A volta da cultura do “faça você mesmo”

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Um retrato dos moderninhos do século 21: para ser cool hoje em dia, é preciso viver como antigamente. Uma das grandes inspirações desse pessoal é a cultura do “do it yourself” (DIY), ou faça você mesmo, que teve origem no pós-guerra dos anos 50.

Por Ana Prado

O DIY fazia referência a projetos de reparos caseiros que as pessoas faziam sozinhas, usando os materiais que tinham à sua disposição. Nas décadas seguintes ao seu surgimento, o movimento começou a ser mais associado à cultura punk e alternativa e à produção musical e midiática independente (discos, rádios piratas e zines, por exemplo). Mas a sua força nos anos 2000 está mesmo é nos aspectos do dia a dia: as pessoas estão cada vez mais fazendo sua própria roupa, cerveja, sapatos e até móveis. A ideia continua a mesma: você pode muito bem construir, modificar ou consertar suas coisas sozinho, sem ter de recorrer à indústria ou a profissionais caros – no máximo, pode contar com a ajuda de um site como o DIY Wiki ou da revista alemã Landlust, publicação que ensina as pessoas não só a fazer seu próprio pão, mas a construir seu próprio fogão. Tudo em uma vibe saudosista que tenta escapar do stress da vida moderna e da escravidão à tecnologia. Essa nostalgia tem feito sucesso: a Landlust, lançada em 2005 por uma pequena editora de comércio agrícola, tem agora uma circulação de 800 mil exemplares. (A Veja, revista de maior circulação no Brasil, cuja população é duas vezes maior do que a alemã, tem tiragem de pouco mais de 1,2 milhão exemplares).

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Para entender melhor o movimento do DIY, a SUPER conversou com um especialista no assunto: George McKay, professor de estudos culturais da Universidade de Salford (Inglaterra) e autor do livro “DIY Culture – Party & Protest in Nineties Britain” (Cultura DIY – Festa e protesto na Grã-Bretanha dos anos 90). Ele falou sobre a origem do movimento e sobre as contradições que o acompanham hoje – já que, apesar de ter surgido como uma reação ao consumismo, o DIY virou algo fortemente comercial graças ao status descolado que ganhou.

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Como foi a origem do movimento DIY? Quem foram as pessoas que o começaram e qual era a sua filosofia?
Eu acho que voltar ao período de austeridade do pós-guerra na Grã-Bretanha dá uma boa noção da história recente deste país, porque então, na década de 1950, a necessidade, a criatividade, a juventude e as novas músicas estavam começando a se combinar em uma espécie de revolução da juventude. A música skiffle – uma espécie de mix de jazz popular/folk/blues fácil de tocar – foi um exemplo real dos primórdios da cultura musical do DIY, por causa dos instrumentos que as bandas de skiffle tocavam. Eram todos feitos por eles mesmos usando materiais da vida doméstica diária. A tábua de lavar e alguns dedais foram usados para percussão, uma caixa grande de madeira fina e um cabo de vassoura faziam um contrabaixo. Então você só precisava de uma guitarra barata, um par de acordes e muita atitude, e tinha um tipo de banda rock’n’roll caseira!

Como aparece uma consciência mais reflexiva à medida que o movimento se desenvolve ao longo das décadas a partir dos anos 1950, as gerações posteriores muitas vezes, clamaram por uma filosofia mais política, que normalmente se associa a algumas vertentes do pensamento anarquista, com o anti-mercantilismo, a ajuda mútua, o esforço coletivo e práticas sociais alternativas.

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Esse movimento está se popularizando em muitos lugares, inclusive no Brasil. Por que as pessoas estão se interessando mais por isso agora?
Isso tem a ver, em parte, com uma reação contra a cultura de massa, a mídia do espetáculo e das celebridades e a disseminação do consumo tecnológico – mesmo que tenhamos de admitir que os defensores do DIY também usam esses mesmos meios para se comunicar e organizar sua cultura.

Quais são as principais diferenças entre DIY de hoje e do passado? A filosofia continua a mesma?
Alguns aspectos da antiga contracultura podem ser vistos no contexto do DIY, como as ocupações de espaços abandonados e festivais abertos. Havia um esforço impressionante para a construção de formas alternativas de viver em um prazo mais longo. Mas é possível que nem todos estes tipos de espaços estejam disponíveis hoje.

Você vê algum tipo de nostalgia nessa tendência atual?
Bem, sim, mas também gosto de idéia de que isso possa ser uma “nostalgia crítica”, o que nos permite considerar a retrospecção da nostalgia não (apenas) como algo indulgente, mas também como algo potencialmente historicizante. Dessa forma, novas gerações podem ser capazes de aproveitar as experiências dos mais velhos, e as gerações mais velhas podem se inspirar com a energia e justiça da juventude de hoje. O ideal é que estejamos abertos e dispostos a sair de nossa zona de conforto.

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Existe alguma relação entre a cultura do DIY atual e um retorno da cultura hippie ou naturalismo?
Isso depende. Se hoje o DIY é uma espécie de versão consumista da visão que se tem sobre os anos 1960 ou 1970, então ela não deve ser de muita utilidade. Se as gerações mais novas são capazes de recorrer a aspectos mais radicais dessas décadas, abordando ao mesmo tempo as suas próprias questões urgentes com criatividade e energia, bem, isso seria bom para eles e para nós.

Podemos ver que os chamados “hipsters” de hoje têm uma queda por fazer suas próprias coisas ou por ter objetos que parecem terem sido feitos em casa. Por que você acha que isso está acontecendo?
Você não tem que ser um situacionista para reconhecer que a mercantilização da rebeldia e atitude vende (mas ajuda?). É o que a banda punk inglesa The Clash cantou, em 1977: “Huh, you think it’s funny / turning rebellion into Money” (“Huh, você acha que é engraçado / transformar rebeldia em dinheiro”). A estética DIY é atraente e reconhecidamente ‘cool’ e isso pode fazer com que seja também rentável, mesmo que seja uma contradição porque o DIY tinha a ver com a cooperação e não a exploração ou a cultura de lucro.

fonte: Revista Superinteressante, edição 296, Outubro de 2011.
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Quando o povo se organiza, sem líderes

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Os protestos dos estudantes de São Paulo fizeram o governo voltar atrás e derrubaram o secretário de educação. Sem lideranças nem estrutura organizacional, conseguiram seu objetivo. Como isso foi possível? Uma nova ciência explica. Veja nesta reportagem de 2013, feita à luz dos protestos históricos de junho daquele ano.

Por Alexandre Versignassi

Um líder de punhos cerrados, discurso inflamado, berrando para uma multidão. Essa era a imagem definidora de qualquer movimento popular. Agora não: “Os protestos parecem sem liderança, fora de controle – um enxame de pequenas causas sem nenhum princípio organizacional”, escreveu o americano Steven Johnson, um escritor especializado em movimentos sociais. Sim, a essa altura você sabe disso de cor e salteado. O que você talvez não saiba é que Johnson não está falando aqui sobre os protestos do Brasil. Nem sobre os da Turquia, o Occupy Wall Street ou a Primavera Árabe. Ele escreveu isso há 14 anos. Em 1999, a Organização Mundial de Comércio estava organizando uma série de conferências em Seattle. E as pessoas foram para a rua protestar contra a OMC, sem que houvesse líderes ou partidos políticos por trás da coisa. Nem uma causa propriamente dita. “Eram pequenos grupos de afinidade representando causas específicas – anarquistas, ambientalistas, sindicatos”. A única coisa que unia esses grupos era a ideia de que o comércio global criava mais problemas do que soluções. A ver: para os sindicatos, as multinacionais tiravam empregos dos EUA ao transferir fábricas para outros países, a fim de gastar menos com salários. Para os ambientalistas, elas poluíam. Motivações bem diferentes. Igual o que está acontecendo agora.

Quem tomou praticamente todas as grandes cidades do Brasil não tinha uma cartilha unificada de reivindicações. Mas, braços dados ou não, os manifestantes eram todos iguais no que realmente contava: tinham ido para a rua a fim de serem vistos e ouvidos. E, mais importante, não estavam seguindo ordens de líderes. Era cada um por si e a multidão por todos.

Essa é a grande novidade por trás de tudo o que está acontecendo agora. Pela primeira vez, os figurantes são os protagonistas dos movimentos sociais. Não há líderes. Nem ideologias predominantes. Tudo isso é tão recente que quem explica o fenômeno é uma ciência nova, que mal saiu das fraldas. Uma ciência multidisciplinar que começou não com um físico, um matemático ou um biólogo. Mas com um humorista.

Um humorista húngaro: Frigyes Karinthy. Frigyes era um escritor de contos engraçados, da década de 1920, e que hoje seria diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção (sempre esquecia dos compromissos e tinha problemas sérios com prazos). Mas até que era produtivo: em seu 46º livro, uma coleção de 52 contos, tinha um particularmente original. Chamava Correntes, e dizia o seguinte: “Para mostrar que as pessoas de hoje estão mais próximas do que nunca umas das outras, um dos caras da turma sugeriu um teste. Apostou que qualquer um dos 1,5 bilhão de habitantes da Terra [era 1929] estava ligado a ele por uma distância de, no máximo, cinco indivíduos”.

Então o personagem imagina um operário da Ford e tenta ver qual é a conexão entre ele próprio, um sujeito de Budapeste, e o trabalhador braçal de Detroit, a meio mundo dali: “Esse operário conhece o diretor da fábrica dele. É um fato. Esse diretor provavelmente conhece o Henry Ford. O Ford é amigo do presidente da Hearst, a editora de jornais. E o presidente da Hearst, no ano passado, conheceu o Árpad Pásztor, que é muito amigo meu!”. Pronto: cinco “graus de separação” entre o personagem do café em Budapeste e o operário da Ford.

Esse é o primeiro registro escrito daquilo que você provavelmente conhece como “seis graus de separação”. E você conhece como “seis graus”, e não “cinco”, por causa de um psicólogo de Harvard, Stanley Milgram.

Milgram era filho de húngaros. E os livros humorísticos de Frigyes eram tão populares na Hungria do começo do século 20 quanto os vídeos do Porta dos Fundos são no Brasil do século 21. Talvez Milgram tenha ouvido sobre o conto em algum almoço de domingo quando era pequeno. Talvez a ideia dos “graus de separação” já fosse conhecida na Hungria antes do livro – os jogos mentais, afinal, são para o húngaros mais ou menos o que o samba é para nós: uma questão de identidade nacional (tanto que eles inventaram o cubo mágico…).

De um jeito ou de outro, a ideia chegou até Milgram. E em 1967 ele fez um experimento para testar quantos “graus de separação” haveria entre duas pessoas que não se conhecem. Assim: mandou para 160 pessoas pelo correio a foto de um amigo dele, que era corretor da bolsa em Boston. Essas 160 pessoas viviam em Omaha, Nebraska – que fica a 1.500 quilômetros da capital do Massachusetts. Junto com a foto, ia o nome e o endereço do tal corretor mais as instruções do teste: quem recebesse a carta e conhecesse pessoalmente o sujeito deveria mandar a carta para ele.

Quem não reconhecesse o amigo de Milgram (na prática, todo mundo), deveria mandar a carta para algum amigo que talvez soubesse quem fosse o cara – um conhecido de Boston, por exemplo. O senso comum diz que um teste desses só podia dar em água. Os colegas de Milgram também. Mas em questão de dias chegou a primeira carta para o corretor, vinda de alguém que ele realmente conhecia. A correspondência tinha passado só por dois intermediários. Ou seja: alguém de Omaha que recebeu a carta conhecia alguém que conhecida alguém que conhecia o cara de Boston. E chegaram mais cartas. E mais cartas… No final, 42 das 160 alcançaram o amigo de Milgram por essa via. E o número médio de graus de separação foi de 5,5. Basicamente o que Frigyes tinha imaginado. Uau.

Milgram arredondou o número para seis. E a coisa entrou para o folclore moderno como “seis graus de separação”. O psicólogo de Harvard, diga-se, nunca usou a expressão “graus de separação”. Esse foi o título de uma peça da Broadway dos anos 90, inspirada pelo estudo de Harvard. A peça, depois, inspirou uma piada. Em 1994, um grupo de estudantes mandou uma carta para o programa de TV do comediante americano Jon Stewart dizendo que “qualquer pessoa no mundo está a no máximo seis graus de separação de Kevin Bacon”. É que Bacon teria feito tantos filmes que fatalmente trabalhou com muita gente. Então qualquer um conheceria alguém que conhece alguém (…) que trabalhou com ele. A piada era ok, mas cientificamente imprecisa: a conclusão de Milgram lá atrás era que a regra valia para qualquer pessoa, claro; não só para o ator de Footloose. Mas foi desse jeito, ilustrada pelo ator da segunda divisão de Hollywood, que o meme ganhou o mundo. O mais importante ali, porém, era outra coisa: a ideia dos seis graus de separação mostrava que os seres humanos, de alguma forma, estão conectados em rede.

Foi o que um matemático da Universidade Cornell percebeu quando ouviu sobre os “graus de separação”, numa conversa casual com o pai, no final dos anos 90 – não por coincidência, bem quando o meme Kevin Bacon estava se espalhando. Duncan imaginou que o conceito por trás dos seis graus de separação poderia trazer a chave para um mistério que ele tentava decifrar havia anos: a sincronicidade entre insetos.

O assunto é mais legal do que parece, você vai ver.

Para entender de que tipo de “sincronicidade” estamos falando aqui, pense num aplauso de multidão no meio de um show. Não num aplauso formal, que as pessoas dão por educação quando a música termina, mas num espontâneo mesmo, tipo os que acontecem de vez em quando no meio da música. É praticamente impossível saber onde a coisa começou. O que a multidão percebe é que, de uma hora para outra, está todo mundo aplaudindo.

Isso acontece com alguns vaga-lumes também. Uma espécie do sudeste da Ásia tem um ritual indiscernível de mágica: grupos de milhões de vaga-lumes machos se reúnem em volta das árvores e, de uma hora para a outra, começam a acender e apagar seus rabos exatamente ao mesmo tempo, numa sincronia perfeita. O enxame vira uma luz pulsante, visível a quilômetros de distância. Um flashmob artrópode.

Eles fazem isso para avisar as fêmeas que estão ali (e com a corda toda!). A piscada em uníssono funciona como um letreiro luminoso, que avisa onde é a balada do acasalamento.

A natureza está cheia de exemplos parecidos: as sardinhas tentam enganar os predadores formando cardumes tão densos e sincronizados que, para um tubarão desavisado, a coisa parece mais uma baleia. Até o canto dos grupos de grilos parece seguir as ordens de um maestro. A natureza é terrivelmente sincronizada.

E, quando Duncan Watts ouviu do pai a história dos seis graus, percebeu que ela podia ser útil para explicar tudo isso. Ele sabia que a única coisa que um vagalume ou uma sardinha tem noção na vida é o comportamento dos outros vaga-lumes e sardinhas imediatamente ao redor dele. “Se o meu vizinho acender o rabo, vou ligar o meu”, pensaria o vaga-lume, se tivesse um cérebro capaz disso. Ele não pensa, claro, só imita por instinto.

(Plantão Darwin: os vaga-lumes que nasceram com esse instinto se reproduziram mais do que os vaga-lumes comuns, já que atraíam mais fêmeas com seu show de luzes involuntário; e uma hora os insetos sincronizados tinham deixado tantos descendentes a mais que viraram a população dominante por lá. Essa é a explicação evolutiva).

Mas o que importa é o seguinte: Watts passou a entender que os vaga-lumes de uma ponta do enxame estavam a “poucos graus de separação” dos da outra ponta, a milhões de indivíduos de distância. Para um matemático isso faz toda a diferença: mostra que os vaga-lumes funcionam em rede.

Numa rede, de computadores, por exemplo, cada uma das máquinas está indiretamente conectada a todas as outras máquinas do mundo. Isso fica bem visível nas redes de torrents. Para quem não sabe: torrents são arquivos que as pessoas trocam pela internet – filmes, por exemplo, geralmente de forma ilegal. Se você tem um filme no computador e joga ele numa rede de torrents, todas as pessoas do planeta que derem um comando para baixar o seu filme vão se conectar à sua máquina. O nome técnico disso é rede peer-to-peer (de “par para par”). De par para par porque não existe uma central no meio do caminho. É um computador “falando” direto com o outro.

Bom, os enxames sincronizados de insetos são grandes redes peer-to-peer: a informação flui só “entre pares”. No caso dos vaga-lumes, os vizinhos imediatos. Mas, como eles estão conectados em rede, a informação de quando acender e apagar a luz flui com uma rapidez extrema pelo enxame todo. Daí a sincronicidade. Duncan demonstrou matematicamente esse tipo de fluxo (o que não é nada simples). E essa foi sua descoberta.

O matemático gostou tanto dessa história de redes que acabou deixando os insetos de lado e passou a estudar outro animal que de vez em quando forma enxames: os humanos. Nisso, acabou praticamente inaugurando um novo ramo da ciência: a chamada “nova ciência das redes”. Não podia haver época mais propícia. Com o avanço da internet, coisas que antes eram abstrações matemáticas, como “pontos de rede” e “links” já tinham entrado para o léxico popular. E um enxame de cientistas passou a estudar redes – sejam as de computador, sejam as de seres humanos.

Mas as redes humanas tinham um problema: historicamente, nunca formamos grandes “inteligências coletivas”, como os vaga-lumes, grilos e sardinhas. Sempre precisamos de líderes. Se os líderes são absolutistas, nos organizamos naquilo que os cientistas dessa nova disciplina chamam de “redes centralizadas”: ou todo mundo obedece um comando central, ou tem a cabeça cortada. Caso da Coreia do Norte, para ficar num exemplo só. O resultado dessas redes é o comportamento padronizado. E o isolamento. Quem está numa rede extremamente centralizada nem tem contato com outras formas de pensar – tanto que, se meia dúzia de norte-coreanos fugidos para o vizinho do sul resolvem abrir a boca para falar como viviam, vira livro (como o ótimo Nada a Invejar, de Barbara Demick). Em suma: eles estão conectados em rede, mas é como se cada norte-coreano estivesse ligado só ao gordinho Kim Jong-un e às insanidades que ele prega. Outro tipo de rede é a mais convencional: a que tem vários centros, e onde cada pessoa participa de mais de um. Se você é skatista e advogado, já faz parte de duas redes, a de quem anda de skate e a da OAB, cada uma com seus líderes de ocasião. Se você estuda na USP e é membro do Movimento Passe Livre (MPL), mesma coisa. A “rede de vários centros”, enfim, é basicamente a vida como a conhecemos.

Quer dizer… Não. Não é mais.

O que está acontecendo agora é o afloramento de uma nova rede: uma que une basicamente todo mundo. A internet, e, principalmente, as redes sociais, tornaram a disseminação de informação peer-to-peer, de pessoa para pessoa, tão fugaz quanto a dos vaga-lumes baladeiros. Os graus de separação entre as pessoas dentro do Facebook, algo que pode ser medido automaticamente, é de 3,75. O mundo ficou menor – se algum amigo seu vai morar no exterior, continua participando da sua vida tanto quanto antes, via Whatsapp, Face, Instagram.

Isso acelerou o mundo. Aquele meme do Kevin Bacon chegou ao Brasil três, quatro anos depois de ter aparecido na TV americana. Hoje, chegaria em 3 segundos. Uma ideia também não precisa mais “subir na hierarquia” de um sindicato ou de um partido político para chegar a todo mundo. Se ela for boa o bastante, vai alcançar milhões de mentes em questão de minutos. É por isso que hoje conseguimos formar “enxames” sem a intermediação de líderes. E os movimentos de junho são a prova empírica disso.

Havia, sim, várias reivindicações, de vários grupos. E, claro, foi o MPL quem deu o pontapé inicial. Mas o que unia as pessoas era outra coisa. “O que aconteceu no Brasil na semana de 17 de junho foi o maior enxameamento de pessoas de todos os tempos, pelo menos com a característica que teve aqui”, diz o físico Augusto de Franco, um especialista na nova ciência de redes. Por “característica”, Augusto exemplifica: “Não existia um objetivo comum, como no Egito, que era derrubar uma ditadura. O que havia era uma insatisfação geral e difusa contra o ‘sistema’. Só que para cada um o ‘sistema’ era uma coisa diferente”. Em suma: o que levou as pessoas para a rua foi essa rede nova, hiperdescentralizada, e que dissemina os seus e os meus pensamentos à velocidade da luz. Pois é. Se você saiu para protestar, contra o que quer que seja, parabéns. Você participou não só de um momento ímpar na história do País. Foi protagonista do começo de um novo capítulo da história da humanidade. O capítulo que está sendo escrito agora. Na rua.

Para Saber Mais

Linked – A Nova Ciência das Redes
Albert-Laszlo Barabasi, Fronteira do Conhecimento, 2009

O Seis Graus de Seperação
Duncan Watts, Leopard, 2009

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Povoado argentino impede construção de fábrica da Monsanto

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Com manifestações e mais de 730 dias de barricadas, povoado argentino impede construção de fábrica da Monsanto

“Chamam de progresso, mas os lucros são privados e nos territórios ficam a doença e a devastação”, diz um dos moradores; “Já nos deram golpes e balas de borracha. Não me importo. Vou deixar a vida pelos meus filhos”, afirma outro.

Do Opera Mundi

Formado por donas de casa, funcionários públicos, empregados do setor privado, jovens e adultos, o movimento Assembleia das Malvinas Argentinas – cidade da província de Córdoba – completou em setembro mais de 730 dias combatendo a Monsanto, a maior corporação agrícola mundial. “Chamam de progresso, mas os lucros são privados e nos territórios ficam a doença e a devastação”, diz um dos moradores.

A região é cercada por plantações de transgênicos e fumigações. O impacto na vida das pessoas é sentido pela contaminação vivenciada por familiares, vizinhos e no próprio corpo. Aos poucos, os moradores da região começaram a se informar sobre a empresa e o impacto que a fábrica de milho transgênico teria naquela sociedade. Então decidiram, em 19 de setembro de 2013, realizar o bloqueio da entrada da fábrica e, mesmo com a repressão da polícia e do governo local, dois anos depois, seguem barrando os objetivos da corporação.

O fato, estranhado pela própria empresa que “reconheceu nunca ter passado por semelhante situação”, como afirma um dos moradores, é objeto de estudo para acadêmicos e é considerado um importante caso testemunhal para outros movimentos, além de mau exemplo por governos e empresas. Para a Monsanto, é uma manifestação que impede “o direito ao trabalho”.

Para retratar essa experiência, o jornalista argentino Darío Aranda foi até a localidade e registrou as impressões dessas pessoas que lutam contra uma causa supostamente perdida e estão ganhando. Segue o relato:

Televisão

A população das Malvinas Argentina se inteirou pela televisão de que teria a Monsanto como vizinha. Foi em 15 de junho de 2012, quando a presidente Cristina Kirchner informou, falando dos Estados Unidos, que a multinacional lhe havia confirmado a instalação de uma fábrica na localidade de Córdoba. Só sabiam disso o prefeito, Daniel Arzani, do partido UCR (União Cívica Radical UCR), e seus colaboradores mais próximos.

Eli Leiria escutou o anúncio na televisão. Mas deu por certo que se tratava da localidade de mesmo nome na Província de Buenos Aires. Até que lhe avisaram que era a poucas quadras de sua casa. Não sabia nada sobre a Monsanto. No dia seguinte, perguntou a um estudante universitário, da casa de família onde trabalhava, e a resposta a deixou gelada: “Você está frita”, ele disse. E lhe passou os primeiros dados da história da empresa.

Começou a ler, a se informar, a perguntar. E já não lhe restavam dúvidas. “Aí, acordei. Alguns vizinhos diziam que ia trazer mais trabalho, eu lhes respondia que sim. Mais trabalho para os oncologistas, os médicos, os coveiros”, ironiza, mas não esboça um sorriso.

Raquel Cerrudo conta que havia deixado a capital cordobesa em busca de tranquilidade. “Quer melhor que uma pequena cidade nos arredores?”, diz. Passados seis meses da mudança, o anúncio da Monsanto. Raquel via a televisão e chorava. Sabia o que era a Monsanto por um trabalho com uma bióloga crítica do modelo agropecuário. Conhecia pouca gente no bairro. Começou a falar com os lojistas, no açougue, no armazém, a trocar informações. Assim conheceu outras pessoas inquietas com o tema e se inteirou de uma palestra do biólogo Raúl Montenegro. E também de uma manifestação na capital, onde foi com uma faixa da cidade de Malvinas. Lá, conheceu Ester Quispe, hoje também parte da assembleia. Veio a primeira reunião e o contato com dezenas de vizinhos, o segundo encontro e o nascimento do movimento.

Despertar

Silvana Alarcón cresceu em Malvinas. Sotaque cordobês inconfundível, lembra que não sabia o que era a Monsanto, como a grande maioria de seus vizinhos. A princípio acreditou no discurso de investimentos, de trabalho, mas também começou a escutar – primeiro superficialmente – quem era a empresa, sua história de denúncias e contaminação. “Começamos a reunir os vizinhos, a ler, ter outras informações. Aos pouquinhos fomos aprendendo”, recorda. Também lhe causou impacto o modo como a empresa começou a intervir no bairro, prometendo trabalho. Num terceiro momento, começaram a problematizar a situação atual, do povo rodeado por cultivos transgênicos e fumigações. “E nos demos conta de que havia muitas crianças doentes, com lúpus, malformações, problemas respiratórios, broncoespasmos. E se a isso acrescentássemos a Monsanto… fomos nos dando conta de que iria ser pior”, explica.

A mobilização se deve muito à visita de biólogos, médicos, advogados e também de movimentos e ativistas de outras cidades. A população avaliou também a proximidade da fábrica com a escola, conhecida como “La Candelária”, onde o filho de Alarcón estuda, e de onde se pode ver o prédio da Monsanto.

Ela lembra que a justiça havia freado a obra, mas a fábrica continuava em andamento. Sentia impotência ao ver que a empresa seguia com a construção. “Faziam o que queriam. Até que demos um basta, aqui não entra mais ninguém”, relata.

E nasceu o bloqueio. Setembro de 2013. Não foi sem consequências. Várias ações repressivas, policiais, balas de borracha, bandos da UOCRA (sindicato dos operários da construção civil na Argentina), pancadaria. Recorda-se de uma em particular. Ela estava em sua casa e escutava os disparos. Seus amigos e parentes estavam sendo alvo da repressão. Chorava de impotência. Espancaram seu irmão e seu marido. “Podia acontecer qualquer coisa”, afirma, e a voz fica embargada. “Em primeiro lugar, como mãe, está a saúde de meu filho. Não importa o que tenhamos de fazer. E não vamos recuar”, avisa.

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Saúde

Em 2007, a dona de casa Eli Leiría teve seu primeiro choque com o modelo agropecuário. Começou a ter vômitos, diarreia, perdeu muito peso e passou a ficar fraca. O médico não encontrava nada, mas ela sentia que não tinha forças nem para se levantar da cama. Davam-lhe injeções, levantava-se um pouco e voltava a cair. Foi a outro médico. Ele lhe disse que os exames estavam bem. Ela sentia que estava morrendo.

Até que ligou os pontos. Ao lado de sua casa eram reciclados galões de herbicidas. Na realidade, o processo era mais que rudimentar. Eram levados sem lavar, cortados com uma serra de açougue e moídos. O terreno vizinho estava repleto de recipientes, e justo colado ao seu quarto. As árvores e todas as suas plantas morriam. Contou ao médico e ele não teve dúvidas. Mandou-a fazer novos exames. Mais complexos. Encontraram herbicidas no sangue dela. Não se lembra dos nomes, mas, sim, das cifras: “O máximo tolerado pelo organismo é 0,3%. Eu tinha 27”.

Perguntou ao médico como iria se curar. E se fez um longo silêncio. Ele lhe respondeu que nada podia ser feito. Que era preciso esperar. Disse-lhe que era como um tornado. A tempestade passa, mas as sequelas ficam. E as doenças podem aparecer meses ou anos depois. Dois anos depois foi constatado um enfisema pulmonar. O médico lhe perguntou se fumava muito. E ela nunca havia acendido um cigarro.

De pura impotência, começou a fumar nesse mesmo dia. “Eu escolho como morrer”, disse.

Diagnosticaram uma alteração no seu sistema nervoso e no aparelho digestivo. E lhe deram um coquetel de medicamentos. “Vou terminar me matando com remédios. Não quero isso”, avisou.

E o anúncio da Monsanto foi a cereja do bolo. Aderiu à segunda reunião de moradores, era o gérmen do movimento. No dia seguinte, foi ver o prefeito. “Não, querida. Não te preocupes. A empresa trará trabalho. Acontece que há pessoas que não querem trabalhar, e se opõem”, foi a resposta que lhe deu Daniel Arzani.

A chave, outra vez, foi a informação. Leu muito. Foi a debates. Viu documentários. Pensou em seu filho e se decidiu: não queria a empresa em seu bairro.

Contaminação

Silvia Vaca, 52 anos, é empregada municipal, nascida e criada nas Malvinas. O primeiro aviso sobre o modelo agropecuário veio pelo marido. Caminhoneiro, transportador de cereais. Costumava queixar-se do cheiro da roupa quando voltava do trabalho e da forte dor de cabeça. Silvia colocava as peças na máquina de lavar e tinha de enxaguá-las duas vezes. Odor penetrante.

O segundo veio quando a fossa séptica de sua casa ficou cheia. Chegou o caminhão limpa fossa e o funcionário chamou a atenção para a ausência de insetos e bactérias no material orgânico coletado. Perguntou se usavam algum produto químico forte. Silvia pensou em voz alta e, não, só água sanitária de vez em quando.

Terceiro aviso: a repentina pneumonia do marido. Internação, depois tratamento e, em poucas horas, risco de vida. Os médicos a tratavam com distanciamento, perguntavam e reperguntavam. Acreditavam que ela o tinha envenenado. Voltou a sua casa, deu a má notícia à família. Aí se deu conta. Voltou ao hospital e contou que o marido transportava cereais. Também colocava as famosas pastilhas de fosfina no caminhão para protegê-los dos insetos. Estava se envenenando.

Último aviso: seu filho, então estudante de agronomia, lhe deu o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”.

Quando se anunciou a instalação, foi uma das moradoras que tiveram o sangue analisado. Confirmou o que se temia. Tinha agrotóxicos. “Vivo no centro do povoado, onde em teoria deveria haver menos produtos químicos. O que resta para quem vive diante das fumigações? Estamos todos envenenados”, afirma.

Foram coisas demais. Ela se uniu à assembleia.

Outra vida

Uma grande coincidência. Todos tiveram a vida mudada.

Soledad Escobar conta que teve discussões na escola (com a professora do filho, porque lhe dizia que “não podia envolver-se”), com amigos que trabalham no município e com vizinhos que já não a cumprimentam.

Beatriz Vega tinha uma livraria que também vendia vários outros produtos, na avenida San Martín, a principal, e a meia quadra da prefeitura. Punha na vitrine os cartazes que convocavam para a manifestação, entregava folhetos e afirma que passou a ser visada. Suas vendas começaram a cair, o filho de um vereador ameaçou queimar o local, os clientes de sempre já não entravam. Fechou o negócio. “A nossa vida mudou totalmente. O povoado se dividiu”, resume.

Lucas Vaca, boina clara, jaqueta de couro. Fazia dois anos que tinha retornado a seu bairro (esteve cinco anos fora), encontrou uma municipalidade nova e lhe chamou a atenção que, poucos quilômetros antes de chegar a Malvinas, não havia mais as árvores de antigamente à margem da Rota 88. A soja se estendia até a beira do acostamento.

Cursava o secundário para adultos. E também recebeu a notícia pela televisão, ao vivo. Alegrou-se pelos possíveis postos de trabalho. Até que alguém o alertou que nem tudo era como dizia a publicidade. Entrou na Internet, começou a ler, se deparou com o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto” e não pode acreditar. Entrou também no site da empresa. E não queria cair em si. “Por dentro você diz que não podia ser tão mau. Custa a acreditar. Mas quanto mais eu lia, mais me convencia de como era mau”. Levava informações à escola e as professoras minimizavam suas críticas.

Começou a participar da Assembleia. A comprometer-se. Não parou mais.

Lamenta que muitos vizinhos se tenham distanciado. Mas outros se aproximaram. Com muitos conviveu na escola e até em bailes, mas algo os colocou em duas veredas distintas. Há uma situação que o impacta: “Não te olham na cara. Olham para o chão. Sabem que é ruim apoiar a Monsanto. Isso é impressionante”. Lucas diz que se lembra do que lhe disse certa vez o cientista Andrés Carrasco: olhar os corpos. Crianças com malformações, garotos jovens com câncer, mulheres com lenços na cabeça.

Eduardo Quispe ressalta que não há espaço de apoio à empresa. Mas, sim, contra. “As estatísticas são contundentes. Um total de 90% não a querem. Sim, há pessoas que dependem do Estado, mas não são um movimento permanente nas ruas”, esclarece.

Silvia Vaca se distanciou do irmão. Ele se tornou avô. E ela ainda não pôde conhecer seu sobrinho-neto. “São fraturas que vão ficando. Muitas famílias brigadas. É triste”, resume. E se lembra da boa relação que tinha com o prefeito, conhecem-se desde crianças, iam a almoços de família. Não mais.

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Votação?

Durante o primeiro ano de rejeição à Monsanto, a Assembleia exigiu o direito de votar sim ou não. Os três níveis de governo (municipal, provincial, nacional) se opuseram. O mesmo fez a empresa. Na atualidade, o movimento já não pede o voto. “Não se pode votar em um fato ilegal. O relatório de impacto ambiental deu negativo. A lei provincial de solos não permite que se instale aqui. A fábrica é ilegal”, esclarece Eduardo Quispe, menos de 40, boné com viseira e camiseta preta com o M da Monsanto e uma caveira.

Desde 8 de janeiro de 2014 a fábrica está judicialmente paralisada. E em 10 de fevereiro a província rejeitou o estudo de impacto ambiental.

Responsáveis

Soledad Escobar enumera as culpabilidades, das maiores às menores: prefeito, governador, presidente E lembra o exemplo de Río Cuarto, onde o prefeito vetou a instalação de uma estação experimental da Monsanto. E não se esquece quando o prefeito de Malvinas prometeu que, se o relatório de impacto ambiental desse negativo, ele cancelaria o projeto. Não cumpriu. “Ele nos enrolou”, resume.

Eli, a dona de casa, inverte a ordem. Acredita que o prefeito não tem capacidade para decidir pela Monsanto. Afirma que a presidente e o governador são os principais responsáveis. “Cristina lhe abriu a porta. Ela é a principal responsável”, afirma.

Debatem entre si. Não há acordo. Coincidem em que Arzani era um morador a mais, mas já não é. Muitos o conhecem de criança. Dizem que tem plantações de soja e que seus pais morreram de câncer.

Nas Malvinas nunca havia ocorrido uma passeata. Muito menos questionamentos ao prefeito, com mais de 15 anos no poder. Raquel e Vanessa Sartori fazem a leitura igual ao mesmo tempo. O prefeito nunca pensou que seria armada semelhante confusão para ele. Vanina Barboza complementa: “A Monsanto reconheceu que nunca havia passado por semelhante situação”.

Eser Quispe aponta para o prefeito: “Ninguém se mete na sua casa se você não abre a porta”, argumenta. Irrita-se porque ele agiu nas costas da população. Vanina Barboza, jovem estudante e porta-voz em várias ocasiões, garante que o prefeito não é tão inteligente para trazer a Monsanto. Aponta mais para cima: “Cristina os traz”. Recorda a primeira vez que falaram com os vereadores. Mencionavam os “transgênicos” e os funcionários de nada sabiam.

Alguém comenta que não têm educação. Silvia Vaca relativiza. “A presidenta e o governador são instruídos e abraçam a Monsanto. Muitos camponeses e indígenas não têm talvez educação formal, mas sabem o que é o modelo agropecuário e defendem a vida.”

O modelo

Vanesa Sartori explica com paciência professoral que a Monsanto quer fazer sua maior fábrica de milho transgênico em seu bairro, a 800 metros da escola e perto das casas. Para biocombustível, não para comida, e utilizará milhões de litros de água e pesticidas. Destaca que a empresa e o município estão contrariando leis que proíbem a instalação, enfatiza que o interesse da população é violado. Arremata: “Promete trabalho e progresso, mas é falso”.

Ariel Becerra põe ênfase na saúde. Alerta que já são uma localidade empesteada com agrotóxicos. E com a Monsanto as consequências podem ser multiplicadas.

Eduardo Quispe fala aos habitantes das grandes cidades. Pede-lhes que não se deixem enganar pelo verde da soja, explica que antes tudo era mata, e desapareceu. “Chamam de progresso, mas os lucros são privados e nos territórios ficam a doença e a devastação”. Afirma que é possível outro modelo, de soberania alimentar, alimentos saudáveis para a população.

Futuro

Sem consenso social e em ano de eleições, a Monsanto não pôde avançar durante 2015. Mas não se foi. Já deixou vir à tona que em dezembro apresentará um novo estudo ambiental. Quer construir em 2016. A empresa continua presente no bairro, com processos de sedução e promessas. Eli Leiría denuncia que a Monsanto compra apoios. Dois exemplos: doou o gerador para a cooperativa de eletricidade. Custou 60 mil pesos (R$ 26.400) e fizeram propaganda disso até no boleto que chega nas casas. A Monsanto financia oficinas e cursos em escolas da zona. Também na igreja adventista.

Leiría sonha que seu filho continue morando em Malvinas. Diz que aí estão suas raízes e que é injusto que por causa de uma empresa tenham de partir. Faustina Quispe (mãe de Eduardo e Ester), mulher idosa, contrapõe: “Se a Monsanto se instalar, não há futuro”.

Marcos Romero é nascido e criado em Malvinas. Está casado com Solead Escobar, também integrante da Assembleia. Têm quatro filhos que vão a “La Candelaria” (escola perto da fábrica em questão). Quase não falou durante a entrevista em grupo. Recorda que via em outras cidades pessoas que protestavam e bloqueavam estradas, e observava isso com uma mistura de preconceito e desinteresse. Até que se desatou o caso da Monsanto. “Agora nos atingiu. Já nos deram golpes e balas de borracha. Não me importo. Vou deixar a vida pelos meus filhos. Ela (Soledad) já sabe”, afirma. Sua esposa chora.

Lucas Vaca tem um olhar otimista. “Estamos fazendo o futuro todos os dias, lutando na rua, não permitindo que a fábrica se instale.” Eduardo Quispe vai além: “Os moradores estão convencidos. A Monsanto não tem chance conosco”.

Ester Quispe avisa que continuarão trabalhando no bairro, informando os moradores. Não baixarão a guarda. Continuam se reunindo todas as quartas-feiras e lembra da bandeira presente nas marchas: “Não à Monsanto em Córdoba e na América Latina”.

http://www.contraosagrotoxicos.org

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O dilema das pesquisas médicas com financiamento coletivo

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Em uma época de campanhas de financiamento coletivo para pagar por qualquer coisa, especialistas em ética advertem que a tendência de pedir a pacientes que financiem seus próprios ensaios clínicos pode fazer mais mal do que bem.

É o que alegam Danielle Wenner e Alex John Londres (Universidade Carnegie Mellon) e Jonathan Kimmelman (Universidade McGill), que publicaram um ensaio na revista científica Cell Stem Cell sobre o assunto.

Eles defendem que os ensaios clínicos financiados pelos pacientes podem parecer uma forma nova, moderna e benéfica para envolver mais pacientes nos estudos e estabelecer novas oportunidades de financiamento, mas em vez disso ameaçam o rigor científico, a relevância, a eficiência e a equidade das pesquisas médicas.

Ensaios com financiamento coletivo

“Os ensaios financiados pelos pacientes parecem ser um benefício para a ciência, atraindo recursos anteriormente inexplorados para as pesquisas,” ressalta Danielle Wenner. “O problema com este modelo é que ele carece de mecanismos para garantir que a pesquisa se fundamente em boa ciência.”

“Pacientes com doenças que não têm tratamentos e intervenções eficazes estão desesperados para ver o ritmo da ciência mover-se mais rapidamente ou obter acesso rápido a algo que irá ajudá-los imediatamente. Da mesma forma, pesquisadores que não podem obter financiamento dos órgãos oficiais estão se voltando para o financiamento coletivo,” relata Alex London.

O trio argumenta, embora sem apresentar dados, que os ensaios financiados pelos pacientes “muitas vezes atraem pessoas que estão gravemente doentes e, portanto, dispostas a correr grandes riscos”.

Eles alertam ainda que o mecanismo dá suporte a testes clínicos “claramente motivados pelo lucro, sob o pretexto de oferecer novas intervenções, algumas das quais não têm descobertas de ciência básica suficientes para apoiá-los”.

Alternativas e ponderações

Para superar os riscos desse novo mecanismo, os três pesquisadores defendem que são necessários incentivos para alinhar os testes financiados pelos pacientes com a produção de pesquisas sólidas.

Eles acreditam que isso poderia ser feito por meio de políticas de grande escala que forneçam uma supervisão científica e ética para cada ensaio clínico, e pela exigência de submissão desses ensaios à revisão por pares típica dos demais estudos acadêmicos.

Outra opção é a exigência de credenciamento para instalações de saúde para incentivá-las a usar métodos adequados para a avaliação científica e a submeter-se a considerações éticas.

O assunto é polêmico e, agora que foi posto em discussão, certamente defensores do novo modelo virão a público mostrar seus argumentos e defender o novo sistema que tenta fugir do esquema acadêmico tradicional, mas que ainda não mostrou como pode se submeter a um controle de qualidade rigoroso, como exige qualquer empreendimento que lide com a saúde pública.

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A geração que tudo idealiza e nada realiza

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Demorei sete anos (desde que saí da casa dos meus pais) para ler o saquinho do arroz que diz quanto tempo ele deve ficar na panela. Comi muito arroz duro fingindo estar “al dente”, muito arroz empapado dizendo que “foi de propósito”. Na minha panela esteve por todos esses anos a prova de que somos uma geração que compartilha sem ler, defende sem conhecer, idolatra sem porquê. Sou da geração que sabe o que fazer, mas erra por preguiça de ler o manual de instruções ou simplesmente não faz.

Sabemos como tornar o mundo mais justo, o planeta mais sustentável, as mulheres mais representativas, o corpo mais saudável. Fazemos cada vez menos política na vida (e mais no Facebook), lotamos a internet de selfies em academias e esquecemos de comentar que na última festa todos os nossos amigos tomaram bala para curtir mais a noite. Ao contrário do que defendemos compartilhando o post da cerveja artesanal do momento, bebemos mais e bebemos pior.

Entendemos que as bicicletas podem salvar o mundo da poluição e a nossa rotina do estresse. Mas vamos de carro ao trabalho porque sua, porque chove, porque sim. Vimos todos os vídeos que mostram que os fast-foods acabam com a nossa saúde – dizem até que tem minhoca na receita de uns. E mesmo assim lotamos as filas do drive-thrru porque temos preguiça de ir até a esquina comprar pão. Somos a geração que tem preguiça até de tirar a margarina da geladeira.

Preferimos escrever no computador, mesmo com a letra que lembra a velha Olivetti, porque aqui é fácil de apagar. Somos uma geração que erra sem medo porque conta com a tecla apagar, com o botão excluir. Postar é tão fácil (e apagar também) que opinamos sobre tudo sem o peso de gastar papel, borracha, tinta ou credibilidade.

Somos aqueles que acham que empreender é simples, que todo mundo pode viver do que ama fazer. Acreditamos que o sucesso é fruto das ideias, não do suor. Somos craques em planejamento Canvas e medíocres em perder uma noite de sono trabalhando para realizar.

Acreditamos piamente na co-criação, no crowdfunding e no CouchSurfing. Sabemos que existe gente bem intencionada querendo nos ajudar a crescer no mundo todo, mas ignoramos os conselhos dos nossos pais, fechamos a janela do carro na cara do mendigo e nunca oferecemos o nosso sofá que compramos pela internet para os filhos dos nossos amigos pularem.

Nos dedicamos a escrever declarações de amor públicas para amigos no seu aniversário que nem lembraríamos não fosse o aviso da rede social. Não nos ligamos mais, não nos vemos mais, não nos abraçamos mais. Não conhecemos mais a casa um do outro, o colo um do outro, temos vergonha de chorar.

Somos a geração que se mostra feliz no Instagram e soma pageviews em sites sobre as frustrações e expectativas de não saber lidar com o tempo, de não ter certeza sobre nada. Somos aqueles que escondem os aplicativos de meditação numa pasta do celular porque o chefe quer mesmo é saber de produtividade.

Sou de uma geração cheia de ideais e de ideias que vai deixar para o mundo o plano perfeito de como ele deve funcionar. Mas não vai ter feito muita coisa porque estava com fome e não sabia como fazer arroz.

http://www.sabiaspalavras.com

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‘Cidades da liberdade’, com impostos e governo mínimos, pipocam no Texas

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Anthony Zurcher

O Texas é conhecido por sua reduzida carga tributária e pelos limites à interferência do governo estadual nos negócios e na vida do cidadão. Mesmo assim, comunidades no interior do Estado têm travado batalhas políticas por mais autodeterminação, em um movimento que tem sido chamado de “cidades da liberdade”.

Kingsbury, que sequer é oficialmente uma cidade, é uma delas. Em 9 de maio, os 166 eleitores locais irão às urnas para decidir se o local se tornará oficialmente uma cidade, regida pelo princípio da baixa regulação estatal – uma nova lei criada recentemente no Estado que permite a criação de pequenos novos municípios desde que os moradores aceitem determinadas condições.

A comunidade texana, que tecnicamente é parte do condado de Guadalupe, prosperou com uma garagem de trens e uma madeireira no início do século 20, mas hoje contém apenas alguns edifícios dilapidados daquela época, além de poucas lojas, um quartel de bombeiros voluntários, um café e casas com amplos pastos, repletos de gado.

Muitos moradores gostam desse sossego rural. Mas o crescimento populacional do Texas desafia essa tranquilidade.

O Estado ganhou 451.321 habitantes entre julho de 2013 e julho de 2014, o maior crescimento do país. E Seguin, cidade de 27 mil habitantes que fica perto de Kingsbury, cresceu 14% entre 2000 e 2010 e continua expandindo, graças à chegada de fábricas à região.

Para Shirley Nolen, moradora de Kingsbury, esse crescimento estimula a especulação imobiliária na região, abrindo espaço para o tipo de regulação municipal – e, eventualmente, impostos – que pessoas como ela combatem.

Elas se queixam também de ter de responder a Seguin sem, no entanto, se sentirem representados pelos políticos da cidade vizinha.

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Por isso, moradores da região querem incorporar o que puderem de Kingsbury e transformá-la em uma cidade de poucos impostos e pouca regulação, que sirva de referência para outras cidades que encampam brigas semelhantes no Texas.

“Queremos nosso centro”, diz Nolen. “Queremos nossas igrejas, nosso correio. Queremos nossa comunidade de volta.”

É o chamado movimento de “cidades da liberdade”, capitaneado por Jess Fields, analista político do centro de estudos conservador Texas Public Policy Foundation.

“A ideia de cidades da liberdade meio que remete ao conceito básico de que as pessoas têm um direito fundamental de determinar o tipo de governo a que querem ser submetidas”, diz Fields.

Segundo ele, as grandes cidades texanas se afastaram do propósito essencial do governo, adotando regulações sociais que, eles argumentam, ferem as liberdades individuais – como restrições ao uso de armas de fogo, taxas sobre o consumo de sacolas plásticas, excessiva regulamentação imobiliária e tributos punitivos.

“Não nego que algumas dessas regulamentações são bem intencionadas, para promover a saúde pública e a segurança, mas chega um ponto em que essas boas intenções são ofuscadas por consequências não intencionais evidentes e negativas”, opina Field.

“Não queremos que o governo diga como você deve fazer cada coisinha com relação a sua propriedade e sua vida.”

Neste ano, a senadora estadual Konni Burton promoveu a legislação de “cidades libertárias”, a SB710, facilitando a incorporação de pequenas cidades, caso estas concordem com uma “lei de direitos” que incluam o de portar armas, de liberdade religiosa e de expressão e proteção contra a vigilância estatal excessiva. A lei também prevê que qualquer mudança em impostos sobre propriedades seja aprovada por no mínimo 60% da população.

O objetivo, diz Art Martinez de Vara, chefe de gabinete da senadora, é minimizar a preocupação dos moradores rurais, que temem que governos recém-criados fiquem tão “fominhas” quanto os governos das cidades mais antigas.

“É um bom experimento democrático”, diz.

Governo limitado

Vara também é prefeito da pequena Von Ormy, cidade apontada como o exemplo mais bem acabado de cidade libertária.

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Quando Von Ormy foi fundada, em 2008, tinha uma taxa mínima sobre posse imobiliária. Agora, essa taxa foi abolida, e o governo – de escopo limitado – é financiado por tributos sobre vendas.

Muitos serviços, como os de coleta de lixo, foram terceirizados. O corpo de bombeiros e a polícia são compostos, em sua maioria, por voluntários.

“Outras cidades têm um departamento de polícia e não querem um xerife”, argumenta. “(Esses moradores) pagam muitos impostos. Tentamos fazer as coisas de modo diferente.”

A cidade não restringe o uso de armas ou o fumo. E é a única do condado a não vetar fogos de artifício. Há regulações de segurança para a construção civil, mas as inspeções são mínimas.

“É o livre mercado. Não promovemos (o fumo). Não somos anarquistas. Só acreditamos em governo limitado”, diz Vara.

Ele alega que a maioria das grandes cidades do Texas se endividaram para financiar grandes projetos de infraestrutura e benefícios sociais – como aposentadorias e planos de saúde – para funcionários públicos, forçando o aumento de impostos para cobrir os custos.

Vara alega, também, que isso abre espaço para que cidades se preocupem apenas com as áreas suburbanas mais lucrativas, deixando as demais desprovidas de serviços públicos.

Para os moradores de Kingsbury, porém, o mais importante é “manter a comunidade viva”, alega Shirley Nolen.

“Para outras pessoas talvez não seja muita coisa, mas é o nosso lar.”

http://www.bbc.co.uk

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Como foi que a Islândia fez uma nova Constituição usando o Facebook

18.08.2013 ]

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Entrevista concedida a Valquíria Vita, publicada em edição impressa da revista Superinteressante.

Cutucaram a Constituição

Enquanto no Brasil manifestantes saíram do Facebook e foram para a rua, na Islândia eles saíram às ruas e depois voltaram para reescrever a Constituição no próprio Facebook.

O cientista político islandês Eiríkur Bergmann conversou com a Super sobre o processo.

Até cinco anos atrás, a Islândia é que parecia estar deitada em berço esplêndido: todo mundo sabia ler, 95% da população tinha acesso à internet, a economia ia muito-bem-obrigado e não existia desemprego. Só que durante a crise financeira que tomou conta do mundo em 2008, o pequeno país nórdico (pequeno mesmo, 82 vezes menor que o Brasil) passou por uma barra tão pesada que a situação chegou a ser descrita pelo FMI como uma “crise financeira de proporções catastróficas”.

Os maiores bancos da região faliram e a moeda local sofreu uma desvalorização de 80% em relação ao euro. A taxa de desemprego aumentou nove vezes, a dívida do país chegou a 900% do PIB e, bom, as pessoas começaram a empobrecer.

Os islandeses deram uma de argentinos e foram às ruas protestar batendo panelas quando o governo quis aplicar medidas exigidas pelo FMI em troca de uma ajuda financeira bilionária. Bateram tanta panela que o primeiro-ministro foi obrigado a renunciar, e novas eleições foram convocadas. Mesmo assim, eles não ficaram satisfeitos.

De repente, os protestos já não eram mais contra as medidas de austeridade, mas contra tudo que parecia errado no país (soa familiar?). No caso da Islândia, o que o povo realmente queria era uma nova Constituição. Foi aí que o Facebook entrou na jogada.

A rede social foi a principal plataforma escolhida pelos islandeses para recolher contribuições para a nova Constituição. O processo foi mediado por um conselho de 25 voluntários apartidários, que postava os textos no Facebook depois de cada reunião para que o resto da população pudesse debater a respeito.

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E foi assim que a Islândia ficou conhecida mundialmente por ter elaborado a primeira Constituição crowdsourced da história. O texto final passou por referendo e foi aprovado por dois terços dos islandeses em 2012. Está até agora aguardando aprovação do Parlamento (Brasil e Islândia também têm suas semelhanças), mas já serviu de exemplo para destacar a força das redes sociais na construção de uma nova forma de democracia.

Um daqueles 25 conselheiros, o cientista político Eiríkur Bergmann, diretor do Centro de Estudos Europeus da Bifröst University, enfrentou uma viagem de 24 horas da Islândia para o Brasil para fazer uma palestra sobre o futuro dos Estados democráticos. Aproveitou para falar sobre o uso da tecnologia pela democracia e para dar sua opinião sobre a viabilidade de um processo parecido por aqui.

Como vocês receberam sugestões para a nova Constituição?

Por alguma razão, todos na Islândia estão no Facebook, então esse foi o principal portal. Criamos uma página onde as pessoas podiam mandar sugestões e comentar, e nos dividimos em comitês para analisar os assuntos.

As pessoas também mandaram sugestões pelo Twitter, e-mail, correspondências, ligaram e vieram pessoalmente até nós. A decisão que tomamos foi que não importava de que maneira elas viriam, só queríamos que participassem. Se quisessem mandar um pombo com uma mensagem, podiam fazer isso também. Recebemos 3.600 sugestões formais.

Como foi tomada a decisão de criar um canal no Facebook para que a população se manifestasse?

Existiram muitos motivos para isso. Um foi que existia alguma animosidade entre o conselho eleito e o Parlamento, e sabíamos que isso poderia ser uma estratégia para ter o apoio do público. E como ter o envolvimento do público? Botando no Facebook.

Entre os 25 conselheiros representantes, houve quem dissesse que devíamos desligar o celular, fechar a internet e apenas escrever o texto e trazer ao público quando estivesse completo. Mas decidimos fazer completamente o oposto.

Nosso time técnico cuidou de todas as portas de entrada de opinião. Convocamos toda a população a participar. Postamos até nossos telefones particulares para as pessoas ligarem se quisessem. Postávamos todo o nosso trabalho online imediatamente para as pessoas debaterem. E desse debate tirávamos a vontade do público e integrávamos no próximo round de postagens.

E as pessoas levaram isso a sério?

Essa foi a parte maravilhosa disso. Normalmente, na Islândia, temos discussões acaloradas sobre tudo, as pessoas atacam as gargantas umas das outras nos comentários, temos discursos muito negativos e comentários muito duros e pessoais.

O que as pessoas já postaram sobre mim, meu deus! E isso acontece com todo mundo. Mas, com esse assunto, por alguma razão, ninguém fez comentários negativos. A questão é que todos queriam causar impacto. Quando você convida as pessoas, tem de escutar o que elas têm a dizer.

E elas levaram a sério porque sabiam que o que dissessem também seria levado a sério. Deixamos claro para elas que seus comentários realmente importavam, e como resultado tivemos comentários muito mais responsáveis.

Quando você dá poder às pessoas, e diz a elas que suas vozes realmente importam, elas tomam mais cuidado com o que dizem. Eles sentiram que estavam participando de verdade, não apenas assistindo à recuperação da Islândia. Isso teve efeito de cura na sociedade. Foi um jeito construtivo de avançar, em vez de ficar nos protestos.

Se o povo não tivesse sido parte desse processo, você acha que a Constituição teria sido diferente?

Sim. Por exemplo: capítulos importantes sobre recursos naturais e direitos humanos sofreram grande impacto com a participação do público. Se a Constituição tivesse sido criada pelos parlamentares, teria sido mais conservadora.

O quanto a crise econômica que afetou a Islândia influenciou esse movimento?

Em 2008, a Islândia foi a primeira a entrar em colapso. Nossos bancos foram à falência em apenas uma semana. Isso foi um choque e houve um grande senso de crise. E crises abrem espaço para discursos políticos, fazem surgir novos pensamentos. Além disso, tivemos uma sociedade receptiva, homogênea o suficiente para compreender algo assim, e tecnológica o bastante para que as pessoas participassem.

Além da crise, o que mais colaborou para que esse projeto desse certo na Islândia?

Foi uma vantagem sermos um país pequeno, onde é fácil conseguir que as pessoas se envolvam. Somos poucos, mas o suficiente para causar impacto, se quisermos. Fora isso, mais de 95% da população tem internet e 100% é alfabetizada. Os islandeses são educados, têm acesso à mídia.

Uma iniciativa como essa poderia funcionar em um país maior?

O processo aconteceria de um jeito diferente, mas poderia funcionar, sim. Acho que o que vale é o convite para que as pessoas participem, que é quase mais importante do que elas participarem de fato. Também é fundamental saber que as necessidades são diferentes em lugares diferentes. Você não pode forçar uma mudança em uma sociedade que não precisa dela. Tem de haver uma demanda por mudanças.

Isso daria certo no Brasil?

Sim, talvez mais certo do que em outros países, porque vocês têm uma herança muito interessante de participação popular. Claro que a maioria não participaria, mas uma parte, sim. Eu acredito que esse tipo de exercício vai ser cada vez mais comum.

Há quem chame essa de uma nova forma de democracia direta por meio da internet. Você concorda?

A nova Constituição foi esboçada por 25 pessoas, que receberam sugestões e impactos do público em geral. Então houve um filtro, isso não é democracia direta.

Mas o senhor acredita que esse é o caminho? Transformar pela internet?

Estamos em um ponto de virada no que diz respeito ao desenvolvimento da democracia. Agora, estamos nos movendo para uma forma mais participativa de democracia.

Eu sinto que essa é a primeira vez que a tecnologia pode ser usada democraticamente. Temos essa tecnologia há anos, mas não tínhamos uma população pronta para isso. Até agora. Quando começarmos a ver esses exemplos se acumulando, vai ser mais fácil dar um passo para frente e realmente integrar mecanismos participatórios na tomada de decisão.

Eu acredito que organismos participativos são importantes para aumentar processos democráticos representativos tradicionais, trazendo a tomada de decisões de volta para as pessoas. As mudanças estão vindo, quer você goste ou não, concorde ou não.

O desafio é se organizar para que essas mudanças sejam construtivas. Não sabemos o que vai acontecer. E isso pode ser usado para o bem ou para o mal.

http://veja.abril.com.br

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