Aceitar as pessoas como elas são não nos obriga a conviver com elas

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É preciso tolerar e aceitar as pessoas como elas são, porém, conservando-nos o direito de nos afastar cordialmente de quem não nos agrada.

A tolerância é uma necessidade urgente neste mundo violento de hoje, em que uma simples discussão no trânsito pode chegar a provocar mortes. A intolerância é a mãe do preconceito, da exclusão, do racismo, de tudo, enfim, que segrega, separa e agride o que não se aceita, o que não se acha normal, o que incomoda sem nem haver razão. Sim, é preciso tolerar e aceitar as pessoas como elas são, porém, conservando-nos o direito de nos afastar cordialmente de quem não nos agrada.

Podemos entender que o outro tem a própria maneira de pensar, que sua história de vida é peculiar e suas bagagens podem ser totalmente diferentes das nossas. Podemos compreender que as verdades alheias, por mais que nos soem ilógicas e absurdas, são do outro tão somente e não necessariamente nossas. Desde que não nos firam, as escolhas do outro não nos dizem respeito. Desde que o outro esteja feliz, sem pisar ninguém, não temos como tentar intervir em estilos de vida que não são nossos.

Devemos saber discordar sem ofender, sem tentar impor o que pensamos como verdade absoluta – isso é arrogância burra. Necessitamos ouvir o que o outro tem a dizer, por mais que não enxerguemos ali razão alguma, mesmo que o que disserem ou fizerem seja exatamente o contrário de tudo o que temos como certo. Desde que não nos ofendam, nem ultrapassem os limites de nossa dignidade pessoal, os outros terão o direito de viver o que bem quiserem.

Por força maior, como o emprego ou a família, inevitavelmente estaremos sujeitos à obrigação de conviver ao lado de pessoas com quem não simpatizamos ou cujas idéias não se afinem minimamente com as nossas. No entanto, sempre poderemos escolher quem ficará ao nosso lado nos momentos mais preciosos de nossa jornada, enquanto construímos nossa história de vida, de luta e de amor.

Da mesma forma, conseguiremos nos desviar de quem nos desagrada, afastando-nos das pessoas que nada nos acrescentam, sem precisar criticá-las ou brigar com elas. Sim, podemos – e devemos – aceitar as pessoas como elas são, pois isso é o mínimo que se requer, em se tratando de sociedade, porém, não seremos obrigados a conviver além do necessário, além do suportável, além do adequado, com gente que enche a paciência e nos irrita. Isso seria masoquismo.

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Projeto de remédios de código livre dá primeiros resultados

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Remédios de código livre

No que está sendo chamado de a primeira descoberta de remédios de “código-fonte aberto”, cientistas de todo o mundo trabalharam em conjunto para identificar compostos químicos para tratar e prevenir doenças transmitidas por parasitas, como a malária, e alguns tipos de câncer.

Nas pesquisas de código aberto, todos os cientistas compartilham informações livre e abertamente e não registram patentes das descobertas, deixando todos os resultados em domínio público.

O esforço começou em 2011, quando a entidade Medicines for Malaria Venture, com sede em Genebra (Suíça), distribuiu 400 diferentes compostos químicos com potencial atividade antimalárica para 200 laboratórios em 30 países.

Um terço dos laboratórios fizeram agora um relatório conjunto dos resultados em um artigo publicado na revista PLoS Pathogens.

Remédios contra malária e câncer

As pesquisas deram origem a doze projetos de desenvolvimento de medicamentos, e não apenas para malária, mas para uma variedade de doenças.

“O ensaio foi bem-sucedido, não só na identificação de compostos para desenvolver fármacos contra a malária, mas também identificou compostos para o tratamento de outros parasitas e para o câncer,” disse o professor Wesley Van Voorhis, da Universidade de Washington, que liderou a elaboração do relatório.

O Instituto Nacional do Câncer dos EUA já está trabalhando em uma droga contra o câncer de cólon, que surgiu a partir do esforço, informou Van Voorhis. Vários laboratórios europeus estão trabalhando em compostos contra a malária, enquanto os laboratórios dos EUA estão investigando medicamentos para combater outros parasitas.

Colaboração entre universidades e empresas

Empresas farmacêuticas, como a GSK e a Novartis, já se interessaram pelos resultados e estão colaborando com o projeto com intenção de fabricar os medicamentos descobertos.

“Grande parte dos recursos globais em biologia está nas universidades, enquanto que o foco da química medicinal ainda está em grande parte dentro da indústria. A descoberta de drogas open-source, com o compartilhamento de informações, é claramente um primeiro passo para superar essa lacuna,” escreveu Van Voorhis em seu relatório.

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Viver em comunidade é realidade no interior de São Paulo

Porangaba (169 km a oeste de São Paulo) possui um grupo especial de habitantes: 18 adultos e uma criança vivem em uma comunidade auto-sustentável batizada de Parque Ecológico Visão Futuro, que ocupa uma área de 70 hectares. Eles fazem as refeições juntos, compartilham as salas de meditação e de TV, moram em casas comunitárias e trabalham na própria comunidade.

O Visão Futuro é uma ecovila, cujo formato é uma herança das comunidades alternativas dos anos 60. O conceito, porém, é diferente daqueles usados pelos hippies.

“As ecovilas respondem mais ao que as pessoas de hoje querem e precisam, pois inovam constantemente em tecnologia e em forma de governança”, diz a socióloga paulistana May East, que mora há 11 anos em Findhorn, no Reino Unido, a primeira ecovila do mundo. East é consultora da GEN (Global Ecovillages Network ou Rede Global de Ecovilas) e representa o movimento na ONU. “Para as Nações Unidas, as ecovilas são a revolução do habitat”, diz ela.

“A auto-sustentabilidade vai ao encontro das necessidades do presente sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras.” De acordo com dados da GEN, há cerca de 15 mil ecovilas espalhadas pelo mundo, somando perto de 1 milhão de moradores. No Brasil, existem cerca de 30 comunidades, assessoradas pela Rede de Ecovilas das Américas, que dá suporte e integra as comunidades do continente. Cada ecovila reúne até 2.000 pessoas dispostas a criar estratégias para viver melhor, baseando-se em valores como o respeito à natureza, a importância das relações interpessoais e a diversidade.

Objetivo compartilhado

O ideal comum que rege a vida de cada uma dessas comunidades é chamado de “cola”. A “cola” do Visão Futuro, por exemplo, é a espiritualidade. Seus moradores praticam ioga e meditação de acordo com os métodos da biopsicologia, que integra as pesquisas em psiconeuroimunologia do Ocidente com uma milenar prática oriental que relaciona as vibrações dos “chakras” -centros de energia do corpo- com as secreções endócrinas.

Já na ecovila australiana Crystal Waters, a “cola” é a permacultura e o design ecológico. Os primeiros moradores viveram em cabanas durante quatro estações para observar a direção do sol e dos ventos e as épocas de chuva e neve para depois escolher os melhores locais e materiais para suas casas e decidir quais alimentos produzir e como plantá-los.

Nas ecovilas, consome-se pouco, reutiliza-se muito e recicla-se quando necessário. A agricultura é orgânica e sazonal. O que falta de alimento é obtido com produtores e comerciantes regionais, fortalecendo a economia local. Os sistemas de captação de energia são renováveis e atóxicos, obtidos com tecnologia sofisticada, porém não agressiva ao ambiente. A água é reaproveitada ao máximo: depois de utilizada nos chuveiros e na cozinha, ela é tratada e irriga a horta, por exemplo.

Na escocesa Findhorn, as casas -feitas com a madeira reaproveitada de barris de uísque- são iluminadas e aquecidas com a combinação de energia eólica, placas solares e lenha de florestas de manejo sustentável. Frequentemente, roupas e objetos são trocados entre os moradores na “butique” local.

Garantir trabalho para cada um também faz parte dos objetivos desses agrupamentos, caracterizados como multifuncionais. As atividades variam de acordo com o nível de desenvolvimento da comunidade. As ecovilas mais antigas possuem vários negócios, como gravadoras, editoras, construtoras, laboratórios de essências florais, estúdios de design ecológico para tratamento de água, serviços de informática e escolas.

Tudo pensado de modo a não tirar nada da natureza que não possa ser devolvido. Nem todas as ecovilas estão localizadas em áreas rurais. Há cerca de dez comunidades urbanas; a primeira delas foi criada em Los Angeles (EUA). Pensar e decidir em grupo faz parte da vida comunitária.

Por isso, segundo East, cada ecovila deve abrigar, idealmente, até 500 pessoas, honrando a diversidade cultural, religiosa e de raça. “Nesse tamanho, todos se reconhecem, e todas as vozes podem ser ouvidas, sem a necessidade de nomear representantes.”

Quebra-cabeça

“Temos gente de todos os tipos para contribuir com um pedaço do quebra-cabeça”, diz a socióloga e psicóloga americana Susan Andrews, uma das fundadoras do Parque Ecológico Visão Futuro. A comunidade nasceu em 1997 a partir de um projeto de educação ambiental desenvolvido por ela.

Andrews, que morou por 30 anos na Índia, formou-se monja e fala 12 línguas, explica que o Visão Futuro, como as outras ecovilas, visa suprir as necessidades básicas de seus moradores: trabalho, alimento, vestuário, educação, saúde, moradia e energia.

A principal fonte de renda do parque são os cursos de biopsicologia ministrados por Andrews e sua equipe nos finais de semana. O restante é obtido com os tratamentos de ayurveda (medicina tradicional indiana) e com a venda de verduras orgânicas, cosméticos e produtos da padaria e da doçaria. As atividades do Visão Futuro incluem ainda elaboração de publicações, laboratório de plantas medicinais, oficina de costura e centro de artes e comunicação.

Todos esses setores têm o compromisso de contribuir com a arrecadação, destinada a pagar as despesas coletivas do Visão Futuro -alimentação, eletricidade, telefone, gás, produtos de limpeza e salários de funcionários e moradores. O que sobra vai para o setor que mais arrecadou. “Funciona como uma cooperativa: os setores são semi-autônomos e investem na atividade e nos profissionais, o que gera mais motivação”, diz Andrews.

O Visão Futuro conta com cinco casas comunitárias, onde moram os novos membros da comunidade, e quatro individuais, que abrigam os moradores mais antigos. Andrews afirma que a vivência nas moradias compartilhadas é importante para a pessoa amadurecer a idéia de morar na comunidade. “Mas isso não é uma imposição, é também circunstancial. Prezamos a individualidade, as pessoas querem ter seu espaço, isso é saudável. Mas não temos recursos para oferecer moradia nova para todos nesse momento”, explica.

As refeições são preparadas na cozinha comunitária, que, como os mantimentos da dispensa, está disponível a todos os moradores. Na hora de comer, é só escolher um cantinho. Mesas e cadeiras estão espalhadas sob as árvores, no refeitório e dentro da cozinha. É difícil ver alguém almoçando ou jantando sozinho, embora cada casa a tenha sua própria cozinha.

“Cozinhar para todo mundo é mais eficiente, poupa tempo. Além disso, as refeições são momentos de encontro”, diz Andrews. O chefe de cozinha Luiz Carlos Cardoso elabora, junto com os moradores, um cardápio semanal balanceado, sempre lactovegetariano, que é a dieta adotada por essa comunidade -nem todas as ecovilas são vegetarianas. Quitutes especiais, como tortas, geléias e chocolates podem ser comprados na padaria, na doçaria ou nos mercados da cidade.

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Em Campo Grande (MS), lei obriga aluno que não se comporta a lavar o banheiro da escola

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No Japão, esta é uma prática comum. Devíamos aprender com os orientais 🙂

Projeto piloto foi desenvolvido em escola municipal de Campo Grande (MS). Antes, casos de indisciplina levavam até 1 ano para ter uma decisão judicial.

Por Cesar Galeano

Uma escola municipal resolveu mudar a forma de chamar a atenção de alunos que não se comportam. E esse projeto acabou virando lei para todos os colégios de Campo Grande (MS).

O adolescente, que já fez da escola um ringue de luta, disse que não aguentou a provocação de um colega. “Na hora eu tava estressado, ele continuava e eu fui pra cima dele, sem pensar”, contou o adolescente.

A agressão custou caro. “Limpei banheiro, passei rodo no pátio”, disse o aluno. E não adiantou reclamar para a mãe. “Eu assino embaixo, para mim não tem problema nenhum. Ele tem que rever o que ele fez”, disse a mãe do adolescente.

Punir alunos com problema de indisciplina faz parte da realidade de uma escola há cinco anos. O projeto piloto desenvolvido lá deu tão certo que virou lei municipal. Agora, todas as instituições de ensino de Campo Grande são obrigadas a aplicar medidas educativas para quem comete alguma infração no ambiente escolar.

O projeto é uma iniciativa da Promotoria da Infância e Juventude. Antes, os casos de indisciplina levavam até um ano para ter uma decisão judicial, hoje não. “Dentro desse programa, com a força dessa lei, nós aplicamos quase que imediatamente, dentro de 48 horas, no máximo, o aluno está sendo levado a uma ação pedagógica, para reparar esse dano”, afirmou Sérgio Harfouch, promotor da Infância e Juventude.

Na escola Ada Teixeira, a palavra “dano” já foi excluída do vocabulário. “Não tem mais briga, não picha mais a escola, não agride professor”, contou o aluno. “Está mais equilibrado o comportamento dos alunos”, disse outra estudante.

“O aluno hoje respeita a escola, o aluno se respeita, os pais respeitam a instituição, então nós temos uma tranquilidade muito grande em relação a isso”, afirmou Valson Campos Dos Anjos, diretor da escola.

Quem já chegou a levar até bebida alcoólica na escola que o diga. “Eu pensava que podia tudo, agora eu sei que tem um limite. Qualquer coisa que eu fizer errado, eu tenho que pagar pelo o que eu fiz”, disse o aluno. A punição ainda ajudou o jovem a se livrar da bebida.

A mãe agradece. “O aluno cometer um erro e não pagar por aquilo, isso sim é grave. Mas se ele cometeu um erro e ele está pagando, ele está refletindo sobre aquilo, ele vai ter a oportunidade de aprender. Deveriam todas as escolas fazerem isso”, falou a mãe do aluno que levou bebida alcoólica para a escola.

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Cidade da Nova Zelândia tem banco que usa o tempo como moeda de negócios

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O banco de tempo de Lyttelton foi inaugurado em 2005 e já conta com 800 integrantes.

Lyttelton é uma cidade portuária na Nova Zelândia. Além de suas belas paisagens, o local tem um diferencial: um banco de tempo. O negócio social permite que os moradores façam negociações tendo o tempo como moeda de troca.

O banco de tempo de Lyttelton foi inaugurado em 2005 e criado por Margaret Jefferies, com base em um conceito criado pelo professor norte-americano Edgar Cahn. A ferramenta ajuda a conectar pessoas, incentivar o voluntariado, promover o senso de comunidade e ainda permitir que as pessoas obtenham serviços, sem que seja necessário usar dinheiro para obtê-los.

Usar o tempo como moeda tem provocado grandes mudanças na cidade neozelandesa. Cinco anos após a criação do banco, a cidade de Christchurch, nos arredores de Lyttelton, sofreu um grande terremoto. Após o desastre, a quantidade de pessoas envolvidas e dispostas a doarem tempo para ajudarem na reconstrução e resgate das cidades cresceu absurdamente.

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Logo após o terremoto, os 400 membros do banco já somavam mais de 30 mil horas de crédito. Atualmente, já são 800 pessoas integrando essa rede de trocas de serviços e voluntariado. Todas as iniciativas têm o mesmo peso. Assim, não importa se o tempo foi gasto em um jardim ou cuidando de uma criança, o crédito de horas é exatamente o mesmo do que foi gasto.

Em entrevista ao The Guardian, o pesquisador e membro do conselho do TimeBanks EUA, Chris Gray, explicou que a ferramenta tem inúmeros benefícios e é o formato de uma economia do futuro. “A troca de habilidade e conhecimentos promove relacionamentos de confiança e reciprocidade”, informou o cientista. Para ele, esses são itens fundamentais para o fortalecimento e crescimento das comunidades.

Os bancos de tempo são alternativas excelentes também para auxiliar o governo a suprir necessidades de serviços, principalmente diante dos desafios do futuro, com a expectativa de problemas consequentes das mudanças climáticas e dificuldades econômicas e sociais.

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Canadenses estão cortando notas de 20 dólares ao meio

Canadenses estão cortando notas de 20 dólares ao meio

A prática não e ilegal no país, mas está causando descontentamento dentro do Banco Nacional do Canadá

Por Ana Luísa Fernandes

Na cidade de Gaspé, que fica na província canadense de Quebec, os habitantes locais resolveram criar um novo sistema de moedas, o “Demi”, que significa “metade” em francês. As notas de 20 dólares, quando cortadas ao meio, têm valor de 10. As de 10, cortadas, passam a valer 5. A intenção é incentivar o comércio local: quando alguém compra comida de um mercado da cidade com o Demi, por exemplo, os donos do comércio têm que utilizar o dinheiro cortado. E o único local em que é possível fazer compras com notas rasgadas ao meio é em Gaspé.

“O Banco do Canadá acredita que escrever, fazer marcas ou mutilar notas é inapropriado, já que elas são um símbolo do nosso país e fonte de orgulho nacional”, disse a porta-voz do banco, Josianne Ménard. No Brasil, a prática não funcionaria: rasgar dinheiro é considerado crime, e prevê detenção de seis meses a seis anos.

Essa não é a única iniciativa que visa a criar um novo sistema de moedas: o HOURS, criado na cidade de Ithaca, em Nova York, utiliza as suas próprias notas, produzidas dentro da comunidade. “Enquanto os dólares nos deixam mais dependentes dos bancos e das corporações transnacionais, o HOURS reforça e expande o comércio local, o que é mais responsável segundo as nossas preocupações ecológicas e de justiça social”, afirma Paul Glover, que iniciou o programa.

A grande vantagem do Demi é que falsificá-lo é tão difícil quanto falsificar qualquer dólar canadense. Uma das grandes preocupações de sistemas que utilizam moedas “caseiras” é que elas são facilmente forjadas. O Demi exclui esse problema. Em contrapartida, apresenta outro, que pode ser ainda mais preocupante: qualquer pessoa que possua um dólar canadense, de qualquer parte do país, pode fazer um Demi e utilizá-lo em Gaspé. O difícil para os comerciantes locais é ter onde gastar esse dinheiro depois.

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A volta da cultura do “faça você mesmo”

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Um retrato dos moderninhos do século 21: para ser cool hoje em dia, é preciso viver como antigamente. Uma das grandes inspirações desse pessoal é a cultura do “do it yourself” (DIY), ou faça você mesmo, que teve origem no pós-guerra dos anos 50.

Por Ana Prado

O DIY fazia referência a projetos de reparos caseiros que as pessoas faziam sozinhas, usando os materiais que tinham à sua disposição. Nas décadas seguintes ao seu surgimento, o movimento começou a ser mais associado à cultura punk e alternativa e à produção musical e midiática independente (discos, rádios piratas e zines, por exemplo). Mas a sua força nos anos 2000 está mesmo é nos aspectos do dia a dia: as pessoas estão cada vez mais fazendo sua própria roupa, cerveja, sapatos e até móveis. A ideia continua a mesma: você pode muito bem construir, modificar ou consertar suas coisas sozinho, sem ter de recorrer à indústria ou a profissionais caros – no máximo, pode contar com a ajuda de um site como o DIY Wiki ou da revista alemã Landlust, publicação que ensina as pessoas não só a fazer seu próprio pão, mas a construir seu próprio fogão. Tudo em uma vibe saudosista que tenta escapar do stress da vida moderna e da escravidão à tecnologia. Essa nostalgia tem feito sucesso: a Landlust, lançada em 2005 por uma pequena editora de comércio agrícola, tem agora uma circulação de 800 mil exemplares. (A Veja, revista de maior circulação no Brasil, cuja população é duas vezes maior do que a alemã, tem tiragem de pouco mais de 1,2 milhão exemplares).

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Para entender melhor o movimento do DIY, a SUPER conversou com um especialista no assunto: George McKay, professor de estudos culturais da Universidade de Salford (Inglaterra) e autor do livro “DIY Culture – Party & Protest in Nineties Britain” (Cultura DIY – Festa e protesto na Grã-Bretanha dos anos 90). Ele falou sobre a origem do movimento e sobre as contradições que o acompanham hoje – já que, apesar de ter surgido como uma reação ao consumismo, o DIY virou algo fortemente comercial graças ao status descolado que ganhou.

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Como foi a origem do movimento DIY? Quem foram as pessoas que o começaram e qual era a sua filosofia?
Eu acho que voltar ao período de austeridade do pós-guerra na Grã-Bretanha dá uma boa noção da história recente deste país, porque então, na década de 1950, a necessidade, a criatividade, a juventude e as novas músicas estavam começando a se combinar em uma espécie de revolução da juventude. A música skiffle – uma espécie de mix de jazz popular/folk/blues fácil de tocar – foi um exemplo real dos primórdios da cultura musical do DIY, por causa dos instrumentos que as bandas de skiffle tocavam. Eram todos feitos por eles mesmos usando materiais da vida doméstica diária. A tábua de lavar e alguns dedais foram usados para percussão, uma caixa grande de madeira fina e um cabo de vassoura faziam um contrabaixo. Então você só precisava de uma guitarra barata, um par de acordes e muita atitude, e tinha um tipo de banda rock’n’roll caseira!

Como aparece uma consciência mais reflexiva à medida que o movimento se desenvolve ao longo das décadas a partir dos anos 1950, as gerações posteriores muitas vezes, clamaram por uma filosofia mais política, que normalmente se associa a algumas vertentes do pensamento anarquista, com o anti-mercantilismo, a ajuda mútua, o esforço coletivo e práticas sociais alternativas.

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Esse movimento está se popularizando em muitos lugares, inclusive no Brasil. Por que as pessoas estão se interessando mais por isso agora?
Isso tem a ver, em parte, com uma reação contra a cultura de massa, a mídia do espetáculo e das celebridades e a disseminação do consumo tecnológico – mesmo que tenhamos de admitir que os defensores do DIY também usam esses mesmos meios para se comunicar e organizar sua cultura.

Quais são as principais diferenças entre DIY de hoje e do passado? A filosofia continua a mesma?
Alguns aspectos da antiga contracultura podem ser vistos no contexto do DIY, como as ocupações de espaços abandonados e festivais abertos. Havia um esforço impressionante para a construção de formas alternativas de viver em um prazo mais longo. Mas é possível que nem todos estes tipos de espaços estejam disponíveis hoje.

Você vê algum tipo de nostalgia nessa tendência atual?
Bem, sim, mas também gosto de idéia de que isso possa ser uma “nostalgia crítica”, o que nos permite considerar a retrospecção da nostalgia não (apenas) como algo indulgente, mas também como algo potencialmente historicizante. Dessa forma, novas gerações podem ser capazes de aproveitar as experiências dos mais velhos, e as gerações mais velhas podem se inspirar com a energia e justiça da juventude de hoje. O ideal é que estejamos abertos e dispostos a sair de nossa zona de conforto.

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Existe alguma relação entre a cultura do DIY atual e um retorno da cultura hippie ou naturalismo?
Isso depende. Se hoje o DIY é uma espécie de versão consumista da visão que se tem sobre os anos 1960 ou 1970, então ela não deve ser de muita utilidade. Se as gerações mais novas são capazes de recorrer a aspectos mais radicais dessas décadas, abordando ao mesmo tempo as suas próprias questões urgentes com criatividade e energia, bem, isso seria bom para eles e para nós.

Podemos ver que os chamados “hipsters” de hoje têm uma queda por fazer suas próprias coisas ou por ter objetos que parecem terem sido feitos em casa. Por que você acha que isso está acontecendo?
Você não tem que ser um situacionista para reconhecer que a mercantilização da rebeldia e atitude vende (mas ajuda?). É o que a banda punk inglesa The Clash cantou, em 1977: “Huh, you think it’s funny / turning rebellion into Money” (“Huh, você acha que é engraçado / transformar rebeldia em dinheiro”). A estética DIY é atraente e reconhecidamente ‘cool’ e isso pode fazer com que seja também rentável, mesmo que seja uma contradição porque o DIY tinha a ver com a cooperação e não a exploração ou a cultura de lucro.

fonte: Revista Superinteressante, edição 296, Outubro de 2011.
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