Feromônio do medo, 17.05.2010

Por Fábio de Castro

Um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos descobriu um composto químico que, secretado por diversos predadores, provoca o comportamento de medo em camundongos. A pesquisa, segundo os autores, contribui para aumentar a compreensão sobre o comportamento animal pode abrir caminho, no futuro, a entender como as informações sensoriais são processadas no cérebro humano.

Darren Logan

O artigo que descreve os resultados do estudo – e foi capa da edição da última sexta-feira (14/5) da revista Cell – é assinado por Fabio Papes, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Darren Logan e Lisa Stowers, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Scripps, dos Estados Unidos.

Os experimentos foram apresentados e explicados pelos pesquisadores em vídeo disponibilizado pela Cell na internet.

Lisa Stowers

De acordo com Papes, metade de sua contribuição à pesquisa foi realizada durante seu pós-doutorado no instituto norte-americano, entre 2006 e 2008. De volta ao Brasil há um ano e oito meses, deu continuidade aos estudos na Unicamp, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Jovem Pesquisador.

Segundo ele, o estudo demonstrou que no órgão vomeronasal – órgão presente nas narinas de muitas espécies de animais e capaz de captar os mensageiros químicos conhecidos como feromônios – há neurônios específicos para detectar as moléculas que induzem ao medo.

Pelos próximos três anos, com o projeto Jovem Pesquisador, Papes estudará quais são os receptores que detectam essas moléculas, de que maneira essa detecção resulta em atividade elétrica no cérebro e como esse processo é interpretado para gerar um comportamento.

“A compreensão desse sistema poderá nos ajudar no futuro a controlar problemas como fobias, o estresse pós-traumático – que gera custos sociais muito grandes –, síndrome do pânico e esquizofrenia, por exemplo”, disse Papes à Agência FAPESP.

De acordo com Papes, nos sistemas sensoriais da visão, da audição e do olfato, os estímulos físicos – respectivamente a luz, o som e as moléculas – são transformados pelo sistema nervoso em atividade elétrica. Esses impulsos elétricos transmitidos por células neurais, são interpretados e transformados em respostas comportamentais ou hormonais.

“O estudo dessa transformação é importante do ponto de vista médico, porque doenças mentais, neurodegenerativas e fobias estão ligadas a esse mecanismo. O sistema olfativo é um excelente modelo para o estudo dessa transformação, porque a ligação entre estímulo e comportamento é direta, independente do aprendizado e da memória. Os animais respondem de maneira inata a algumas moléculas”, explicou.

Camundongos mutantes

O medo, de acordo com Papes, por ser um comportamento que tem relação com o sistema olfativo e gera respostas inatas em animais, foi escolhido como foco do estudo. Dados da literatura mostravam que camundongos de laboratório respondiam de maneira inata ao odor de seus predadores sem qualquer contato visual com eles – mesmo que jamais tivessem sido expostos a esses odores.

“Os animais reagiam com comportamento de medo mesmo sem qualquer experiência prévia com os predadores. Isso indicava que os camundongos tinham genes que os preparavam para detectar os odores e dar uma resposta comportamental. Decidimos então estudar a lógica dessas respostas sob o ponto de vista molecular: quais são os compostos envolvidos, quais são os receptores e como os neurônios envolvidos fazem a transformação do estímulo em comportamento de medo”, disse Papes.

O órgão volmeronasal, descoberto há cerca de 200 anos e presente em todos os vertebrados terrestres, segundo Papes, é um tubo de fundo cego que está conectado à cavidade nasal por um canículo. A parede em torno de seu centro vazado é formada por neurônios expostos ao meio – algo incomum nos organismos. “O órgão está envolvido na geração de diversos comportamentos, sejam eles sexuais, de agressividade e, como agora mostra a nova pesquisa, de medo”, disse.

Com as novas tecnologias disponíveis, que permitem manipular geneticamente os camundongos, foram criadas linhagens de animais mutantes cujo órgão volmeronasal não possui função. Com isso, tornou-se possível determinar com certeza quando o órgão está ou não envolvido com uma resposta comportamental.

“O experimento inicial consistiu em avaliar a resposta de medo de camundongos a odores de diversos predadores, como gatos, cobras, ratos e furões. Ao contrário dos camundongos normais, que têm respostas comportamentais a esses odores, os animais mutantes não tiveram resposta apropriada. Ao contrário, a resposta originalmente defensiva se transformou em resposta atrativa: os mutantes eram atraídos pelo odor dos predadores”, afirmou.

Além da exposição aos odores, os camundongos também foram colocados juntos aos predadores anestesiados. O resultado foi surpreendente: os camundongos mutantes foram atraídos pelos predadores, ainda que os outros sistemas sensoriais não estivessem alterados. Com essa abordagem genética e celular, os pesquisadores confirmaram o envolvimento do órgão volmeronasal com as respostas comportamentais.

Identificando a “proteína do medo”

O próximo passo consistia em descobrir quais são as moléculas e os odores que induzem à resposta comportamental. Não se trata de uma busca trivial: os odores são formados de compostos complexos, em concentração muito baixa. “São moléculas soltas no ar”, disse Papes. O grupo decidiu estudar os odores que induzem à resposta de medo na urina de ratos. O material foi submetido a um fracionamento bioquímico, isto é, a mistura complexa foi dividida em diversas frações de compostos purificados.

“Testamos cada uma das frações em ensaios comportamentais até identificar o composto purificado que induz ao comportamento de medo em resposta à urina de rato. Analisamos esse composto com espectrometria de massas para identificar seus componentes e descobrimos que se tratava de proteínas – algo incomum, pois a maior parte dos odores correspondem a moléculas pequenas e voláteis”, disse.

A proteína descoberta, segundo Papes, pertence à família das Proteínas Majoritárias da Urina (MUP, na sigla em inglês), que são secretadas na urina, na saliva, no suor, e no sangue. Um experimento complementar foi feito para provar que a proteína era de fato responsável pelo estímulo: a molécula foi produzida sinteticamente, a fim de garantir que não houve qualquer contaminação, e os animais foram novamente expostos a ela. O fenômeno comportamental permaneceu semelhante ao observado com o odor da urina de rato.

Em seguida, os cientistas procuraram determinar quais eram as células sensoriais envolvidas. O tubo do órgão vomeronasal é recoberto por neurônios que não são homogêneos: cada um tem um receptor diferente. A complexidade do sistema olfativo é muito ampla, segundo Papes. Na retina há três tipos de receptores, o que permite enxergar milhões de cores diferentes. Enquanto isso, no sistema olfativo, existem mais de 1.500 receptores – é a maior família de proteínas existente na natureza.

“Isso acontece porque a quantidade de moléculas detectadas pelo sistema olfativo é muito mais ampla que as faixas do espectro de luz. No caso dos humanos, o sistema visual suplantou a capacidade olfativa, mas para todas as espécies de mamíferos o olfato é o principal sistema sensorial”, disse o cientista.

Neurônios específicos

Se cada neurônio dentro do tubo do órgão vomeronasal expressa proteínas diferentes, os cientistas queriam saber se existem células específicas para detectar exclusivamente os “feromônios do medo”. Para entender a lógica celular do processo, os pesquisadores realizaram mais um experimento, utilizando a técnica conhecida como cálcio intracelular.

Esse experimento consistiu em colocar dentro de uma célula neuronal um corante fluorescente que responde ao cálcio. Quando a célula é ativada, o cálcio penetra em seu interior e se liga ao corante. Com uma técnica especial de microscopia, o grupo conseguiu observar com precisão quando a célula neuronal com corante era ativada. Como se trata de um pequeno órgão no interior da cabeça, o experimento não podia ser feito in vivo. Assim, o órgão vomeronasal foi removido e os neurônios foram estudados in vitro.

“Expusemos esses neurônios com corante fluorescente aos odores. Assim pudemos constatar que de fato as proteínas que identificamos – esses ‘feromônios do medo’ – eram detectados, no órgão vomeronasal, por uma população de neurônios específica para esse tipo de estímulo”, afirmou Papes.

A partir de agora, o cientista se dedicará a estudar quais são os receptores que, nesses neurônios especiais, detectam as MUP e de que maneira essa detecção resulta em atividade elétrica dentro do cérebro.

O artigo The Vomeronasal Organ Mediates Interspecies Defensive Behaviors through Detection of Protein Pheromone Homologs, de Fabio Paepes, Darren Logan e Lisa Stowers, pode ser lido por assinantes da Cell em http://www.cell.com.

http://www.agencia.fapesp.br/materia/12187/feromonio-do-medo.htm

Os segredos da atração entre os sexos

Os cientistas já estudaram muito as causas que fazem com que escolhamos nossos parceiros. Mas depois de todo este trabalho as regras da atração entre os humanos ainda não foram entendidas com clareza.

Mas uma curta lista de regras científicas para o jogo do amor está emergindo. Algumas são claras como ver os olhos delineados de uma supermodelo e outras trabalham em níveis subconscientes, nos motivando a agir por razões evolucionárias que estão fechadas dentro das nuvens da paixão.

No final das contas, o amor duradouro depende tanto em comportamento quando em biologia.

Simetria é igual a sexo

Mutações genéticas que ocorrem desde a vida intra-uterina e pressões ambientais evitam a simetria humana perfeita e isso resulta em implicações para o resto da vida.

Boa simetria mostra que um indivíduo possui características genéticas para sobreviver ao desenvolvimento, que é saudável e uma fértil escolha para reprodução.

O biólogo evolucionário Randy Thirnhill, da Universidade do Novo México (EUA), vem estudando a simetria humana por quinze anos e digitalizou rostos e corpos em computadores para determinar suas taxas de simetria.

Tanto homens quanto a mulheres acharam mais atraentes e mais saudáveis as pessoas do sexo oposto com as maiores taxas de simetria do que os demais. A diferença entre estes pode ser de apenas poucos pontos percentuais. Sutilmente percebível, mas não necessariamente notável em suas aparências.

Ao questionar os participantes do estudo, Randy descobriu que homens com maiores graus de simetria sentem mais prazer com as parceiras sexuais do que homens com menor simetria.

As formas do corpo obviamente também são importantes e os cientistas têm alguns números para provar. A psicóloca Devendra Singh da Universidade do Texas (EUA) estudou a proporção entre a cintura e o quadril das pessoas (waist-to-hip ratio em inglês ou WHR)

Mulheres com WHR de 0,7, indicando cintura significativamente mais estreita que os quadris (30%), são mais desejáveis para os homens.

E a análise destas figuras de ampulheta das modelos da Playboy e concorrentes do Miss America mostraram que a maioria destas mulheres possuam WHR de 0,7 ou menor.

Em geral uma proporção entre 0,67 até 1,18 nas mulheres é atrativa para os homens, concluiu Devendra em um estudo realizado em 2004, enquanto para o corpo masculino a proporção de 0,8 até 1,0 WHR é atrativa para as mulheres. No entanto ter ombros largos é também muito atraente aos olhos delas.

O que exatamente está codificado na proporção dos quadris? A grande e gorda pista sobre se a pessoa terá energia suficiente para ter filhos.

A gordura é depositada no corpo em determinação aos hormônios sexuais; testosterona para o homem e estrogênio para a mulher. Se uma mulher produz a quantidade apropriada de estrogênio, então seu WHR cairá naturalmente na faixa desejada. O mesmo vale para a testosterona masculina.

Portanto as pessoas parecem estar programadas evolutivamente para enxergar a beleza em um corpo saudável e fértil.

Pessoas com a proporção ideal entre quadril e cintura, não importando o peso (Marilyn Monroe era “cheinha”, mas tinha a proporção 0,7 WHR), são menos susceptíveis a doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, mostraram os estudos. As mulheres nessa faixa também possuem menos dificuldade para engravidar.

“A idéia é que a beleza transporta informações sobre a saúde e fertilidade e nós admiramos isso”, disse Devendra.

Encare bem

A estrutura do rosto de uma pessoa também carrega traços de fertilidade.

O estrógeno limita o crescimento ósseo na parte inferior e no queixo do rosto feminino tornando estas estruturas relativamente menores e curtas, assim como as sobrancelhas fazendo que seus olhos pareçam mais proeminentes. O rosto masculino é moldado pela testosterona o que ajuda a desenvolver mais a parte baixa do rosto e a mandíbula, assim como sobrancelhas proeminentes.

Homens e mulheres que possuem estes traços são vistos como atraentes porque eles divulgam saúde reprodutiva.

A pesquisadora também apontou a explosão da indústria da medicina cosmética, que fundamentalmente melhora a simetria corporal, como evidência de que é uma qualidade atrativa.

Outro estudo recente revelou que dançarinos simétricos são mais atraentes.

Cheire isso

Outra pesquisa em 2006 reportou que as mulheres ficam com cheiro e aparência melhores, aos olhos masculinos, durante certos períodos do mês.

E homens mais simétricos têm o olfato melhor.

Emprestando camisetas de uma variedade de homens, os pesquisadores as ofereceram a narizes femininos perguntando suas impressões sobre os odores. Elas acharam que o cheiro dos homens simétricos era mais atraente e desejável, especialmente se a mulher estava menstruando.

Neste ponto você já deve estar pensando sobre o quanto disso nós estamos conscientes. As regras da atração, foi descoberto, parece muitas vezes trabalhar em nosso subconsciente.

Em alguns casos o estudo reportou que elas não sentiam nenhum cheiro na camiseta, mesmo assim disseram estar atraídas por ela.

“Nós pensamos que a detecção destes tipos de cheiro está muito longe da consciência”, disse Randy.

Em um estudo realizado em 2002 foi descoberto que as mulheres preferem o cheiro de homens com genes um tanto similares aos seus próprios ao invés do cheiro de homens quase geneticamente idênticos ou totalmente dissimilares.

Os aromas subconscientes podem estar relacionados com os ferormônios, sinais químicos produzidos pelo corpo para comunicar a qualidade reprodutiva. O genoma humano contém mais de mil genes olfativos, comparado com apenas 300 dos fotoreceptores nos olhos, portanto os feromônios têm recebido bastante atenção na pesquisa básica e por fabricantes de perfumes.

Mas o papel dos ferormônios em humanos ainda é controverso.

Fonte: http://hypescience.com

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