Como a Rússia financia protestos no Ocidente contra o capitalismo

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Quem são os elementos que estão por trás da disputa entre a Rússia e o Ocidente

Melnik, República Tcheca Andrew Higgins New York Times News Service

Como acontece quase todo fim de semana, Ladislav Kasuka trabalhava um dia no computador — ou melhor, em um discurso anti-Ocidente para um site tcheco — e ficou meio sem saber o que pensar das mensagens que começaram a surgir em seu perfil do Facebook e lhe ofereciam dinheiro para organizar protestos de rua.

“Precisa de ajuda?”, dizia a primeira, em russo, de uma pessoa que não conhecia. A seguir veio outra, em uma mistura de russo com tcheco truncado, encorajando-o a fazer protestos de rua e ainda mais explícita na oferta de dinheiro.

Um pagamento inicial de 300 euros (US$368) foi oferecido ao stalinista tcheco em dificuldades financeiras para comprar bandeiras e outros acessórios para uma manifestação na capital, Praga, contra a OTAN e o governo pró-Ocidente da Ucrânia. Pouco depois, veio a oferta de 500 euros (US$558) para a compra de uma câmera de vídeo, a filmagem do evento e a postagem on-line. Outras pequenas quantias também foram sugeridas.

“É meio incomum, então fiquei surpreso”, confessou Kasuka em uma entrevista concedida em um shopping center ao norte de Praga, onde é segurança e ajuda na manutenção.

Ele decidiu que o dinheiro era para “uma boa causa” — estancar o crescimento da OTAN e dos hábitos capitalistas ocidentais nas terras antes comunistas da Europa Oriental — e, por isso, aceitou.

Mercenário ideológico

A estranha relação que se desenvolveu a partir de então, que consistiu em trocas de mensagens acaloradas sobre política nas redes sociais e um total de 1.500 euros em transferências bancárias, foi uma das inúmeras que floresceram na Europa Central e Oriental, em meados de 2014. E fez parte de uma campanha de influência frenética, embora muitas vezes confusa, financiada por Moscou e dirigida por Alexander Usovsky, escritor bielorrusso, agitador nacionalista russo e mercenário ideológico de uma batalha silenciosa para conquistar corações e as mentes na briga entre a Rússia e o Ocidente.

Comparadas com a suposta interferência russa nas eleições recentes dos EUA e França, as atividades de Kasuka e de outros com o mesmo papel praticamente não tiveram consequências. E ele sabe que está às margens da política tcheca — tanto que nunca sonhou em ir além do cargo de vereador de Melnik, cidadezinha ao norte da capital onde mora com a namorada no prédio de um conjunto habitacional todo pichado.

Ativismo freelancer

A colaboração de Kasuka com Usovsky foi descoberta em um lote de e-mails, mensagens do Facebook e outros dados que os hackers ucranianos “sequestraram” do computador do bielorrusso. E revelaram uma visão rara do aspecto mais básico e particularmente sombrio da estratégia de influência russa: ativistas freelancers que promovem sua doutrina no exterior, recebendo apoio de empresários russos e outros mais próximos do Kremlin, mas não do próprio Estado.

O foco de Usovsky eram os agentes políticos periféricos na República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia, e seu plano quase foi por água abaixo: os protestos organizados por Kasuka e outros atraíram pouca gente e os sites pró-Rússia que ajudou a criar não deram resultado algum.

Nada disso pareceu tê-lo desanimado, uma vez que estava fazendo planos mirabolantes e calculando orçamento para possíveis parceiros em Moscou, no início deste ano.

Seus comunicados oferecem uma visão reveladora da filosofia, das ambições e frustrações russas – e o grande destaque certamente são os contatos com o escritório de Konstantin Malofeev, bilionário nacionalista que foi atingido pelas sanções impostas pelos EUA por causa do suposto apoio aos rebeldes pró-Rússia no leste da Ucrânia.

Depois que Usovsky conseguiu orquestrar apenas algumas manifestações menores em Praga, Varsóvia e outras cidades, um assistente de Malofeev exigiu, em outubro de 2014, que ele criasse um plano “claro, concreto e realista para levar as forças pró-Rússia ao poder”.

Malofeev se recusou a me conceder uma entrevista e sua porta-voz, Nadezhda Novoselova, afirmou que o bilionário e seus assessores não tinham nada a ver com Usovsky.

Máquina caótica

Os relatos de que a Rússia usou ataques cibernéticos e a desinformação para interferir nas eleições norte-americanas convenceram muita gente de que Moscou opera uma máquina de influência bastante sofisticada; já as conversas com diversos colaboradores de Usovsky, além do conteúdo de seu computador hackeado, sugerem que, muitas vezes, a questão foi caótica, emperrada por brigas por dinheiro, rivalidades internas e visões absurdamente distorcidas de como funciona a política fora da Rússia.

Jakub Janda, vice-diretor do Valores Europeus, um grupo de pesquisa financiado pelos países ocidentais localizado em Praga que rastreou as campanhas de influência russas, disse que Usovsky parecia tão fora da realidade que poderia muito bem ser uma “isca” para fazer todo mundo achar que a questão da ameaça russa não pode ser coisa séria.

Engrenagem enorme

Já outros o veem como prova da maestria russa na negação plausível e a disposição do país em investir em oportunistas, por menores que sejam as chances de sucesso.

“Usovsky é um bom caso de estudo dos métodos russos. É um elo minúsculo em uma engrenagem enorme. Como ele, há dezenas de outros”, afirma Daniel Milo, ex-funcionário do Ministério do Interior eslovaco que hoje é especialista em extremismo do Globsec, um grupo de pesquisa na capital, Bratislava.

Usovsky se recusou a ser entrevistado para este artigo sem ser remunerado, mas em resposta às perguntas que enviei por e-mail, confirmou que seu computador foi grampeado e não contradisse a autenticidade das mensagens vazadas.

Histórico

Ele começou sua operação em 2014, gerando uma onda de fervor nacionalista em Moscou após a anexação da Crimeia e reforçando a crença entre a elite política e empresarial russa de que uma Europa unida em apoio às sanções ao país poderia ser dissolvida rapidamente.

Assim, criou uma rede de sites em diversas línguas para promover a unidade eslava, alugou um escritório em Bratislava e iniciou uma fundação de fachada que supostamente promovia a cultura.

Quando pergunto por e-mail quanto dinheiro levou dos patrocinadores moscovitas, a princípio negou ter recebido alguma coisa; depois, quando enviei uma cópia da mensagem que ele enviara, em outubro de 2014, descrevendo os cem mil euros que embolsara para financiar o “estágio preparatório” de seu trabalho na Europa Oriental, parou de responder.

Outras mensagens em seu computador grampeadas pelos hackers sugerem que o dinheiro saiu de Malofeev. Usovsky cobrou seus assistentes, exigindo milhares de euros entre o fim de 2014 e 2015, para financiar candidatos pró-Rússia nas eleições polonesas.

Manipulação

Embora não tenha chegado nem perto de eleger nenhum grupo simpatizante aos russos, Usovsky conseguiu parceiros na Europa Central e Oriental, prontos para aceitar sua “ajuda”. Ele também mostrou que sabia manipular o poder da internet para ampliar as vozes periféricas e fazer manifestações que foram fracasso de público parecer eventos decisivos. Trabalhou com agências de notícias russas controladas pelo Estado para garantir que as atividades de seus colaboradores tchecos, eslovacos e poloneses recebessem ampla cobertura.

Como, por exemplo, Kasuka, o stalinista tcheco, que aparece com regularidade na imprensa russa como analista de questões e geopolítica tchecas. Uma vez disse à RT que os EUA poderiam lançar uma bomba atômica na Ucrânia e pôr a culpa na Rússia como pretexto para começar uma guerra. E um pequeno evento que realizou em Praga apareceu no Perviy Kanal, um canal de TV russo de destaque.

“É a coisa mais insana. O Perviy Kanal mostra um protesto de dez gatos pingados como se fosse uma reivindicação séria, e não um bando que muito bem poderia ter fugido do hospital psiquiátrico”, diz o analista Roman Maca.

Depois que Malofeev, seu principal apoiador, jogou um balde de água fria em seus planos políticos – ambiciosos, mas totalmente impraticáveis –, Usovsky ficou ainda mais desesperado para conseguir mais dinheiro. E bombardeou outros russos com potencial de doador com planos detalhados para uma “quinta coluna pró-Rússia”, alegando que poderia destruir “a frente europeia anti-russa” canalizando verba para os políticos que se opõem à OTAN e à União Europeia.

Sem dinheiro, Usovsky procurou Kasuka, que considerava um projeto de baixo custo só para ajudá-lo a se manter vivo no jogo.

Só que o stalinista perdeu o interesse na política de rua. Diz que agora se concentra em seus textos, que falam dos riscos da guerra, das conquistas de Stálin e da miséria causada pela exploração capitalista.

“Para mim não interessa se o dinheiro vem do Kremlin ou dos EUA, contanto que ajude a causa. O que vale é a ideia”, conclui.

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Ideia de que iniciativa privada é melhor na saúde é uma grande falácia

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Investimentos em saúde

Na Grã-Bretanha, gasta-se 9,1% do PIB com saúde. Nos Estados Unidos, são 17,1% e subindo. [O Brasil gasta 3,6% do PIB em saúde].

Claro que nada vem de graça. Alguém tem que pagar. Mas, por enquanto (já que isso é uma outra história), a Grã-Bretanha goza de um sistema socializado, financiado principalmente mediante impostos e sem cobranças, ou com contas pequenas para remédios.

Nos Estados Unidos, entretanto, o sistema é fragmentado e particular, visando o lucro. Os rios de dinheiro gastos não vão fluindo para um resultado eficiente, a não ser para os acionistas. A expectativa de vida na Grã-Bretanha é de 81 anos – e somente 78,9 nos Estados Unidos [e no Brasil é de 73,6 anos].

A ideia de que a iniciativa privada é sempre a melhor e mais eficaz solução é uma das grandes falácias da nossa época.

Fica evidente, por exemplo, que o seu modelo de saúde é negativo para o povo dos Estados Unidos em resultados e, principalmente, em custos.

Cerca de 35% da sua população já enfrentou dificuldade financeira por causa de contas médicas. E a busca por lucro traz pressões para aumentar as cobranças para os saudáveis e limitar os tratamentos aos doentes – a velha história de oferecer o guarda-chuva quando está fazendo sol e retirá-lo na chuva.

Mais saúde, mais riqueza

Estima-se que o aumento de um ano na expectativa de vida é capaz de aumentar o PIB per capita em 4%, enquanto uma mão de obra mais saudável pode aumentar a produtividade de uma empresa de 20% a 47%.

Gastos com saúde, portanto, juntos aos com educação e infraestrutura, não são custos, mas investimentos. Faz sentido socializá-los até numa lógica puramente comercial, pois reduzem o custo de fazer negócios e aumentam a competitividade da economia.

O oposto acontece quando a iniciativa privada toma conta desses setores. Daí, haverá uma procura por renda, que faz tudo mais caro, tirando a competitividade.

Algumas atividades estratégicas, portanto, deveriam ser feitas pelo Estado – o que conduz a uma das perguntas mais importantes da atualidade: qual tipo de Estado?

Condições fundamentais para a iniciativa privada são um Estado de direito e a proteção dos ganhos, sem as quais ninguém vai investir. Adam Smith, o pai da economia clássica, sabia disso muito bem, embora muitos de seus chamados discípulos já tenham se esquecido…

O governo, escreveu Smith, “é, na realidade, instituído para a defesa dos ricos contra os pobres ou daqueles que têm alguma propriedade contra aqueles que não têm absolutamente nada”.

Contrassensos

Duas conclusões. Primeiro, quem mais se beneficia das ações do Estado deveria estar preparado para financiá-lo. A redução de impostos em cima das grandes empresas e os super-ricos é um grande contrassenso.

Segundo, o Estado é um ator integral na engrenagem. Qualquer modelo que considera o Estado uma interferência indesejada fica sem valor, pois postula uma situação que nunca existiu nem poderia existir.

Uma das lutas do século 21 é em prol de um Estado democrático, honesto e eficiente – aquele que criou o sistema de saúde na Grã-Bretanha seria um exemplo.

Foi um Estado mobilizado por guerra que, depois da vitória sobre os nazistas, conseguiu se direcionar para o bem comum. Ajudou nas lutas da [geração da] minha mãe, que nasceu em pobreza degradante, forneceu para os seus filhos oportunidades impensáveis pouco tempo antes e agora, embora sob ataque de forças poderosas, está ajudando num momento de necessidade.

É bastante possível que alguém que esteja lendo esse humilde artigo num iPhone – dos quais os componentes-chave (internet, GPS, tela sensível ao toque e outros) foram desenvolvidos com dinheiro público e depois entregues numa bandeja para a iniciativa privada.

O iPhone é, então, uma buginganga emblemática da época contemporânea.

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Fapesp divulga fraudes científicas e punições a pesquisadores

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Fundação publicou lista com 5 casos de violações cometidas por bolsistas. Ação faz parte de processo de transparência da instituição paulista.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp, divulgou cinco casos de violação cometidas por cientistas que solicitaram financiamentos de pesquisas ou já recebiam verbas da instituição mantida pelo governo paulista, que teve orçamento de R$ 1,1 bilhão em 2013 em desembolso destinado ao fomento da ciência.

As acusações, entre elas a de falsa coautoria, plágio e fabricação de dados, foram analisadas sob sigilo pela fundação dentro da política de “Boas Práticas Científicas”, criada em 2011, reforçada por uma portaria de 2013 que prevê a publicação dos nomes por tempo determinado no site da instituição, além das más condutas e da punição concedida.

A intenção é criar a consciência de autorregulação e autocontrole no setor acadêmico para evitar novas irregularidades.

Atualmente há 15 investigações de fraudes em andamento e outras 25 finalizadas, sendo que dez delas concluíram que o pesquisador teve má conduta científica. Cinco processos e respectivas punições já foram divulgados (leia abaixo) e outros cinco ainda serão publicados.

Casos analisados

De acordo com a Fapesp, receberam sanções os pesquisadores Andreimar Martins Soares, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto; Javier Amadeo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Antonio José Balloni, do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas; Flávio Garcia Vilela, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, em Pirassununga; e Cláudio Airoldi, do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Soares foi acusado de utilizar figuras já publicadas em artigos de outros autores em uma tese de doutorado da qual ele foi o orientador. Foi acusado de má conduta científica grave (se não intencional, ao menos por negligência grave) e punido com o cancelamento de bolsas concedidas pela Fapesp, além de ser impedido de solicitar novos recursos.

Amadeo foi processado por plágio após reproduzir em seu trabalho de pós-doutorado, sem aspas (o que descaracteriza uma citação), um trecho de 30 linhas do livro “As Revoluções do Poder”, de Eunice Ostrensky. Ele foi acusado de saber da falha e ser negligente, e terá que devolver as mensalidades recebidas da bolsa, além de ficar impedido de obter novos auxílios.

Balloni também foi acusado de plágio – o que teria sido reconhecido pelo próprio denunciado, segundo a Fapesp. Em consequência disso, ficou impedido de solicitar auxílio por um ano.

Vilela é acusado de falsa autoria de artigos incluídos na plataforma Lattes, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Por isso, também perdeu financiamentos e está impedido de pedir verbas à Fapesp por três anos.

Airoldi foi denunciado por utilizar imagens fraudadas em 11 artigos em que foi coautor. Por seis meses ficará impedido de solicitar investimentos à fundação. O pesquisador já havia respondido a processo pelos mesmos estudos na própria Unicamp, que recomendou a aplicação da pena de 45 dias de suspensão ao docente.

O G1 procurou todos os autores. Flávio Vilela, Javier Amadeo e Antonio José Balloni retornaram, por e-mail. Flávio Vilela disse que “foi julgado de maneira unilateral pela Fapesp” e que sua defesa será feita no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. “O processo será agora decidido por um juiz de direito e não mais pela Fapesp”, explicou Vilela.

Javier Amadeo afirmou que reconheceu o erro sobre a citação do livro, mas acrescentou que não houve má fé na utilização das referências. “Isso, na minha visão, diferencia o erro da má conduta científica. Lamentavelmente essa não é a interpretação da Fapesp. Tentei recorrer do processo, mas a Fapesp não aceitou o recurso e, portanto, a decisão foi mantida apesar dos meus argumentos.”

Balloni afirmou que o processo de acusação de plágio é “em grande medida, injusto”.”Minha pesquisa é genuína, inovadora e inédita. Sem a menor sombra de plágio ou coisa que o valha”, afirmou. Ele diz que sua suspensão por um ano acabou em abril deste ano, e que a fundação não deveria ter mencionado seu nome em relação a algo que já prescreveu. Balloni argumenta ainda que seu processo de defesa não foi completado. “Dois últimos documentos meus não foram analisados e tive o direito de defesa cerceado”, afirma.

Segundo Balloni, o problema identificado em seu trabalho foi na parte da revisão teórica. “A pressa em submeter o plano de trabalho à Fapesp e a sobrecarga de trabalho me induziram a não fazer algumas citações adequadamente dentro das normas previstas pela ABNT. Longe de querer aproveitar-me de trabalhos alheios, prejudicar autores, roubar ideias ou causar qualquer outro mal, tudo que tenho a dizer é que foi uma lamentável desatenção de minha parte – que deve ser relevada.”

O cientista diz ainda que os textos usados na fundamentação de seu trabalho “têm similares encontrados em dezenas de outras produções acadêmicas”. “Nada que foi usado (..) para contextualizar o projeto de bolsa Fapesp era inédito nem de fundamental importância para a proposta: ao contrário, minha proposta, sim, é que é inédita”, defendeu-se.

“Um exemplo do que os analistas da Fapesp se valeram é a definição de qui-quadrado (uma ferramenta estatística criada pelo matemático britânico Karl Pearson em 1900 e que nem o autor ‘plagiado’ lembrou de citar): há no mínimo centenas de livros e artigos que trazem essa definição. Portanto, deixar de citar pode até desmerecer involuntariamente o autor do texto, mas nada de inédito, inovador, moderno há ali que venha a ser reciclado e mereça ser tachado de plágio”, argumenta. “A academia deveria olhar mais de perto a questão do que é ou não plágio”, concluiu.

Transparência nas universidades

De acordo com Luiz Henrique Lopes dos Santos, assessor da diretoria científica da Fapesp, a ideia de divulgar as más condutas e as punições é apenas um dos elementos da política de Boas Práticas Científicas. Segundo ele, o foco maior é garantir que as instituições “coloquem a integridade científica na pauta, fomentar a transparência e evitar o corporativismo”.

“Queremos gerar na sociedade a percepção de que, embora em qualquer atividade humana há gente honesta e desonesta, a Fapesp está empenhada em preservar a integridade científica”, disse Santos.

Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, defende a atitude da Fapesp em divulgar os nomes e os erros como forma de preservar a integridade científica.

“O que eles estão fazendo é aquilo que a gente quer e briga como sociedade civil: transparência, tudo com direito a ampla defesa [dos acusados]. Caso não fizesse isso, poderia ser acusada de acobertar”, explica.

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Indústria farmacêutica age como o crime organizado, diz pesquisador

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Cláudia Collucci

O médico dinamarquês Peter Gotzsche, 67, não é um homem de meias palavras. Ele compara a indústria farmacêutica ao crime organizado e a considera uma ameaça à prática da medicina segura.

“Isso é fato, não é acusação. Ela [a indústria] sabe que determinada ação é errada, criminosa, mas continua fazendo de novo e de novo. É o que a máfia faz. Esses crimes envolvem práticas como forjar evidências e fraudes”, diz.

Professor na Universidade de Copenhague e um dos que ajudaram a fundar a Cochrane (rede de cientistas que investigam a efetividade de tratamentos), ele acaba de lançar livro “Medicamentos Mortais e Crime Organizado – Como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica” (Bookman Editora). Recém traduzida para o português, a obra tem causado alvoroço no meio médico.

Gotzsche reconhece os êxitos da indústria no desenvolvimento de drogas para tratar infecções, alguns tipos de câncer, doenças cardíacas, diabetes, mas expõe no livro dados que demonstram falhas na regulação de medicamentos e os riscos que muitos deles causam à saúde.

No início do mês, ele proferiu uma palestra no congresso mundial de medicina de família (Wonca), que ocorreu no Rio de Janeiro, onde deu entrevista à Folha.

*

Folha – O sr. compara a indústria farmacêutica ao crime organizado. É uma acusação muito séria. O sr. está sendo processado?

Peter Gotzsche – Não, porque isso é um fato, não é uma acusação. A indústria sabe que determinada ação é errada, criminosa, mas continua fazendo de novo e de novo. É o que a máfia faz. Esses crimes envolvem práticas como forjar evidências, extorsões e fraudes. Está bem documentado.
Eles dizem que os exemplos que cito no meu livro são velhos, que as práticas hoje são outras. Mas é mentira. Eu documentei crimes cometidos pelas dez maiores farmacêuticas entre 2007 e 2012. Esses crimes estão crescendo, e isso não é surpresa.

Por outro lado, a indústria produz drogas que trazem benefícios, certo?

Sim, alguns medicamentos trazem grandes benefícios. mas meu livro não é sobre os já bem conhecidos benefícios que algumas drogas trazem. Meu livro é sobre as falhas de todo um sistema, da descoberta, produção, marketing e regulação das drogas.

O sr. é especialmente crítico em relação à área da psiquiatria. Por quê?

As drogas psicotrópicas têm provocado muitos danos aos pacientes e podem se tornar ainda piores quando eles tentam interrompê-las porque aparecem os sintomas da abstinência, mas os psiquiatras muitas vezes negam isso.
Eles aprenderam com a indústria farmacêutica que nunca devem culpar a droga, mas sim a doença.
Não sei de outra especialidade médica onde haja tanto excesso de diagnóstico e de tratamento ou onde os danos dos medicamentos sejam tão debilitantes e persistentes em relação aos benefícios. Felizmente, alguns dos psiquiatras já perceberam que sua especialidade está em crise, então há esperança.

Mas essas drogas passam pelo crivo de agências reguladoras, que levam em conta os riscos e benefícios. Ou não?

Agências regulatórias têm feito um trabalho muito pobre por diferentes razões. Elas falam com a indústria farmacêutica, mas não falam com os pacientes. Para ter uma nova droga aprovada só é preciso provar que ela é melhor do que placebo, mas os efeitos colaterais não são levados muito em conta.
Esses danos são pouco estudados. Quanto mais estudos você faz, mais chances você terá de achar problemas. Uma droga precisaria ser efetiva e segura, mas isso não acontece em muitos casos.

Qual a saída?

O processo de regulação tem que ser melhorado. É preciso que as agências tenham mais independência e transparência e também encorajar as iniciativas que exponham as ligações das farmacêuticas com médicos e outros profissionais da saúde, associações de pacientes e periódicos científicos.

Qual a principal mensagem para pacientes e médicos?

Não confiem nos estudos publicados pela indústria farmacêutica. Muitas drogas são ineficazes e muito mais perigosas do que as pessoas imaginam. É uma tragédia dupla: as pessoas estão morrendo por causa de medicamentos e muitas vezes nem precisariam deles. Por essa razão, médicos devem prescrever menos remédios do que fazem hoje.

*

OUTRO LADO

Dirigentes de associações das farmacêuticas no Brasil repudiam a relação que o médico Peter Gotzsche faz entre o setor e o crime organizado.

“Não se pode criminalizar uma indústria que efetivamente faz saúde em caixinha, que evita que as pessoas fiquem doentes”, diz Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma (sindicato paulista da indústria de produtos farmacêuticos).

Para ele, Gotzsche trata de questões ideológicas e ultrapassadas. “Não conheço o livro, mas dei um Google.”

Segundo Mussolini, é graças a remédios produzidos pelas farmacêuticas que ele e o autor estão vivos hoje.

“Quando eu nasci, em 1958, a expectativa de vida para o brasileiro era de 53 anos e do europeu, de 60 anos. A indústria pode ter cometido erros no passado, mas não se pode criminalizá-la.”

Ele diz que nos últimos anos houve grande evolução nas questões regulatórias e de marketing e que práticas antiéticas foram banidas.

“No passado, era normal o médico viajar a convite da indústria a congressos fora do Brasil e levar junto a mulher, o filho. Ficava duas horas no congresso e uma semana de férias. Hoje nenhuma empresa aprova uma coisa dessas.”

Nos últimos 30 anos, diz, houve uma evolução na forma de pesquisar, registrar e promover os produtos. “Hoje só registramos um produto se conseguirmos demonstrar que ele traz ganho em eficácia e segurança em relação a outro já registrado.”

Antonio Brito, presidente da Interfarma (associação das farmacêuticas de pesquisa), lembra da preocupação do setor de avançar na transparência das relações.

Afirma que na semana passada a Interfarma lançou a terceira revisão do seu código de conduta, discutido com o CFM (Conselho Federal de Medicina) e a AMB (Associação Médica Brasileira).

“Sabemos que existem zonas cinzentas nessas relações e falhas de procedimento. Mas elas não serão resolvidas com atitudes que ultrapassam o bom senso.”


Raio-X
Peter Gotzsche

FORMAÇÃO
Formou-se médico em 1984 e é especialista em medicina interna

CARREIRA
Trabalhou com ensaios clínicos e regulação na indústria farmacêutica entre 1975 e 1983 e em hospitais em Copenhagen entre 1984 e 1995. Tornou-se professor de pesquisa clínica em 2010 na Universidade de Copenhagen

ATUAÇÃO
Cofundou a Colaboração Cochrane em 1993 e fundou o The Nordic Cochrane Centre no mesmo ano. É editor no Cochrane Review Group

http://m.folha.uol.com.br

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A História completa da BAYER — Uma das maiores empresas de controlo populacional do mundo

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por Edward Morgan

A Bayer AG é um gigante da indústria química e farmacêutica fundada em Barmen, na Alemanha, em 1863 por Friedrich Bayer e pelo seu parceiro Johann Friedrich Weskott.

Hoje tem a sua sede em Leverkusen, na Alemanha. Registou a marca do ácido acetilsalicílico como aspirina em 1899.

Também registou a marca da heroína um ano antes e, posteriormente, comercializou-a por todo o mundo ao longo de décadas como um “remédio para a tosse para crianças “, e “sem efeitos colaterais”, apesar dos perigos de vício conhecidos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a Bayer voltou a sua atenção para o fabrico de armas químicas, incluindo o gás de cloro, que foi utilizado com efeitos horrendos nas trincheiras. Também construiram uma “Escola de Guerra Química”.

Durante esse tempo a Bayer criou uma relação estreita com outras empresas químicas alemãs, incluindo a BASF e a Hoechst.

Esta relação foi formalizada em 1925, quando a Bayer foi uma das empresas químicas que se fundiram para formar o enorme conglomerado alemão Interessengemeinschaft Farben ou IG Farben, abreviado.

Tornou-se na maior empresa na Alemanha e tornou-se o maior doador para a campanha de Hitler.

Depois de Hitler chegar ao poder, a IG Farben trabalhou em estreita colaboração com os nazis, tornando-se no maior especulador da Segunda Guerra Mundial.

Entre muitas outras coisas, a IG Farben produziu todos os explosivos para as forças armadas alemãs e sistematicamente saquearam as indústrias químicas da Europa ocupada. Tem sido descrita como “chacal industrial” dos nazis à sombra dos exércitos de Hitler.

Durante a Segunda Guerra Mundial a IG Farben usou trabalho escravo em muitas das suas fábricas e minas e, em 1944, mais de 83.000 trabalhadores forçados e prisioneiros de campos de morte tinham sido colocados a trabalhar no campo da IG Farben em Auschwitz, na Polónia ocupada pelos nazis.

Auschwitz era um vasto campo de trabalho e de morte, onde mais seres humanos foram condenados à morte dos que foram mortos em toda a Primeira Guerra Mundial

Ela era composta por 3 campos principais: Auschwitz I, um campo de concentração; Auschwitz II (Birkenau), um campo de extermínio em que em 1944 cerca de 6.000 pessoas por dia eram mortas e Auschwitz III, que fornecia o trabalho escravo para a fábrica da IG Farben nas proximidades (Buna-Werke, também conhecida como IG Auschwitz).

A fábrica de Auschwitz da IG Farben era um complexo industrial massivo. O maior fora da Alemanha, que consumia tanta eletricidade quanta toda a cidade de Berlim.

Construída e gerida com recurso a trabalho escravo pensa-se – numa estimativa conservadora – ter custado pelo menos 35.000 vidas.

Em 1941, Otto Armbrust, o membro do conselho de administração da IG Farben responsável pelo projecto de Auschwitz da IG Farben, disse aos seus colegas “a nossa nova amizade com as SS é uma bênção. Nós determinamos todas as medidas necessárias para integrar os campos de concentração por forma a beneficiar a nossa empresa “.

E não foram só milhares de trabalhadores escravos que morreram por causa das condições em que trabalhavam para a IG Farben. Aqueles prisioneiros de campos que eram vistos como demasiado doentes ou fracos para continuar a trabalhar na fábrica da IG Auschwitz foram selecionados para as câmaras de gás.

A IG Farben pagava 100.000 reichsmarks a cada ano às SS e em troca foi assegurado um fornecimento contínuo de trabalho escravo, enquanto era “aliviada” de prisioneiros que não rendiam o esperado.

Elie Wiesel, o escritor e vencedor do Prémio Nobel e sobrevivente do Holocausto, chegou a Auschwitz em 1944 e foi enviado com o seu pai para campo de trabalho Buna da IG Farben.

Nesse mesmo ano, o sobrevivente do Holocausto e autor Primo Levi estava entre os 125 homens selecionados no terminal ferroviário para servirem de mão-de-obra na casa da IG em Buna-Werke.

Um dos apenas três sobreviventes deste grupo, Levi escreveu mais tarde sobre as suas experiências em detalhes arrepiantes:

Quinze dias depois da minha chegada, eu já tinha a fome prescrita, aquela fome crónica desconhecida para os homens livres… Na parte de trás dos meus pés eu já tinha as feridas dormentes que não cicatrizam. Eu empurrava vagões, eu trabalhava com uma pá, eu apodrecia à chuva, eu tremia ao vento, já o meu próprio corpo já não era meu. A minha barriga estava inchada, as minhas pernas magras.

Em Noite, o livro de memórias aclamado de Elie Wiesel sobre as suas experiências pessoais no Holocausto, ele descreve como os veteranos do IG Buna-Werke disseram aos que tinham chegado lá no final da guerra que o tratamento brutal que tinham vivido não tinha nada a ver com aquilo que a força de trabalho convencional da IG viveu:

“Sem água, sem cobertores, menos sopa e pão. À noite, dormimos quase nus e a temperatura era de 30 graus abaixo de zero”

“Nós recolhíamos cadáveres às centenas todos os dias… O trabalho era muito difícil… [Os agentes empregadores] tinham ordens para matar um certo número de prisioneiros diariamente, e todas as semanas havia uma selecção [para as câmaras de gás] – uma selecção impiedosa”

Quando se tratava de “seleção”, era uma subsidiária da IG Farben, com gestores da IG Farben na sua Comissão de Gestão, que fabricavam e forneciam o Zyklon B [gás usado nas câmaras de gás] ao SS.

Este pesticida à base de cianeto venenoso, do qual a IG Farben tinha a patente, foi usado durante o Holocausto para aniquilar mais de um milhão de pessoas em ambos os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau e Majdanek.

A fórmula do Zyklon B usado nas câmaras de gás era deliberadamente feita sem o odorante de advertência normal. A IG Farben também forneceu às SS o metanol usado para queimar os cadáveres.

Em 1946 o Tribunal de Crimes de Guerra de Nuremberga concluiu que, sem a IG Farben a Segunda Guerra Mundial simplesmente não teria sido possível.

O Procurador-Geral, Telford Taylor, advertiu:

“Essas empresas, não os fanáticos nazistas excêntricos, são os principais criminosos de guerra. Se a culpa desses criminosos não for trazida à luz do dia e se eles não forem punidos, eles representam uma ameaça muito maior para o futuro da Paz no mundo do que Hitler se ele ainda estivesse vivo”.

A sua acusação afirmou que, devido às actividades da IG Farben “a vida e a felicidade de todos os povos do mundo foram afectadas negativamente”.

“Acusações tão graves como fomentar a guerra e matar trabalhadores escravos também foram adicionadas. No seu discurso de abertura o Procurador-Geral de Nuremberga assinalou que “o sumário de culpa acusa estes homens de grande responsabilidade na guerra mais horrífica e catastrófica da história. Ele acusa-os de esclavagismo recorrente, pilhagem e assassinato”.

De acordo com os advogados de acusação de Nuremberga:

“Observamos que a Farben integrou-se com a tirania nazi, emprestando a sua genialidade técnica para fornecer… matérias-primas vitais para a reconstrução da máquina de guerra alemã, e emergindo com o apoio de Hermann Goering no mais alto nível do planeamento económico e da mobilização para guerra”.

“Constatamos que a Farben estava pronta para matar e, posteriormente, foi inchada pela conquista económica nos países indefesos ocupados”

“Diante duma escassez de trabalhadores, vimos como a Farben se virou para Goering e Himmler e persuadir essas pessoas ilustres a empacotarem as legiões de prisioneiros de campos de concentração como ferramentas da máquina de guerra da Farben”.

“Vimos como esses trabalhadores miseráveis morreram aos milhares, alguns no canteiro de obras da Farben, e muitos mais nas câmaras de gás de Auschwitz após a Farben ter esgotado a vitalidade dos seus corpos miseráveis…”

“Literalmente milhões de pessoas foram mortas no próprio quintal de um dos projectos de estimação da Farben – um projecto no qual a Farben investiu mais de 600 milhões de marcos do seu próprio dinheiro”.

Embora o Tribunal de Nuremberga tenha indiciado 24 membros do conselho da IG Farben e executivos com base em crimes contra a Humanidade, apenas 13 receberam sentenças de prisão.

E as frases que receberam foram descritas pelo Procurador-Chefe de Nuremberga como “leves o suficiente para agradar a um ladrão de galinhas”.

No início dos anos 1950 os condenados por esclavagismo, saque e assassinato em massa estavam de volta ao leme das suas próprias empresas – a Bayer e a Hoechstand BASF, formadas a partir dos activos da IG Farben em 1952.

Os proprietários destas “novas” empresas eram também accionistas da IG Farben.

Assim, embora a gravidade dos crimes cometidos pela IG Farben significasse que a empresa fosse considerada corrupta demais para que lhe fosse permitido continuar a existir, foi suplantada pelas suas componentes originais – as empresas como a Bayer que eram propriedade e geridas ao mais alto nível pelas mesmas pessoas que geriam a IG Farben.

Aqueles que tinham ajudado Hitler a chegar ao poder e sustentaram com know-how técnico as suas guerras de agressão e o Holocausto, estavam de volta ao controle da indústria.

O executivo da Bayer de nome Fritz ter Meer é um exemplo deste salto para trás.

Executivo da IG durante muitos anos, o cientista mais graduado no seu conselho de supervisão e presidente da sua comissão técnica, ele tornou-se um membro do Partido Nazi em 1937 e foi o executivo responsável pela construção da fábrica IG Farben em Auschwitz, na qual dezenas de milhares de trabalhadores escravos encontraram a morte.

As próprias visitas de Ter Meer a Auschwitz e os relatórios detalhados que recebeu davam a entender que era inconcebível que ele não tinha nenhuma ideia clara do que estava a ocorrer.

O Tribunal Penal de Nuremberga considerou-o culpado de pilhagem, escravidão e assassinato em massa. Como resultado, Ter Meer recebeu a mais longa sentença de qualquer dos membros do conselho de administração da IG Farben.

Mas apesar de ser considerado o mais culpado dos homens que, segundo as palavras do Procurador-Geral, “tornaram a guerra possível… os magos que fizeram com que as fantasias do Mein Kampf se tivessem tornado realidade”, Ter Meer já estava fora da prisão em 1952.

Em 1956 ele tornou-se o presidente do conselho de administração da Bayer, cargo que ocupou até 1964. Ainda hoje a Bayer continua a honrar este assassino em massa condenado.

No dia de Todos-os-Santos de 2006, por exemplo, é sabido que essa corporação colocou uma coroa de flores no túmulo de Ter Meer em Krefeld-Uerdingen, na Alemanha.

No entanto, ao longo de décadas a Bayer recusou-se a pagar uma indemnização aos seus trabalhadores escravos sobreviventes. Só depois de protestos internacionais é que fez isso, e eventualmente, concordou em pagar uma indemnização – mais de 50 anos após o fim da guerra.

A Bayer continuou a crescer no período pós-guerra, tornando-se maior do que o conjunto da IG Farben no seu apogeu. Mesmo como parte da IG Farben, a Bayer manteve a sua força nos produtos farmacêuticos.

Na realidade, experiências científicas tinham sido conduzidas especificamente em nome da Bayer em Auschwitz e noutros campos de concentração.

A IG tinha pago a conta da pesquisa de Josef Mengele, o infame “Anjo da Morte” de Auschwitz-Birkenau, e alguns das suas experiências laboratoriais utilizavam produtos farmacêuticos fornecidos pela Bayer.

Wilhelm Mann, cujo pai tinha liderado o departamento farmacêutico da Bayer, escreveu, como chefe do poderoso comité farmacêutico da IG, a um contacto nas SS em Auschwitz:

Anexei o primeiro cheque. As experiências do Dr. Mengele devem, como nós ambos concordamos, prosseguir. Heil Hitler

O empregado da IG, o major das SS Dr. Helmuth Vetter, destacado para Auschwitz, participou nas experiências médicas em humanos sob as ordens da Bayer.

“Os prisioneiros morreram como resultado de muitas dessas experiências. Vetter foi condenado por crimes de guerra em 1947 e foi executado em 1949, mas o papel da Bayer nesse processo só emergiu mais tarde. Nos arquivos da correspondência de Auschwitz foi descoberta correspondência entre o comandante do campo e a Bayer”

“Dizia respeito à venda de 150 prisioneiros do sexo feminino para fins de experiências laboratoriais e envolveu discussões sobre o preço”

Notas de um câmbio:

“As experiências foram realizadas. Todas as pessoas testadas morreram. Nós entraremos em contacto consigo em breve para uma nova remessa ao mesmo preço”

De acordo com o depoimento do médico das SS Dr Hoven durante o Tribunal Penal de Nuremberga:

“Deve ser do conhecimento geral, e especialmente nos círculos científicos alemães, que as SS não tinham notáveis cientistas à sua disposição.

“É claro que as experiências nos campos de concentração com preparações da IG só ocorreram nos interesses da IG, que se esforçou por todos os meios para determinar a eficácia dessas preparações”

“Eles permitiram que as SS lidassem com o – eu direi – trabalho sujo nos campos de concentração”

“Não era a intenção da IG expor-se desta forma, mas ao invés disso lançaram uma cortina de fumo em torno das experiências de modo a que… eles pudessem manter os lucros só para si.

“Não foram as SS mas sim a IG que tomou a iniciativa das experiências nos campos de concentração”

Nos anos do pós-guerra a Bayer cresceu para se tornar a terceira maior empresa farmacêutica do mundo. Em meados dos anos 1980 a Bayer foi uma das empresas que venderam um produto chamado concentrado de factor VIII para tratar a hemofilia.

Veio a descobrir-se posteriormente que o factor VIII estava contaminado com HIV e, só nos EUA, infectou milhares de hemofílicos, muitos dos quais morreram num dos piores desastres médicos relacionados com farmacêuticos de sempre.

Mas foi só em 2003 que o New York Times revelou que a Bayer tinha continuado a produzir e a vender este produto infectado para a Ásia e América Latina depois de Fevereiro de 1984, quando um produto seguro se tornou disponível, a fim de economizar dinheiro.

Dr. Sidney M. Wolfe, que investigou o escândalo, comentou:

Estes são os mais incriminatórios documentos internos da indústria farmacêutica que eu já vi.

No início de 1990 da Bayer é dito que a Bayer colocou pacientes em risco de infecções potencialmente fatais ao não divulgar informações sobre segurança cruciais, durante os testes do antibiótico Ciproxin.

Quase 650 pessoas foram operadas com Ciproxin sem que os médicos fossem informados que os estudos (já em 1989) mostravam que o Ciproxin reagia mal a outras drogas, prejudicando seriamente a sua capacidade de matar bactérias.

Em 2001, a Bayer teve de recolher o seu medicamento anti-colesterol Baycol / Lipobay, que foi posteriormente ligado a mais de 100 mortes e 1.600 feridos.

O ministro da Saúde da Alemanha acusou a Bayer de ter conhecimento das pesquisas que documentavam os efeitos colaterais letais do Baycol durante quase dois meses antes do governo em Berlim ser informado.

Pensa-se para ter sido em parte em resposta ao impacto do escândalo do Baycol que a Bayer comprou a unidade de ciências agrícolas da rival companhia francesa Aventis, que já havia absorvido parte da Hoechst, em Outubro de 2001.

A Bayer CropScience foi criada em 2002, quando a Bayer AG adquiriu a Aventis CropScience e fundiu-a com sua própria divisão de agroquímicos (Bayer Pflanzenschutz [Bayer “Protecção de de Colheitas”].

A empresa de biotecnologia belga Plant Genetic Systems também se tornou parte de Bayer via aquisição da Aventis CropScience.

Hoje, a Bayer CropScience é uma das divisões de negócios centrais da Bayer, que incluem:

– A Bayer HealthCare: medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos de diagnóstico;
– A Bayer MaterialScience AG: polímeros e plásticos;
– A Bayer CropScience: culturas geneticamente modificadas e agroquímicos.

A Bayer é o fabricante de pesticidas mais importante do mundo e a sétima maior empresa de sementes do mundo. A Bayer CropScience é responsável pela maioria dos ensaios de campo de Organismos Geneticamente Modificados em países europeus. As culturas geneticamente modificadas da Bayer são na sua maioria “Liberty Link [Ligação Liberdade]” – projectadas para serem resistentes ao seu herbicida “Liberdade”.

O “Liberdade” é um nome comercial para herbicida glufosinato da Bayer. Juntamente com as culturas Roundup Ready da Monsanto, as culturas Liberty Link da Bayer são um dos dois principais tipos de culturas resistentes a herbicidas GM, mas o glufosinato é um herbicida controverso.

Em Janeiro de 2009, o Parlamento Europeu votou para banir os pesticidas classificadas como cancerínogéneos, mutagénicos ou tóxicos para a reprodução.

Em resultado disso, a licença do glufosinato não será renovada. Uma avaliação da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) afirma que o glufosinato representa um alto risco para os mamíferos.

É classificado como tóxico para a reprodução por causa das evidências de pesquisa que mostram que pode causar partos prematuros, morte intra-uterina e abortos em ratos. Estudos japoneses mostram que a substância também pode dificultar o desenvolvimento e a actividade do cérebro humano.

O inseticida sistémico da Bayer, o Imidacloprid, vendido em alguns países sob o nome de Gaucho, e a clotianidina, também se provou serem altamente polémicos, pois acredita-se que tenham contribuído significativamente para a morte de abelhas.

Houve apelos para os neonicotinóides serem retirados como revestimentos de sementes para as culturas pois podem afectar abelhas, ou mesmo para uma proibição total da sua utilização.

Em Maio de 2008, as autoridades alemãs culparam o Clothianidin pela morte de milhões de abelhas, e o Escritório Federal Alemão de Defesa do Consumidor e Segurança Alimentar (BVL) suspendeu a inscrição de oito produtos de pesticidas para tratamento de sementes, incluindo a clotianidina e o Imidacloprid, no milho e colza.

Em 2008, a Bayer CropScience estava no centro de uma enorme controvérsia no rescaldo de uma explosão numa das suas instalações de produção de pesticidas nos EUA.

Uma investigação do Congresso EUA encontrou sistemas de segurança defeituosos, deficiências significativas nos procedimentos de emergência e falta de formação de funcionários responsáveis pela explosão que matou dois empregados.

A região aparentemente escapou por pouco a uma catástrofe que poderia ter superado a o desastre de Bhopal de 1984.

De acordo com a investigação do Congresso:

Evidências recolhidas pela comissão demonstram que a Bayer envolveu-se numa campanha de sigilo pela retenção de informações críticas do local, pelo condado e pelas equipas de emergência estatais ao restringir o uso das informações fornecidas aos investigadores federais; minando as agências de notícias e grupos de cidadãos preocupados com os perigos que representam as actividades da Bayer, e fornecendo informações imprecisas e enganosas para o público
A Bayer CropScience verificou-se ter deliberadamente removido e destruído provas após a explosão química.

A Bayer CropScience tem estado envolvida num grande número de controvérsias relacionadas com culturas geneticamente modificadas, talvez a mais notável tenha sido a contaminação em 2006 de grande parte do fornecimento de arroz de grão longo dos EUA pelo arroz “Liberty Link” GM não aprovado da Bayer.

Leia: A Bayer e o Governo Americano conscientemente contaminaram milhares de crianças com HIV

Isso causou a pior crise da indústria do arroz nos EUA:

– Mais de 40% das exportações de arroz dos EUA foram afectadas negativamente
– Várias acções judiciais federais foram arquivadas
– O comércio com os 25 países da UE ficou paralisado
– Outros países proibiram as importações de arroz de grão longo dos EUA
– Muitos outros países exigem o teste de todas as importações de arroz EUA
– Alguns mercados de arroz de grão curto e médio foram afectados

Outra cultura de arroz da Bayer GM não aprovada (LL62) também está a ser detectada em stocks de arroz nos EUA.

Os produtores de arroz dos Estados Unidos estão a ser avisados de que nunca mais serão capazes de rotular de forma válida a sua cultura como sendo “livre de OGM”.

Significativamente, um dos factores-chave na venda da Aventis CropScience à Bayer foi uma crise semelhante que envolveu a GMmaize.

O fiasco do Starlink começou quando em Outubro de 2000 vestígios de um milho da GMmaize Aventis chamado StarLink foram detectados em alimentos nos EUA, mesmo só tendo aprovação para serem usados como alimento para animais ou uso industrial.

O Starlink não foi aprovado para consumo humano porque a Agência de Proteção Ambiental não podia descartar a possibilidade de que os seres humanos fossem alérgicos a ele.

A agência aprovou condicionalmente o Starlink da Aventis sob a condição de que não fosse consumido humanos.

O fiasco do Starlink levou a uma recolha em massa de mais de 300 marcas de produtos alimentares norte-americanos devido à enorme escala da contaminação.

A ABC News informou no final de Novembro de 2000:

“No Iowa, o milho StarLink representa 1 por cento do total [de milho] colhido, apenas 1 por cento. Ele contaminou 50 por cento da colheita”

O gene StarLink também foi inesperadamente detectado num segundo lote de milho de companhia e nas exportações da USmaize.

A United Press International relatou: ” A Aventis CropScience quarta-feira falhou em explicar porque é que uma outra variedade de milho, além da sua marca StarLink, está a produzir a proteína [StarLink] Cry9C.”

As exportações de milho americanas para grandes compradores foram gravemente comprometidas. As autoridades federais culparam o aparecimento não autorizado de milho geneticamente alterado na cadeia alimentar exclusivamente no seu fabricante.

Fonte: http://www.gmwatch.org/gm-firms/11153-bayer-a-history

Recursos: http://www.gmwatch.org/gm-firms/11154-bayer-resources

Este artigo foi publicado originalmente em http://humansarefree.com/

http://pt.prepareforchange.net/2016/09/19/a-historia-completa-da-bayer-uma-das-maiores-empresas-de-controlo-populacional-do-mundo/

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Anvisa proíbe divulgação de produto que promete cura da aids

Anvisa proíbe divulgação de produto que promete cura da aids

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu, hoje (26), a divulgação de produto feito à base da planta Mutamba, com a promessa falsa de cura da Aids/HIV. A decisão foi publicada na edição de hoje do Diário Oficial da União.

O produto tem sido divulgado na internet, mas, segundo a Anvisa, a medida é preventiva, porque não foram encontrados indícios da comercialização do Mutamba contra aids, como é chamado.

A Anvisa destacou que o produto não tem registro na agência e é, portanto, um produto clandestino, de origem e composição desconhecida.

“O produto feito à base da planta Mutamba, não tem registro na agência, nem apresenta ensaios clínicos que comprovem suas características medicinais”, acrescentou a Anvisa.

Veja também:

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http://campos24horas.com.br

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John Ioannidis: “A maior parte da pesquisa médica não é confiável”

ioannidis

O médico americano, da Universidade Stanford, tornou-se um dos pesquisadores mais prestigiados ao denunciar interesses comerciais e erros nos estudos de medicina

Marcela Buscato

O médico americano John Ioannidis, de 50 anos, cria motivos aos montes para contar com a antipatia dos colegas. O título de um de seus estudos mais recentes, publicado em junho, é Por que a maior parte da pesquisa clínica não é útil. Seu artigo mais famoso, divulgado em 2005, afirma haver maior probabilidade de estudos médicos publicados estarem errados do que certos. Ao denunciar os erros das pesquisas, porém, Ioannidis conquistou o respeito e não a inimizade na academia. Ele vem mostrando que a aprovação de novas drogas e a adoção de novas práticas têm nascido de um jeito viciado de fazer ciência, que inclui de enganos corriqueiros e involuntários a manipulações mal-intencionadas e sofisticadas. Diretor do Centro de Pesquisa em Prevenção, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, Ioannidis se tornou um dos cientistas mais influentes do mundo em pesquisa médica. Seu trabalho descreve como a indústria farmacêutica se apropriou de estudos para favorecer a aprovação de novas drogas e como cientistas que trabalham nas universidades ficam presos à necessidade de encontrar resultados gritantes, ainda que forçados, para alcançar reconhecimento. “Não culpo os pesquisadores por fazer isso nem a indústria por querer aumentar sua participação no mercado”, afirma. “Nós os forçamos a fazer isso.”

ÉPOCA – Estamos na era das evidências na medicina. Há mais de 1 milhão de testes sobre drogas e intervenções. Por que o senhor diz que ainda não basta?
John Ioannidis – Fizemos progressos nos últimos 25 anos. Deixamos de perguntar a opinião de professores de medicina e passamos a adotar estudos comparativos para nos guiar. Entretanto, a maior parte da literatura biomédica não é nada útil. Muitas pesquisas não são sobre problemas relevantes para os pacientes. E o grosso dos estudos está perto do zero na escala de credibilidade. Há erros aleatórios e vieses propositais, que interferem nas conclusões.

ÉPOCA – Isso quer dizer que muitos estudos são fraudes?
Ioannidis – Não é que sejam fraude ou que os cientistas sejam fraudulentos. Eles só estão fazendo o melhor para chegar a resultados estatisticamente relevantes, que sejam extremos e incomuns. Nós os incentivamos a fazer isso. Conseguir esse tipo de resultado é a única maneira de publicar o estudo, conseguir financiamento e ser promovido na universidade. Então, eles farão o seu melhor: torturarão os dados até encontrar algo muito significativo. Além disso, existem pessoas com uma agenda que vai além de chegar a conclusões incomuns.

ÉPOCA – O senhor se refere a pesquisadores que conduzem estudos patrocinados pela indústria farmacêutica?
Ioannidis – A maior parte dessas pesquisas é patrocinada por fabricantes que, claramente, querem chegar a um resultado determinado ou, pelo menos, interpretá-lo segundo suas intenções. Quando a indústria farmacêutica está envolvida em pesquisa, não é pela curiosidade da descoberta científica ou para salvar as pessoas. Ela quer ganhar dinheiro. Pesquisadores de um estudo em que há um patrocinador com conflito de interesses podem até chegar aos mesmos resultados de outros envolvidos em uma pesquisa em que não há patrocínio. Mas, na etapa de analisar os resultados, talvez o grupo patrocinado interprete o mesmo número como indício de que a droga é incrivelmente eficaz e de que todo mundo precisa usar, e o segundo ache que ele não justifica alguém tomar a medicação, levando em consideração os efeitos colaterais e o custo do tratamento. Eu não culparia a indústria por querer chegar a resultados que aumentem sua participação no mercado. Nós a forçamos a fazer isso também.

ÉPOCA – O que o senhor quer dizer? A indústria aprendeu a usar o sistema científico a seu favor?
Ioannidis – Absolutamente. Não os culpo por fazer isso. Vinte anos atrás, se você quisesse vender uma droga, tinha de encontrar os professores de medicina com maior prestígio e ter certeza de que eles se tornariam membros do conselho de sua empresa. Eles apresentariam sua droga em grandes congressos, muitos médicos estariam ouvindo e seriam convencidos. Agora, as pessoas não ouvem mais a professores com prestígio, mas a pesquisas clínicas e a grandes estudos que compilam e analisam os achados de uma área. São as chamadas revisões sistemáticas e meta-análises. A indústria mudou o foco de sua atenção dos experts para esses testes e levantamentos. Todo o pensamento sobre como elaborar o estudo, que evidências encontrar, que manipulação analítica fazer são escolhas para conseguir resultados favoráveis.

ÉPOCA – O senhor pode dar um exemplo?
Ioannidis – Recentemente, meu grupo investigou levantamentos sobre antidepressivos. Encontramos 185, um número impressionante. Precisamos de 185? Talvez de um ou dois. Quatro estaria ótimo. Cerca de 80% desses levantamentos tinham algum tipo de envolvimento da indústria. Eles nunca diziam nada ruim sobre os antidepressivos. A conclusão era muito favorável: eram ótimos, eficazes e sem grandes perigos. Era algo do tipo “vá em frente e tome mais”. Quando esses levantamentos eram feitos por pessoas sem conexão com a indústria, mais da metade trazia ressalvas: afirmava que eles não eram tão eficazes ou que tinham alguns riscos a ser levados em consideração.

“Em vez de testar os próprios produtos, a indústria pode contribuir com um fundo público para custear pesquisas”

ÉPOCA – Como evitar o sequestro de um sistema de verificação científica que levou décadas para ser estruturado?
Ioannidis – A única maneira é desvincular os fabricantes de testar seus próprios produtos. Assim, não haveria razão para chegar a um resultado favorável exagerado ou para interpretar os resultados de maneira enviesada. A indústria deve ter todo o incentivo para desenvolver a melhor droga, o melhor tipo de exame diagnóstico. Mas é preciso ter os melhores testes para avaliar esses produtos, elaborados, conduzidos e analisados por cientistas independentes – idealmente com financiamento público. A indústria poderia contribuir com recursos, num fundo público, que custearia essas avaliações. Uma pequena parte das vendas dos medicamentos alimentaria esse fundo.

ÉPOCA – O que poderia ser feito para melhorar a qualidade das pesquisas sem fins comerciais, mas que o senhor também diz não serem úteis e críveis?
Ioannidis – Precisamos realinhar os incentivos com o tipo de ciência que queremos. Outros critérios deveriam ser usados para decidir se um trabalho será publicado numa grande revista científica, se o pesquisador receberá financiamento ou será promovido na universidade. Precisamos avaliar outras dimensões, como a transparência dos dados e do método usado, se outros pesquisadores conseguiram reproduzir o estudo e chegar aos mesmos resultados e se há potencial de aplicação para melhorar a vida das pessoas.

ÉPOCA – Há grupos de pacientes que questionam a necessidade de haver várias etapas na pesquisa de novas drogas. O senhor não teme, com seu trabalho, acabar fortalecendo esse tipo de desconfiança em relação à ciência?
Ioannidis – Existe esse risco. Mas charlatões sempre usarão qualquer argumento absurdo para apoiar suas alegações. Muita gente tem atacado os testes em que novas drogas são comparadas a outras mais antigas, o tipo de estudo mais confiável para avaliar a eficácia de medicamentos. Esses grupos usam argumentos que soam muito emocionais. Dizem que pessoas estão morrendo, que precisamos ser mais rápidos nesses testes que “duram para sempre” e citam todos os erros metodológicos – que eu nem posso negar, porque fui eu que descrevi. Mas daí a abandonar esse tipo de estudo comparativo… E fazer o quê? Voltar para a Idade Média? Não é assim que se progride na ciência. A única maneira de fazer frente a esses grupos é se apegar ao método científico, baseado na transparência, no escrutínio dos erros, na reflexão cuidadosa sobre vieses. Estamos falando de ceticismo saudável sobre como os estudos são elaborados. Dizer que nunca estamos errados não é ciência, é dogma.

ÉPOCA – Mas, na prática, os pacientes – e mesmo os médicos – podem ficar confusos ao considerar os problemas apontados pelo senhor. Estamos sem parâmetros para tomar decisões médicas?
Ioannidis – Não devemos ficar pessimistas sobre nossa habilidade de tomar decisões ou sobre a utilidade da ciência médica. Há muitas coisas na medicina baseadas em ciência muito sólida. Fumar, por exemplo. Sabemos muito bem que é devastador. As vacinas são um sucesso. Mas há muitas outras coisas sobre as quais não temos tanta certeza, como novos e caros tratamentos. Precisamos reconhecer as incertezas. Temos de comunicar primeiro para os médicos e depois para os pacientes que um novo tratamento tem 1% de chance de funcionar, ou 5%, ou 10%. Você toma a decisão consciente dos riscos e se estiver disposto a pagar – ou a fazer seu governo pagar. É preciso integrar a ciência à vida cotidiana.

Veja também:

http://epoca.globo.com

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