A complicada relação entre religião e preconceito

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Igreja como trampolim

O nível de devoção que se sente em relação às crenças religiosas tradicionais pode ser usado para prever como a pessoa irá interagir com membros do seu próprio grupo ou com membros fora do seu grupo.

Isso pode até parecer bem natural. Mas o que impressiona é que a interação com os outros e os preconceitos em relação a esses outros parece seguir o caminho oposto que muitos podem esperar de uma pessoa declaradamente religiosa.

Uma pesquisa realizada nos EUA e na Jamaica mostrou que pessoas cujas crenças religiosas são extrínsecas e que frequentam regularmente a igreja são mais propensas a manter atitudes hostis em relação às pessoas de fora do seu grupo social.

É importante ressaltar que o resultado inesperado foi obtido junto às pessoas religiosas do ponto de vista social, aquelas que se apresentam como membros de uma entidade religiosa, mas que frequentemente usam a religião como forma de atingir objetivos não-religiosos, como alcançar status ou ganhar acesso a um grupo social.

“Não são os verdadeiros crentes que são o problema. São as pessoas que usam a religião, talvez de maneira cínica, para promover seus objetivos,” explica Robert Lynch, professor de antropologia da Universidade de Missouri-Columbia.

Crença profunda e faceta social da religião

O professor Lynch diz que seus resultados sugerem que as crenças e os aspectos sociais subjacentes à religião têm efeitos distintos sobre as atitudes dentro e entre os grupos.

Por exemplo, as crenças religiosas estão positivamente associadas com a vontade de se sacrificar pelas próprias crenças e uma maior tolerância aos outros, normalmente referidos como “o próximo”. Por outro lado, as facetas sociais da religião, como o comparecimento aos cultos, promovem maior hostilidade em relação às pessoas fora do grupo, que são vistas como “distantes”.

“Tomados como um todo, esses resultados apontam para uma visão geralmente otimista da capacidade de as crenças religiosas gerarem compaixão, e uma visão mais escura sobre as atividades sociais que promovem a coesão do grupo, o que também pode produzir o ódio aos outros,” disse Lynch.

Estado Islâmico e Al Qaeda

O antropólogo afirma que uma maneira de visualizar esse problema é comparar o Estado Islâmico com a Al Qaeda.

Ele afirma que o Estado Islâmico é composto principalmente de ex-generais iraquianos que serviram sob Saddam Hussein e não são particularmente religiosos. Os membros dessa organização rotineiramente matam membros de seu próprio grupo, bem como indivíduos fora de seu grupo (ambos sunitas e xiitas). Um dos principais objetivos do Estado Islâmico é expandir seu território, e muitas vezes usa um pretexto religioso para atingir seus objetivos.

Por outro lado, a Al Qaeda, uma organização muçulmana sunita criada em 1988 para combater a invasão soviética do Afeganistão, normalmente não mata muçulmanos. O professor Lynch afirma que “membros da Al Qaeda são verdadeiros crentes que gostam dos membros de seu próprio grupo e não são tão hostis a grupos externos”.

Seus resultados foram publicados na revista Evolutionary Psychology Science.

http://www.diariodasaude.com.br

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Das religiões que tomaram um sentido oposto ao de sua origem

Atribui-se a santo Agostinho a criação da palavra religião, que se origina do verbo latino “religare” (religar), cujo sentido é de ligar de novo a Deus o homem que Dele se afastou pelo pecado. A religião é, pois, um meio de nós irmos aperfeiçoando-nos espiritualmente até que, um dia, possamos chegar a Deus e nos tornarmos de fato semelhantes a Ele.

Mas as religiões têm perdido esse significado, as quais mais significam divisão. É que entrou na questão religiosa o nosso maior inimigo, ou seja, o ego, que está presente em tudo na nossa vida. Não foi, pois, à toa que o Nazareno nos diz que quem quiser ser seu discípulo, tem que renunciar-se a si mesmo. (Lucas 9:23).

A religião tem muito a ver com a verdade de cada um. E o que é uma verdade para um, nem sempre o é para outro. Por isso, digo que, para se encontrar a verdade religiosa mais próxima da verdade, nós temos que estudar todas as religiões, pelo menos as mais importantes. Acontece que o nosso ego, que é o nosso maior diabo (“diabolos” no grego bíblico e que significa adversário em português), dificulta a nossa chegada à verdade, pois ficamos totalmente fechados para as ideias inovadoras, que nos levam à verdade libertadora. A ignorância é normal, mas é pecado querermos ficar nela! Mas o que de pior não faria o nosso ego?

E é exatamente por causa desse nosso terrível ego, que a religião, cada vez mais, vem adquirindo um significado totalmente diferente do seu original, cujo fundamento é destaque no Decálogo, ou seja, amor a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. No nível atual de evolução da humanidade, é frequente que quanto mais nós formos religiosos, isto é, mais fiéis aos postulados de nossa religião, mais ela, infelizmente, passa a ser para nós um meio de separação e desamor, quando não de ódio, entre as pessoas. É que, infelizmente, quando o indivíduo é muito religioso, na verdade, ele tem geralmente seu ego muito aflorado, o que o afasta dos princípios básicos de todas as religiões. De fato, quanto mais beatas são as pessoas, salvo raras exceções, mais são apegadas ao seu ego, mais são orgulhosas, fanáticas e discriminadoras das pessoas que são de outra religião, ou não são tão religiosas como elas são, não sendo poupadas nem as pessoas da sua própria família.

E os líderes religiosos cristãos falham por, geralmente, não ensinarem os seus fiéis a dominarem seu ego. Eles se preocupam é em ficar exigindo deles apego às exterioridades da religião, como rituais, dízimos e a doutrinas polêmicas, que em nada ajudam o fiel a ser um melhor cristão. E, consequentemente, ele se torna um falso cristão, pois se transforma num fanático religioso e, consequentemente, como vimos, num discriminador das pessoas de outras crenças. Conheço pessoas que brigam até com padres por eles não serem tão católicos quanto elas o são. Ouso dizer, pois, que alguns indivíduos mais cristãos poderiam ser, se eles não tivessem religião, que, às vezes, se torna como que uma droga na vida das pessoas, criando conflitos e até guerras entre elas.

E seria cômico, se não fosse tão trágico, que essas pessoas pensam que estão agindo em nome de Jesus e de Deus!

Obs.: Esta coluna, de José Reis Chaves, às segundas-feiras, no diário de Belo Horizonte, O TEMPO, pode ser lida também no site  http://www.otempo.com.br. Clicar “TODAS AS COLUNAS”. Podem ser feitos comentários abaixo da coluna. Ela está liberada para publicações. Ficarei grato pela citação nelas de meus livros: “A Face Oculta das Religiões”, “O Espiritismo Segundo a Bíblia”, Editora e Distribuidora de Livros Espíritas Chico Xavier, Santa Luzia (MG), “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência” Ed. EBM (SP) e “A Bíblia e o Espiritismo”, Ed. Espaço Literarium, Belo Horizonte (MG) – http://www.literarium.com.br – e meu e-mail: jreischaves@gmail.com. Os livros de José Reis Chaves podem ser adquiridos também pelo e-mail: contato@editorachicoxavier.com.br e o telefone: 0800-283-7147.

Outros colunistas de O TEMPO: Miriam Leitão, Vittorio Medioli, Arnaldo Jabor, Dora Kramer, Laura Medioli, João Batista Libânio (teólogo Jesuíta), Elio Gaspari, Xico Sá, Luiz Carlos Bernardes, Torquato (USP), Luiz Aureliano, Gilda de Castro, Manoel Lobato, Murilo Badaró (Presidente da Academia Mineira de Letras), Robson Damasceno Reis, Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, Teodomiro Braga, Ana Elizabeth Diniz, Trigueirinho, Leonardo Boff, José Dirceu (ex-ministro do Lula), Tostão e outros.

A fraternidade das religiões

Annie Wood Besant

Um leitor, refletindo por um momento a respeito do título acima, poderia muito bem declarar: “Bem! O que quer que sejam as religiões, o mais certo é que elas não são fraternais”. E é uma infeliz verdade que se analisarmos a história religiosa do passado recente encontraremos mui escassa fraternidade; antes veremos religião combatendo religião, disputando pela supremacia e esmagando suas rivais até a morte; as guerras religiosas tem sido as mais cruéis; as perseguições religiosas tem sido as mais impiedosas; cruzadas, inquisições, horrores de toda sorte, mancham com sangue e lágrimas a história das contendas religiosas; pareceria uma pilhéria, por entre campos de batalha ensangüentados e tenebrosas chamas de incontáveis fogueiras, tagarelar sobre a “Fraternidade das Religiões”!

Não só entre as religiões é que a luta contínua acontece. Mesmo dentro da esfera de uma única religião formam-se seitas, que amiúde empreendem guerras entre si. O Cristianismo se tornou proverbial entre as nações não-Cristãs por causa dos ódios mútuos dos seguidores do “Príncipe da Paz”. Católicos Romanos e Anglicanos, Luteranos e Calvinistas, Wesleyanos, Batistas, Congregacionistas, etc, tumultuam a paz das nações por suas furiosas controvérsias. A Grã-Bretanha e a Irlanda pagam hoje a herança de ódio gerada pelos danos cruéis infligidos sobre os Católicos Romanos pelo terrível código penal criado por um Parlamento Protestante; hoje em dia (1907) o Reino Unido se precipitou em uma grande querela constitucional por causa dos ódios entre Anglicanos e Não-Conformistas, que não são capazes de concordar nem mesmo sobre uma base mínima de ensinamento Cristão comum que poderia ser ensinado nas escolas nacionais às crianças de todos os Cristãos. A França está dividida em duas e sob ameaça de guerra civil como resultado da vingança dos Livres-Pensadores sobre a Igreja Católica Romana por causa dos males que esta lhes causou em seus dias de supremacia. Na Bélgica os assuntos políticos são decididos pela maioria ora clerical ora anticlerical. O Islã tem as acirradas lutas entre os Xiitas e os Sunitas, ao passo que ambos se unem para denunciar o infiel Sufi. Mesmo no Hinduísmo há hoje os lados fanatizados dos Vishnuítas e dos Shivaítas, que se denunciam mutuamente com uma bitolação imitada dos exemplos missionários. A controvérsia religiosa se tornou o protótipo do que há de mais amargo e não-fraterno nas lutas do homem contra homem.

Mas não foi sempre assim. O antagonismo entre as religiões é uma planta que cresceu só há pouco, a partir da semente de uma reivindicação essencialmente moderna – a de que apenas uma única religião é a especial e que somente ela é inspirada. No mundo antigo havia muitas religiões, e em sua maior parte a religião era coisa nacional, de modo que o homem de uma nação não tinha o desejo de converter o homem de outra nação. Cada nação tinha sua própria religião, assim como tinha suas próprias leis e seus próprios costumes, e os homens nasciam e permaneciam no credo de sua terra natal. Daí que, se olhamos para a história do mundo antigo, ficamos surpresos com a raridade das guerras religiosas. Mesmo quando os Hebreus invadiram a Palestina e mataram os habitantes idólatras da região, isso foi antes uma guerra de conquista, causada pela cobiça comum, e uma guerra entre Javé, seu Deus particular, e os Deuses do povo invadido; de fato, a antiga tendência geral de assimilar na sua própria religião os Deuses das tribos conquistadas se apresentou muitas vezes na sua história; esta tendência foi acidamente denunciada pelos profetas, não como uma heresia, mas como uma apostasia nacional de sua própria Deidade particular, que os havia libertado da tirania do Egito e conquistado a Palestina para eles. Além disso, observaremos que, dentro de uma única religião, havia muitas escolas de pensamento que coexistiam sem ódio. O Hinduísmo tem seus seis darshanas – seis “pontos de vista” – e mesmo que os filósofos disputem e debatam, e que cada escola defenda sua própria posição, não há falta de sentimento fraterno, e todos os filósofos ainda são ensinados dentro da uma mesma tol ou pâthashâlâ – escola religiosa. Até em um mesmo sistema filosófico, o Vedânta, há três subdivisões reconhecidas – Advaíta, Vishishtâdvaíta, e Dvaíta – diferindo no mais fundamental dos ensinamentos: a relação entre Deus e o espírito individual – mas todas convivem lado a lado, e os colegas da mesma escola aprendem uma, duas ou as três sem atacar a ortodoxia alheia. Uma pessoa pode pertencer a qualquer uma das três, ou a nenhuma delas, e ainda continuar sendo um bom Hinduísta, embora, como disse antes, nos tempos modernos o sectarismo religioso tenha se tornado mais acirrado.

No poderoso Império da Roma Antiga todos os credos eram bem-vindos, todas as religiões eram respeitadas, e mesmo honradas. No Panteão – o templo de todos os Deuses – de Roma eram encontradas as imagens que simbolizavam os Deuses de todas as nações súditas, e os cidadãos romanos demonstravam reverência a todos. E se uma nova nação entrava na órbita do Império, e se esta nação adorava uma forma de Deus diversa daquelas já cultuadas, as imagens ou símbolos dos Deuses da nova nação-filha eram trazidos para o Panteão da Pátria-Mãe com toda a honra, onde eram entronizados com reverência. Assim, todo o mundo antigo era todo permeado pela idéia liberal de que a religião era um assunto de caráter privado ou étnico, onde ninguém tinha o direito de interferir. Deus estava em toda parte, em todas as coisas; que importava a forma sob a qual era adorado? Ele era um só Ser invisível e eterno, com muitos nomes; que importava o título pelo qual era invocado? A palavra de ordem da liberdade religiosa do mundo antigo ressoa na esplêndida declaração de Shri Krishna: “Por quaisquer caminhos que os homens tomem para se aproximar de Mim, ali mesmo Lhes dou as boas-vindas, pois de todos os lados todos os caminhos são Meus”.

A primeira vez em que a perseguição religiosa manchou os anais da Roma Imperial foi quando o jovem Cristianismo entrou em conflito com o Estado, e derramou-se o sangue de Cristãos, não como sectários religiosos, mas como traidores políticos, e como perturbadores da paz pública. Eles reivindicaram supremacia sobre as antigas religiões, e assim provocaram ódios e tumultos; eles atacaram as religiões que até então haviam vivido em paz lado a lado, declarando que só eles estavam certos, e os outros todos, errados; eles suscitaram o ressentimento por causa de sua atitude agressiva e intolerante, causando distúrbios aonde quer que fossem. E pior ainda, deram origem a suspeitas mais sérias a respeito de sua lealdade ao Estado, ao se recusarem a tomar parte na cerimônia usual de espargir incenso no fogo que ardia diante da estátua do Imperador reinante, e denunciaram a prática como idólatra; Roma viu sua soberania ameaçada pela nova religião, e o mesmo tempo que era largamente tolerante para com todas as religiões, era duramente intolerante contra qualquer insubordinação política. Foi como rebeldes, e não como heréticos, que ela lançou Cristãos aos leões, e os expulsou de suas cidades para que vivessem em cavernas e nos desertos.

Foi essa reivindicação do Cristianismo, a de ser a única religião verdadeira, que deu origem às perseguições religiosas, primeiro do Cristianismo, e depois por ele. Pois enquanto a sua religião é sua e a minha é minha, e ninguém pretende impor a sua religião sobre o outro, não pode surgir nenhum motivo de perseguição. Mas se eu digo: “Sua concepção de Deus está errada e a minha está certa, só eu tenho a verdade, e só eu posso apontar o caminho da salvação; se você não aceitar minha idéia encontrará a danação”; então, logicamente, se eu pertenço à maioria, devo virar um perseguidor, pois é mais interessante assar heréticos aqui do que permitir que espalhem suas heresias, danando a si mesmo e a outros para sempre. Se, porém, sou da minoria, provavelmente serei perseguido por homens que não tolerarão tão prontamente a arrogância de irmãos que não lhes permitem olhar para os céus senão através de seu próprio telescópio especial.

De perseguido o Cristianismo passou a dominante, e arrebatou o poder do Estado. A aliança entre Estado e Igreja tornou meio políticas as perseguições religiosas. A heresia na religião se tornou deslealdade; a recusa em crer da mesma forma que o Chefe de Estado se tornou traição contra aquele Chefe; e assim foi escrita a triste história da Cristandade, uma história que todos os que amam a Religião – sejam Cristãos ou não – devem ler com vergonha, com tristeza, e quase com desespero. E como a “Divindade que modela nossos fins” determinou a ruína nacional como o mau fruto da falta de fraternidade em religião! A Espanha empreendeu uma feroz perseguição contra os Mouros e os Judeus; ela os queimou aos milhares, os torturou e mutilou; quando cansou de assassínios ela os exilou, e suas estradas ficaram coalhadas de cadáveres ao longo daquele grande êxodo, cadáveres de velhos, de mulheres, de mães com bebês, de crianças pequenas; as lágrimas, os gritos dos fracos que ela esmagou tão impiedosa, se tornaram os Vingadores que a levaram à ruína, e ela caiu de sua posição de Senhora da Europa para o Poder negligenciável que é hoje.

O Islã contraiu do Cristianismo a doença mortal da perseguição, e esqueceu os sábios ensinamentos de Alá para seguir o mau caminho do assassínio do infiel. O nome de Maomé, o Misericordioso, foi usado para afiar as espadas de seus seguidores, e na Índia a queda do Império Mogol nasceu dos gritos dos agonizantes, mortos por sua fé em Aurangzeb. Na Índia, assim como na Espanha, a perseguição religiosa resultou em desastre político. Por isso a necessidade de fraternidade é encarecida pela destruição que resulta da falta de fraternidade. Uma lei da natureza é provada tanto pela destruição de tudo o que se lhe opõe como pela permanência de tudo o que se harmoniza com ela.

A multiplicidade de credos religiosos seria uma vantagem, e não um prejuízo, para Religião, se as religiões fossem uma fraternidade em vez de um campo de batalhas. Pois cada religião tem uma peculiaridade própria, algo de especial que as outras não têm para dar ao mundo. Cada religião pronuncia uma letra do grande Nome de Deus, o Um sem outro, e este Nome só será pronunciado quando todas as religiões emitirem a letra que lhes foi dada para emitir, em melodiosa harmonia junto com o resto. Deus é tão grande, tão ilimitável, que nenhum cérebro humano, por maior que seja, nenhuma religião, por mais perfeita que seja, é capaz de expressar Sua perfeição infinita. É preciso um universo em sua totalidade para espelhá-Lo, ou melhor, universos incontáveis não bastam para esgotá-Lo. Uma estrela pode falar de Sua Radiância, Ele que é o Sol de tudo; um planeta, girando em ritmo constante, pode falar de Sua Ordem. Uma floresta pode sussurrar Sua Beleza; uma montanha, Sua Força; um rio, Sua Vida fertilizadora; um oceano, Sua Mutabilidade imutável; mas nenhum objeto, nenhuma beleza de forma, nenhum esplendor de cor, nem mesmo o coração do homem onde Ele habita, pode expressar as múltiplas perfeições deste Ser de riqueza infinita. Em cada objeto, em cada tipo de vida, se vê apenas um fragmento de Sua Glória, e somente a totalidade das coisas, passadas, presentes e futuras, pode representar, com sua infinitude, a Sua Infinitude.

Da mesma forma uma religião só pode expressar alguns aspectos desta Existência multifacetada. O que o Hinduísmo diz ao mundo? Ele diz DHARMA – lei, ordem, crescimento harmônico e regrado, o lugar certo para cada um, o dever correto, a obediência correta. O que diz o Zoroastrianismo? Diz PUREZA – pensamento, palavra e ato imaculados. O que diz o Budismo? Diz SABEDORIA – o Conhecimento todo-abrangente, esposado ao perfeito Amor, amor ao homem, serviço à humanidade, Compaixão perfeita, a condução do mais baixo e do mais fraco para dentro dos ternos braços do próprio Senhor do Amor. O que diz o Cristianismo? Ele diz AUTO-SACRIFÍCIO, e tem na Cruz seu mais caro símbolo, a lembrar que onde quer que um Espírito humano crucifique a natureza inferior e se erga ao Supremo, ali refulge a Cruz. E o que diz o Islã, a mais jovem das grandes Fés mundiais? Ele diz SUBMISSÃO – auto-entrega à Vontade única que rege os mundos; e vê aquela Vontade em toda a parte, de modo que não pode entender as pequenas vontades humanas que vivem senão quando elas se fundem n’Ela.

Não podemos permitir que se perca uma só destas palavras que resumem as características de cada grande Fé; assim, mesmo reconhecendo as diferenças entre as religiões, as reconheçamos também para podermos aprender, antes de criticá-las. Que o Cristão nos ensine o que tem a ensinar, mas que não se recuse a aprender de seu irmão Islamita, ou de seu irmão de qualquer outro credo, pois cada um tem algo a aprender, e também algo a ensinar. E, em verdade, melhor prega sua religião aquele que a torna seu poder motivador, em amor a Deus e serviço ao homem.

Analisemos em detalhe o porquê de não devermos disputar, à parte destes princípios gerais. Isso pode ser resumido em uma única frase: Porque todas as grandes verdades das religiões são uma propriedade coletiva, e não pertencem com exclusividade a nenhuma Fé. Por isso não se ganha nada de vital ao trocarmos de religião. Não precisamos percorrer todo o campo das religiões do mundo a fim de encontrarmos as águas da verdade. Cavemos no campo de nossa própria religião, mais e mais fundo, até encontrarmos jorrando, pura e copiosa, a fonte da água da vida.

Será mesmo verdadeira a frase acima, sobre a universalidade das verdades religiosas, ou se trata apenas de palavreado? Podemos seguir quatro linhas de estudo a fim de provarmos que é um fato: os Símbolos comuns a todas; as Doutrinas comuns; as Lendas comuns, e a Moralidade comum a todas. Cada uma destas linhas poderia ser uma seção de todo um livro intitulado A Fraternidade das Religiões, mas em uma palestra, ou num artigo, elas só podem ser abordadas superficialmente, com a esperança de que o ouvinte ou o leitor consulte uma biblioteca depois de o esboço ter-lhe sido apresentado, e faça ele mesmo o estudo que só foi delineado esquematicamente.

Símbolos

Em toda a parte, nos templos, tumbas e outros edifícios das religiões vivas e mortas, encontram-se os mesmos símbolos.

Tomemos a Cruz. Que a Cruz foi usada em todo o mundo como símbolo religioso muito antes do tempo de Jesus, chamado de o Cristo, já não é matéria de debate, mas de constatação comum. A pesquisa arqueológica já estabeleceu isso quanto ao passado, e a observação durante viagens o estabelece quanto ao presente. O povo etrusco já era antigo antes da Roma infante nascer. As tumbas etruscas pertencem a um tempo tão remoto que, quando algumas delas foram abertas em nossos dias, somente a primeira pessoa que as penetrou pôde vislumbrar o perfil de um corpo, antes que este se desintegrasse em pó impalpável por causa do afluxo de ar. Mas embora o corpo da pessoa virasse pó, seus artefatos sobreviveram, e vasos junto aos pés, jarros e salvas e outros objetos falam de sua Fé: nestes antigos exemplares de cerâmica foi traçada a cruz, dizendo que aquele homem, cujo corpo se desvaneceu em poeira invisível, havia morrido na certeza da vida imortal, triunfante sobre a morte. Do Egito – onde ela está gravada em obeliscos, pintada em câmaras mortuárias onde múmias jazem em seus sarcófagos, afrescada em paredes de templos – ela viajou para leste através da Assíria, Caldéia e Índia, até a China. Tabuletas assírias, cerâmica caldéia, templos indianos e chineses, empregam a cruz como um precioso símbolo da vida. Viajou também através do Pacífico até a América; existe no México, onde os antigos templos maias e quíchuas estão sendo desenterrados por exploradores incansáveis, e ali se vê mais uma vez reproduzida a cruz em sua forma egípcia. Atravessando novamente o Atlântico, chegou à Escandinávia, e nas antigas sagas se ouve falar do Martelo de Thor, mais uma vez a cruz. Deixemos os edifícios puramente religiosos e passemos ao Templo Maçônico, o tesouro do simbolismo antigo, e ali, trazida do antigo Egito, está a Cruz sobre a Rosa – a Cruz, símbolo da vida; a Rosa, símbolo da matéria e igualmente símbolo do mistério. E mais, o próprio símbolo do R.W.M., gravado ou usado como jóia, não passa da Cruz Svástika dobrada sobre si mesma até adquirir aquela forma.

Por que a Cruz é assim tão universal? Porque é o sinal do Espírito triunfando sobre a matéria, modelando-a, conformando-a, forçando-a a receber sua marca. É o símbolo do poder criativo, do Deus Supremo sacrificando a Si mesmo dentro das limitações da matéria, assim como em dias mais recentes e desespiritualizados se tornou o símbolo do poder criativo no pólo inferior do ser, em vez de no pólo superior. Pois a cruz como símbolo fálico, como tanto se tornou nestes últimos tempos, é apenas a cruz arrastada do céu para a terra; assim como, em verdade, o poder criativo nos homens, animais e plantas, é o reflexo, na matéria densa, da Vida Universal de onde todos nós nascemos. O mais santo dos poderes, em verdade, embora degradado aos seus usos mais vis. E a cruz significou também, através de uma fácil transição, o seguro renascimento da vida além da tumba ou da pira, a certeza da imortalidade. Quem, então, pode dizer, em qualquer sentido exclusivo, “a Cruz é minha”? Minha sim, quando incluir a tudo. Minha, quando não excluir nada.

E o duplo Triângulo, um voltado para cima e outro para baixo? Ele é tão universal quanto a Cruz, simbolizando o entrelaçamento do Espírito e da Matéria, do fogo e da água do mundo antigo. E a Estrela de cinco pontas, que é a Jóia no Lótus, o Eu no homem? E a Estrela de sete pontas, e a de nove? E o Círculo com um ponto no centro, ou com uma Cruz inscrita, ou com uma Cruz acima ou abaixo dele? E o Olho, sozinho ou dentro de um Triângulo? E o Lótus, ou o Lírio, de Vishnu e da Virgem Maria? E o Disco giratório, ou relâmpago, da China, Japão, Índia, Tibete, Grécia, Roma e Escandinávia? E a Serpente – do Bem e do Mal – e o Dragão, e a Fruta, e a Árvore? Mas o tempo é escasso para mencionar sequer um décimo de todos os símbolos gerais, comuns à mais remota antigüidade da qual permanecem traços e à mais recente igreja construída pelo mais moderno arquiteto. E isso que não falei nada do simbolismo dos ritos e cerimônias, da tonsura, da sobrepeliz, da estola e da capa; da mão erguida com dois dedos e o polegar se tocando, gesto usado pelo Papa e pelo sacerdote pagão; do cerimonial dos gestos, das aspersões simbólicas – e de uma hoste infindável de detalhes.

Não existe senão Um Deus, uma só Natureza, e uma só Religião. E o simbolismo é a linguagem geral com que todas as religiões falam de sua origem a partir da religião única, a RELIGIÃO-SABEDORIA, a RELIGIÃO-MUNDIAL, antiga mas sempre nova, e com que também contam as verdades perenes sobre Deus e a Natureza, motivo pelo qual foram instituídas pelos Irmãos Mais Velhos da Humanidade. O simbolismo é a linguagem comum, e nenhuma religião que o emprega – e todas o empregam – pode reivindicar ser especial.

Doutrinas Comuns a Todas

Passemos à análise das doutrinas que são comuns a todas as grandes religiões, e descobriremos que as verdades fundamentais sobre onde cada religião é erguida formam uma mesma estrutura básica.

Quais são estas doutrinas principais? A Unidade de Deus; a Trindade da manifestação divina; as Hierarquias suprafísicas e seus mundos; a Natureza do Homem; sua Evolução; as grandes Leis. Há outras, mas neste breve sumário devo me limitar às mais importantes.

1 – A Unidade de Deus. Qual religião pode reivindicar um monopólio desta doutrina? Pergunte ao Hinduísta e ele responderá: “Só existe Um, não há outro”. Pergunte a um Parsi, e ele falará de Zarvan Akarana, o Ilimitado. Pergunte ao Judeu, e ele dirá: “Ouve, oh Israel! O Senhor nosso Deus é Um”. Pergunte ao Budista, e ele falará do Um, incriado, universal, de onde vêm a criação e os particulares. Pergunte ao Cristão e ele responderá “Só há um Deus”. Pergunte a um filho do Islã, e ele bradará “Só Deus é Deus, e não há nenhum outro”. Os grandes doutores do Islã e os grandes pândits Vedânta do Hinduísmo discorrem exatamente nas mesmas linhas sobre a Existência universal única, e estes arrazoados formam uma das pontes entre o Hinduísmo e o Islamismo por onde, esperamos, muitos pés poderão passar em dias vindouros. As religiões, em face destas declarações categóricas de cada uma, não podem disputar sobre a questão da unidade. Tudo o que podem fazer é vestir a grande verdade única em roupagens diferentes, e rotulá-la com nomes diferentes. Mas um homem permanece o mesmo homem quando muda seu casaco, e uma verdade permanece a mesma verdade, embora expressa em línguas diversas. Cada religião tem sua própria língua, e as variedades de língua mascaram a identidade de crença.

2 – A Trindade da Manifestação Divina.  A que religião pertence com exclusividade o ensinamento sobre a Trindade? Neste ponto as religiões mortas do passado reforçam as religiões vivas do presente – como de fato o fazem todas as verdades básicas. O filósofo Hindu diz: Sat, Chit, Ânanda; a voz popular proclama: Brahmâ, Vishnu, Mahâdeva. O Budista fala de Amitâbha, a Luz Ilimitada, Avalokiteshvara e Manjusri; O Parsi, de Ahura-Mazda, Spento e Angro-Mainyush, e Armaiti; o Hebreu, de Kether, Binah e Chockmah; O Cristão, do Pai, Filho e Espírito Santo. O Muçulmano, por razões históricas óbvias, não se junta ao coro; ele diz “Ele não engendra, nem é engendrado”, aludindo ao ensinamento Cristão; mesmo assim no Corão rebrilham os atributos de o Poderoso, o Misericordioso, o Sábio, tão característicos da triplicidade do Ser. Esta triplicidade é melhor acompanhada mantendo-se claras na mente as marcas características de cada aspecto – do primeiro, a Fonte da Eterna Beatitude, a Auto-existência, o Poder; do segundo, a Fonte da Consciência, de onde procedem as encarnações; do terceiro, a Mente Criativa ativa que dá existência ao universo.

3 – As Hierarquias Suprafísicas e seus Mundos. Aqui a diferença de língua, de expressão, mencionada antes, tem dado origem a muitas concepções equívocas. No Ocidente, Deus e seus equivalentes sempre significam o Um, sendo, além disso, declarado pelo Cristianismo que cada uma das Três Pessoas da trindade é Deus, formando em sua totalidade um só Deus, e não três; há uma unidade de natureza com uma diversidade de características. Mas esta palavra Deus jamais é aplicada no Ocidente às vastas Hierarquias suprafísicas que povoam os degraus superiores da escada do Ser. Eles são os Arcanjos, Anjos, Querubins, Serafins, Potestades, venerados, invocados, muitas vezes cultuados, mas sempre reconhecidos como ministros, como agentes do Supremo. Estes seres são conhecidos pelo Parsi como os Ameshaspentas e suas hostes; pelos Hebreus e Maometanos como Anjos; pelos Hindus e Budistas como Devas – literalmente Seres Brilhantes, um epíteto descritivo de fato adequadíssimo. Infelizmente os Ocidentais têm traduzido a palavra Deva como Deus, e por isso temos os trinta e três milhões de Deuses, sobre os quais os ignorantes fazem troça. A palavra Brahman é o verdadeiro sinônimo da palavra Deus, e Deva o é de Anjo. Todo leitor de literatura inglesa sabe que John Bunyan, em seu Pilgrim’s Progress, usa este mesmo termo, os Seres Brilhantes, para designar os Anjos; e esta é a palavra natural para qualquer vidente usar, tendo-os visto fulgurar através do empíreo em suas missões de administração, de socorro e de libertação. O Deva, para o Hinduísta e o Budista, é exatamente o mesmo que o Arcanjo e o Anjo do Cristão e do Muçulmano, e sua existência não tira nada da unidade de Deus em um caso mais do que no outro. Se fôssemos seguir esta linha de argumento poderíamos da mesma forma supor que os Vice-reis, os Juízes, os Magistrados, os Comissários, os Generais e os Almirantes do Império diminuem a autoridade suprema do Rei-Imperador, como os Devas diminuiriam a supremacia de Deus. Eles apenas administram as leis da natureza, auxiliam os homens, mulheres e crianças, salvam-nos de muitos perigos e os encorajam em muitas aflições; não é que eles sejam Deus – a não ser que neste sentido também sejamos Deus – mas que Deus está neles assim como em nós, e só podem entender o politeísmo dos Hinduístas e Budistas aqueles que percebem que “é por causa do Eu que o Deva é amado”. Quão miserável, quão solitário seria o mundo se só houvesse as inteligências do homem e de Deus! Quão vazio seria, não fosse por estes Seres Brilhantes que ocupam cada degrau da escada acima de nós! Há uma vasta escada de consciência desde o mineral até o Senhor do Universo, e estamos em determinado nível nesta escada, não diferindo em essência daqueles acima ou abaixo de nós. Os Devas não perturbam, mais que os homens, a unidade de Deus.

É fato que os Hinduístas e os Budistas, assim como os Católicos Gregos e Romanos, tiram partido do ministério dos Anjos, e invocam estes Ministros divinos. Por que não? O Anjo, o Deva, encarna um fragmento do Eu Universal, e a luz de Brahman brilha através dele. Será errado que os frágeis rebentos de piedade, amor e culto no mais ignorante, mais tolo e mais subdesenvolvido dos filhos do Pai Universal, cresçam debaixo da forma radiosa de alguma Inteligência benévola, mais prontamente compreensível, mais facilmente adorável do que o Eu Onipresente? Idolatria? Ah, não! Não no mau sentido; a idolatria errada é adorar o eu separado; a idolatria certa é adorar o Eu Universal sob qualquer forma que estimule a inteligência, que avive o coração.

Os mundos das Hierarquias são os mundos mais sutis que o físico, imperceptíveis pelos sentidos físicos. Os livros Hindus e Zoroastrianos falam extensamente destes mundos e deles dão muitas descrições. O Buda nos fala que viu estes mundos, “o mundo abaixo, com todos os seus espíritos, e os mundos acima”. Os Cristãos e Muçulmanos acreditam em um céu e um inferno, e suas escrituras falam disso. Não vale a pena nos estendermos em fatos tão bem conhecidos.

4 – A Natureza do Homem. O homem é divino, em sua essência mais íntima é um Espírito, usando vestes de matéria. O Hindu proclama “Eu sou Ele”. O Budista Chinês fala do “homem verdadeiro sem posição”, o Espírito-jóia no lótus do corpo. O Fravarshi do Zoroastriano é o Âtmâ do Hindu. O Hebreu declara “Vós sois Deuses”, e o Cristão proclama exultando que o corpo é o templo de Deus. O Muçulmano não fala tão claramente, mesmo assim temos a imortalidade claramente atribuída ao homem, e então quando lemos que “tudo perecerá salvo a Face de Deus” (Al-Corão, XXVIII) somos forçados a concluir que eles também reconhecem a identidade na natureza de Deus e do Homem.

E esta unidade transparece claramente no ensinamento Sufi: Jãmi declara:

Tu és o Ser absoluto; tudo o mais não passa de um fantasma,
pois em Teu universo todos os Seres são um.
Tua Beleza, que cativa o mundo, a fim de expressar suas perfeições
aparece em milhares de espelhos, mas é uma só.
No Gulshan-i-Raz lemos:
Tu és o olho da reflexão
enquanto Ele é a luz do olho…
quando olhas bem dentro da raiz da matéria,
Ele é o Vidente, e o Olho, e a Visão.

Às vezes se pergunta: “O homem tem um Espírito?” Não, não tem. Ele é um Espírito e possui um corpo. O corpo não possui o Espírito, mas o Espírito possui o corpo. Ele não é dono do Espírito, mas o Espírito é o senhor do corpo. O corpo é transitório, o Espírito é eterno; o corpo nasce e morre no mundo; o Espírito é não-nascido, é imortal. Se alguma vez observamos um moribundo, que conheceu sua própria natureza, e viu como o Espírito se rejubila na vida mais vasta e potente que se abre diante de si quando é descartado o peso da carne, devemos ter compreendido a verdade da frase que diz que não existe tal coisa chamada morte, em qualquer sentido real do termo. A morte é a passagem de uma sala para outra dentro da mansão do universo; a morte é a retirada de um pesado capote e a passagem para uma vida em traje mais ligeiro. Na morte o homem não perde nada de seus poderes espirituais, intelectuais e emocionais; ele não perde nada senão a carne. Nós somos Espíritos, Centelhas do Fogo Único, Raios de um Único Sol; estamos na imagem da eternidade de Deus; somos tão eternos quanto Ele.

5 – Sua Evolução. Aqui pode brotar uma pergunta dos lábios de alguém: “Não se pode dizer que as religiões ensinem o mesmo a este respeito. Como se pode reconciliar a reencarnação do Hinduísta com a criação especial de cada Espírito do Cristão?” Obviamente não se pode; a doutrina de uma criação especial para cada Espírito é moderna, antifilosófica e blasfema, e completamente indefensável. Mas posso alegar que até 533 dC o Cristianismo não negava a pré-existência do Espírito, e cabe aos Cristãos explicar por que negaram a antiga doutrina e impuseram uma heresia ao mundo Cristão. A doutrina da reencarnação – o desdobramento dos divinos poderes do Espírito através de uma série de veículos cada vez mais evoluídos e melhores – é uma doutrina comum a todas as antigas Fés. O Hinduísmo e o Budismo a ensinam, ou mais precisamente, fundamentam seus ensinamentos neste fato natural bem estabelecido. Os Egípcios baseavam nela suas concepções da vida pós-morte; Platão, Pitágoras e os mundos grego e romano a reiteravam. Os Judeus a ensinavam, como pode ser lido em Josephus, na Kabbala, e em outros lugares. Era a doutrina corrente no tempo de Jesus, e foi aludida por Ele em mais de uma ocasião; diversos Padres da Igreja a ensinaram; a doutrina permaneceu na Igreja Cristã entre algumas seitas como os Albigenses; reapareceu com força na Igreja da Inglaterra, nos séculos XVII e XVIII, e foi ensinada por clérigos desta Igreja assim como por leigos eruditos. Um pouco mais tarde Wordsworth cantou:

Nosso nascer é apenas dormir, é tão-somente olvidar..
E esta alma que vive em nós, de nossa vida a estrela,
já habitou noutro lugar
e bem de longe procede ela.

Mais uma vez, em nossos dias, esta doutrina está sendo pregada na Cristandade por clérigos da Igreja Fundamentalista. Há uma frase, acreditada pelos Cristãos ter sido dita por seu Mestre, que é de longe um argumento mais persuasivo do que o que emerge do significado de textos disputados: “Sêde, pois, perfeitos”, ordenou Ele aos Seus discípulos, “assim como vosso Pai que está no céu é perfeito”. Perfeitos assim como Deus é perfeito. Pretende-se que qualquer um de nós, frívolos, tolos, limitados, podemos – antes que o túmulo nos receba ou o fogo nos consuma – nos tornar tão perfeitos como Deus é perfeito, onisciente, todo-poderoso, todo-santo? Que palavras humanas podem abranger a descrição das perfeições do Supremo? Mesmo assim Jesus não hesitou em dizer “Sêde perfeitos assim como vosso Pai no céu é perfeito”. Como este mandamento pode ser obedecido senão através de muitas, muitas vidas, ao longo das quais subimos lentamente na longa escada da perfeição?

Que nenhum Cristão, pois, deixe de reivindicar sua esplêndida herança como filho de Deus: que ele reclame seu direito de nascença de reproduzir a semelhança divina em si mesmo.

A posição do Muçulmano quanto à reencarnação é duvidosa: alguns sustentam que ela pode ser inferida do Corão, mas certamente ela não faz parte da educação religiosa Muçulmana comum. Mas no século XIII dC temos o dervixe Jelâl, cujos ensinamentos são preservados no Mesnavi, e ele diz:

Eu morri como mineral, e me tornei uma planta.
Eu morri como planta, e reapareci em um animal.
Eu morri como animal, e me tornei um homem.
Por que então devo temer? Quando é que me tornei menor ao morrer?
Da próxima vez eu morrerei como homem,
para que possa ganhar asas de anjo.
E mesmo do anjo devo esperar avanço; todas as coisas perecerão, salvo Sua Face.
Mais uma vez devo alçar meu caminho acima dos anjos;
E me tornar o que não cabe na imaginação,
e por fim me tornarei nada, nada; pois as cordas da harpa cantaram para mim:
“Em verdade havemos de voltar para Ele”.

A posição do Zoroastriano também é dúbia neste ponto – alguns Parsis a afirmam, outros a negam; e somente podemos apontar para o fato de que o Zoroastrianismo é “uma religião em fragmentos”, e dizer que esta doutrina é ensinada nos escritos gregos e neoplatônicos, que parecem reproduzir os ensinamentos Persas, depois da destruição da biblioteca de Persépolis por Alexandre.

6 – As Grandes Leis. Por “Grandes Leis” quero significar a Lei do Karma, ou de causa e efeito; e a Lei do sacrifício, ou de propagação e manutenção da vida.

A Lei do Karma é apresentada pela ciência nas seqüências invariáveis que ela chama de leis da natureza; o teólogo a chama de justiça divina. É a rocha sobre onde tudo é construído, o verdadeiro sustentáculo de todo o pensamento e de toda atividade. Ela prevalece em todos os mundos, densos e sutis; é uma lei universal. É bem clara no versículo Cristão: “Não vos enganeis, de Deus não se zomba; o que quer que um homem plante, aquilo é o que colherá” (Gálatas, VI, 7). Diz Buda: “Se um homem fala ou age com pensamento maligno, a dor o segue, assim como a roda segue as pegadas do boi que puxa o carro… Se um homem fala ou age com um pensamento puro, a felicidade o segue como a sombra que jamais o abandona”. O Hinduísmo abunda em tais passagens, e elas podem ser colhidas em todas as escrituras.

A Lei do Sacrifício é a declaração do fato de que tudo o que vive, vive pelo sacrifício, forçoso ou voluntário, de outras vidas; que a Vida emanada do Supremo é o esteio do mundo. Nos reinos inferiores o sacrifício é compulsório – os minerais se desintegram para que a planta possa viver; as plantas, para que animais e homens vivam. No reino humano, com o grande crescimento da inteligência, se torna possível a associação voluntária da vontade individual com a Vontade universal. À medida que isso se torna mais completo se desdobra a vida espiritual, e por fim se realiza plenamente. O símbolo da Cruz encarna, para o Cristão, a vida ideal de sacrifício; e todo aspirante a Brahman, a Buda, ou a Cristo, trilha o Caminho da Cruz.

O estudante pode expandir este breve resumo em um livro, e quanto mais ele estudar, mais claramente transparecerá a Fraternidade de todas as Religiões, expressa através de suas Doutrinas Comuns.

Temos ainda de considerar as Lendas Comuns e a Ética Comum a todas elas.

As Lendas Comuns

Há certas histórias, que se contam sobre os Fundadores das Religiões, cujo perfil é semelhante em todas elas; esta identidade de linhas gerais se deve ao fato de que cada Fundador é visto como uma encarnação do Logos, e que o símbolo do Logos, em todos os credos, é o Sol.

De fato o Sol – a fonte da vida e da luz para os mundos deste sistema – é considerado nas antigas religiões como sendo o corpo do Logos, Sua forma manifesta no plano da matéria física, ao passo que nas religiões modernas o Sol é usado como símbolo do Senhor onipresente, imagem perfeita para Aquele que sustenta todos os mundos. A sempre repetida lenda do Sol, a história anual de nossa Terra, é a verdade fundamental, é o mito estruturador da manifestação física de todo Fundador de uma grande religião, e Suas vidas humanas sempre repetem o drama do Sol sobre o palco do mundo.

Esta declaração não vale quanto à religião do Islã, e a razão é evidente. O grande Profeta da Arábia é considerado pelos seus seguidores como sendo puramente humano, e não como uma encarnação do Logos, e eles pensam corretamente; mas em todas as religiões onde o Fundador é visto como uma encarnação divina reaparece o perfil do grande mito. Este fato tem sido usado como argumento para provar que os Fundadores não possuem existência histórica, mas isso é um equívoco. A vida histórica contém os elementos que reencarnam o mito, e da figura histórica fulgem os raios do Sol divino; não é que seja o Sol o Fundador, mas que ambos, Sol e Ele, são representantes físicos da vida central de um sistema mundial, e aquilo que o Sol é para seu sistema o Fundador é para Sua religião.

O Mitra da Pérsia tinha como ícone o Touro, assim como Osíris no Egito, porque o Touro era o signo zodiacal do equinócio vernal – a Ressurreição – quando a religião se estabeleceu; Oannes na Caldéia tinha o Peixe como símbolo, pela mesma razão; Júpiter era Júpiter Ammon; e Jesus era o Cordeiro, pela mesma razão.

O Fundador Divino nasce em um lugar secreto, assim como o fez Shri Krishna em uma prisão, e o Senhor Mitra em uma caverna, e o Senhor Jesus em uma gruta – mudada para estábulo nos relatos canônicos. Os mistérios de Adônis antes eram celebrados, diz-se, também numa gruta. O nascimento é no solstício de inverno, e é sempre acompanhado por eventos maravilhosos, que variam conforme a nação. Os Devas fazem chover flores sobre Devâki, a mãe, e sobre seu Filho Divino; os Anjos enchem o ar com suas canções quando Maria, a Mãe Virgem, dá à luz o Divino Infante; vozes divinas cantam que o Senhor nasceu quando Neith, a Virgem Imaculada, dá nascimento a Osíris, o Salvador; quando nasce Zoroastro, a luz de seu corpo enche o aposento com sua radiância; os Devas cantam jubilosos quando Buda nasce, e nos escritos chineses, embora não nos indianos, diz-se que ele nasce de uma Mãe Virgem, Mâyâ, encoberta por Shing-Shin, o Espírito. O nascimento de diversos destes Seres foi anunciado pelo aparecimento de uma estrela. Krishna e Jesus foram ambos ameaçados de morte na infância, um por Kamsa, o outro por Herodes. Nârada proclama a natureza de Krishna infante, Asita fala das futuras glórias do pequeno Buda, Simeão saúda o Jesus bebê como a salvação do mundo. Buda é tentado por Mâra, e Jesus por Satã. Todos estes Grandes Seres curaram doentes, endireitaram deformados, ressuscitaram mortos.

Assim se assemelhando em suas vidas, os Fundadores das Fés mundiais se assemelharam também em suas mortes. Sua morte é violenta, de qualquer forma que ocorreu; e sempre emergiu da idéia de sacrifício, o sacrifício do Logos por quem os mundos foram criados, como consta no Purusha Sukta do Rig-Veda. Desta morte Eles se erguem triunfantes, ascendendo ao céu. Osíris é assassinado, Seu corpo é desmembrado, como o do Purusha do Veda; mas Ele se ergue e reina. Thammuz é lamentado morto, e festejado ressurrecto. A história de Adônis é uma réplica do Thammuz sírio. Krishna é alvejado por uma flecha de um caçador, e sobe para Seu próprio mundo. Mitra é morto, e ascende da morte, para a salvação de Seu povo. Jesus é morto, mas se ergue e ascende aos céus. E todas as mortes e ressurreições recaem no equinócio vernal.

Estas inumeráveis semelhanças não podem surgir do acaso, são sinais de uma trajetória comum, reaparecendo continuamente. As semelhanças superficiais saltam aos olhos à medida que folheamos as páginas das escrituras mundiais, e quanto mais estudamos, mais as lendas comuns se revelam os sempre repetidos contos de fadas da Lenda Mundial.

Ética Comum

Que uma moralidade sublime seja uma posse comum a todas as Religiões Mundiais é um fato estabelecido bem demais para necessitar discussão. Tudo o que é preciso aqui é fazer algumas poucas citações, o bastante para indicar os ricos veios de metal de onde estas inestimáveis pepitas são retiradas.

Devolver Bem pelo Mal. O Manu diz: “Com o perdão do mal o sábio é purificado”; “Não vos enfureçais com o homem furioso; se vos falam asperamente, respondei com suavidade”. No Sâma-Veda: “Faz a trocas difíceis de fazer: paz pela ira; verdade pela falsidade”. O Buda ensina: “A um homem que tolamente me prejudica, lhe devolvo a doçura de meu amor incondicional; quanto mais ele me der mal, mais bem lhe devolverei”; “Que um homem vença a raiva com o amor; que vença o mal com o bem; que vença a cobiça com a liberalidade, a mentira com a verdade”; “O ódio não cessa jamais com ódio; o ódio cessa com o amor”. Lao-Tsé diz: “Ao bom dou bondade; ao não-bom também dou bondade. Ao fiel dou fidelidade; ao não-fiel também dou fidelidade; a Virtude é fiel. Recompensa o mal com gentileza”. Confúcio respondeu a um questionador: “O que não queres para ti não o faças a outrem; quando estiveres trabalhando para outros, que seja com o mesmo zelo como se fora para ti mesmo”. Jesus disse: “Amai vossos inimigos, abençoai os que vos amaldiçoam, fazei o bem aos que vos odeiam, e rogai por aqueles que vos desprezando abusam de vós e vos perseguem”.

Humildade e Ternura. Lao-Tsé diz: “Com vigilância constante sobre a natureza passional, e com ternura, é possível se tornar uma criancinha. Afastando a impureza do olho oculto do coração é possível se tornar imaculado. Há uma pureza e quietude com as quais podemos reger todo o mundo. Por preservar a ternura eu me torno forte”. “O sábio… coloca a si mesmo por último, mesmo assim ele é o primeiro; ele abandona a si mesmo, mas mesmo assim é preservado. Não vem isso de ser altruísta? Por isso ele preserva intacto o auto-interesse. Ele não se exibe, e portanto brilha. Ele não se autopromove, e por isso é distinguido. Ele não louva a si mesmo, e por isso tem mérito. Ele não louva a si mesmo, e assim permanece no alto”. Jesus ensina: “A não ser que vos torneis como crianças pequenas não podereis entrar no reino dos céus”; “Aquele que exaltar a si mesmo será rebaixado, e aquele que se humilhar será exaltado”.

A Retidão é mais Importante que as Formalidades. O Manu declara a lei da ação “mental, verbal e corpórea”: “desta ação tríplice, saiba o mundo que é o coração o seu instigador”; “A um homem contaminado pela sensualidade, nem os Vedas, nem a liberalidade, nem os sacrifícios, nem as observâncias, nem as austeridades, lhe trarão felicidade”. O Buda diz: “É o coração da fé acompanhando as boas ações o que como que espalha uma sombra benéfica do mundo dos homens ao mundo dos anjos”. Jesus lamentou: “Vós pagais dízimo da hortelã, do endro, do anis e do cominho, e omitistes os preceitos mais importantes da lei – justiça, misericórdia e verdade”.

Eu poderia prosseguir assim citando texto após texto sobre cada virtude, e da árvore de cada religião se poderia retirar folhas semelhantes. Pois todas ensinam as mesmas verdades; todas são canais da vida única; todas as escrituras repetem a mensagem única, porque só existe uma única grande Fraternidade de Mestres, e cada um que dela procede fala a mesma língua.

Daí que as religiões não são rivais, e não devem odiar-se mutuamente. Elas são filhas de um mesmo pai, proclamando para o benefício da humanidade as verdades que aprenderam na casa ancestral. Existe uma Fraternidade de Religiões real, e todos os que estudam as religiões do mundo devem reconhecer a identidade de seus ensinamentos. Para quem estuda Mitologia Comparada, todas as religiões são igualmente falsas, e são frutos da ignorância. Para um Teosofista todas as religiões são verdadeiras, e são o fruto da SABEDORIA. Toda religião tem o mesmo direito a todas as verdades, e nenhuma pode reivindicar nada como seu exclusivamente, “meu, não teu nem dele”. Antes a frase verdadeira é “meu, porque é teu e é também dele”.

Há uma só Religião – o conhecimento de Deus, e todas as religiões são ramos desta mesma árvore, a Árvore da Vida, cujas raízes estão no céu enquanto seus ramos se esparramam no mundo dos homens. A raiz celeste é a SABEDORIA – não a fé, não a crença, não a esperança, mas o conhecimento do Deus que é a Vida Eterna. De qualquer um de seus ramos uma pessoa pode colher uma folha para a cura das nações. Que ninguém negue o que para outra pessoa é verdade, pois ela pode ver uma verdade que outros não conseguem ver; mas que ninguém tente impor sua própria visão sobre outros, pois pode cegá-los ao forçá-los a ver o que não está dentro de seu campo de visão. Só existe um Sol, e cada energia em nossa Terra não passa de alguma forma de força solar; e assim como um só Sol alimenta toda a Terra, um só Eu brilha em todos os corações. Só existe uma blasfêmia – a negação de Deus no homem. Só existe uma heresia – a heresia da separatividade, que diz: “Sou outro além de ti, nós não somos um só”. Para a redenção do mundo nós precisamos mais do que altruísmo, por mais nobre que ele seja. Precisamos aprender a anulação do eu individual, o sacrifício, a auto-entrega, mas não estaremos firmes no Um antes de podermos dizer “Não há outros; é o Eu em tudo”. Quando todos os homens disserem isso o mundo conhecerá sua Era Dourada: quando um homem diz isso através de sua vida, sua presença é uma bênção onde quer que ele vá. Somos irmãos, mas mais que irmãos. Os irmãos têm apenas um mesmo pai; nós temos um Eu comum. Em tudo à nossa volta vejamos a Glória do Eu, e lembremos que negar o Eu no mais baixo é negá-lo em nós mesmos e em Deus.


Theosophical Publishing House
Adyar, Madras, Índia
Primeira Edição em fevereiro de 1913
Reimpresso em outubro de 1919

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