iahweh.

O conceito de Belial tinha tudo para representar a personificação do mal. Esta personificação ocupa um lugar de destaque nos manuscritos do mar Morto: “Deus criou a Belial, o anjo das trevas, o espírito do mal (…). O mundo e os homens estão sob Belial, a quem Deus e os justos odeiam, e ele odeia a Deus e aos justos” (IQS III, 24). “Deus marcou um final para a injustiça. Então Belial e seus anjos (isto é, todos os homens maus), serão submetidos a julgamento” (IQS IV, 18).

MASTEMAH

Era na mitologia de certos povos orientais, o “Príncipe dos espíritos” dos gigantes, ou “Chefe dos demônios”. É às vezes chamado Satã. A palavra Mastemah tem a mesma raiz stn que a palavra Satanás. Também Mastemah significa inimizade.

Mastemah aparece na Bíblia sem nenhuma relação com qualquer ser sobrenatural. No livro do profeta Oséias: “Por causa da gravidade de tua falta, grande é tua hostilidade (mastemah) (…), uma rede está estendida em todos os seus caminhos, há hostilidade (mastemah) na casa do seu Deus” (Os 9,7s.).

O qualificativo ou ofício aplicado ao Chefe dos Demônios era sar hammastemah, conservado em alguns manuscritos etíopes, que significa “chefe da inimizade”. Depois erradamente se abreviou para “chefe Mastemah”, convertendo-se assim o qualificativo em nome próprio.

No conjunto dos escritos de Qumran até agora encontrados aparece o nome de Satã quatro vezes. Não aparece Mastemah como nome próprio do Príncipe dos demônios, mas sim como qualificativo de Belial: Belial, “anjo da inimizade” (mastemah) [IQM (Regra da Guerra) XIII, 11; CD (Documento de Damasco) XVI, 5]; “projetos da inimizade” (mastemah) de Belial (IQM, XIII, 4); “domínio da inimizade” (mastemah) de Belial [IQS (Regra da Comunidade) III, 23].

Como acabamos de ver, Satã, Mastema, Belial, Inimizade… (daí Incredulidade, Impiedade, Trevas, Ídolos, etc.) são sinônimos.

Etimologicamente, Belial significa inútil. Esta é a tradução mais correta da frase do Deuteronômio: “Caso ousas dizer que, numa das cidades que Iahweh teu Deus te dará para aí morar, filhos de Belial, procedentes do teu meio, seduziram os habitantes da sua cidade…” Ao pé da letra: “Homens sem utilidade”, daí “vagabundos”, “maus”.

Para mostrar este simbolismo religioso ver como exemplo a frase de São Paulo: “Não formeis parelha incoerente com os incrédulos. Que afinidade pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Beliar? Que relação entre o fiel e o incrédulo? Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo (2 Cor 6, 14-16).

O DIABO

O termo Satã, e satanizar, tão freqüente no Antigo Testamento, é substituído algumas vezes na tradução grega dos Setenta pelo termo Ho Diábolos (o Diabo), e na forma verbal pelo termo endiabállô (ao pé da letra haveria que traduzi-lo por “endiabrar”). Diabo e Satã, ou Satanás, são sinônimos. O substantivo Satã ou Diabo, além das 15 vezes que aparece no Antigo Testamento e mais 6 vezes na forma verbal, no Novo Testamento Satanás aparece 37 vezes.

Diabo, ou Diábolos, não procede de diáxo (= despedaçar) como afirma a Enciclopédia Britânica, senão de diabállô, isto é, bállô = arrojar, com o prefixo diá = através de: Expulsar através de.

O verbo diabállô e o substantivo diábolos passaram a significar, substituindo o efeito pela causa, a ação e a pessoa que apresenta cargos com intento hostil, falsa ou caluniosamente (para “arrojar”, “expulsar”, “derrubar” alguém). Hostilidade, é este o significado que corresponde à palavra hebraica Satã. A escolha da palavra Diabo para substituir a palavra Satã na tradução dos Setenta é alusão à lenda da queda dos anjos rebeldes.

Transformação do mito de guerra de deuses. Que cristão não aprendeu que antes da criação do mundo houve uma guerra de anjos rebeldes, capitaneados por Lúcifer, sendo derrotados pelos anjos bons, capitaneados por São Miguel, e sendo então os rebeldes arrojados do Céu? Milton escreveu um drama impressionante no seu Paraíso Perdido. Tudo lenda.

Na mitologia greco-romana, havia uma multidão de deuses que lutavam entre si. Inclusive o terrível Titã chamado Tifão lutou encarniçadamente contra seu pai e deus supremo, Júpiter. Expulso do Olimpo, a morada dos deuses, Tifão como todos os deuses rebeldes moram nos infernos, nos abismos, na escuridão. De lá partem para desencadear toda classe de males contra a humanidade.

No judaísmo tardio circulavam lendas a esse respeito. A unidade psicológica dos judeus através dos séculos e superando tantas dificuldades, em parte deve-se às suas lendas. A lenda da queda dos anjos foi introduzida pelo Livro de Noé, perdido. Este livro de lendas, para dar prestigio à coletânea, foi atribuído (recursos análogos são freqüentes) nada menos que ao Patriarca Noé. Na realidade é do século II a.C.

Os judeus estavam rodeados de povos cujas mitologias falavam de guerras de deuses. Mas els pensaram: Como pode haver guerras de deuses, se só existe um? E o Livro de Noé transformou a guerra de deuses em guerra de anjos.

Livro de Henoc. O mito da guerra dos deuses, diretamente emprestado dos cananeus, concretizou-se numa outra coletânea de lendas, o Livro de Henoc, descoberto na Etiópia em 1773. Consta de 108 capítulos, redigidos originariamente em aramaico, e talvez em parte em hebraico, mas na época do descobrimento só se encontraram cópias em etíope. Encontraram-se nada menos que 26 cópias, porque a Igreja etíope antiga considerava, erradamente, esse apócrifo como canônico, como pertencente à Bíblia. É conhecido como Primeiro Livro de Henoc (1Hn) ou então como Henoc Etíope (Hn-et). Hoje já possuímos fragmentos em hebraico e mormente em aramaico, encontrados em Qumran, nas cavernas dos antigos essênios junto ao Mar Morto. Não tem unidade. É mais uma coleção de peças de diversas origens e antigüidades, compiladas entre o século II e primeiras décadas do século I a.C.

Segundo os primeiros 36 capítulos do Livro de Henoc, 200 anjos guardiães, sob o comando de Semyasa decidiram engendrar filhos com as mulheres da nossa Terra. Cada guardião comportadamente tomou uma só esposa. Essas duzentas mulheres engendraram 3.000 gigantes (!).

Segundo o Livro de Henoc, os anjos guardiães teriam ensinado aos terráqueos a fabricação de armas, a produção de cosméticos, a adivinhação pelos astros e a feitiçaria. Se ensinaram, é porque conheciam e tinham. Ensinaram o que eles tinham nos seus planetas. Ora, que sentido teriam esses conhecimentos no conceito tradicional de anjos?! Para os partidários dos OVNIs, esses guardiães seriam ETs que tinham por missão velar o comprimento da lei nos diversos planetas habitados.

Mas aconteceu que os gigantes começaram a devorar homens… E os homens, aterrados, clamaram a Jahweh. O Altíssimo envia então o anjo Uriel para prevenir Noé do dilúvio com que planeja matar os gigantes; e para reprimir Semyasa, Azazel e demais anjos guardiães, envia Miguel.

Os guardiães – ou extraterestres – rebeldes, organizaram-se militarmente com um chefe para cada dezena. Mais adiante, nos capítulos 37-71, o Livro de Henoc vai apresentar repetidamente Satã como chefe dos guardiães perversos. Ou vários Satãs, vários chefes. Esta última parte do Livro de Henoc é já bem próxima da época de Cristo, certamente não mais distante Dele que os primeiros decênios antes de Cristo.

As milícias de guardiães e seus chefes foram vencidos pelas milícias de Miguel, e ficaram acorrentados em grutas subterrâneas durante 70 gerações. Setenta gerações em ocultismo significa por tempo incalculável. Expressamente se diz: “até o dia do Grande Julgamento (até o fim do mundo), quando serão lançados, junto com os homens maus, às masmorras de fogo”. Um pouco de humorismo: Estes demônios não molestam mais!

Os espíritos dos gigantes mortos no dilúvio, porém, segundo o Livro de Henoc, percorrem continuamente toda a Terra, fazendo mal aos homens. Também estes demônios serão condenados, mas só no dia do Juízo Final.

O Primeiro Livro de Henoc alcançou grande prestígio no judaísmo da época de Cristo. Era conhecido pelos escritores do Novo Testamento, e muitos Santos Padres e Escritores Eclesiásticos, erradamente o tinham como inspirado tal como os livros canônicos da Bíblia.

Livro dos Segredos de Henoc. Recentemente apareceu outro livro com título parecido, o Livro dos Segredos de Henoc, 2º Livro de Henoc (2Hn), ou Henoc eslavo (Hn-esl) porque só numa versão eslava chegou completa até nós. Contra o que muitos acreditavam até há pouco tempo, foi demonstrado que é uma compilação de lendas feita na Idade Média. Desprezemos o absurdo de viagens cósmicas (ou extraterrestes) de Jesus-Cristo. Destaquemos unicamente a repetição da lenda de gigantes: Jesus teria encontrado guardiães, prisioneiros por terem mantido relações sexuais com mulheres da nossa Terra, induzidos por Satanás.

Livro dos Jubileus. Também outro apócrifo, o Livro dos Jubileus (Jb), fala dos gigantes. Jb começou a ser escrito no século II a. C., embora um pouco posterior ao principal de 1Hn, chegando a ser concluído talvez até no século II d. C. Apresenta a história bíblica do Gênesis e dos 12 primeiros capítulos do Êxodo segundo a mentalidade do judaísmo contemporâneo de Cristo e com as lendas judaicas ou midrashim. Deve seu nome ao fato de suas lendas serem apresentadas em períodos jubilares de 7 em 7 anos. O Livro dos Jubileus repete a lenda de que os anjos-guardiães, ou ETs, vieram ao nosso mundo a ensinar aos homens, mas logo se apaixonaram pelas mulheres da Terra…

Quase todas as fontes desta lenda falam em relações sexuais com mulheres, não de varões da Terra com guardiães femininos. As viagens interplanetárias só seriam feitas por astronautas varões. O machismo, pelo visto, tão arraigado entre os judeus, teria bases cósmicas!

Em Jb não se fala expressamente da origem dos daímones maus ou demônios atormentadores, mas claramente se dá por suposto em todo o livro que são os espíritos dos gigantes mortos, como afirmava o Primeiro Livro de Henoc. Noé suplica a Deus que reprima aos daímones, encerrando-os nas masmorras do castigo, mas “o príncipe dos espíritos”, Mastema, consegue de Deus que uma décima parte dos demônios continue na terra pondo à prova os homens. Mais um pouco de humorismo: Só uma décima parte! De 3.000 gigantes a imensa maioria foi acorrentada nas masmorras até o fim do mundo. Alguns, quantos?, foram mortos, e só uma décima parte dos espíritos destes mortos… Bom, a coisa não ficou tão grave!

Queda de anjos? A origem lendária da queda de anjos rebeldes fica assim muito clara. Igualmente fica clara a origem da crença em demônios que atormentam os homens. Depois os cristãos simplificaram e concretizaram. Simplificaram a estritamente isso, guerra de anjos; e concretizaram dizendo que os anjos rebeldes foram capitaneados por Lúcifer, e os bons capitaneados por São Miguel. Tiraram todos os outros enfeites mitológicos.

Mas nenhum texto bíblico pode com direito ser invocado. No início do Antigo Testamento, no Gênesis, alude-se ao mito dos pagãos a respeito de deuses que se apaixonaram de mulheres humanas: “Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e tomaram como esposas todas as que mais lhes agradavam. Quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim (= gigantes) habitavam sobre a Terra; estes homens foram os heróis dos tempos antigos” (Gn 6, 2.4).

Na interpretação ocultista da Bíblia, os rabinos muito fantasiaram sobre as relações sexuais dos “filhos de Deus” com as mulheres humanas. Escrevem no Talmud: Já desde Adão, que “todos estes anos engendrou espíritos, demônios e fantasmas noturnos; pois se diz: ‘quando Adão tinha 130 anos engendrou à sua imagem e semelhança’, o que quer dizer que antes tinha engendrado seres que não eram à sua imagem e semelhança”. Mais ainda, no Talmud chegam a sugerir também que guardiães femininos tiveram relações sexuais com varões humanos. Durante todo esse tempo, da mesma maneira que Adão fecundava guardiães femininos, também Eva teria engendrado de guardiães masculinos, dando-lhes abundante descendência (Rabba 24,6).

A intenção desmitizante. A intenção de “batizar” a lenda aparece clara nesse texto bíblico. O Gênesis diz que os Nefilim, os gigantes, “estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos” (Gn 6,4). A Bíblia está claramente ensinando que os gigantes, gerados por anjos guardiões ou deuses pagãos, astronautas vindos de outros planetas, tudo isso na realidade são lendas a respeito de meros homens, heróis miticamente engrandecidos.

Igualmente a expressão Filhos de Deus significa originariamente deuses, como filhos dos homens simplesmente significa homens. Igualmente filhas dos homens significa mulheres. (Como posteriormente aquela expressão típica de Cristo: filho do homem; quer ressaltar que Ele, apesar da Sua divindade, não deixa de ser plenamente também homem).

O Diabo ou Satã é um dos “filhos de Deus”, um dos deuses de tantos que os pagãos cultuavam. Na Bíblia está escrito: “No dia em que os filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satanás” (Jó 1,6). E logo depois: “Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Iahweh, entre eles veio também Satanás” (Jó 2,1).

A expressão “filhos de Deus” logo vai ser modificada, ressaltando a desmitização. A expressão original antiga num dos primeiros livros da Bíblia diz: “Quando o Altíssimo repartia as nações (…) fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Deus” (Dt 32,8). Significaria “conforme o número dos deuses”. Esta expressão, “Filhos de Deus”, é de fato a expressão original, conforme acaba de confirmar um fragmento de Qumran. Os Setenta, porém, mitigaram a expressão, traduzindo: “Conforme o número dos anjos de Deus”. E o significado verdadeiro desse texto da Bíblia o dá bem a entender a edição hebraica dos massoretas, comum entre os antigos judeus: “Conforme o número dos filhos de Israel”, isto é, simplesmente “segundo o número de pessoas”.

Na realidade é que a Bíblia, como Revelação doutrinal, vai combatendo o politeísmo pedagogicamente, aos poucos. Primeiro exalta a figura de Iahweh sobre os deuses ou “filhos de Deus”, Iahweh é o “Deus dos deuses”, “Levanta-se Iahweh no meio do conselho dos deuses”, etc. Depois virão os profetas insistindo em que só há um único Deus.

Embora sem deixar o estilo exagerado e metafórico, tipicamente oriental (Deus arrependendo-se?), bem claro fica na Bíblia que Iahweh não se “irritou” contra os deuses e semi-deuses, guardiães, gigantes…: tudo isso não passa de mitos. Iahwéh se “irritou” contra os homens: “Meu espírito não se responsabilizará eternamente pelo homem, pois ele é carne (…). Iahweh arrependeu-se de ter feito o homem sobre a Terra (…). E disse Iahweh: ‘Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei (…), porque me arrependo de tê-los feito´” (Gn 6,3,6s).

O Livro dos Jubileus corrige com lógica 1Hn, mostrando, expressamente, que se os culpados foram os anjos guardiões e os gigantes, o dilúvio não poderia ser para castigar os homens. Se o termo “Filhos de Deus” não designasse seres humanos, da nossa Terra, não se compreenderia por quê Deus haveria de irritar-se com a humanidade.

Mais ainda, o 2º Livro de Henoc diz bem claramente, entre tantas obscuridades e contradições, que o pecado foi responsabilidade exclusiva dos homens. Deus não amaldiçoou Satã nem nenhum outro dos daímones ou supostas divindades. Amaldiçoou somente a ignorância humana.

Em outros dois textos da Bíblia aparece primeiro um reflexo impressionante da lenda dos filhos de Deus, anjos-guardiões, que gerariam gigantes. Impressionante, apesar de pretender “batizar” os guardiões identificando-os com anjos. Mas depois, em outro livro bíblico posterior, a desmitização do episódio, num texto paralelo, é claríssima.

Primeiro: O reflexo da lenda. No Gênesis. Os guardiões tiveram que voltar a Sodoma e Gomorra para verificar se continuavam com os vícios verificados em viagens anteriores. Disse então Iahweh: “O grito contra Sodoma e Gomorra é muito grande! Seu pecado é muito grave! Vou descer e ver se eles fizeram ou não o que indica o grito que contra eles subiu até mim. Então ficarei sabendo” (Gn 18,20s). Subiram até Deus reclamações? Deus precisa descer à Terra para poder ver e só assim ficará sabendo? É impressionante até onde calou esse reflexo da lenda.

E aparece de novo o intento de relacionamento sexual, desta vez por iniciativa dos homens desejando gerar gigantes: “Ao anoitecer, quando os dois anjos chegaram a Sodoma (…), Ló se levantou ao seu encontro e prostrou-se com a face por terra. Ele disse: ‘Eu vos peço, meus senhores! Descei à casa de vosso servo para aí passares a noite e lavar-vos os pés; de manhã retomareis vosso caminho´ (…). Tanto insistiu que foram para sua casa e entraram (…) e comeram. Eles não tinham ainda deitado, quando a casa foi cercada pelos homens da cidade (…), todo o povo sem exceção (…). ‘Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos´. Ló saiu à porta e, fechando-a detrás de si, disse-lhes: ‘Suplico-vos, meus irmãos, não façais o mal! Ouvi: tenho duas filhas que ainda são virgens; eu vo-las trarei: fazei-lhes o que bem vos parecer, mas a estes homens nada façais´ (…). Arremessaram-se contra ele, Ló, e chegaram para arrombar a porta. Os homens, porém, (…) aos homens que estavam à entrada da casa, eles os feriram de cegueira (…). Disseram a Ló (…): ‘Vamos destruir este lugar, pois é grande o grito que se ergueu contra eles diante de Iahweh, e Iahweh nos enviou para extermina-los´” (Gn 19, 1-13).

Segundo: A desmitização. Esta visita dos misteriosos anjos guardiões, extraterrestres, a Ló tem em outra oportunidade um paralelo absolutamente sem alusão ao mito, usando símbolos plenamente humanos: “Fazemos o caminho de Belém de Judá para o vale da montanha de Efraim, é de lá que eu sou. Fui a Belém de Judá e volto para casa (…). Tenho (…) pão e vinho para mim, para a tua serva e para o jovem que acompanha o teu servo (…). ‘Sê bem-vindo´, disse-lhe o velho (…). ‘mas não passes a noite na praça´. Então ele o fez entrar na sua casa (…). Os viajantes lavaram os pés e depois comeram e beberam. Enquanto assim se reanimavam, eis que surgem vagabundos da cidade, fazendo tumulto ao redor da casa e, batendo na porta com golpes seguidos, diziam (…): ‘Faz sair o homem que está contigo, para que o conheçamos´ (sexualmente). Então o dono da casa saiu e lhes disse: ‘Não, irmãos meus, rogo-vos, não pratiqueis um crime (…). Aqui está minha filha, que é virgem. Eu a entrego a vós. Abusai dela e fazei o que vos aprouver, mas não pratiqueis para com este homem uma tal infâmia´ (…). As tribos de Israel enviaram emissários a toda a tribo de Benjamim com a mensagem: ‘Que crime é esse que se cometeu entre vós? Agora, pois, entregai-nos (…) esses bandidos (…) para que os executemos e extirpemos o mal do meio de Israel´” (Jz 19,18-25 e 20,12s).

A intenção desmitizante é também muito antiga. No “evangelho hindu”, o Bhagavad-Gita (que está em extensão e importância para o Mahabharata do poema épico dos Vedas como o Evangelho está para a Bíblia), transmitido por tradição oral anterior a 5.000 anos a.C., narra-se o combate entre os exércitos do bem e do mal. Krishna anima o vacilante príncipe Arjuna a lançar-se com o exército dos Pândavas contra os exércitos dos Kurus, chefiados por Duryôdhana, no campo de batalha de Kurukshetra.

Krishna, encarnação do Espírito Supremo -bem poderíamos traduzi-lo por Cristo–. Arjuna e os Pândavas –ou São Miguel e seus anjos– representam a humanidade como conjunto e como indivíduo, com seus desejos e tendências à perfeição e ao Sagrado. Enquanto que Duryôdhana e seus Kurus –Lúcifer com seus demônios–, são a outra parte do homem, as forças do mal tais como o ódio, a luxúria, o egoísmo… Kurukshetra é a própria natureza de cada homem e da humanidade dividida em dois reinos antagônicos –Cristo e anticristo–.

A interpretação simbólica, desmitizante, que acabo de apresentar do Bhagavad-Gita foi e é a mais comum entre os sábios da Índia.

Poderia fazer idêntica explicação desmitizante, simbólica, de outras lutas entre o bem e o mal de outras mitologias do antigo Oriente, como a de Marduc e Tiamat na religião de Babilônia; de Ormazd e Ahrimam na antiga religião iraniana, etc.

Este mito iraniano é particularmente interessante para a lenda judaico-cristã de luta de anjos bons e maus. Forma parte do Zervanismo, forma especial da religião de Zaratustra desenvolvida na região ocidental do Irã, nos centros de dispersão dos persas. As divindades subalternas más, esquadrões das trevas (anjos rebeldes) capitaneados por Ahriman (Lúcifer), atacam a fortaleza do Céu, onde reside o Deus Supremo, único verdadeiro Deus, Zervan. Ao encontro das divindades más saem os resplandecentes guerreiros (os anjos bons) capitaneados pela divindade boa Ormazd (São Miguel). Zervan não intervém. Quando Ahriman está a ponto de chegar ao Céu fazendo recuar os exércitos de Ormazd, o campo de batalha se afunda nas trevas. Ahriman com seus exércitos ficarão acorrentado e retidos para sempre no abismo tenebroso. Novamente um pouco de humor: “Acorrentados e retidos para sempre”, os demônios não molestam mais.

A lenda da queda dos anjos se inspirou, imediata ou mediatamente, no Bhagavad-Gita, na mitologia babilônica, na mitologia iraniana…? Tudo é produto de uma mesma mentalidade oriental? A coincidência é manifesta.

Alusões neotestamentárias. No Novo Testamento encontram-se duas alusões, e provavelmente só duas, à lenda dos anjos rebeldes. São Judas: “Os anjos que não conservaram o seu principado, mas abandonaram a sua morada, guardou-os presos em cadeias eternas, sob as trevas, para o juízo do Grande Dia” (Jd 6). E São Pedro: “Deus não poupou os anjos que pecaram, mas lançou-os nos abismos tenebrosos do Tártaro, onde estão guardados à espera do Juízo” (2Pd 2,4). Alusões ao mito. Instrumento de linguagem para Revelar a justiça e no fim o perdão por Deus a quem se arrepender. Seria significativo em ambos textos, humoristicamente tomando-os ao pé da letra: os demônios não molestam mais, estão em cadeias eternas, guardados nos abismos tenebros.

Quando Cristo (Mt 25,41) fala do fogo preparado para o Diabo e seus anjos, está também aludindo à lenda da queda? Talvez. Mas de acordo com outros textos neo-testamentários (1Cor 5,5; 1Tm 1,20; 1Tm 3,6) e extrabíblicos (1Hn 63,3; Documento de Damasco 8,2) em todo caso esta indicando meramente o castigo dos homens pecadores = servidores do Diabo.

Igualmente: Segundo o Apocalipse os anjos e seu chefe Miguel, após rude combate, precipitaram sobre a Terra “o grande Dragão, a antiga Serpente, o chamado Diabo, ou Satanás, Sedutor” e seus anjos (Ap 12,7-11). Na realidade não se ratifica ou Revela a queda dos anjos, senão que se simboliza a vitória da Redenção contra as dificuldades dos cristãos. “O acusador dos nossos irmãos” teria algo que ver com o milenar conceito do Diabo, sendo que fica “dia e noite diante do nosso Deus”? (Ap 12,10). Todo o texto é enormemente alegórico e seria simplismo interpretá-lo como Revelação de uma real batalha e queda de anjos!

Além do mais é já de longa data (Cassiodoro, 480-575) e é mais esclarecida, indiscutível à luz da ciência, outra interpretação: A “luta dos anjos” no Apocalipse refere-se ao presente e futuro do cristianismo, não a um longínquo passado, antes da criação da humanidade. O Apocalipse é “o livro da profecia”, descreve o futuro do cristianismo. Como é possível que os “defensores dos demônios” não saibam nem sequer isto?

Algo de análogo a frase de Cristo que vê Satã caindo do Céu como um raio (Lc 10,18): se é que alude a essa lenda, na realidade só esta querendo metaforicamente afirmar que os apóstolos estão vencendo o mal.

Afinal qual teria sido o pecado dos anjos? Não posso me deter pormenorizadamente nas diversas concretizações que os Santos Padres, Escritores Eclesiásticos, Doutores da Igreja e teólogos ao longo dos séculos aplicaram ao suposto pecado dos anjos. Como acabamos de ver, a tal queda dos anjos não pertence à Revelação, portanto não pertence à Teologia, é tema da ciência, embora deva interesar, e muito, aos teólogos mesmo que só fosse para colaborar com a Parapsicologia em tirar tanta superstição em favor de uma fé racional. Nenhuma das disquisições teológicas sobre o pecado dos anjos têm base. Nem posso me deter em profundidade, nas puras elucubrações falsamente filosóficas que fizeram para explicar como poderiam pecar apesar de estarem contemplando a “face de Deus” e portanto irresistivelmente atraídos pelo Sumo Bem. Somente apresento brevíssimas alusões, complementares do tema tratado.

Atenágoras julgou que alguns anjos-potestades foram condenados porque não governaram bem os diversos elementos do mundo que lhes teriam sido confiados. Pressuposto manifestamente de origem pagã.

São Irineu, Teruliano e São Gregório Niseno aceitam o absurdo de que os anjos teriam se deixado levar por ciúme com respeito à humanidade por ser amada por Deus. Fundamentam-se (?!) só no apócrifo Vida de Adão e Eva. Feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), Adão seria mais glorioso do que os anjos! Deus teria pedido aos anjos que venerassem Adão. São Miguel e seus anjos teriam obedecido; Satã e os seus, não. Na realidade o Gênesis nem sugere nem dá enseio para tais conclusões.

Taciano, Orígenes, São Gregório Nazianzeano, Santo Agostinho, São Gregório Magno…, embora elaborem mais seus pensamentos, não estão mais acertados em nenhum dos seis itens:

1) O Eclesiástico afirma que Deus rejeita a soberba (Eclo 10,15). Por soberba, multidão de anjos não teria aceito que Deus se fizesse homem e não anjo. Ora, sua soberba lhes faria acreditar que eram mais inteligentes que Deus? Seriam os anjos tão pouco inteligentes, que nem perceberam a necessidade de redenção que tinham os homens pecadores?

2) Ou teriam se negado a adorar a Cristo. Ora, acaso eles não queriam adorar a Deus?

3) O pecado teria sido tentar Eva no paraíso. Ora, o sentido da lenda do paraíso é outro. O paraíso não se pode interpretar em sentido material. Voltaremos a isso em outra oportunidade, ao refutarmos o erro de atribuir as tentações aos demônios.

Ao maior absurdo, influenciados pelos mitos pagãos que acabamos de ver, descem São Justino, São Clemente de Alexandria, São Cipriano, São Eusébio de Cesareia…: os anjos pecaram sexualmente com mulheres!

Para Justino, como para Taciano e Teófilo de Antioquia, duas correntes bíblico-judaicas de demônios-potestades que não governaram bem o mundo, e demônios-anjos que pecaram com mulheres no tempo de Noé, se unem numa terceira interpretação: foram as potestades que pecaram com mulheres; menos Satã, “o príncipe dos demônios”: este pecou quando, transformado em serpente, tentou a Eva no Paraíso. Outras correntes, entre elas a dos anjos rebeldes e caídos antes da criação do nosso mundo, foram ignoradas.

Santo Agostinho, com sua genialidade, conseguiu amalgamar quase tudo! Agostinho modificou as fontes, violentou-as, adaptou-as, cortou o que não encaixava, acrescentou o que achava que faltava. A demonologia entrou em um verdadeiro leito de Procusto, aquele bandido que esticava os seus seqüestrados se eram demasiado pequenos para o leite de ferro, ou lhes cortava as pernas se não cabiam nele. Agostinho admite a possibilidade de que os anjos com um corpo tênue, depois da queda, pecaram com mulheres. Com Orígenes (ou com seu tradutor e prefaciante Rufino), Agostinho também identifica os demônios com os anjos que com seu chefe, Lúcifer, se rebelaram antes da criação do mundo. E estes mesmos anjos, rebeldes ou não, seriam as potestades que receberam o encargo de governar o mundo e todas as forças da natureza. Os anjos rebeldes seriam os que atuam por trás dos ídolos. E eles mesmos seriam os que residem pelos “espaços celestes”, e também nos “abismos tenebrosos do Tártaro” (2Pd 2,4). “Dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12). Etc .

E muitas outras interpretações ao longo dos séculos. Meras disquisições que pulularam nas Universidades Teológicas medievais, e que ainda vivem por todas partes.

DIABO NADA TEM A VER COM DEMÔNIOS

Como vimos no artigo anterior o termo demônio (ou algum equivalente exato em hebraico e/ou aramaico) não aparece nunca no original do Antigo Testamento. Portanto. Também não há nenhuma possessão demoníaca no Antigo Testamento. Em contrapartida, no Novo Testamento, os demônios aparecem 73 vezes. Por quê essa diferença? É um argumento importantíssimo para quando, em outra oportunidade, demonstremos que não há possessões demoníacas.

No Novo Testamento, distingue-se entre o Diabo e demônios. Também o perceberam e distinguiram acertadamente alguns Santos Padres (São Justino, Tertuliano, São Clemente de Alexandria…), porque alcançaram alguns conhecimentos científicos do vocabulário e modo de pensar e de expressar-se na época em que se escreveu a Bíblia, e sobre a cultura judaica e a influencia de diversas culturas pagãs.

O Diabo ou o Satanás são sempre apresentados no original da Bíblia no masculino, no singular, com maiúscula a primeira letra, e com artigo determinado. Sinônimos de “o Satanás” , são o Maligno, o Inimigo, o Príncipe deste Mundo, o Pai da Mentira, etc.

Para o termo “o Satanás”, não podem ser considerados exceções os textos de Mt 4,10; 16,23; Lc 4,8; 20,3; Mc 8,33, porque em todos estes casos Satanás aparece em vocativo e portanto não pode levar artigo.

O Diabo só uma vez aparece sem o artigo determinado, mas também não pode ser considerado exceção. A tradução deve ser: “Não vos escolhi Eu aos doze? No entanto um de vós é um Diabo” (Jo 6,70), como o Diabo.

Mc 3,23 seria a única exceção? Também não! A tradução tem que ser mesmo com artigo e adjetivo indeterminados para contrapor dois hipotéticos Satanás: “Como pode um Satanás expulsar outro Satanás?”

No Novo Testamento, só em duas oportunidades (Mt 25,41 e Ap 12,7-9) junto ao Diabo (o Dragão, no Apocalipse) são colocados “seus anjos”. Eles são subordinados; mas seriam da mesma espécie? Tal conceito é contraditório com o conceito geral que se reflete na Bíblia: o Diabo é apresentado como único. Essa é a função do artigo determinado na gramática grega do Novo Testamento. “Seus anjos” nestas ocasiões refere-se simbolicamente aos homens maus, aos falsos profetas.

DEMÔNIOS NADA TÊM A VER COM O DIABO

Não são da mesma espécie. Em contraposição ao Diabo, com referência aos demônios nunca se usa o artigo determinado. Não se refere a uma pessoa, nem em masculino nem em feminino. Se usada a palavra que traduzimos por demônio, sempre se coloca em neutro (coisa): daimónium. Usa-se também o plural do neutro: daimónia. Usam-se os sinônimos: espíritos impuros, espíritos imundos, etc. no singular ou no plural. Tudo completamente diferente de “o Diabo”. Os demônios não são tentadores, não agem no âmbito moral. É o Diabo ou Satanás que relacionam com tentações e pecados.

Em nenhuma parte da Bíblia se apresenta o Satã ou o Diabo atormentando possessos. Nunca se fala de possessões satânicas ou diabólicas. Quando “o Satanás entrou em Judas” (Lc 22,3; Jo 13,27) simplesmente significa que é o pecado voluntário e culpável que entra; o mesmo no caso de Ananias cujo coração foi enchido por o Satanás (At 5,3). O Diabo ou o Satã é, nestes casos, a personificação ou símbolo do pecado.

A mesma identificação do pecado como sujeição ao Satã aparece em outros textos: “A fim de (…) voltarem das trevas à luz, e do poder do Satanás a Deus, e alcançarem pela fé em Mim a remissão dos pecados” (At 26,18). Contra Elimas, contra o pecado de magia, exalta-se São Paulo, e “repleto do Espírito Santo, fixou nele o olhar e disse: ‘Ó filho do Diabo'” (At 13,8). É o pecado da superstição (At 19,18). Ou o pecado da crença de que a telepatia se deve a algum espírito do além (At 16,16). Ou o pecado da idolatria (At 19,26). Etc., etc.

Alguns Santos Padres utilizarão a mesma comparação simbólico-cultural. Identificam o pecado e o Satanás: são obra do Diabo os enfeites femininos (Ireneu, Tertuliano, Cipriano), a astrologia e a adivinhação em geral (Tertuliano, Clemente de Alexandria) e inclusive certa filosofia (Clemente de Alexandria).

São Pedro uma vez atribui ao Diabo o controle das doenças (At 10,38), mas o exerceria por meio dos demônios (Lc 10,17-19; 13,11-16; Mt 12,22-29; Mc 3,22-27). São os demônios, não o Diabo, os que causam certas doenças. Ou melhor, os demônios são doenças. Teremos que provar isto a fundo quando em outra oportunidades analisarmos as mal chamadas possessões demoníacas…

Em poucas palavras: O Diabo e demônios são conceitos diferentes. Demônios relacionam-se com doenças. O Diabo relaciona-se com o pecado. Os demônios estão na ordem física, e o Diabo ou o Satã, na ordem moral.

Conclusão. Em nenhuma parte da Bíblia se Revela a tal de guerra de anjos bons capitaneados por São Miguel, e anjos mãos capitaneados por Lúcifer. Não faz parte da Revelação de doutrina sobrenatural. Trata-se de cultura humana, de mitos e lendas humanas, absolutamente sem fundamento.

LÚCIFER

Não é raro que a Bíblia aluda ou use como instrumento de linguagem a mitologia greco-romana e tantas outras mitologias, que influíram na cultura dos povos vizinhos e do próprio povo judeu, direta e principalmente através da mitologia cananéia. Metáfora. Instrumento de linguagem, como tal plenamente alheio à Revelação, para transmitir a verdadeira Revelação Doutrinal, Sobrenatural.

O Salmo 82 chega até a apresentar Deus, o único Deus, contraditoriamente ameaçando outros deuses de fazê-los simplesmente mortais em castigo pelas suas injustiças. A ameaça divina meramente metafórica -é evidente- foi posteriormente materializada pelos judeus e cristãos, convertendo esses daímones ou deuses pagãos em demônios ou anjos rebeldes

Como aludíamos no artigo anterior, Lúcifer, ou Luzbel, passou a ser considerado na cultura cristã o chefe supremo de todos os demônios. Os anjos bons, capitaneados por São Miguel, haveriam derrotado todos os anjos maus, capitaneados por Lúcifer, expulsando-os do Céu.

Após Orígenes, começou-se a identificar Lúcifer com Satanás ou O Diabo. O quê tem a ver Lúcifer com o Satanás, com “o príncipe dos demônios”? Tudo puras disquisições de teólogos sem olharem para a ciência.

O falso fundamento. Na realidade, Isaías (14,12) não faz nada mais que comparar a queda dum tirano -o rei da Babilônia, sem dúvida Nabucodonosor ou Nabônides- à queda de Helél bem Shahar da mitologia fenícia. Na epopéia mítica de Râs-Shamra aparecem as divindades Estrela d’Alva e Aurora. Reuniam-se com os outros deuses na Montanha da Assembléia, como os deuses greco-romanos no Olimpo.

Ora, Helel bem Shahar ou a Estrela d´Alba, é o planeta Venus, a estrela mais brilhante ou Lúcifer (= Que leva a luz), a primeira estrela que aparece e a última que some. Queda de Lúcifer. A estrela mais brilhante. E transformou-se na queda de Satanás, e no príncipe dos anjos rebeldes.

Na versão latina da Bíblia, a queda de Hélél bem Shahar converteu-se na queda de “Lúcifer, que aparece pela manhã”, a Aurora. E outras traduções, como a Bíblia de Jerusalém, apresentam a versão etimológica: “Estrela d’Alva, filha da Aurora”.

São João, no Apocalipse, visa também ao significado etimológico: o próprio Cristo é chamado Lúcifer: “Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante estrela da manhã” (Ap 22,16). Haveria que pôr Lúcifer. Mas estando tão difundida a lenda da queda dos anjos, nenhum tradutor atreveu-se a colocar Lúcifer…

E a Igreja repete essa aplicação de Lúcifer a Cristo no Exultet da Vigília Pascal, quando se acende o cirio representando a Jesus Ressuscitado. Haveria que dizer “Eis o verdadeiro Lúcifer”, em vez de “a verdadeira estrela da manhã”.

O “ANJO DE IAHWEH”. E quê dizer de São Miguel?

Na Bíblia consta, por exemplo: “Clamamos a Iahweh. Ele ouviu a nossa voz e enviou o Anjo que nos tirou do Egito” (Nm 20,16). O “Anjo de Iahweh” na Bíblia é sempre o próprio Deus. Em Êxodo (14,19), descrevem-se “o Anjo de Deus que ia adiante do exército de Israel (…), a Coluna de Nuvens (…) diante deles”. Já em Números (17,7) esse Anjo de Deus e essa Coluna de Nuvens são a Glória de Iahweh, o próprio Deus: “Moisés e Aarão, ambos se dirigiram para a tenda da Reunião. Eis que a Nuvem a cobriu e a Glória de Iahweh apareceu”.

Só três nomes próprios de anjos aparecem na Bíblia: Miguel, Rafael e Gabriel. El significa o próprio Deus. Assim Rafael significa Deus cura. Por sua parte, Gabriel significa Deus revela. Foi um anjo que se apareceu a Nossa Senhora na Anunciação? Claro que não. Muito teremos que falar em outras oportunidades a respeito das Aparições… E não foi São Miguel, nada menos!, quem teria capitaneado os anjos bons conta Lúcifer e seus anjos. Miguel significa o poder de Deus.

É que os judeus consideravam falta de respeito nomear Jahweh diretamente, por isso esses circunlóquios: o anjo de Iahweh, a nuvem de Iahweh, a sombra de Iahweh…, ou como acabamos de frisar, Miguel, Rafael, Gabriel ou a força, a cura, a comunicação de Iahweh.

O PRÓPRIO DEUS OU O SATANÁS

No começo do artigo vimos o daímon, o deus, da torrente lutando contra Jacó. E por fim abençoando-o (Gn 32,23-31). Esse demônio a Bíblia o transformou no próprio Deus. Vimos também afirmar-se expressamente que Satã era o próprio Iahweh: “Sou Eu (Iahweh) que vim contra ti em Satã” (Nm 22,32par).

O mesmo acontece em outras oportunidades, algumas também já aludidas nos artigos anteriores. Por exemplo no Livro de Samuel se apresenta Iahweh inflamando em cólera contra Israel e incitando Davi a provocar a desobediência do povo fazendo recenseamento proibido, para que Deus tenha motivo de castigá-lo (2Sm 24,1). Quando, porém, mais tarde o Livro das Crônicas refere o mesmo episódio, substitui o nome de Iahweh pelo de Satã, como nome próprio (1Cor 21,1).

A função do Satã no Livro de Jó é submeter à prova a paciência e fidelidade do santo a Deus. Outras provações ou dificuldades nos livros anteriores da Bíblia eram abertamente atribuídas diretamente a Deus: “Deus pôs Abraão à prova” (Gn 22,1). “Foi lá que Ele (Iahweh) os colocou à prova” (Ex 15,25; ver também 16,4). “Moisés disse ao povo: ‘Não temais, Deus veio para vos provar'” (Ex 20,20). “O caminho que Iahweh teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te e conhecer o que tinhas no coração (…), para te humilhar e te experimentar” (Dt 8,2-16); “Porque é Iahweh vosso Deus que vos experimenta” (Dt 13,4); “A ira de Iahweh se inflamou então contra Israel (…) a fim de (…) submeter Israel à prova” (Jz 2,22; cfr. 3,1-4). Etc.

O povo judeu não suportava, por não compreendê-la, a idéia de que Iahweh pudesse causar (na realidade: permitir) qualquer acontecimento desagradável para seu povo. A figura de Satã, como personificação do mal, ofereceu a solução para o problema.

Nem por esse subterfúgio o Livro de Jó deixa de afirmar, bem no início da tragédia, que todas as desgraças que Satã inflige ao santo são com expresso consentimento do Altíssimo: “Iahweh disse a Satanás: pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele” (1,12).

E nem por esse subterfúgio Jó deixa de atribuir suas desgraças a Deus: “Os terrores de Deus assediam-me” (6,4). E falando com Deus, pergunta: “Por que não afastaste de mim o olhar? (…). Por que me tomas por alvo?” (7,19s). E a lição que a Biblia quer incutir: “Iahweh o deu, Iahweh o tirou, bendito seja o nome de Iahweh” (1,20). É Deus que na sua Infinita sabedoria sabe por quê permite as provações e como na sua Divina Providência poderá tirar o bem.

Na tradução grega dos Setenta chama-se ho Diábolos, o Diabo, ao Satã das Crônicas ou Paralelipônemos (1Cr 21,1). Igualmente, com referência ao Satã do Livro de Jó, igual faz-se com o Satã que no Livro do Profeta Zacarias é o acusador do sumo sacerdote Josué (Zc 3,1).

Em conclusão: Deus quando permite provações, é representado por o Satã, o Diabo, personificação inexistente da realidade do mal.

O PRÓPRIO DEUS OU UM DEMÔNIO

No Gênesis (12,17), “Iahweh feriu Faraó com grandes pragas e também sua casa, por causa de Sarai, a mulher de Abraão”. Quando, porém, o “Apócrifo do Gênesis” encontrado em Qumran recita o mesmo fato, é um espírito mau, um demônio, que fere os egípcios provocando-lhes chagas purulentas para impedir-lhes relações sexuais; e curam-se quando Abraão expulsa o mau espírito (Qumran, Genêsis Apócrifo 20, 16-24).

Pode ser significativo, ao menos é curioso, que em sânscrito ou devanagari -“a escrita dos deuses”!- o mesmo radical Assur, que significa deus, espírito divino, luz divina, sopro divino, pode significar também demônio, espírito maligno, trevas, sopro demoníaco. Igualmente, vimos que em grego daímon tanto pode traduzir-se por divindade como por demônio.

O PRÓPRIO DEUS OU DEUSES OU AS FORÇAS DA NATUREZA

Para os pagãos, as doenças e mortes são semeadas pelos daímones do meio ambiente, como o egípcio Set. Por exemplo a peste corresponde aos daímones ou deuses babilônicos Erra e Nergal, e ao Resef cananeu. Ou as doenças e a morte elas mesmas são deuses, como a deusa Zánatos = a morte.

Essas funções dos “daímones” ou esses deuses maus das mitologias pagãs, na Bíblia freqüentemente são atribuídas diretamente a Iahweh ou identificadas com Ele. “Se uma calamidade semear morte repentina, Ele ri do desespero dos inocentes (…). Se não for Ele, quem é então?” (Jó 9,23s.). “Sacrificar a Iahweh, nosso Deus, para que não nos ataque com a peste ou com a espada” (Ex 5,3). “Então Iahweh teve piedade da Terra e a peste deixou Israel” (2Sm 24,25). “Levo cravadas as flechas de Shadai e sinto absorver Seu veneno” (Jó 6,4; cf.14,18s).

As flechas, a espada, e os animais ferozes são símbolos conhecidos do maléfico deus Astar, da mitologia síria. A respeito na Bíblia se suplica a Iahweh: “Cercam-me touros numerosos, touros fortes de Basã me rodeiam; escancaram sua boca contra mim como leão que dilacera e ruge (…). Tu (Iahweh) me colocas na poeira da morte. Cercam-me cães numerosos (…) (Iahweh) salva minha vida da espada, meu único ser da pata do cão! Salva-me (Iahweh) da goela do leão, dos chifres do búfalo minha pobre vida!” (Sl 22,13-22).

Atribuem-se a Deus as forças da natureza ou do próprio homem. É Iahweh quem castiga com a lepra a irmã de Moisés (Dt 24,9). Deus enviou contra o povo serpentes abrasadoras (Nm 21,6); Ele entrega Israel aos inimigos (Jz 2,14); “Eu lhe endurecerei o coração” (Ex 4,21).

Essas forças da natureza e do homem, quando em si mesmas benfazejas ou trazem benefícios, podem também ser representadas por Anjos de Deus, que como já vimos representam o próprio Deus. Como também já vimos, os nomes destes Anjos benfazejos, mesmo quando se trate claramente de forças da natureza ou do homem, vinculam-se à própria Providência Divina: Miguel = “Quem como Deus?”. Gabriel = “Mensagem de Deus”. Rafael = “Deus cura”.

Da mesma maneira as forças da natureza e do homem, quando em si mesmas ou imediatamente são prejudiciais ou acarretam males, podem ser também consideradas “mau espírito procedente de Iahweh” (1Sm 16,14). É o Anjo Devastador que arrasa Jerusalém (2Sm 24,16), destrói Sodoma (Gn 19,13), mata todos os primogênitos dos egípcios (Ex 12,12) e 185 mil assírios do exército de Senaquerib (2Rs 19,35; 2Cr 32,21), destrói Jerusalém como contemplou Ezequiel (Ez 9,1), ou vinga Suzana com a morte dos anciãos caluniadores (Dn 13,55).

Em outros textos, porém, esses Anjos ou Espíritos Maus procedentes ou enviados por Deus são o próprio “mau espírito de Deus”, ou “a ira de Iahweh” (2Sm 24,1). No texto paralelo do Livro das Crônicas a ira de Deus, o próprio Deus, é chamado Satã (1Cr 21,1).

Hoje devemos distinguir entre a ação de Deus intervindo diretamente (milagre) por um lado, e por outro a ação da natureza que a Divina Providência, sem intervir, quer ou simplesmente permite (porque tudo colabora para o bem). A Bíblia, para inculcar que não existe mais Deus que Iahweh, nem mais Divina Providência que a do único Deus, não duvida em identificar Deus com os daímones, deuses bons e deuses maus, dos países vizinhos, mas na realidade a Bíblia está suprimindo todos esses demônios ou deuses. Um único Deus. Estas forças da natureza são atribuídas e até identificadas com Deus ou com os demônios, mas não passam disso: forças da natureza e humanas.

MASTEMA

No Gênesis (22,1-2), Deus submete Abraão à prova pedindo-lhe que sacrifique seu filho Isaac. O verdadeiro significado o fornece o apócrifo Livro dos Jubileus: quando conta o mesmo episódio, é Mastema quem sugere a Abraão o sacrifício.

Mastema é um príncipe do céu que, como Satã no Livro de Jó, tem acesso ao trono do Altíssimo. Mastema desempenha o mesmo ofício e pronuncia praticamente as mesmas palavras que Satã no Livro de Jó: “Havia vozes no céu a respeito de Abraão; dizia-se que ele era fiel em tudo o que Deus lhe dizia (…). E o príncipe Mastema veio e disse em presença de Deus: ‘Eis que Abraão ama seu filho Isaac (…). Diz-lhe, pois, que o ofereça em holocausto sobre o altar, e verás se cumpre esta palavra. Reconhecerás então se Te é fiel em tudo o que lhe provas´” (Jb XVII, 16).

Igualmente: no Êxodo (4,24) se diz que é Iahweh quem assalta o in-circuncisso Moisés e intenta matá-lo ao regresso do Egito. No livro dos Jubileus (48,3), porém, é Mastema.

MONSTROS NA BÍBLIA

Também hoje qualquer pessoa culta, tratando de qualquer tema, poético e mesmo científico ou religioso, alude à mitologia grega ou latina. E nem por isso haveríamos de pensar que tal autor acredita na existência dos deuses Júpiter, Palas ou Posseidón… Da mesma maneira a Bíblia cita a mitologia dos pagãos. Os exílios do povo judaico o puseram em contato com os temores mágicos. Aos quais, por outra parte, são propensos. todos os primitivos, no tempo ou na mentalidade, e portanto também o povo israelita antigo. Após o exílio, na tentativa de evitar guerras ou de ser dominados, e na época de Cristo em que caíram sob o poder romano, os israelitas eram permeabilizados por culturas pagãs. Traziam-nas os judeus das diásporas nas suas visitas a Jerusalém. Também o comércio com os países vizinhos. Esses temores, convertidos em demônios, são citados na Bíblia.

Isaías (13,21), por exemplo, no original, fala de que no deserto habitava Lilith e sua corte, uma divindade feminina dos babilônios, traduzida depois por Satanás e seres peludos, e depois identificados com demônios. A eles, segundo o Levítico (17,7) e 2 Crônicas (11,15), ofereciam-se sacrifícios como a divindades, embora divindades de segunda categoria. É evidente que o Profeta não está aceitando nem Lilith nem sua corte de grotescos daímones, demônios peludos, nem que habitem no deserto.

Como não toma a sério Leviatã, o deus monstro do mar, nem Lannin, o deus dragão. Esses demônios-divindades da mitologia cananéia, citadas no Ras-Shamra, poema de Zaratustra, são meros símbolos com que Isaías (27,1) designa o Egito. O mesmo faz o salmista (Sl 74,13s). O monstro Leviatã acreditavam que engolia o deus Sol quando acontecia o que hoje compreendemos como um eclipse. Os feiticeiros teriam poder de evocar o monstruoso Leviatã!

No Livro de Daniel, quatro bestas monstruosas saídas do mar (Dn 7,1-8) representam quatro impérios sucessivos (Dn 7,13-27).

No Apocalipse, já no fim do Novo Testamento, se retoma a imagem dos monstros. O Império Romano concretamente e em geral os homens que se opõem ao Cristianismo são representados pelo mesmo símbolo de Grande Serpente, monstros e bestas tais como Rahab e Leviatã, oriundos de um caos primitivo. Realmente impressionante é a descrição joanina da aparição no céu do Grande Dragão (ou Grande Serpente em muitas traduções), “cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas, sua cauda arrastava um terço das estrelas do céu, lançando-as para a Terra” (Ap 12,3-4).

Visão magnífica. Mas metáfora: o Império Romano e os inimigos do Cristianismo personificados pelo Diabo, Satã, o Sedutor do mundo inteiro, o Inimigo, o Acusador dos cristãos… diante de Deus! (Ap 12,7-10).

BEELZEBU

Usam-se três termos: Beelzebu, Baalzebub, e Beelzebul.

Zaratustra ou Zoroastro, o fundador do Parsismo, religião do Irã, viveu no século VI a.C., ou antes. Zaratustra adverte sobre os cuidados que se devem ter após o corte de unhas e cabelos, pois uma vez cortados e separados do corpo, já pertencem ao Maligno, demônio mosca, e a outros devas ou espíritos maléficos, pelo fato mesmo de serem moradas da sujeira.

No mesmo sentido, na mitologia cananéia, se adorava a Baal-Zebub, o deus do estrume, das moscas…

Ora, devemos destacar o significado etimológico de Baal = o príncipe. E assim Beelzebu foi convertido pelos judeus em “príncipe dos demônios” (Mt 12,24 e Lc 11,15).

Surgiu um jogo de palavras: Jesus usou conjuntamente o aramaico be’el (= senhor) e o hebraico zebul (= casa). Beelzebul seria o “senhor da casa”. Assim, quando Cristo foi acusado pelos judeus de expulsar demônios pelo poder de Beelzebu, disse então Jesus: “Se chamaram Beelzebu ao senhor da casa, quanto mais chamarão assim aos seus familiares” (Mt 10,25). E acrescentou: “Uma casa cai sobre outra (…). Quando um homem forte (…) guarda sua moradia (…); voltarei para minha casa, de onde saí” (Lc 11,17.21. 24).

Há outro jogo de palavras: Cristo teve presente também que Baal-Zebud era considerado o deus das moscas e que mora na sujeira: “Quando o espírito imundo sai do homem, perambula em lugares áridos (…). Voltarei para minha casa (…), chegando lá, encontra-a varrida e arrumada. Diante disso, vai e toma outros sete espíritos piores do que ele, os quais vêm habitar aí. E com isso a condição final daquele torna-se pior do que antes” (Lc 11,24-26).

Aquele jogo de palavras com referência ao senhor da casa, foi percebido por muitos teólogos que conhecem hebraico. Aliás há muitos textos tanto no Antigo como no Novo Testamento e na literatura apócrifa e rabínica, como também na cultura supersticiosa secular, que apresentam os demônios habitando desertos, lugares áridos, ruínas de casas abandonadas e lugares imundos como esgotos e cemitérios. É a mitologia pagã que grassou entre os judeus e passou também aos cristãos.

Mas geralmente escapou aos teólogos, entre os que lamentavelmente há poucos familiarizados com ciência, com Parapsicologia, esse outro jogo de palavras a respeito do deus da sujeira, da casa barrida. Como também lhes escapou outro detalhe muito importante, que deveremos explanar em outra oportunidade ao demonstrar os perigos do curandeirismo: Jesus sabia que quando Ele cura “endemoninhados”, a cura é imediata e perfeita, mas quando os curandeiros, “vossos filhos”, pretendem curar, sobrevêm “outros sete espíritos piores…, com isso a condição final daquele homem torna-se pior do que antes”.

Quando o próprio Cristo se faz eco dessas crenças populares, emprestadas do paganismo, evidentemente que não pretendia confirmar o mito.. Repitamos mais uma vez, até a saciedade: Cristo e a Bíblia não vieram a ensinar ciência senão Religião, usam a cultura da sua época como instrumento de linguagem para a Revelação da Doutrina Sobrenatural.

ETEMMU

Demônios e Espíritos Imundos, Espíritos Impuros etc. no Novo Testamento identificam-se também com espíritos de mortos. Para os semitas mesopotâmicos, Etemmu são os espíritos dos mortos insepultos e privados dos sacrifícios prescritos. Pensavam que ficam vagando pela Terra e podem causar inúmeras doenças e outras desgraças aos homens.

Para as especulações rabínicas, a identificação entre certos demônios com espíritos de mortos é, às vezes, manifesta. No Talmud e em outros comentários, os demônios são considerados entre outras coisas “seja como espíritos infortunados que foram deixados sem corpo quando, de repente, começou o Sábado, após o sexto dia da criação; seja como os construtores da Torre de Babel, assim transformados a modo de castigo”

Este conceito espírita, ele também, não só diversos deuses de segunda categoria ou daímones e anjos rebeldes, etc, pode incluir-se na terminologia demonológica do Novo Testamento. Como explica Flávio Josefo, historiador judeu que escrevia no século I, expulsavam “os chamados demônios, com outras palavras, os espíritos dos homens malvados que penetram nos vivos”.

SEDUTORES E FALSOS PROFETAS

São Paulo (1Tm 4,1) fala de “espíritos sedutores e doutrinas demoníacas”. Por todo o contexto escatológico, fala em sentido moral, refere-se a homens feitores da apostasia, falsos profetas, impostores.

Esses falsos profetas são concebidos pelo Apocalipse como “espíritos impuros, como sapos”, saindo “da boca do Dragão, da boca da Besta e da boca do falso Profeta (…). São com efeito, espíritos de demônios: fazem maravilhas e vão até os reis de toda a Terra” (Ap 16,13-14). Esses espíritos de demônios são na realidade homens impostores. Metáfora.

São Justino frisa que “muitos demônios poderão arrepender-se e salvar-se. Se o Verbo de Deus Revelou (?!) que Satã e alguns outros anjos serão certamente castigadas ao fogo eterno, é porque Deus previu que esses poucos de fato não se arrependerão”. Orígenes e numerosos outros Padres da Igreja também dizem que muitos demônios haverão de converter-se.

No fundo estão dizendo, acertadamente, mais do que pretendiam dizer, erradamente. Referindo-se a demonios, anjos rebeldes, nada disso encaixa no conceito tradicional de demônios. Mas sendo esses demônios na realidade representação de pessoas, de falsos profetas, estão acertadíssimos porque a misericórdia de Deus sempre perdoa a quem se arrepende.

E não é verdade que na Biblia se revele a condenação de Satã e seus anjos rebeldes. Na realidade, nada há de Revelação na Bíblia a respeito de guerra e queda de demônios, como temos visto nestes artigos. E veremos em outra oportunidade que não há absolutamente nenhum Dogma de Fé a respeito de demonologia. Nem pode haver, precisamente porque a demonologia não faz parte da Revelação.

CONCLUSÃO

AFINAL, O QUÊ SÃO OS DEMÔNIOS?

ADERÊNCIA EXTRÍNSECA

A cultura demonológica bíblico-judaica-cristã é um mosaico de fontes e conceitos diferentes e até contraditórios. Mostra grande variedade nos conceitos como nas fontes que os inspiraram. Tudo o que a Bíblia, o judaísmo e a historia do Cristianismo dizem a este respeito mostra invariavelmente os traços de noções emprestadas de culturas estranhas à autêntica Revelação.

Segundo otimamente escreve o prestigioso teólogo e grande parapsicólogo jesuíta Pe. Karl Rahner, a demonologia é “uma interpretação da experiência natural em torno de diversos (…) poderes (considerados) sobrenaturais. Tal doutrina (…) vai penetrando lentamente de fora da religião autenticamente revelada”.

Não pertence à Revelação nem, portanto, à Teologia. Trata-se de fatos, observáveis, do nosso mundo. Pertence à Parapsicologia dar a última palavra a respeito “dessa experiência natural em torno de diversos poderes” ou fatos incomuns e por isso misteriosos. Teremos que dar especial destaque às chamadas possessões demoníacas, às tentações, aos exorcismos…

O Papa realizou exorcismos?

É exagero dos jornalistas que o Papa tenha aplicado os exorcismos. Simplesmente rezou, após retira-la da multidão (“onde não há platéia, não há show”) por uma jovem que um padre antiquado qualificava como endemonhinhada. O mesmo fez com outra senhora. E ambas continuaram doentes…

O número 666 significa o número do diabo?

– 666. Em hebráico cada letra tinha um valor numérico. O número de um nome é o total de suas letras, e assim na Cábala ou Ocultismo hebráico 666 eqüivaleria a Cesar-Neron em letras hebráicas. São João no Apocalipse (13,18) o apresenta como Anti-Cristo (um dos anticristos).

Pe. Oscar G. Quevedo S.J.

Fonte: http://oepnet.sites.uol.com.br

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O que é Religião?

RELIGIÃO, EM BUSCA DA TRANSCENDÊNCIA
O QUE É RELIGIÃO? QUAL A DIFERENÇA DE SEITA?
MITOLOGIA É RELIGIÃO? O QUE É HERESIA?

RELIGIÃO deriva do termo latino “Re-Ligare”, que significa “religação” com o divino. Essa definição engloba necessariamente qualquer forma de aspecto místico e religioso, abrangendo seitas, mitologias e quaisquer outras doutrinas ou formas de pensamento que tenham como característica fundamental um conteúdo Metafísico, ou seja, de além do mundo físico.

Sendo assim o hábito, geralmente por parte de grupos religiosos de taxarem tal ou qual grupo religioso rival de seita, não têm apoio na definição do termo.

SEITA, derivado da palavra latina “Secta”, nada mais é do que um segmento minoritário que se diferencia das crenças majoritárias, mas como tal também é religião.

HERESIA é outro termo mal compreendido. Significa simplesmente um conteúdo que vai contra a estrutura teórica de uma religião dominante. Sendo assim o Cristianismo foi uma Heresia Judáica assim como o Protestantismo uma Heresia Católica, ou o Budismo uma Heresia Hinduísta.

A MITOLOGIA é uma coleção de contos e lendas com uma concepção mística em comum, sendo parte integrante da maioria das religiões, mas suas formas variam grandemente dependendo da estrutura fundamental da crença religiosa. Não há religião sem mitos, mas podem existir mitos que não participem de uma religião.

MÍSTICA pode ser entendida como qualquer coisa que diga respeito a um plano sobre material. Um “Mistério”.

Veja aqui uma lista de palavras relacionadas e seus significados.

PRESENÇA DA RELIGIÃO EM TODA A CULTURA HUMANA

Não há registro em qualquer estudo por parte da História, Antropologia, Sociologia ou qualquer outra “ciência” social, de um grupamento humano em qualquer época que não tenha professado algum tipo de crença religiosa. As religiões são então um fenômeno inerente a cultura humana, assim como as artes e técnicas.

Grande parte de todos os movimentos humanos significativos tiveram a religião como impulsor, diversas guerras, geralmente as mais terríveis, tiveram legitimação religiosa, estruturas sociais foram definidas com base em religiões e grande parte do conhecimento científico, “filosófico” e artístico tiveram como vetores os grupos religiosos, que durante a maior parte da história da humanidade estiveram vinculados ao poder político e social.

Hoje em dia, apesar de todo o avanço científico, o fenômeno religioso sobrevive e cresce, desafiando previsões que anteveram seu fim. A grande maioria da humanidade professa alguma crença religiosa direta ou indiretamente e a Religião continua a promover diversos movimentos humanos, e mantendo estatutos políticos e sociais.

Tal como a Ciência, a Arte e a Filosofia, a Religião é parte integrante e inseparável da cultura humana, é muito provavelmente sempre continuará sendo.

Veja aqui
Minha teoria Psicogênica da Religião
Minha teses sobre a relação entre Ética e Religião

TIPOS DE RELIGIÕES

Há várias formas de religião, e são muitos os modos que vários estudiosos utilizam para classificá-las. Porém há características comuns às religiões que aparecem com maior ou menor destaque em praticamente todas as divisões.

A primeira destas características é cronológica, pois as formas religiosas predominantes evoluem através dos tempos nos sucessivos estágios culturais de qualquer sociedade.

Outro modo é classificá-las de acordo com sua solidez de princípios e sua profundidade filosófica, o que irá separá-las em religiões com e sem Livros Sagrados.

Pessoalmente como um estudioso do assunto, prefiro uma classificação que leva em conta essas duas características, e divide as religiões nos seguintes 4 grandes grupos distintos.

– PANTEÍSTAS

– POLITEÍSTAS

– MONOTEÍSTAS

– ATEÍSTAS

Nessa divisão há uma ordem cronológica. As Religiões PANTEÍSTAS são as mais antigas, dominando em sociedades menores e mais “primitivas”. Tanto nos primórdios da civilização mesopotâmica, européia e asiática, quanto nas culturas das Américas, África e Oceania.

As Religiões POLITEÍSTAS por vezes se confundem com as Panteístas, mas surgem num estágio posterior do desenvolvimento de uma cultura. Quanto mais a sociedade se torna complexa, mais o Panteísmo vai se tornando Politeísmo.

Já as MONOTEÍSTAS são mais recentes, e atualmente as mais disseminadas, o Monoteísmo quantitativamente ainda domina mais de metade da humanidade.

E embora possa parecer estranho, existem religiões ATEÍSTAS, que negam a existência de um ser supremo central, embora possam admitir a existência de entidades espirituais diversas. Essas religiões geralmente surgem como uma reação a um sistema religioso Monoteísta ou pelo menos Politeísta, e em muitos aspectos se confunde com o Panteísmo embora possua características exclusivas.

Essa divisão também traça uma hierarquia de rebuscamento filosófico nas religiões. As Panteístas por serem as mais antigas, não têm Livros Sagrados ou qualquer estabelecimento mais sólido do que a tradição oral, embora na atualidade o renascimento panteísta esteja mudando isso. Já as politeístas muitas vezes possuem registros de suas lendas e mitos em versão escrita, mas Nenhuma possui uma REVELAÇÃO propriamente dita. Isto é um privilégio do Monoteísmo. TODAS as grandes religiões monoteístas possuem sua Revelação Divina em forma de Livro Sagrado. As Ateístas também possuem seus livros guias, mas por não acreditarem num Deus pessoal, não tem o peso dogmático de uma revelação divina, sendo vistas em geral como tratados filosóficos.

Vejamos alguns quadros comparativos.

ÉPOCAS DE SURGIMENTO E PREDOMÍNIO

PANTEÍSMO: As mais antigas, remontando a pré-história onde tinham predominância absoluta, e também presentes em muitos dos povos silvícolas das Américas, África e Oceania.

POLITEÍSMO: Surgem num estágio posterior de desenvolvimento social, tendo sido predominantes na Idade Antiga em todo o velho mundo, e mesmo nas civilizações mais avançadas das Américas pré-colombianas.

MONOTEÍSMO: Mais recentes, surgindo a partir do último milênio aC e predominando da Idade Média até a atualidade.

ATEÍSMO: Surgem a partir do século V aC, tendo vingado somente no Oriente e no Ocidente ressurgindo somente após a renascença numa forma mais filosófica que religiosa.

Neo PANTEÍSMO: Embora possuam representantes em todos os períodos históricos, popularizam-se ou surgem a partir do século XVIII.

BASE LITERÁRIA

PANTEÍSMO: Próprias de culturas ágrafas, não possuem em geral qualquer forma de base escrita, sendo transmitidas por tradição oral.

POLITEÍSMO: Nas sociedades letradas possuem frequentemente registros literários sobre seus mitos, e mesmo nas ágrafas possuem tradições icônicas mais elaboradas.

MONOTEÍSMO: Possuem Livros Sagrados definidos e que padronizam as formas de crença, servindo como referência obrigatória e trazendo códigos de leis. São tidos como detentores de verdades absolutas.

ATEÍSMO: Possuem textos básicos de conteúdo predominantemente filosófico, não possuindo entretanto força dogmática arbitrária ainda que sendo também revelados por sábios ou seres iluminados.

Neo PANTEÍSMO: Seus textos são em geral filosóficos, embora possuam mais força doutrinária, não incorrendo porém em dogmas arbitrários.

MITOLOGIA

PANTEÍSMO: Deus é o próprio mundo, tudo está interligado num equilíbrio ecossistêmico e místico. Crê-se em espíritos e geralmente em reencarnação, é comum também o culto aos antepassados. Procura-se manter a harmonia com a natureza, e o mundo comummente é tido como eterno.

POLITEÍSMO: Diversos deuses criaram, regem e destroem o mundo. Se relacionam de forma tensa com os seres humanos, não raro hostil. As lendas dos deuses se assemelham a dramas humanos, havendo contos dos mais diversos tipos.

MONOTEÍSMO: Um Ser transcendente criou o mundo e o ser humano, há uma relação paternal entre criador e criaturas. Na maioria dos casos um semi-deus se rebela contra o criador trazendo males sobre todos os seres. Messias são enviados para conduzir os povos, profetiza-se um evento renovador violento no final dos tempos, onde a ordem será restaurada pela divindade.

ATEÍSMO: O Universo é uma emanação de um princípio primordial “vazio”, um Não-Ser. Crê-se na possibilidade de evolução espiritual através de um trabalho íntimo, crê-se em diversos seres conscientes dos mais variados níveis, e geralmente em reencarnação.

Neo PANTEÍSMO: Acredita-se em geral no Monismo, uma substância única que permeia todo o Universo num Ser único. São em geral reencarnacionistas e evolutivas. A desatribuição de qualidades do Ser supremo por vezes as confunde com o Ateísmo.

SÍMBOLOS

PANTEÍSMO: Utilizam no máximo totens e alguns outros fetiches, é comum o uso de vegetais, ossos, ou animais vivos ou mortos.

POLITEÍSMO: Surgem os ídolos zoo ou antropomórficos na forma de pinturas e esculturas em larga escala. A simbologia icônica se torna complexa em alguns casos resultando em formas de escrita ideográfica.

MONOTEÍSMO: O Deus supremo geralmente não possui representação visual, mas os secundários sim. Utilizam símbolos mais abstratos e de significados complexos.

ATEÍSMO: O Não-Ser supremo não pode ser representado, mas há muitas retratações dos seres iluminados. Há vários símbolos representativos da natureza e metafísica do Universo.

Neo PANTEÍSMO: Diversos símbolos e mitos de diversas outras religiões são resgatados e reinterpretados, também não há representação específica do Ser Supremo mas pode haver de outros seres elevados.

RITUAIS

PANTEÍSMO: Geralmente ligados a natureza e ocorrendo em contato com esta. É comum o uso de infusões de ervas, danças, oráculos e cerimônias ao ar livre.

POLITEÍSMO: Passam a surgir os templos, embora em geral não abandonem totalmente os rituais ao ar livre. Em muitos casos ocorrem os sacrifícios humanos, oráculos e as feitiçarias de controle ambiental.

MONOTEÍSMO: Geralmente restritas aos templos, as hierarquias ritualistas são mais rígidas, não há oráculos pessoais mas sim profecias generalizadas com base no livro sagrado. Não há rituais de controle ambiental.

ATEÍSMO: Embora ainda comuns nos templos são também frequentes fora destes. Desenvolvem-se técnicas de concentração, meditação e purificação mais específicas, baseadas antes de tudo no controle dos impulsos e emoções.

Neo PANTEÍSMO: Em geral baseados no uso de “energias” da natureza. Não mais têm influência nos processos civis, sendo restritos a curas, proteção contra ameaças físicas e extrafísicas.

EXEMPLOS

PANTEÍSMO: Religiões silvícolas, xamanismo, religiões célticas, druidismo, amazônicas, indígenas norte americanas, africanas e etc.

POLITEÍSMO: Religião Grega, Egípcia, Xintoísmo, Mitologia Nórdica, Religião Azteca, Maia etc.

MONOTEÍSMO: Bhramanismo, Zoroastrismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Sikhismo.

ATEÍSMO:
Orientais: Taoísmo, Confucionismo, Budismo, Jainismo.
Ocidentais: Filosofias NeoPlantônicas, Ateísmo Filosófico (Não Religioso)

Neo PANTEÍSMO: Espiritsmo Kardecista*, Racionalismo Cristão, Neo-Gnosticismo, Teosofia, Wicca, “Esotéricas”, etc.

*Apesar do Kardecismo não se considerar Panteísta e sim antes Monoteísta.

PANTEÍSMO

As religiões primitivas são PANTEÍSTAS, acredita-se num grande “Deus-Natureza”. Todos os elementos naturais são divinizados, se atribuí “inteligências” espirituais ao vento, a água, fogo, populações animais e etc.

Há uma clara noção de equilíbrio ecossistêmico, onde é comum ritos de agradecimento pelas dádivas naturais e pedidos às divindades da natureza, em alguns casos requisitando autorização mesmo para o consumo da caça que embora tenha sido obtida pelo esforço humano, seria na verdade permitida, se não ofertada, pelos entes espirituais.

A relação de dependência do ser humano com o ecossistema é clara, assim como a de parentesco e de submissão. As entidades elementais da natureza estão presentes em toda a parte, conferindo a onisciência do espírito divino. Embora haja a tendência da predominância de uma presença mística feminina, a “mãe-terra”, o elemento masculino também é notável a partir do momento que os seres humanos passam a compreender o papel do macho na reprodução. Ocorre então a presença de dois elementos divinos básicos, o Feminino e Masculino universal.

É um domínio de pensamento transcendente, mais compatível com a subjetividade e a síntese, não sendo então casual que este seja o tipo religioso onde as mulheres mais tenham influência. A presença de sacerdotisas, bruxas e feiticeiras é em muitos casos, muito mais significativa que a de seus equivalentes masculinos.

Todas essas religiões são ágrafas, sem escrita, com exceção é claro dos NeoPanteísmos contemporâneos. Portanto são as mais envoltas em obscuridade e mistérios, não tendo deixado nenhum registro além da tradição oral e de vestígios arqueológicos.

POLITEÍSMO

Com o tempo e o desenvolvimento as necessidades humanas passam a se tornar mais complexas. A sobrevivência assume contornos mais específicos, o crescimento populacional hipertrofiado graças a tecnologia que garante maior sucesso na preservação da prole e da longevidade, gera um série de atividades competitivas e estruturalistas nas sociedades, que se tornam cada vez mais estratificadas.

Nesse meio tempo a influência racional em franca ascensão tenta decifrar as transcendentes essências espirituais da natureza. Surge então o POLITEÍSMO, onde os elementos divinos são então personificados com qualidades cada vez mais humanas. O que era antes apenas a Água, um ser de essência espiritual metafísica e sagrada, agora passa a ser representada por uma entidade antropomórfica ou zoomórfica relacionada a água.

No princípio as características dessas divindades não são muito afetadas, mas com o tempo, a imaginação humana ou a tentativa de se adequar as religiões às estruturas sociais, elas ficam cada vez mais parecidas com os seres humanos comuns, surgindo então entre os deuses relacionamentos similares aos humanos inclusive com conflitos, ciúmes, traições, romances e etc. E cada vez mais os deuses perdem características transcendentes até que a “degeneração” chegue a ponto destes se relacionarem sexualmente com seres humanos, o que significa a perda da natureza metafísica, da característica invisível, ou mais, de haver relações físicas e pessoais de violência entre humanos e divindades, sem qualquer caráter transcendente.

Em muitos casos é difícil distinguir com clareza se determinadas religiões são Pan ou Politeístas. Mesmo no estágio Panteísta por vezes pode-se identificar com muita evidência algumas personificações das entidades divinas, mas algumas características como as citadas no parágrafo anterior são exclusivas do politeísmo. É possível que os elementos que contribuam ou realizem essa transição sejam o Animismo, Fetichismo e Totemismo.

Ocorre também uma relativa equivalência entre deidades femininas e masculinas, embora as masculinas mostrem sinais de predominância a medida que o sistema de crenças se torne mais mundano, características de uma fase mais racional e técnica onde muitas vezes a religião politeísta caminha junto com filosofias da natureza.

É sempre nesse estágio também que as sociedades desenvolvem escrita, ou pelo menos passa a utilizar símbolos abstratos e códigos visuais mais elaborados, no caso do politeísmo asiático, egípcio e europeu por exemplo, evoluiu para um sistema de escrita complexo.

Muitas destas religiões têm então, narrativas de seus mitos em forma escrita, mas tais não possuem o valor e a significância de uma Revelação propriamente dita.

Num estágio final tende a ocorrer o fenômeno da Monolatria, onde a adoração se concentra numa única divindade, o que pode ser o ponto de partida para o Monoteísmo.

MONOTEÍSMO

Chega um momento onde o Politeísmo está tão confuso, que parece forçar o “inconsciente coletivo”, ou a “intuição global” a buscar uma nova forma de crença. Alguém precisa pôr ordem na casa, surge então um poderoso Deus que acaba com a confusão e se proclama como o Único soberano. Acabam-se as adorações isoladas e hierarquiza-se rigidamente as deidades, de modo a se submeter toda a autoridade do universo a um ente máximo.

O MONOTEÍSMO não é a crença em uma única divindade, mas sim a soberania absoluta de uma. A própria teologia judáico-cristã-islâmica adota hierarquias angélicas que são inclusive encarregadas de reger elementos específicos da natureza.

Um elemento que caracteriza mais claramente o MONOTEÍSMO mais específico, Zoroastrista, Judáico, Cristão, Islâmico e Sikh, é antes de tudo a ausência ou escassez de representações icônicas do Deus supremo, e sua desatribuição parcial de qualidades humanas, nem sempre bem sucedida. Já as entidades secundárias são comumente retratadas artisticamente.

A própria mitologia grega através da Monolatria, já estaria a dar sinais de se dirigir a um monoteísmo similar ao que chegou a religião Hindu, ou a egípcia com a instituição do deus único Akhenaton, embora ainda impregnadas fortemente de Politeísmo a até de reminiscências Panteístas no caso do Bhramanismo. Zeus assomava-se cada vez mais como o regente absoluto do universo. Entretanto um certo obstáculo teológico impedia que tal mitologia atingisse um estágio sequer semi-Monoteísta. Zeus é filho de Chronos, neto de Urano, essa descendência evidencia sua natureza subordinada ao tempo, ele não é eterno ou sequer o princípio em si próprio, que é uma característica obrigatória de um Deus Uno e absoluto como Bhraman ou Jeová.

Um fator complicador é que todas essas religiões apesar de seu princípio Uno, são também Dualistas, pois contrapõem um deus do Bem contra um do Mal. Entretanto não se presta “Sob Hipótese Alguma!”, qualquer culto ao deus maligno, como ocorre nas Politeístas. Saber se o deus maligno está ou não sujeito afinal ao deus supremo é uma discussão que vem rendendo há mais de 3.000 anos.

Diferente do estado Panteísta original não ocorre harmonia entre os opostos, e um deles passa a ser privilegiado em detrimento do outro. Sendo assim onde antes ocorria a divinização dos aspectos Masculinos e Femininos do Universo, e a sacralidade da união, aqui ocorre a associação de um com o maligno, fatalmente do elemento Feminino uma vez que todas as religiões monoteístas surgiram na fase patriarcal da humanidade.

O Bhramanismo sendo o mais antigo, ainda conserva qualidades tais como veneração a manifestações femininas da divindade, não condena a relação sexual e ainda detém a crença reencarnacionista que é uma quase constante no Panteísmo. Do Politeísmo guarda toda um miríade de deuses personificados, com estórias bastante humanas que envolvem conflitos e paixões. Mas a subordinação a um Uno supremo, no caso representado pela trindade Bhrama-Vinshu-Shiva, é clara. O panteão anterior Hindu foi completamente absorvido pelo monoteísmo Bhraman, e conservou até mesmo a deusa Aditi, que outrora fora a divindade suprema.

Já os monoteísmos posteriores, mais afastados do fenômeno panteísta, entram em choque mais evidente com o Politeísmo que geralmente está em estado caótico. Ocorre um abafamento da religião anterior pela nova e seu caráter patriarcal e associado a violência, especialmente a partir do Judaísmo, se impõe de forma opressiva. As divindades femininas são erradicadas ou demonizadas, sendo então obrigatoriamente associadas ao elemento maligno do universo. Esse fenômeno acompanha a queda da condição social feminina na sociedade.

Embora as teologias monoteístas, especialmente na atualidade, se esforcem para afirmar o contrário, o deus único Hebreu, Cristão e Islâmico, basicamente o mesmo, assim como o do anterior Zoroastrismo e posterior Sikhismo, são nitidamente masculinos, aparentemente renegando o aspecto feminino divino do universo, mas na verdade o absorvendo, uma vez que ao contrário de deuses “supremos” Politeístas como Zeus, Osíris e Odin, eles são carregados de atribuições de amor e compaixão, embora ainda conservem sua Ira divina e seus atributos violentos, o que resulta em entidades complexas, que possuem aspectos paternos e maternos simultâneamente.

Tal como a própria emocionalidade, esse é o período mais contraditório da evolução do pensamento Teológico. Apesar de estar sob o domínio de uma característica de predominância subjetiva, é o momento onde as sociedades se mostraram paradoxalmente mais androcráticas. Os elementos femininos são absorvidos pelo Deus Único dando a ele o poder de atrair e seduzir as massas pela sua bondade, mostrando sua face benevolente, mas por outro lado a espada da masculinidade está sempre pronta a desferir o golpe fatal em quem se opuser a sua soberania.

Tal união, confere aos deuses monoteístas um poder supremo inigualável, e tal contradição, tal desarmonia intrínseca, resultou não por acaso no período religiosamente mais violento da história. As religiões monoteístas, especialmente o trio Judaísmo-Cristianismo-Islamismo, são as mais intolerantes e sanguinárias da história.

ATEÍSMO

As religiões aqui caracterizadas como Ateístas negam simplesmente a existência de um Ser Supremo central, que tudo tenha criado e a tudo controle, e talvez seja nesse grupo que se sinta mais radicalmente a ruptura entre Ocidente e Oriente, mas basicamente o Ateísmo religioso tende a funcionar da seguinte forma.

Se o Monoteísmo tenta acabar com o “pandemonium” Politeísta e estabelecer uma nova ordem por algum tempo, acaba por também se mundanizar. As autoridades religiosas interferindo fortemente na política e na estruturação social, enfraquecem como símbolos transcendentes. A inflexibilidade fundamentalista do sistema se revela injustificável ante a problemática social e as conquistas e descobertas filosóficas e científicas e num dado momento o sentimento de descrença é tal que deixa-se de acreditar num deus. Surge o ATEÍSMO.

Esse é o ponto crucial, a razão pela qual de fato não acredito que existam Ateus no sentido mais profundo do termo, no máximo “agnósticos”.

Geralmente o ateu não é aquele que desacredita do “invisível”, de qualquer forma de Téos, mas sim o que descrê dos deuses personificados e corrompidos. Afinal até o mais materialista e cético dos cientistas trabalha com forças invisíveis! Fenômenos da natureza ainda inexplicáveis.

Gravitação Universal, Lei de Entropia, Mecânica Quântica e etc. não podem ser vistas! Apenas seus efeitos. Tal como sempre se alegou com relação aos deuses.

No que se refere a uma visão do Princípio, não creio fazer diferença acreditar que um corpo é atraído para o centro da Terra por uma força invisível da natureza ou pela vontade de um deus também invisível. Há apenas uma maior compreensão racional do fenômeno, com maiores resultado práticos, mas de um modo ou de outro, a explicação possui um certo caráter de fé, tão racionalmente satisfatório para o cientista quanto para o religioso, capaz de explicar com clareza o funcionamento do mundo e mesmo quando isso não ocorre, admiti-se como mistérios divinos, ou causas científicas ainda desconhecidas.

No caso do Oriente, o Ateísmo religioso surge principalmente na Índia, sob a forma do Budismo e do Jainísmo, e na China, sob o Taoísmo e o Confucionismo. Todas essas religiões possuem textos base com certo grau de respeitabilidade mística ou filosófica, mas o grau de liberdade com que se pode reinterpretar ou mesmo discordar destes textos é incomparável em relação aos livros sagrados Monoteístas.

É nesse nível que muitas posturas passam a ser desconsideradas como religiões, sendo tidas em geral como filosofias. No Ocidente, tal movimento ocorreu também na Grécia Antiga, através de Filósofos da Natureza que estabeleciam como princípio primário universal alguma “substância” completamente impessoal. Mais especificamente, Aristóteles colocava o MOTOR IMÓVEL como o princípio primário, e PLOTINO, estabelecia o UNO. Porém essa breve ascensão do Ateísmo filosófico e científico ocidental foi logo minada pelo sucesso do Monoteísmo cristão.

O Ateísmo no Ocidente só surgiu novamente após a renascença, no Iluminismo, onde outras formas filosóficas se desenvolveram, mas a mistura destas com os Neo Panteísmos e o avanço científico em geral resulta num quadro difícil de se diferenciar.

Mas o ponto mais complexo na verdade, é que Ateísmo e Panteísmo se confundem.

Religiões ATEÍSTAS e NEO-PANTEÍSTAS

As religiões Ateístas não crêem numa entidade suprema central, mas pregam a interdependência harmônica do Universo, da mesma forma que o Panteísmo.

Pregam a harmonia dos opostos como Yin e Yang, da mesma forma que a harmonia entre a Deusa e o Deus no Panteísmo, e constantemente adotam uma posição de neutralidade em relação aos eventos.

Provavelmente não por acaso TAOÍSMO e BUDISMO são as mais avançadas das grandes religiões num sentido metafísico, racional e mesmo científico. São imunes a contestação racional pois seus conceitos trabalham num plano mais abstrato mas ao mesmo tempo capaz de explicar a realidade, e fartos de paradoxos escapistas, sendo extremamente mais flexíveis que as religiões monoteístas por exemplo. Não há casos significativos de atrocidades cometidas em nome destas religiões em larga escala como as monoteístas ou nas politeístas monolátricas.

Porém, barreiras intransponíveis impedem que essas religiões sejam nesse esquema de divisão, classificadas como Panteístas. TAOÍSMO e CONFUCIONISMO que são chinesas equanto o BUDISMO e o JAINISMO Indianos, são religiões letradas. Possuem seus escritos fundamentais como os Sutras Budistas, o Tao Te-King Taoísta e os Anacletos Confucianos e os textos dos Tirthankaras Jainistas. Todas possuem seus mentores, Buda, Lao-Tsé, Confúcio e Mahavira. E todas são muito desenvolvidas filosoficamente, por vezes sendo consideradas não religiões, mas filosofia. Todas essas características inexistem no Panteísmo primitivo.

Portanto isso me leva a classificá-las como RELIGIÕES ATEÍSTAS, por declararem a inexistência de um Ser Supremo. Pelo contrário, o TAO ou o NIRVANA, o centro de todo o Universo segundo o Taoísmo e Confucionismo, e o Budismo, são uma espécie de Vazio, um Não-Ser.

Já o Neo-Panteísmo possui sim seus textos. É o caso do Espiritismo Kardecista, do Bahaísmo, do Racionalismo Cristão e etc. Embora muitos insistam em negar-se como Panteístas se inclinando para o Monoteísmo, porém uma série de fatores a distanciam muito deste grupo. Tais como:

A ênfase atenuada dada ao livro base da doutrina, que embora seja uma revelação, não tem o mesmo peso dogmático e em geral se apresenta de forma predominantemente racional. A postura passiva e não proselitista, e muito menos violenta, do Monoteísmo tradicional. A caraterização de seu fundador que mesmo sendo dotado de dons supra-naturais, não reivindica deificação e nem mesmo reverência especial. E o mais importante, diferenciando-as principalmente do Monoteísmo “Ocidental”, o tratamento totalmente diferenciado dado a questão da existência do “Mal”. Esses são alguns exemplos que tendem a afastar essas novas religiões, que prefiro agrupar na categoria Neo-Panteísmo, do grupo das Monoteístas.

PANTEÍSMO => Deus é Tudo

POLITEÍSMO => Deus é Plural

MONOTEÍSMO => Deus é Um

ATEÍSMO => Deus é Nada

Evidentemente, afirmar que DEUS é TUDO é muito similar a afirmar que é NADA. O ZERO é tão imensurável e incalculável quanto o INFINITO. Eles não podem ser medidos ou divididos, assim como não se divide por eles.

Vale lembrar que não se pode também rotular tal ou qual religião como meramente Pan, Poli ou Monoteísta. Muitas passaram pelas várias fases nem sempre de maneira perceptível e consensual. O próprio Budismo tem várias escolas bastante diferentes entre si, e mesmo o Cristianismo tem suas variantes com direito a reencarnação e sexo tântrico, e cujas atribuições de Deus o afastam das características monoteístas. Mas o processo macro, inconsciente, me parece ser esse! O de fases “psicohistóricas” que vão na forma:

PANTEÍSMO -> POLITEÍSMO -> MONOTEÍSMO -> ATEÍSMO -> PANTEÍSMO

Outro ponto importante é que jamais uma dessas formas religiosas deixou de existir totalmente, principalmente na atualidade onde a intolerância religiosa não é mais “tolerada” na maior parte do mundo. Esses tipos de religiões se misturam e se confundem, o que explica porque qualquer tentativa de se classificar as religiões é tão complexa.

Até mesmo essa divisão esquemática apresenta problemas, como a notável diferença entre o Monoteísmo “Ocidental”, Judaísmo-Cristianismo-Islamismo, fortemente interligadas, o Monoteísmo Oriental, Hindu, Bhramanismo e Sikhismo, e o sempre complexo Zoroastrismo, de características fortemente Maniqueistas, o que viria por vezes a suscintar a questão de se o Maniqueísmo, que tem forte influência sobre o Gnosticismo e o Catolicismo, poderia ser considerado Monoteísta.

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Pensar analiticamente diminui crença religiosa

27.04.2012 ]

Fé versus compreensão

O pensamento analítico pode diminuir a crença religiosa, mesmo nos crentes mais devotos.

O pensamento analítico é a forma de pensamento que usa a lógica indutiva ou dedutiva para compreender ou explicar as coisas através da decomposição em partes mais simples.

A outra forma de pensamento é a intuitiva, que resiste a qualquer tentativa de descrição pelo pensamento analítico – ela é fundamentalmente fruto da intuição.

O estudo, publicado hoje na revista Science, conclui que o pensamento analítico aumenta a descrença tanto entre crentes quanto entre céticos.

Questões de espiritualidade

“Nosso objetivo era explorar a questão fundamental do por que as pessoas acreditam em Deus em graus diferentes,” disse Will Gervais, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

“As questões de espiritualidade pessoais parecem ser influenciadas por uma combinação complexa de fatores, e estes novos resultados sugerem que o sistema cognitivo relacionado aos pensamentos analíticos é um fator que pode influenciar a descrença,” afirmou.

Os pesquisadores usaram tarefas de resolução de problemas, leitura de textos em fontes difíceis de ler, ou sugestões que induzem ao pensamento analítico, como observar a escultura O Pensador, de Rodin – tudo para induzir o pensamento analítico nos participantes.

Um outro conjunto similar foi apresentado de forma a induzir o pensamento intuitivo no grupo controle – a escultura mostrada foi o Discóbolo, de Míron.

Eles então avaliaram os níveis de crença religiosa dos participantes usando várias medições baseadas no auto-relato sobre as próprias crenças.

Religião e intuição

Os resultados mostraram que a crença religiosa diminui quando os participantes se envolvem em tarefas de análise, em comparação com os participantes que se envolveram em tarefas que não envolvem o pensamento analítico.

“Nosso estudo se baseia em pesquisas anteriores, que associaram as crenças religiosas ao pensamento intuitivo,” disse o professor Ara Norenzayan. “Nossos resultados sugerem que a ativação do sistema cognitivo analítico no cérebro pode minar o apoio intuitivo para a crença religiosa, pelo menos temporariamente.”

Gervais contou que agora planeja fazer novos estudos para verificar se o aumento da descrença religiosa é temporária ou de longa duração, e como os resultados se aplicam a culturas não-ocidentais.

Dados recentes sugerem que a maioria da população mundial acredita em Deus, embora ateus e agnósticos já se contem na casa das centenas de milhões, disse Norenzayan.

http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=pensar-analiticamente-diminui-crenca-religiosa&id=7695&nl=sit