Hiperestesia indireta do pensamento

LEITURA SENSORIAL DO PENSAMENTO – Mais do que o cumberlandismo, adivinhação por contato, de que falamos no artigo anterior, interessa-nos especialmente a adivinhação sem contato.

Pode-se, a certa distância, captar a linguagem fisiológica mínima (os reflexos externos da idéia) de modo que se possa, indiretamente, como que “ver” o pensamento de outra pessoa? É possível. Até mesmo para apresentações no palco. Seria isso um “cumberlandismo sem contato”. E pode-se chegar a extremos maravilhosos, como o ilusionista Marion, por exemplo.

Marion encontrava os objetos escondidos pelos espectadores mesmo quando a testemunha que inconscientemente o dirigia se escondia dentro de uma caixa, só aparecendo os pés.

Marion observava nestes casos as mínimas modificações inconscientes na marcha do espectador que se tinha prestado à experiência.

O Dr. Samuel Soal (um dos melhores experimentadores da moderna Parapsicologia) estudou detidamente as provas realizadas por Marion. Soal chegou à conclusão de que, não obstante as maravilhosas provas, Marion não possuía sentidos mais desenvolvidos que o comum das pessoas (o que confirma mais uma vez que todos somos hiperestésicos no inconsciente), mas que ele tinha aperfeiçoado sua capacidade de observar com o que descobria sinais que pareceriam imperceptíveis, normalmente. Mas esses sinais que até conscientemente se podem perceber com muito exercício de observação, o inconsciente já os tinha percebido antes.

Quantas adivinhações tidas como telepatias, como comunicações do além, etc., não são mais do que o subir ao consciente esses sinais inconscientemente captados! Já Binet chamava a atenção sobre essa possibilidade e aduzia muitos casos confirmativos. Fizeram-se famosas as experiências do Dr. Laurent.

Repetindo as experiências do Dr. Pickmann, o Dr. Laurent “pode executar, à distância de quatro metros mais ou menos, as ordens dadas mentalmente por certas pessoas, ordens muito simples, evidentemente, tais como a escolha de um objeto sobre a mesa”.

Este tipo de experiência tornou-se clássico entre os hipnotizadores. O divulgador Paul Clément Jagot, por exemplo, ensina o modo de treinar os sujeitos para chegarem a realizar estas experiências, inclusive fora da hipnose, em vigília.

Isto não é telepatia, mas o que chamamos HIP = Hiperestesia Indireta do Pensamento. O “transmissor”, ao procurar transmitir ao receptor o que deve realizar, não pode evitar que seu pensamento se reflita em sinais inconscientes. Estes, e não diretamente a ordem mental, são os captados.

O próprio Dr. Laurent acrescenta:

“Bem analisando o fenômeno em mim mesmo, tenho constatado que se tratava de hiperacusia (hiperestesia auditiva) em mim, ou percepção de ordens como que pronunciadas inconscientemente: à direita, à esquerda, sim, não”.

Esta hiperestesia dos sinais dados inconscientemente pelo “transmissor” exagera-se às vezes, tanto quanto vimos se exagerava em certos hipnotizados.

O Dr. Grasset transcreve a carta que lhe escreveu o Pe. D’Aix:

“Encontro sempre com a maior facilidade o objeto que me escondem. Com os olhos vendados, sem ver (…) Dirige-me por detrás de mim o Sr. M. (…), concentrando-se fortemente no pensamento que me quer fazer executar (…) Sinto, positivamente sinto, uma pressão sobre as costas, na parte direita superior quando me quer fazer dar a volta (…) É uma pressão doce, algo de sopro e de ímã, que se exerce, não diretamente sobre meu cérebro, mas sobre minhas costas (…) Eu estou sempre a menos de dois metros dele”.

Na mesma carta o Pe. D’Aix descreve mais claramente “o exagero”, a ampliação automática do mínimo estímulo, quando acrescenta:

“As vezes, quando o senhor M… quer que eu me incline, sinto na cintura um peso extraordinário (…), dir-se-ia que suporto um peso de 50 quilos”.

CONDENADO POR HIPERESTÉSICO – Um caso interessantíssimo é o de Ludwig Kahn:
Havia sido condenado pelo tribunal de Karlsrube, acusado de atribuir-se dolosamente um Dom de “lucidez”. Ludwicg Kahn para reabilitar-se, recorreu ao Dr. Schottelius pedindo que o submetesse a quantas provas e as mais rigorosas que quisesse para comprovar a veracidade do seu Dom de “leitor do pensamento”.

Schottelius colocou Kahn no vestíbulo e ele próprio fechou-se no seu gabinete. Escreveu diferentes frases em três papéis. Depois os dobrou “em oito” e apertou um dos papéis na mão direita bem fechada, outro papel na esquerda e o terceiro deixou-o bem à vista diante de si sobre a mesa.

Mandou então que trouxesse Kahn. E este, a metro e meio do professor, levantou os olhos ao teto e logo disse as frases que estavam escritas nos papéis.

Outras experiências semelhantes foram realizadas pelo Dr. Schottelius, assim como já antes as tinham realizado outros doutores eminentes chegando, como ele, à conclusão de que o fenômeno de “visão sem a ajuda dos olhos corporais” (em frase de Schottelius) é incontestável… Algumas vezes!

Além dos médicos, também os parapsicólogos observaram Kahn em condições rigorosas de experimentação. Depois de umas experiências de orientação, de sondagem, que começaram em Paris em 1925 no Instituto Metapsíquico Internacional (IMI), prestigiadíssimo até hoje, realizaram experiências tanto mais rigorosas quanto mais assombrosos pareciam aos investigadores os êxitos de Kahn. Mas ao fim tiveram que reconhecer “que estamos perante um fenômeno limpo e irrefutável”, segundo a expressão do diretor do Instituto, um dos melhores parapsicólogos da história, Dr. Eugêne Osty.

Mas as experiências do Instituto Metapsíquico Internacional terminaram de chofre porque de novo em 1931, um tribunal de Paris condenou Kahn como falsário. O tribunal não podia admitir tal capacidade humana de conhecimento.

Não queremos dizer com isto que Kahn nunca fraudasse. Quem nunca frauda não é psíquico. Não é sensitivo quem domina seu inconsciente até tal ponto que não se veja impelido a fraudar, ao menos inconscientemente, quando o fenômeno que se espera não sai autêntico. O que afirmamos é que muitas das experiências realizadas por ele foram muito bem conduzidas para evitar toda a fraude. O fenômeno em muitas ocasiões é incontestável para qualquer pessoa que conheça as experiências realizadas.

Em todas essas experiências e outras que se poderiam citar, trata-se evidentemente de percepção hiperestésica dos sinais inconscientes emitidos pelo pensante: diríamos cumberlandismo, mas sem contato. Algumas pessoas facilmente podem pensar que se trate de telepatia, como pensara Schottelius e muitos que observaram Kahn, sem refletirem, entre outros vários detalhes, em que era necessária a presença do experimentador que tinha escrito a frase ou feito o desenho. Com a ausência dele, nada sucedia. O fenômeno era, pois, sensorial; era o que chamamos Hiperestesia Indireta do Pensamento (HIP).

CRIANÇAS PRODIGIOSAS – Os casos que vamos citar talvez não sejam mais importantes que outros. Mas os casos que citamos têm a vantagem de terem sido muito bem investigados. Aliás, por tratar-se de crianças ingênuas, atrasadas mentais, prestam-se menos a uma explicação por fraude.

Muito conhecida se fez a menina Ilga K. de Trapene (Letônia). De pais sadios teve um desenvolvimento físico normal, mas intelectualmente ficou muito retardada. Aos oito anos tinha o linguajar de uma criança de dois. Nunca conseguiu aprender a ler nem calcular. Não passou do conhecimento isolado das letras e dos algarismos. Pois bem, aos 9 anos, apesar de ser incapaz de calcular e de ler, Ilga “lia” qualquer parágrafo em qualquer língua, inclusive latim, e resolvia problemas matemáticos, contanto que a mãe estivesse em sua presença, lendo mentalmente o mesmo parágrafo, ou pensasse na solução do problema. Numa ocasião, em vez de 42 Ilga disse 12, mas se perguntou à mãe e comprovou-se que a mãe tinha confundido o número 4 com o 1, pela maneira como estava escrito.

A menina não “lia” o papel mas apenas sentia o que a mãe lia. Um médico do lugar, o radiologista Dr. Kleinberger, comprovou o caso e avisou ao Dr. Neureiter, professor de Medicina Legal na Universidade de Riga. Ilga foi examinada também por especialistas como os Drs. Rochacker e Menshing (de Bonn), Dubicshff (de Berlim), etc.

Segundo as atas das experiências, alguma vez se realizaram estas estando a mãe e a filha separadas por uma porta fechada. Mesmo com a porta fechada, é possível a hiperestesia em bons sensitivos. A porta fechada não pode impedir que, pelos interstícios, cheguem ao sensitivo certos sinais como os sons emitidos pelas cordas vocais, o movimento do ar, os reflexos de luz, etc.

Após as experiências de Neureiter e a publicação do seu livro a respeito, foi nomeada pelo Ministério de Instrução Pública uma primeira comissão sob a presidência do Dr. Dale, diretor do Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Riga, comissão que incluía psiquiatras, psicólogos, físicos, especialistas em Fonética, em Pedagogia para surdos-mudos, etc.

Além disso, a menina ficou durante 11 meses sob a observação de uma especialista em Psicologia e Pedagogia. Os resultados das investigações da comissão foram publicados pelo Dr. Hans Bender do laboratório de Parapsicologia da Universidade de Friburgo.

A conclusão da comissão parece-nos acertadíssima: “não se trata de telepatia, a não ser de maneira episódica”. Trata-se de Hiperestesia Indireta do Pensamento, especialmente de natureza auditiva: Ilga percebia os “cochichos involuntários” da mãe, para expressar-me pelos mesmos termos dos investigadores; “cochichos” que passavam imperceptíveis às testemunhas, por não serem sensitivas.

Por ser hiperestesia preferentemente auditiva, se explica que pudesse captar o que lia ou pensava a mãe, apesar de esta estar detrás de uma cortina ou detrás de uma porta, mas não percebia nada se a mãe ficava dentro do estrito isolamento da sala de transmissão da emissora radiofônica de Riga, apesar de que Ilga via a mãe através dos vidros. Nesta ocasião, a menina (retardada mental) gritou à mãe: “não ouço nada!”.

“Os lábios da mulher… moviam-se simultaneamente com as expressões da menina”, mas ninguém, exceto a sensitiva Ilga, podia ouvir nada absolutamente, além de que às vezes, como expressamente se diz nas atas, a menina dizia a palavra antes de que os lábios da mãe se mexessem. A comissão, aliás, fez que durante algumas experiências se gravassem em discos os sons ao mesmo tempo em que máquinas cinematográficas iam filmando todos os movimentos, comprovando desta maneira que nem sempre houve movimento dos lábios da mãe, antes nem ao tempo da menina dizer o que a mãe pensava. Nestas ocasiões, como comprovou uma Segunda Comissão de especialistas lituanos, o “cochicho” da mãe era interno, nas cordas vocais e demais “órgãos motrizes da linguagem” internos.

Uma outra anotação interessa-nos nesse caso. É que, como já noutra ocasião temos indicado, os sensitivos o são porque podem manifestar no consciente o que todos captamos só inconscientemente. Referindo-nos ao caso concreto da menina Ilga, a sua audição consciente era absolutamente normal, como demonstraram vários testes auditivos.

As Academias de Medicina de Paris e Angers estudaram o caso de Ludovico, caso idêntico ao de Ilga. Muitas revistas de Medicina e Psicologia, dentro e fora da França, ocuparam-se do caso. O Dr. Fargues publicou um relatório interessantíssimo a esse respeito.

Esta qualidade, porém, punha Ludovico em circunstâncias difíceis para a vida. Quando sua mãe procurou ensiná-lo a ler, compreendeu que era impossível. “Adivinhando”, o menino não exercitava nem o juízo nem a memória. Alarmada a família teve de separar Ludovico da mãe para que pudesse receber uma educação normal. Na ausência da mãe o menino deixou de destacar-se como “adivinho”.

Se fosse telepatia, como afirma a maioria sem profundos conhecimentos de Parapsicologia, o fenômeno se produziria exatamente igual na ausência da mãe, pois no conceito de telepatia se inclui que o fenômeno prescinde da distância. É a hiperestesia a que requer, evidentemente, a presença do “transmissor”. Aliás, a telepatia não se pode provocar à vontade, menos ainda com a pasmosa regularidade com que Ludovico captava as idéias da mãe.

Também se fez muito famosos o menino Bo, de onze anos, retardado mental. A mãe, precisamente pelo pouco proveito que o menino tirava na escola, dava-lhe aulas em casa. E descobriu que Bo dizia espontaneamente para ela palavras, números, coisas que ela só tinha pensado. Bo, que era incapaz de desenhar um quadro ou de repetir uma das frases que no teste de Binet se marcam para menores de cinco anos, era capaz, porém, de resolver qualquer problema, dar qualquer resposta, por difícil que ela fosse, se a solução era conhecida pela mãe.

O Dr. Drake, do Wesleyan College, de Georgia, estudou o caso e fez experiências com o menino. Mais uma vez, não se tratava de telepatia, como pensou o Dr. Drake. A telepatia, extra-sensorial, não precisa da presença do agente. Dizem expressamente as atas:

“Era capaz de dar respostas maravilhosas sempre que estas estivessem na mente da mãe, mas não podia fazer absolutamente nada se ela o deixava sozinho” ou “o menino não pode ler se alguém não está sentado perto dele olhando o livro. Então lê bem, mas, se o deixam sozinho não pode”.

Captam-se, pois, sinais sensoriais. É um caso de Hiperestesia Indireta do Pensamento, HIP.

Acerta, pois, plenamente quem foi meu professor, Fernando Maria Palmés, S.J., quando, referindo-se precisamente ao caso do menino Ludovico, escreve:

“Os fatos aduzidos se diferenciam do Cumberlandismo propriamente tal, em que (…) falta o contato muscular. As impressões correspondentes aos fenômenos mentais transmitidos, seriam sinais acústicos ou visuais. Pode-se também recorrer à percepção tátil das distintas emissões de ar produzidas inconscientemente pelos órgãos fonéticos do transmissor (…) Tudo isto parece a explicação mais lógica nos casos em que o receptor está a curta distância do transmissor”.

A regularidade com que o menino Ludovico, ou Bo, ou Ilga captavam o pensamento da mãe e a quase absoluta ausência de adivinhações com respeito a outras pessoas, explica-se muito bem por poucas noções que se tenham de Reflexologia. Os meninos, por afetividade, ou treino natural, tinham-se condicionado aos sinais reflexos característicos dentro da individualidade da mãe. Ora, o inconsciente tem, ou pode alcançar, uma grande delicadeza para diferenciar os diversos estímulos. Pavlov conseguiu condicionar uns cachorros para um “sinal condicionado” de 250 vibrações. Os sons imediatamente superiores e inferiores, não constituíam sinal para os reflexos condicionados, apesar de parecerem ao nosso consciente absolutamente indiferenciáveis.

A assombrosa capacidade de diferenciação de estímulos ou sinais condicionados de que o inconsciente é capaz é, por si mesma, uma grande hiperestesia, como já mostramos nos dois artigos anteriores.

Outros sensitivos, porém, não se condicionam tão especificamente às características individuais, mas apenas captam os sinais comuns de toda a espécie humana ou de quase todos os homens, não só os de uma única pessoa. Os cachorros de Pavlov, em geral eram condicionados mediante luzes ou qualquer som de apito ou de campainha sem que distinguissem os diversos matizes do som ou voltagem da luz.

O MECANISMO DE CAPTAÇÃO DE SINAIS – Sabe-se que há certas emissões de sinais correspondentes aos atos. Desenho com o qual o Dr. Calligois (professor de neurologia
em Universidade de Roma) explica a HIP: “falamos” com todo o corpo e o inconsciente das pessoas presentes “entende”.

[…]

Sabe-se também que o homem capta esses mínimos sinais ou reflexos fisiológicos externos correspondentes ao pensamento de outra pessoa presente, pois o homem é hiperestésico ao menos no inconsciente.

A HIP é a captação e interpretação, geralmente inconsciente, desses sinais. Nos sensitivos essa interpretação passa ao consciente sem que, geralmente, saiba donde veio essa adivinhação, pelo que freqüentemente o fenômeno foi interpretado supersticiosamente.

O Dr. Calligaris, professor de Neurologia na Universidade de Roma, em numerosas passagens de um dos seus livros, afirma, após numerosas experiências, que o “reflexo fisiológico das idéias passa às pessoas presentes como por ressonância ou consonância”. A idéia, sentimento, etc., não só tem repercussão fisiológica em determinadas e mínimas “áreas” ou “campos” cutâneos dessa mesma pessoa, senão que a mesma repercussão experimentam por ressonância as “áreas” ou “campos” correspondentes das pessoas presentes.

Com certas técnicas pode-se aumentar essa repercussão fisiológica.

Essa ressonância ou repercussão seria em definitivo o que nós chamamos hiperestesia, percepção inconsciente dos sinais. Uma hiperestesia cutânea, acrescentando-se à hiperestesia visual, auditiva. Por muitos caminhos o reflexo fisiológico do pensamento de outra pessoa passa a nós ou às pessoas presentes.

E como tais reflexos se identificam com o pensamento, como pensamento e reflexo são apenas dois aspectos diferentes de um só fenômeno, compreender-se-á que, se inconscientemente são reproduzidos em nós esses reflexos fisiológicos de outra pessoa, também teremos captado inconscientemente o pensamento.

Se com técnicas especiais, ou pelo treino espontâneo ou provocado, ou em circunstâncias especiais esta ressonância é aumentada em certas pessoas, compreender-se-á que, nessas pessoas, o que só era adivinhação inconsciente possa fazer-se consciente. Nos sensitivos este exagero, esta passagem do inconsciente ao consciente, é mais freqüente ou até quase regular.

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