Feromônio do medo, 17.05.2010

Por Fábio de Castro

Um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos descobriu um composto químico que, secretado por diversos predadores, provoca o comportamento de medo em camundongos. A pesquisa, segundo os autores, contribui para aumentar a compreensão sobre o comportamento animal pode abrir caminho, no futuro, a entender como as informações sensoriais são processadas no cérebro humano.

Darren Logan

O artigo que descreve os resultados do estudo – e foi capa da edição da última sexta-feira (14/5) da revista Cell – é assinado por Fabio Papes, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Darren Logan e Lisa Stowers, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Scripps, dos Estados Unidos.

Os experimentos foram apresentados e explicados pelos pesquisadores em vídeo disponibilizado pela Cell na internet.

Lisa Stowers

De acordo com Papes, metade de sua contribuição à pesquisa foi realizada durante seu pós-doutorado no instituto norte-americano, entre 2006 e 2008. De volta ao Brasil há um ano e oito meses, deu continuidade aos estudos na Unicamp, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Jovem Pesquisador.

Segundo ele, o estudo demonstrou que no órgão vomeronasal – órgão presente nas narinas de muitas espécies de animais e capaz de captar os mensageiros químicos conhecidos como feromônios – há neurônios específicos para detectar as moléculas que induzem ao medo.

Pelos próximos três anos, com o projeto Jovem Pesquisador, Papes estudará quais são os receptores que detectam essas moléculas, de que maneira essa detecção resulta em atividade elétrica no cérebro e como esse processo é interpretado para gerar um comportamento.

“A compreensão desse sistema poderá nos ajudar no futuro a controlar problemas como fobias, o estresse pós-traumático – que gera custos sociais muito grandes –, síndrome do pânico e esquizofrenia, por exemplo”, disse Papes à Agência FAPESP.

De acordo com Papes, nos sistemas sensoriais da visão, da audição e do olfato, os estímulos físicos – respectivamente a luz, o som e as moléculas – são transformados pelo sistema nervoso em atividade elétrica. Esses impulsos elétricos transmitidos por células neurais, são interpretados e transformados em respostas comportamentais ou hormonais.

“O estudo dessa transformação é importante do ponto de vista médico, porque doenças mentais, neurodegenerativas e fobias estão ligadas a esse mecanismo. O sistema olfativo é um excelente modelo para o estudo dessa transformação, porque a ligação entre estímulo e comportamento é direta, independente do aprendizado e da memória. Os animais respondem de maneira inata a algumas moléculas”, explicou.

Camundongos mutantes

O medo, de acordo com Papes, por ser um comportamento que tem relação com o sistema olfativo e gera respostas inatas em animais, foi escolhido como foco do estudo. Dados da literatura mostravam que camundongos de laboratório respondiam de maneira inata ao odor de seus predadores sem qualquer contato visual com eles – mesmo que jamais tivessem sido expostos a esses odores.

“Os animais reagiam com comportamento de medo mesmo sem qualquer experiência prévia com os predadores. Isso indicava que os camundongos tinham genes que os preparavam para detectar os odores e dar uma resposta comportamental. Decidimos então estudar a lógica dessas respostas sob o ponto de vista molecular: quais são os compostos envolvidos, quais são os receptores e como os neurônios envolvidos fazem a transformação do estímulo em comportamento de medo”, disse Papes.

O órgão volmeronasal, descoberto há cerca de 200 anos e presente em todos os vertebrados terrestres, segundo Papes, é um tubo de fundo cego que está conectado à cavidade nasal por um canículo. A parede em torno de seu centro vazado é formada por neurônios expostos ao meio – algo incomum nos organismos. “O órgão está envolvido na geração de diversos comportamentos, sejam eles sexuais, de agressividade e, como agora mostra a nova pesquisa, de medo”, disse.

Com as novas tecnologias disponíveis, que permitem manipular geneticamente os camundongos, foram criadas linhagens de animais mutantes cujo órgão volmeronasal não possui função. Com isso, tornou-se possível determinar com certeza quando o órgão está ou não envolvido com uma resposta comportamental.

“O experimento inicial consistiu em avaliar a resposta de medo de camundongos a odores de diversos predadores, como gatos, cobras, ratos e furões. Ao contrário dos camundongos normais, que têm respostas comportamentais a esses odores, os animais mutantes não tiveram resposta apropriada. Ao contrário, a resposta originalmente defensiva se transformou em resposta atrativa: os mutantes eram atraídos pelo odor dos predadores”, afirmou.

Além da exposição aos odores, os camundongos também foram colocados juntos aos predadores anestesiados. O resultado foi surpreendente: os camundongos mutantes foram atraídos pelos predadores, ainda que os outros sistemas sensoriais não estivessem alterados. Com essa abordagem genética e celular, os pesquisadores confirmaram o envolvimento do órgão volmeronasal com as respostas comportamentais.

Identificando a “proteína do medo”

O próximo passo consistia em descobrir quais são as moléculas e os odores que induzem à resposta comportamental. Não se trata de uma busca trivial: os odores são formados de compostos complexos, em concentração muito baixa. “São moléculas soltas no ar”, disse Papes. O grupo decidiu estudar os odores que induzem à resposta de medo na urina de ratos. O material foi submetido a um fracionamento bioquímico, isto é, a mistura complexa foi dividida em diversas frações de compostos purificados.

“Testamos cada uma das frações em ensaios comportamentais até identificar o composto purificado que induz ao comportamento de medo em resposta à urina de rato. Analisamos esse composto com espectrometria de massas para identificar seus componentes e descobrimos que se tratava de proteínas – algo incomum, pois a maior parte dos odores correspondem a moléculas pequenas e voláteis”, disse.

A proteína descoberta, segundo Papes, pertence à família das Proteínas Majoritárias da Urina (MUP, na sigla em inglês), que são secretadas na urina, na saliva, no suor, e no sangue. Um experimento complementar foi feito para provar que a proteína era de fato responsável pelo estímulo: a molécula foi produzida sinteticamente, a fim de garantir que não houve qualquer contaminação, e os animais foram novamente expostos a ela. O fenômeno comportamental permaneceu semelhante ao observado com o odor da urina de rato.

Em seguida, os cientistas procuraram determinar quais eram as células sensoriais envolvidas. O tubo do órgão vomeronasal é recoberto por neurônios que não são homogêneos: cada um tem um receptor diferente. A complexidade do sistema olfativo é muito ampla, segundo Papes. Na retina há três tipos de receptores, o que permite enxergar milhões de cores diferentes. Enquanto isso, no sistema olfativo, existem mais de 1.500 receptores – é a maior família de proteínas existente na natureza.

“Isso acontece porque a quantidade de moléculas detectadas pelo sistema olfativo é muito mais ampla que as faixas do espectro de luz. No caso dos humanos, o sistema visual suplantou a capacidade olfativa, mas para todas as espécies de mamíferos o olfato é o principal sistema sensorial”, disse o cientista.

Neurônios específicos

Se cada neurônio dentro do tubo do órgão vomeronasal expressa proteínas diferentes, os cientistas queriam saber se existem células específicas para detectar exclusivamente os “feromônios do medo”. Para entender a lógica celular do processo, os pesquisadores realizaram mais um experimento, utilizando a técnica conhecida como cálcio intracelular.

Esse experimento consistiu em colocar dentro de uma célula neuronal um corante fluorescente que responde ao cálcio. Quando a célula é ativada, o cálcio penetra em seu interior e se liga ao corante. Com uma técnica especial de microscopia, o grupo conseguiu observar com precisão quando a célula neuronal com corante era ativada. Como se trata de um pequeno órgão no interior da cabeça, o experimento não podia ser feito in vivo. Assim, o órgão vomeronasal foi removido e os neurônios foram estudados in vitro.

“Expusemos esses neurônios com corante fluorescente aos odores. Assim pudemos constatar que de fato as proteínas que identificamos – esses ‘feromônios do medo’ – eram detectados, no órgão vomeronasal, por uma população de neurônios específica para esse tipo de estímulo”, afirmou Papes.

A partir de agora, o cientista se dedicará a estudar quais são os receptores que, nesses neurônios especiais, detectam as MUP e de que maneira essa detecção resulta em atividade elétrica dentro do cérebro.

O artigo The Vomeronasal Organ Mediates Interspecies Defensive Behaviors through Detection of Protein Pheromone Homologs, de Fabio Paepes, Darren Logan e Lisa Stowers, pode ser lido por assinantes da Cell em http://www.cell.com.

http://www.agencia.fapesp.br/materia/12187/feromonio-do-medo.htm

Dentes sem proteção

Por Fábio de Castro

A quantidade excessiva de flúor no organismo de crianças pode causar a fluorose dental. Para evitar essa alteração estética que forma manchas brancas nos dentes foram lançados no mercado, há alguns anos, os cremes dentais com baixa concentração de flúor.

Mas a alternativa pode não ter sido uma boa ideia: um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) indicou que os cremes dentais com baixa concentração de flúor não são tão eficientes contra as cáries como os dentifrícios convencionais. Pior: também podem não evitar a fluorose.

O tema foi o foco da pesquisa de mestrado de Regiane Cristina do Amaral, defendida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp, em Piracicaba (SP), sob orientação de Jaime Aparecido Cury, professor de Bioquímica da unidade. Durante a graduação, Regiane teve apoio da FAPESP para duas bolsas de iniciação científica.

Com a colaboração de Lívia Tenuta, Altair Cury e Cinthia Tabchoury – todos professores da FOP, o estudo gerou um artigo que será publicado na edição de agosto do European Journal Oral Sciences.

De acordo com Cury, para a realização do estudo, 14 voluntários utilizaram creme dental com concentrações de flúor de 500 ou 1.100 partes por milhão e usaram dispositivos palatinos contendo esmalte decíduo, que foram submetidos à simulação de consumo de diferentes níveis de exposição a açúcar: de duas a oito vezes por dia.

“Os resultados mostraram que, entre os voluntários que simulavam menor consumo de açúcar, o efeito dos dois tipos de cremes dentais era semelhante. Mas, conforme aumentava a exposição ao risco de cárie, o dentifrício de baixa concentração de flúor não era capaz de combater o efeito do açúcar e as cáries aumentavam linearmente. Além disso, para os dois tipos de cremes dentais o risco de ocorrência de fluorose dental seria semelhante, para crianças que ingerissem grande quantidade da pasta”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Cury, o uso do flúor tem sido considerado indispensável para o controle das cáries e muitos países conseguiram, com a fluoretação das águas de abastecimento público, reduzir os níveis de cáries de suas populações. Posteriormente, estudos começaram a relatar um declínio acentuado nos casos de cárie em países em que havia um uso abrangente de cremes dentais com flúor. No Brasil, em setembro de 1988, o creme dental que dominava mais de 50% do mercado passou a ser fluoretado.

“De um dia para o outro, no Brasil, o uso do flúor passou a ser praticamente universalizado, com a fluoretação da água e dos cremes dentais. Houve um declínio acentuado das cáries. Só que, a partir de então, começou a haver uma preocupação com o aumento da fluorose”, disse.

A partir dessa constatação, na década de 1990 países como o Brasil, os Estados Unidos e a Irlanda, que utilizam água fluoretada, começaram a discutir como diminuir o problema da fluorose dental. Foram lançados cremes dentais de baixa concentração de flúor, que diminuíam a quantidade do elemento químico em cerca de 50%.

Mas a fluorose, segundo Cury, não é decorrente do efeito tópico do flúor em contato com os dentes. Ela é causada pela presença sistêmica do flúor no organismo de crianças com dentes em formação. O problema, portanto, não é a concentração do flúor no creme dental, mas a ingestão de grandes quantidades de creme dental com flúor. Por isso, para diminuir o risco de fluorose, o estudo recomenda a utilização de pequenas quantidades dos cremes dentais convencionais.

“Como a criança, até determinada faixa etária, ainda não é capaz de cuspir com perfeição, acaba engolindo muita pasta. Essa quantidade de flúor ingerida se soma à que está na água e esse excesso leva ao único efeito colateral sistêmico do uso de flúor, que é a fluorose dental. A solução não é diminuir a concentração de flúor do creme dental, mas utilizá-lo em menor quantidade nos dentes da criança – algo da dimensão de um grão de arroz”, disse.

O estudo corroborou os dados de um estudo clínico realizado anteriormente, entre crianças com atividades de cárie, pelo grupo da FOP em São Luís (MA) e publicado na revista Caries Research.

“O creme de baixa concentração não conseguiu controlar as cáries. Já o creme convencional não apenas controlou o problema, como levou a uma reversão das lesões de cárie existentes. Em um trabalho epidemiológico de campo como aquele, no entanto, não controlamos todas as variáveis. No novo estudo pudemos chegar aos mesmos resultados, mas sabendo que todos os voluntários da pesquisa tinham a mesma quantidade de bactérias sobre os dentes – o que variava era apenas o consumo de açúcar e a concentração de flúor na pasta”, explicou.

Segundo o pesquisador, atualmente alguns dentistas e médicos, preocupados com a fluorose dental, chegam a recomendar cremes dentais que não contêm flúor. Segundo ele, trata-se de um equívoco: “se a pasta de baixa concentração de flúor não é suficiente para controlar as cáries, o que esperar de uma pasta sem flúor?”, alertou.

Manchas brancas

O problema da fluorose, segundo Cury, tem caráter essencialmente estético. Os dentes são formados, na infância, a partir de uma matriz proteica, que gradualmente vai perdendo matéria orgânica e passando por mineralização.

“A ingestão do flúor pelo organismo durante a formação dos dentes inibe a degradação da matéria orgânica e o esmalte acaba sendo formado com mais proteínas do que o normal. Isso dá ao esmalte uma porosidade que absorve a luz e forma uma mancha branca difusa nos dentes. Há um efeito estético, mas não há um comprometimento sério do bem-estar da pessoa”, disse.

A diminuição da quantidade de creme dental pode ser suficiente para evitar o problema, segundo Cury. “Além disso, nem todo o flúor que é engolido é absorvido pelo organismo. Essa absorção varia de acordo com a presença de alimentos no estômago. Uma criança que escova os dentes logo após as refeições, por exemplo, pode absorver apenas 40% do flúor que for engolido”, explicou.

Outro aspecto da questão, segundo Cury, é que a quantidade de flúor absorvida depende do tipo de abrasivo presente na pasta. “Além disso, enquanto 100% do flúor dos cremes com apelo para consumo por crianças é absorvido e cai na corrente sanguínea, as pastas ‘populares’, de uso da família, são absorvidas apenas parcialmente. Assim, é contraditório recomendar um creme dental ‘infantil’, em vez do dentifrício de concentração de flúor de 1.500 partes por milhão, utilizado normalmente pelos pais”, concluiu.

http://www.agencia.fapesp.br

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Alta diluição em foco (12.05.2008)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O campo emergente e multidisciplinar da pesquisa sobre altas diluições acaba de ganhar, por iniciativa brasileira, seu primeiro espaço de divulgação científica. A revista eletrônica International Journal of High Dilution Research (IJHDR), será lançada em Oostende, na Bélgica, no dia 20 de maio.

O editor-chefe do novo veículo, o físico Carlos Renato Zacharias, do Departamento de Física e Química da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Guaratinguetá (SP), fará o lançamento durante o 22º Simpósio do Grupo Internacional de Pesquisa sobre o Infinitesimal (Giri, na sigla em francês), sociedade internacional e multidisciplinar dedicada à troca de experiências em diversas áreas relacionadas às altas diluições, incluindo a homeopatia.

Dentro do tema de altas diluições, a publicação trimestral divulgará trabalhos nas áreas de física, química, biologia, medicina, veterinária e agronomia, de acordo com Silvia Waisse Priven, uma das integrantes do grupo multidisciplinar que concebeu o projeto da revista.

“A pesquisa em altas diluições é um campo emergente que se estendeu, a partir do campo tradicional da homeopatia, para diferentes disciplinas e aplicações. A revista terá o papel de centralizar os trabalhos feitos sobre o tema em todas essas áreas, além de tratar de aspectos epistemológicos”, disse à Agência FAPESP a pesquisadora que acaba de defender doutorado em história da ciência tratando do tema, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Segundo Silvia, a homeopatia, formulada na Alemanha no século 18 e hoje reconhecida como especialidade médica, tem seu estatuto de ciência continuamente contestado por se utilizar de preparados com diluição acima do número de Avogadro, a constante física que torna possível calcular o número de moléculas em uma amostra com uma certa massa de uma substância.

“Apesar disso, essas soluções ultradiluídas têm efeitos biológicos que ainda precisam ser explicados. Eles têm sido objeto de intensa pesquisa básica realizada, não por médicos, mas por físicos e químicos, que também têm constatado esses efeitos”, disse.

As pesquisas sobre altas diluições, segundo Silvia, tem aplicações em áreas como medicina, veterinária e agronomia. “Quem trabalha nesse campo é freqüentemente questionado sobre onde está a pesquisa que lhe dá base científica. A dificuldade em se mostrar esses resultados decorre do fato de se tratar de um campo multidisciplinar, portanto, seria preciso rastrear a produção científica em publicações de inúmeras áreas. A revista ajudará a centralizar esse material”, afirmou.

Outro objetivo do veículo eletrônico, segundo ela, é uniformizar a nomenclatura utilizada na área. “Como se trata de uma área emergente, ainda há necessidade de uniformizar a nomenclatura. Por exemplo: os médicos falam em dinamizações e potências, os pesquisadores básicos falam em ultradiluições, outros ainda falam de soluções diluídas e agitadas”, apontou.

A publicação, segundo Silvia, surgiu a partir da revista impressa Cultura Homeopática, cujo conteúdo será integralmente disponibilizado na revista eletrônica. A nova publicação deriva de uma parceria entre o Giri e a Unesp de Guaratinguetá, que dará o apoio eletrônico. O veículo adotará o processo de revisão por pares e terá acesso aberto.

As descobertas na área de altas diluições, de acordo com a pesquisadora, concentram-se por enquanto em observações experimentais e estão sendo desenvolvidos métodos para interpretar os fenômenos e produzir novas pequisas.

International Journal of High Dilution Research: http://www.feg.unesp.br/ijhdr.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8818

Tecnologia atual permite criação de “biocivilização” (02-05-2008)

Fábio de Castro

Biocivilização de alta produtividade

Com a era dos combustíveis fósseis chegando ao fim, o nível atual de conhecimentos biológicos pode levar à construção de uma “biocivilização moderna de alta produtividade”, na qual o Brasil pode se tornar um ator de primeira grandeza, de acordo com o economista Ignacy Sachs, professor emérito da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris).

Mas, segundo ele, nada disso acontecerá sem determinadas políticas públicas que sejam capazes de construir sistemas integrados de produção de alimentos e energia com base na agricultura familiar.

Sachs apresentou uma palestra na segunda sessão do ciclo Impactos socioambientais dos biocombustíveis, realizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP). O professor, naturalizado francês, nasceu na Polônia e se formou em economia no Rio de Janeiro, onde sua família se refugiou durante a Segunda Guerra Mundial.

Utilização da biomassa

De acordo com Sachs, o debate sobre os biocombustíveis se insere numa discussão mais ampla a respeito daquilo que ele define como “a biocivilização moderna”.

“A biomassa pode ser alimento, ração animal, adubo verde e material de construção, além de ser matéria-prima para fármacos, cosméticos e para a química verde, que produzirá um leque cada vez maior de produtos. O conceito de biorrefinaria irá se firmar à imagem do que representou a refinaria de petróleo”, disse Sachs.

Biocombustíveis

Sachs defende a produção de biocombustíveis privilegiando o uso de áreas desmatadas e, no caso brasileiro, principalmente das pastagens degradadas. “Temos que parar de raciocinar por justaposição de cadeias de produção, imaginando separação total de áreas para etanol, biodesel, grãos e gado. Temos que pensar mais seriamente em sistemas integrados de produção de alimentos e energia”, afirmou.

Problemas sociais e ambientais

De acordo com Sachs, no entanto, para que essa biocivilização seja construída, as políticas públicas precisarão ser reorientadas de uma forma que permita solucionar, ao mesmo tempo, os problemas sociais e ambientais.

“O desafio que se coloca é atacar simultaneamente o problema ambiental e o problema do déficit crônico de oportunidades de trabalho decente e as desigualdades sociais. Se não partirmos para um ciclo de desenvolvimento com base na agricultura familiar, o que teremos não será essa biocivilização, mas uma produção de agroenergia amplamente mecanizada e favelas apinhadas de ex-agricultores”, declarou.

Cinco medidas necessárias

As políticas públicas necessárias, segundo Sachs, incluem cinco instrumentos principais: a implantação de um zoneamento ecológico-econômico, as certificações sociais e ambientais, a intensa pesquisa científica, a discriminação positiva do agricultor familiar e, por último, a reorganização dos mercados internacionais.

“A questão do zoneamento ecológico-econômico, necessário nas diferentes áreas de produção do país, liga-se ao reordenamento da estrutura fundiária e ao combate à informalidade e à ilegalidade que predominam”, afirmou.

Sachs observa que a certificação socioambiental, que, segundo ele deve, ser exigida também para o mercado interno, tem um obstáculo nos custos, já que os pequenos produtores não podem arcar com esses mecanismos. “Teremos que discutir até que ponto o Estado poderá co-financiar esse produtor”, disse.

Fotossíntese artificial

A pesquisa científica, segundo o economista, deve se concentrar numa questão crucial: até onde se pode avançar no aproveitamento da energia solar pela fotossíntese. “É fundamental que o Brasil tenha uma posição bem documentada sobre seu potencial fotossintético. É preciso também investigar de forma mais sistemática os potenciais da biodiversidade e estudar sistemas integrados de produção alimentar e energética adaptados aos diferentes biomas”, disse.

A política de discriminação positiva do agricultor familiar, segundo Sachs, consiste num feixe de políticas públicas que abrangem desde educação e assistência técnica permanente, até linhas de crédito específicas e acesso aos mercados. “Seria preciso também desenvolver de uma vez por todas a idéia de reorganizar os mercados internacionais conectando as produções dos países em desenvolvimento”, afirmou.

Falta de poder aquisitivo

Para o economista, a produção de biocombustíveis não terá impacto no acesso aos alimentos. “Não discuto o fato de que, com o encarecimento dos alimentos, a situação dos mais pobres vai ficar mais difícil. Mas é risível atribuir o problema da fome à insuficiência de oferta. Sabemos que o problema não é esse e sim a falta de poder aquisitivo. Os biocombustíveis não são o vilão. Ao contrário, poderiam ser um instrumento essencial para tirar os países da insegurança alimentar e energética”, disse.

Não se pode, no entanto, pensar que o problema da energia enfrentado pelo planeta possa ser resolvido com a simples substituição de combustíveis, segundo Sachs. “Temos que colocar em primeiro plano o tema da mudança de paradigma energético: outro perfil de demanda energética, que nos remeterá a um debate complexo e decisivo sobre estilos de vida e de desenvolvimento”, afirmou.

Fonte: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=tecnologia-atual-permite-criacao-de–biocivilizacao—diz-cientista&id=010115080502

Hábitos diferentes, riscos novos (14-04-2008)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Os hábitos de vida do Ocidente podem estar deteriorando a saúde da população nipo-brasileira. Estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 1993 e 2007, em Bauru (SP), indicou uma alarmante prevalência de diabetes e fatores de risco cardiovascular entre descendentes de japoneses.

No entanto, a fase final do estudo, que consistiu em uma intervenção junto a essa população, demonstrou que algumas mudanças na dieta e a prática de atividades físicas podem ser medidas efetivas para combater o problema.

A primeira fase da pesquisa, em 1993, indicou que a prevalência de diabetes entre os descendentes de japoneses era de 20%, em média, contra 7,5% na população brasileira em geral. Em 2000, a segunda fase revelou que o problema havia se agravado: a prevalência de diabetes entre nipo-brasileiros era de 35%.

Os resultados da segunda fase – um Projeto Temático apoiado pela FAPESP – foram publicados na mais recente edição da revista Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia. A terceira fase foi realizada entre 2005 e 2007.

De acordo com a autora principal do artigo, Antonela Siqueira, que atualmente é pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), os descendentes de japoneses têm uma predisposição genética aos males causados por fatores típicos do cotidiano ocidental, como sedentarismo, estresse e alimentação rica em gordura e açúcar.

“A primeira fase do estudo indicou que a prevalência de diabetes entre os nipo-brasileiros era quase o triplo do resto da população. Em 2000, começamos a estudar a presença da síndrome metabólica – o conjunto de fatores de risco cardiovascular, que inclui diabetes, hipertensão arterial, distúrbios lipídicos e obesidade”, disse Antonela à Agência FAPESP.

Bauru foi escolhida, segundo a pesquisadora, por ter uma comunidade nipo-brasileira ampla e pouco miscigenada, com fácil acesso ao hospital em que foram feitas as análises clínicas. Em 1993, foram avaliados 647 indivíduos de 40 a 79 anos, descendentes de primeira e segunda geração. Em 2000, o estudo foi ampliado para 1.330 indivíduos.

“Em 2000, estudamos também os fatores dietéticos que poderiam contribuir para a prevalência da síndrome metabólica, que, conforme detectamos nessa época, era maior que 50%. O aumento do diabetes nos surpreendeu: passou de 20% para 35% em apenas sete anos”, afirmou.

Embora a população nipo-brasileira não tenha uma obesidade importante, os voluntários apresentaram alta taxa de gordura visceral. “O que importa para essas doenças é a cintura abdominal e não a obesidade periférica. Para os nipo-brasileiros, gordura no abdome significa perigo para a saúde. Os problemas aparecem quando a medida passa de 102 centímetros, para um homem ocidental, ou dos 90 centímetros, para um oriental”, apontou.

Os pesquisadores detectaram um aumento de glicemia – ou perda de tolerância à glicose –, que foi associado principalmente ao consumo exagerado de carboidratos refinados, sem fibra, como pão e arroz não-integrais.

“A alta prevalência de síndrome metabólica foi associada a um aumento no consumo de gordura saturada, que aumenta o colesterol ruim. A avaliação longitudinal mostrou que o fator que mais contribuiu para isso foi um consumo exagerado de carne vermelha”, disse Antonela.

O estudo transversal analisou de uma só vez, em uma série de exames, a condição da população de descendentes de japoneses naquele momento e mostrou que todos os indicadores ligados à síndrome metabólica haviam aumentado entre 1993 e 2000.

“Havia aumento do colesterol, do diabetes e principalmente dos triglicérides – associados ao açúcar –, que apareceram aumentados em 66% da população. Enquanto o nível normal é de 150 mg/dL, a média entre os nipo-brasileiros ficou em 240 mg/dL. Alguns indivíduos tinham valores próximos de mil”, afirmou.

A prevalência de doença cardiovascular – que pode resultar em infarto, derrame, obstrução arterial periférica e arteriosclerose, atingiu 14% da população analisada. “Se fosse em idosos, essa prevalência não poderia ser considerada muito alta. Mas, para uma população a partir de 30 anos, é altamente preocupante”, disse Antonela.

Ação efetiva

De acordo com Bianca de Almeida Pitito, doutoranda da Unifesp que participou da terceira fase do estudo, a partir dos resultados da pesquisa de 2000 o grupo começou a planejar um programa de intervenção.

“Ao constatar que o diabetes havia aumentado tão drasticamente em sete anos e que havia prevalência da síndrome metabólica, concluímos que, se nada fosse feito, a tendência era que dentro de mais alguns anos os problemas ficassem ainda mais graves. Por isso, planejamos a intervenção”, disse Bianca à Agência FAPESP.

Com uma equipe interdisciplinar, contando com nutricionistas e educadores físicos, os pesquisadores fizeram a intervenção focada em orientação para mudanças na dieta e estímulo à atividade física. O programa não incluiu aplicação de medicação.

Segundo Bianca, o objetivo era comparar as condições de saúde dos voluntários no início e no fim do programa. “Como havíamos detectado o problema, não seria ético deixar parte da população sem acesso ao programa, por isso não houve condições para trabalhar com um grupo de controle”, explicou.

Foram feitas três avaliações clínicas: a primeira no início da intervenção, em 2005, a segunda em 2006 e a terceira no fim do programa, em 2007. “Foram feitos exames para verificar pressão sangüínea, peso, circunferência da cintura, colesterol, triglicerídeo e glicose. Foram avaliados 653 indivíduos”, disse.

Depois de um ano de intervenção, segundo Bianca, foi detectada uma melhora sensível em todos os parâmetros: obesidade central, glicemia, perfil lipídico, colesterol, pressão sangüínea e gordura abdominal.

“A redução desses fatores ocorreu apenas com a mudança de dieta e de padrões de atividade física, o que mostra que a mudança de hábitos pode ser fundamental para prevenir a síndrome metabólica”, afirmou.

Segundo a pesquisadora a melhora de todos os indicadores em apenas um ano, ainda que não tenha sido drástica, pode ter grande impacto do ponto de vista populacional. Os resultados da análise de 2007 ainda não foram sistematizados.

Para ler o artigo Distúrbios no perfil lipídico são altamente prevalentes em população nipo-brasileira, de Antonela Siqueira e outros, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8698